Um conto de Natal Imprimir

 

Como o bom velhinho ganhou um emprego e um apelido
 
Tinha trabalhado a vida inteira como motorista. Agora estava velho. Não podia mais trabalhar. Sentia-se inútil. Mas mais do que isto. Sentia o peso de estar atrapalhando. Sim, em nossa sociedade de velocidade, velho atrapalha. Atrapalha quando se quer descer rapidamente do ônibus e o velho está na frente, tentando achar com vagar um ponto de apoio para se segurar ao descer. Atrapalha quando se está numa agência bancária e depois de esperar um bom tempo na fila, quando se chega à vez do atendimento, um velho aparece e tem preferência. E na fila do caixa do supermercado: atrapalha porque além de toda a morosidade ao passar as compras, ainda tira do bolso aquele bolo de contas para pagar e aí a fila não anda...
Era um peso sentir que estava velho e quase sempre atrapalhando a pressa das pessoas.
Andava então meio desolado por aí, carregando um saco com algumas coisas dentro que podiam ser de precisão. A barba já não cortara há muito tempo. Prá que? Ninguém repara em velho. E assim, tava com uma barba longa, toda marrom de sujeira, chegando quase ao peito. E já que ninguém repara em velho, também não cuidava mais muito da roupa. Qualquer coisa tava bom ou não, mas de que adiantava se importar com isto.
E como ninguém repara muito em velho, resolvera ele andar por aí, acompanhado com o saco que carregava às costas, mais cheio de lembranças que de destino. Saiu da cidade e começou a andar pela roça. Via até algumas coisas interessantes por ali, mas também ali não se precisava de velho. Iria atrapalhar.
À noite, procurou um lugar para dormir. Não se precisava de muito. Bastava um lugar um pouco protegido do vento, dado que quase não chovia por aquelas bandas e fazia um bom calor. Nem cobertor seria preciso. Achegou-se a uma gruta, de onde vinha uma luz fraca e parecia ter alguma movimentação. E prá não atrapalhar ninguém, ajeitou-se num canto da gruta para dormir, meio escondido ao lado dum boi que também por ali dormia. Tinha também um burro na mesma gruta, dormindo de pé com todo o ar de pachorra e pouca pressa.
Ao acordar no dia seguinte, pode ter uma visão melhor do ambiente: uma gruta tranquila, onde alguns animais tinham guarida. Viu ali também um casal, com seu filho pequeno. Já ia sair - prá não atrapalhar - quando o menino o viu: “Mãe, olha ali um velhinho!” Pronto, já vou atrapalhar, pensou. E antes que pudesse levantar e ir embora, a mulher aproximou-se e convidou para que comesse alguma coisa com eles. E como a fome apertava, aceitou de bom grado o pedaço de pão oferecido. Depois de ter engolido o pedaço de pão com um pouco de água, o esposo vendo seu lastimável estado de sujeira, ofereceu para que ele tomasse um banho também. De banho tomado, ele até já parecia gente de novo. A barba marrom tinha se transformado numa longa e macia barba branca, parecendo um belo chumaço de algodão.
 “O que o senhor faz na vida?”, quis saber o casal. “Não faço mais nada, apenas atrapalho!”, respondeu. Se gostaria de poder fazer alguma coisa? Claro que gostaria, mas quem dá alguma tarefa para velho? Ninguém! Pois sempre se pensa que velho não sabe mais fazer nada (além de atrapalhar). “Não quer me ajudar?”, perguntou o menino. Mas ajudar a fazer o que? “Tenho um monte de presentes a distribuir. Tudo foi deixado aqui por três reis magos. Mas é muita coisa para mim. Quero dar presentes a outras crianças, mas não tenho quem me ajude a distribuir. Quer ajudar?” O velho notou que pela primeira vez, depois de muito tempo, iria fazer algo que não fosse atrapalhar. Mas não ficaria bem sair para distribuir presentes com aquela roupa maltrapilha. O pai do menino ofereceu seu macacão de carpinteiro, mas não ficou tão bem. Foi aí que Maria teve a idéia de usar aquele belo pano vermelho no qual os reis tinham trazido os presentes embrulhados para fazer uma túnica para o velho. Sem muito trabalho, costurou-se uma túnica, com o pano vermelho e branco nas bordas. Sobrou até um pedaço para lhe fazer um boné, cobrindo assim sua careca. E dos restos do pano, fez-se ainda um saco, com o qual poderia carregar os presentes. Mas como iria andar de um lado para o outro, carregando os presentes? Pois velho é muito devagar! Quando o menino soube que o velho tinha sido motorista, deu-lhe de presente um veículo fantástico: quatro renas voadoras que puxavam um trenó. O velho tinha sido motorista, porém nunca tinha dirigido renas. Mas iria aprender, pois velho também aprende. E para que o velho pudesse anunciar sua chegada na casa das crianças, José pegou um dos sininhos da entrada da gruta e lhe deu como campainha de anúncio de chegada. E assim estava o velho pronto para assumir novas funções: o distribuidor de presentes! Sim, porque velho também sabe assumir coisas novas.
Ficou, no entanto, com medo de não dar conta da empreitada, pois velho também tem insegurança. Fez então dois pedidos ao menino: Não quero nunca cansar de distribuir presentes e quero poder fazer felizes todas as crianças a quem presentear. O menino disse que estes pedidos não precisavam de nada especial para se realizar, pois presentear é algo que não cansa e toda criança fica feliz quando ganha um presente.
“E em nome de quem devo distribuir os presentes?”, perguntou o velho antes de partir para a primeira viagem. “Em nome de Emanoel, Deus-conosco”, respondeu o menino. E o velhinho, com sua barba branca e manto vermelho, com seu sinete de aviso e seu trenó cheio de presentes puxado por renas voadoras, está a dezenas de anos distribuindo presentes sem se cansar e fazendo felizes muitas crianças. E quando as crianças lhe perguntavam da parte de quem vinham os presentes, dizia que era de Emanoel. Mas as crianças acharam o nome muito complicado e simplesmente apelidaram o velhinho de Papai Noel!
 
Volney J. Berkenbrock