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Volney Berkenbrock
O Sonho do Pai - Parábola Ecumênica PDF Imprimir E-mail

Uma parábola para o Ecumenismo
 

Jesus, quando enviou os seus discípulos a pregar, disse que quando entrassem em uma casa, a primeira coisa que deveriam dizer era: "A paz esteja nesta casa". Certamente Jesus usou a palavra "shalom", que quer dizer paz num sentido amplo: benquerença, bem-estar, fraternidade, união no amor e partilha.

E assim os cristãos saíram para anunciar "shalom" às pessoas, para serem mensageiros da paz. E a Bíblia diz: "Felizes os pés de quem anuncia a paz". Esse era o Evangelho anunciado pelos seguidores de Jesus: a boa-nova, a boa-notícia da paz. Serem mensageiros da benquerença, da fraternidade era a missão dos seguidores do mestre. E eles conseguiram em poucos anos contagiar uma grande região, estes mensageiros da paz. Foram se formando comunidades que queriam viver como o mestre havia ensinado: no amor mútuo, na partilha, na fraternidade, no "shalom". E os outros diziam quando os viam: "Vede como eles se amam!". E esses grupos foram chamados de "cristãos", aqueles que seguem o mestre que mandou dizer "A paz esteja convosco". Essas comunidades eram o lugar concreto onde se criava um espaço para a paz, a fraternidade, a união de todos. Havia, claro, problemas nas comunidades, nem tudo funcionava às mil maravilhas, havia atritos. Mas estes eram secundários: o importante era estar apaixonado pelo mestre, pelo seu modo fraterno de vida e anunciar que ele não estava morto, que ele vivia, que ele estava presente onde sua mensagem se tornasse realidade, que ele estava ali na figura de cada ser humano, que ele estava presente no faminto, no sedento, no sem roupa, no prisioneiro... e que a ação em favor deste seria uma ação em favor dele mesmo. E mais que isso, os cristãos passaram ter a certeza de fé de que onde o pão fosse repartido, onde o vinho fosse compartilhado, ali se estava celebrando verdadeiramente a sua memória, pois se recordavam das palavras que o mestre havia dito após a partilha do pão e do vinho: "Fazei isto para lembrarem de mim". E assim o mestre continuava presente realmente onde se estava vivendo o que ele havia anunciado. E todos os que viviam sua mensagem tinham a certeza de que não o faziam em nome próprio, mas dele, pois Jesus é o Senhor. E assim sua presença entrou na história através das comunidades de "cristãos"...

Séculos mais tarde o próprio mestre resolveu visitar a terra de novo pessoalmente. Como já havia feito da primeira vez, tomou a forma de uma pessoa, e foi passear pelo mundo. Resolveu visitar os seus discípulos. Com alegria constatou que havia muitas comunidades. E resolveu olhar a coisa mais de perto. Entrou numa comunidade onde se lia na frente "Assembléia de Deus". Participou do culto e achou muito interessante: havia muita alegria no canto, muita empolgação na pregação. Ficou muito feliz em poder participar e ao final apresentou-se ao dirigente do culto. Este, por sua vez, não cabia em si de tanta felicidade em saber que Jesus estava pessoalmente na comunidade.

E Jesus continuou sua visita. Entrou numa outra Igreja. Não havia nada escrito na frente, mas ao perguntar, soube que se tratava da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. E estavam celebrando ali a memória da última ceia. Jesus ficou até emocionado ao ver que o que dissera há muito tempo, continuava sendo repetido "em memória dele". Ali também havia cantos, pregação, oração. Achou até interessante alguns detalhes dali. Viu como davam importância à tradição, à história e para não deixar a memória passar, colocavam figuras de pessoas que haviam vivido intensamente sua mensagem. Encontrou até uma figura representando sua mãe. No final da celebração, Jesus foi falar com o sacerdote e se apresentou a ele. Este ficou tão surpreso e alegre, que queria logo falar com o bispo e convocar todos os sacerdotes para dar a boa-nova da presença de Jesus na comunidade.

Depois disto, Jesus foi a uma outra comunidade. Viu que se tratava da Igreja adventista. As palavras que ele dissera há tanto tempo, ali também eram conservadas e todos tinham a certeza de sua presença. Após a reunião, Jesus quis saber do coordenador por que se chamavam Igreja adventista? Este explicou que o nome da Igreja vinha do fato de crerem que Jesus iria voltar, numa volta definitiva para desencadear um tempo de felicidade total. Quando Jesus se deu a conhecer, o pastor quase teve uma parada cardíaca. Mal conseguiu perguntar se o fim do mundo estava começando. Jesus o tranqüilizou e disse que se tratava apenas de uma visita e não de sua vinda definitiva. O pastor ficou feliz com a visita e pensou: como vou explicar no próximo culto que Jesus esteve aqui pessoalmente? Será que vão crer em mim. Jesus deu a ele uma dica: Recorde ao pessoal o que eu disse no meu tempo: quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali presente. O pastor despediu-se esfregando as mãos de felicidade.

E Jesus continuava seu itinerário. Passou em frente a outra Igreja e achou o nome dela até engraçado: "Igreja do Evangelho Quadrangular" e pensou "de que se trata?" Sua dúvida foi desfeita quando um membro da comunidade lhe explicou: A Igreja se chama quadrangular, porque anunciamos Jesus Cristo que é Salvador, que batiza no Espírito Santo, que cura e que é o Rei. E Jesus disse: "muito bem pensado". Jesus participou do culto e gostou da animação, da vibração. Gostou também que tivessem conservado a memória da cura pela oração, pela imposição das mãos, como ele fizera em seu tempo. E lembrou-se da felicidade do cego que estava à beira do caminho e por sua oração passou novamente a enxergar. O pastor ficou muito feliz quando soube da presença de Jesus no culto.

O mestre continuou sua andança. Viu uma outra casa de discípulos. Entrou para ouvi-los e soube que se tratava de uma Igreja presbiteriana. Ali se dava muita importância à palavra e a tradição do canto também era cultivada com esmero. Jesus gostou da pregação do reverendo pastor. Nesta Igreja, segundo explicaram a Jesus, um grupo de presbíteros e presbíteras era responsável pelas comunidades. Jesus se lembrou de suas palavras: que entre vocês não haja alguém que queira ser maior, mas que todos sejam irmãos. Aquela comunidade ficou cheia de alegria quando no domingo seguinte o pastor afirmou que Jesus estava ali presente.

Depois foi Jesus a uma outra comunidade: Igreja Batista. O culto foi muito belo e cheio de emoção. Gostou de ver que suas palavras ainda tocavam o sentimento e o coração dos discípulos, mesmo quase dois mil anos depois. Quando Jesus se apresentou ao pastor, após o culto, este ficou tão animado que queria iniciar logo uma campanha de casa em casa para anunciar a presença de Jesus Cristo na comunidade. Jesus o incentivou e disse: tenha a certeza da minha presença sempre que você anunciar a boa-notícia. E na saída perguntou ao pastor se ele lembrava qual a instrução do mestre para a situação de entrarem em uma casa. Ele sabia a resposta na ponta da língua: "Devo dizer, 'a paz esteja nesta casa'". Até Jesus ficou edificado em ouvir que suas palavras continuavam presentes.

Após ter visitado esta e muitas comunidades mais, Jesus estava bastante animado e teve uma idéia: "Vou reunir todos os meus discípulos da cidade para fazermos uma grande festa. Direi a todos uma palavra, os incentivarei a continuar e no final da reunião posso inclusive multiplicar os pães e os peixes, transformar água em vinho e assim fazermos uma grande festa".

Animado com a própria idéia, voltou a procurar as Igrejas que tinha visitado. Todos logo se alegravam ao saber que Jesus estava presente na comunidade. E Jesus começou a expor a sua idéia de reunir todos, de fazer uma festa. Qual não foi a sua surpresa ao ouvir as reações. A coisa não era tão simples assim, reunir os discípulos. Cada um mostrava ao mestre como estava desatualizado e desinformado. "Você por acaso pensa que todas as Igrejas tem a mesma seriedade?"; "Não sabe que existe muita Igreja que só serve para enganar o povo?"; "Parece que você é ingênuo, pois os pastores daquela Igreja só pensam no dinheiro. Com gente assim eu não me reúno"; "Então parece que você não sabe que aquela Igreja adora imagens e isto é proibido, de modo que não se pode reunir com eles?"; "Então você não sabe que esse negócio de pura emoção nos cultos é só para enganar, para desviar a atenção dos verdadeiros problemas sociais?"; "Não podemos nos reunir com aqueles que não estão na tradição dos apóstolos. Então não vale de nada a sucessão apostólica e ordenação sacerdotal?"; "Parece que você é mesmo ingênuo e não sabe que algumas Igrejas são pura fachada, que são apoiadas pelos Estados Unidos para combater as reformas sociais". Outros achavam a idéia muito estranha: "Mas uma reunião de todas as Igrejas?"; "Isto não é causar muita confusão?"; "Não é misturar religiões?" Quando Jesus tentava perguntar por que estavam divididos, ouvia como resposta outra pergunta: "Por que deveríamos estar unidos?" Alguns ficaram inclusive escandalizados quando Jesus confirmou a sua presença em todas estas Igrejas e que a sua presença era uma alegria para todos.

O mestre porém não desanimou e, apesar das dificuldades expostas, convidou a todos para a reunião. Não foram muitos os que apareceram. Jesus passou uma olhada no público e disse consigo mesmo: "Pode ser que não seja muita gente. Mas já está melhor que da outra vez que aqui estive. Daquela vez somente 12 é que ficaram comigo o tempo todo e mesmo assim, na hora do apuro, um ainda caiu fora. Hoje são 28 aqui; já dá para começar". E a estes que se reuniram, Jesus anunciou:

"Como em minha primeira vinda, eu continuo anunciando o que o Pai me ensinou. E o Pai me disse que tem um sonho. E me contou esse sonho dizendo: 'Eu sonho com o dia em que todos os meus filhos e filhas sejam um, sejam uma unidade de amor e fraternidade, assim como nós dois somos um. Eu sonho com o dia em que todos vivam no amor, pois permanecendo no amor eu permaneço em todos e todos permanecem em mim. Eu sei que toda a criação sofre e geme dores, até o dia em que estiver reconciliada comigo e eu serei tudo em todos. Eu sonho com o dia em que todos vão seguir os dois mandamentos principais, dos quais deriva toda lei e os profetas: que cada qual ame a mim e ao próximo como a si mesmo. Sonho com o dia em que não mais haverá divisão, nem mais ódio, nem mais tristeza, quando não mais haverá calúnia, não mais haverá desconfiança...'" E assim Jesus continuou a contar a todos o sonho do Pai e falou de uma maneira tão serena que muitos começaram a sonhar junto com ele.


Volney J. Berkenbrock