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Volney Berkenbrock
O mito cosmológico, antropológico, soteriológico e escatológico de Mani PDF Imprimir E-mail

3. BERKENBROCK, V. J. . O mito cosmológico, antropológico, soteriológico e escatológico de Mani. In: Marcos Roberto Nunes Costa. (Org.). Maniqueismo - História, Filosofia e Religião.
1 ed. Petrópolis, 2003, v. , p. 157-166.

 

O mito cosmológico, antropológico, soteriológico e escatológico de Mani

 

A origem deste mito está na busca de salvação. Trata-se de um mito muito complexo e do qual não se tem uma descrição “original”. A partir de fragmentos se pode recompor a “história”. O mito supõe a existência em três períodos ou quadros. O mito tem as seguintes linhas gerais[1]:

a) Primeiro quadro: No início dos tempos existe um dualismo radical e não misturado em duas “naturezas”, “substâncias” ou “raízes”: A luz e as trevas, o bem e o mal, Deus e a matéria. Cada uma das partes é princípio incriado e eterno. As duas têm o mesmo poder e o mesmo valor. Elas não tem nada em comum: pelo contrário, são exatamente contrapostas. Fica claro aqui já uma compreensão de base de Mani: o mal não pode ser negado. Ele existe desde todo o sempre e é eterno. Ele não é nem derivado nem dependente do bem. Em alguns textos maniqueístas se afirma que a luz é um princípio superior ao das trevas, mas isto no sentido intrínseco de que a bondade, a beleza, a compreensão estão em vantagem contrapostas à maldade, à feiura e à burrice da matéria. Esta compreensão de que os elementos de luz estão contrapostos com vantagens aos elementos das trevas, fez com que somente aos elementos de luz foram reservados nomes divinos. Ou também se diz que a luz é superior, pois a matéria, ligada às trevas, deseja a luz, , pois como ela é ofuscada pela a luz, ela deseja ser iluminada para assim poder a ela igualar-se. Este desejo de igualar-se não está porém ligado a nenhuma compreensão de superioridade da luz sobre as trevas. Ambas estão em nível de igualdade como substância. Também não está por detrás deste princípio dualista o otimismo de que a existência é uma luta a ser vencida no final pela luz. Não há nenhuma segurança de que a luz irá vencer as trevas. Pode-se até dizer que em caso de luta, a força pacífica da luz pode levá-la a ser derrotada pela agressividade das trevas.

Estes dois princípios são imaginados no início como estáticos, como duas regiões separadas por um limite. São duas regiões simétricas: a região do bem ao norte, e a região do mal ao sul. Ambas têm um rei à sua frente: a região do bem tem à frente o “Pai da Grandeza” e a do mal o “Príncipe das Trevas”, que tem ao seu lado os demoníacos Archontes. Cada uma destas regiões fundam-se em cinco elementos – que segundo algumas versões são apresentados como cinco árvores luminosas e cinco árvores escuras. Os cinco elementos da luz são: a consciência (nous), a razão, o pensamento, a visão e a meditação. Estes circundam o “Pai da Grandeza”, são a sua casa, os seus membros ou formam o “reino da luz”. A fumaça, o fogo, o vento impetuoso (vendaval), a água e a escuridão que surgem do abismo ou das profundezas das cavernas, formam cinco mundos sobrepostos que são presididos pelas cinco figuras de um demônio, um leão, uma águia, um peixe e um dragão. Eles correspondem ao cinco metais (ouro, cobre, ferro, prata e estanho) ou aos cinco sabores (salgado, azedo, picante, insosso e amargo). Ambas as regiões são densamente habitadas. O “Pai da Grandeza”, juntamente com sua luz, força e sabedoria, forma uma espécie de “quadriandade” (tetrandade!), que tem ao seu lado como ajudante o “Grande Espírito”. Este é rodeado por 12 éons principais, que são por sua vez acompanhados de um sem número de éons. Os cinco abismos do mundo das trevas são povoados por cinco classes de espécie de criaturas infernais: bípedes (demônios), quadrúpedes, pássaros, peixes e répteis.

Ao mesmo tempo em que estes dois princípios são apresentados como regiões, há também o aspectos de forças dinamicamente contrapostas. Cada uma das forças está em processo de expansão. A luz expande-se ilimitadamente para cima, para o norte, o leste e o oeste, enquanto que as trevas expandem-se ilimitadamente para baixo e para o sul. Estas duas forças fazem limite e bloqueiam-se mutuamente onde se encostam (fazem fronteira). Isto significa que a luz é limitada por baixo, e as trevas por cima e pelos lados (norte, leste e oeste).

b) Segundo quadro. O primeiro quadro mostra o ponto inicial, o ponto de partida. É o início do universo. O drama do universo inicia-se no segundo tempo da existência, quando da dissolução do dualismo contraposto e a mistura das duas naturezas. Como a matéria é uma força, ela tentou atacar e engolir a luz. A luz justamente que a ela se contrapõe e a mantém nos limites. A matéria é movimento desordenado e semi inconsciente. Com isso o maniqueísmo a imagina como um emaranhado de forças demoníacas que se desgastam e destroem mutuamente em uma eterna e interna luta. Por coincidência e concentração casual que os príncipes das trevas chegam ao lugar superior de seu reino. Eles revelam-se justamente com o brilho da luz. Este contato com a luz faz com que eles desejem adentram nesta região estranha e luminosa e a conquistar e assimilar com seus demônios à medida em que envolvem a luz. Com isto fica claro que para o maniqueísmo a matéria está ligada ao mal, às trevas e ela aparece somente em pequenas parcelas que encostam na luz. Ao mesmo tempo a força matéria (das trevas), por querer expandir, luta contra a luz. Diante da ameaça das trevas, o “Pai de Grandeza”, por causa de sua bondade, não decide enviar os seus éons em luta contra as trevas. Ele mesmo decide lutar contra as trevas. Em um texto, o “Pai de Grandeza” assim se expressa: “Eu não enviarei nenhum de meus éons para a luta, eu mesmo irei e conduzirei esta guerra”[2]. Para esta luta, emana de si a primeira figura, a “Mãe da Vida” ou o “Vivente” para a qual o “Grande Espírito” é o modelo. A “Mãe”, por sua vez, projeta a partir de si o “Ser Humano Primitivo”. O “Ser Humano Primitivo” desloca-se para a luta acompanhado de seus cinco filhos: o ar, o vento, a luz, a água e o fogo. Estes deslocam-se para a fronteira entre luz e trevas e são derrotados pelas trevas. Os cinco filhos são engolidos pelos demônios.

A derrota do “Ser Humano Primitivo” tem muitos significados: ela é ao mesmo tempo derrota, como também expansão da luz e início da salvação. Não se pode esquecer que o “Ser Humano Primitivo” é parte do “Pai de Grandeza”, é ele mesmo. O “Ser Humano Primitivo” é pois idêntico – da mesma substância – de Deus. Os cinco filhos, às vezes também chamados de “armas”, são a alma do “Ser Humano Primitivo”. Parte do próprio Pai é que combate a matéria e é por ela engolida.

Esta derrota de parte do Pai para as trevas no início do universo mostra por um lado uma cosmologia altamente pessimista. A história começa com a derrota do bem frente ao mal. Nesta derrota está porém o princípio de salvação já implícito: o fato de as trevas engolirem a luz pode ser visto como um ato consciente do próprio “Pai de Grandeza”, pois assim a luz está misturada com as trevas. Esta presença da luz na matéria vai mostrar-se, mais tarde, de essencial importância para a salvação do ser humano e para a derrota da própria matéria. Esta derrota da luz frente às trevas, com a derrota do “Ser Humano Primitivo” é uma espécie de sacrifício necessário. Com isso as trevas estão inseparavelmente ligadas à luz. A luz “contamina” com isso as trevas.

Com a derrota do “Ser Humano Primitivo” faz-se necessário um primeiro ato de salvação. O “Ser Humano Primitivo”, engolido pelas trevas recupera a consciência (acorda) e dirige-se sete vezes em oração ao “Pai de Grandeza”. Este emana de si a segunda criatura: o “Amado das Luzes”. Este, por sua vez, faz emanar o “Grande Arquiteto” e desde emana o “Espírito Vivo”. O “Espírito Vivo” faz emanar de si seus cinco filhos (a jóia da luz, o rei da honra, a luz Adamas, o rei da glória e o portador da luz). Estes dirigem-se para as trevas, perscrutam o abismo e encontram o “Ser Humano Primitivo”, ele e seus cinco filhos engolidos pelas trevas. O “Espírito Vivo” chama o “ser humano primitivo” e este chamado é como a ponta de uma espada. Ele mostra sua imagem ao “Ser Humano Primitivo” e fala: “Salve, bom ser em meio ao mal, cheio de luz em meio às trevas, (Deus) que mora entre as criaturas da maldade, que não reconhecem sua glória”. O “Ser Humano Primitivo” responde: “Vem com a salvação, traz a mensagem da paz e da salvação” e pergunta: “Como vai o nosso Pai e os filhos da luz e sua pátria?” E o chamado do espírito responde: “Eles estão bem”. O “chamado” e a “resposta” encontram-se e sobem juntos para a “Mãe da Vida”, para o “Espírito Vivo”. O “Chamado” e a “Resposta” encontram-se e descem à região das trevas, onde se encontram o “Ser Humano Primitivo” e seus filhos. O “Espírito Vivo” estende sua mão para o “Ser Humano Primitivo” e o arranca das trevas e o conduz para o paraíso da luz. Nesta operação, o “Ser Humano Primitivo” aparece como aquele que é salvo, mas também como salvador que a si mesmo se salva. O “acordar” do “Ser Humano Primitivo” é que desencadeia o processo de salvação, que o faz voltar para a sua origem. O “acordar” ou despertar da consciência (Nous) é o início do processo de salvação. O processo de salvação continua com o encontro do “Chamado” com a “Resposta”. O “Chamado” e a “Resposta” formam uma espécie de casal primitivo.

Com a saída do “Ser Humano Primitivo” das trevas para a luz, ele deixa porém seus filhos (sua alma) nas trevas. A luz não deixou de todo as trevas. Ela continua a ‘contaminá-la’. Mas ao mesmo tempo ela está maculada, misturada com as trevas. A salvação destes cinco filhos é o motivo da criação do universo. O demiurgo é o “Espírito Vivente”. Com seus cinco filhos ele castiga os demônios Archontes, tira deles a pele e forma o céu, tira deles os ossos e forma as montanhas, tira deles a carne e forma a terra. Esta formação do céu, montanhas e terra é composta de muitos detalhes. Mas nesta formação acontece mais um ato de salvação da luz: o “Espírito Vivente” toma parte da luz que não havia sido maculada com as trevas e forma o sol e a luz; doutra parte, um pouco mais contaminada, ele tira as estrelas. Para salvar mais uma parte da luz, que está porém mais contaminada, o “Espírito Vivente” grita ajuda ao “Pai de Grandeza”.

c) O terceiro quadro. Este forma então o terceiro enviado, o “Mensageiro” ou o “Terceiro Enviado”, que é o “Deus do Mundo da Luz”, pai das doze “Virgens da Luz” (dominação, sabedoria, vitória, convencimento, pureza, verdade, fé, paciência, integridade, bondade, justiça e luz), que correspondem aos doze signos. O “Terceiro Enviado” coloca em andamento um mecanismo para purificar a luz das trevas. Durante 14 duas do mês ele absorve a luz na luz, de modo que ela se enche de luz. Durante outros 14 dias a lua derrama a sua luz no sol, que a leva ao Reino da Luz. O “Terceiro Enviado”, porém, como “Virgem da Luz”, mostra-se no sol em sua nudez como desejo em forma ora masculina ora feminina do demônio Archonte. Com isso ele desperta o desejo que se unem. Desta união cai à terra sêmen. Do sêmen molhado que cai na terra, formam-se os monstros do mar, que são mortos pela lança da “Luz Adamas”. Com o rodar das estrelas do Zodíaco, parte delas fica tonta e cai na terra também demônios (trevas). Estes cruzam entre si e dão origem ao mundo dos animais. Com isso cai novamente na terra luz, misturada com trevas. Luz esta que tende a voltar para o seu lugar.

Com o aparecimento do “Terceiro Enviado”, aumenta na matéria o medo de perder a parte da luz que ainda lhe resta. Para garantir a presença de luz, a matéria concentra-a numa criatura pessoal que deve ser o polo contraposto da criatura divina. Para fazer surgir esta criatura, dois demônios cruzam. O demônio masculino devora as crias, para assim assimilar em si mais luz. Deste cruzamento nascem os primeiros seres humanos: Adão e Eva – também chamado de Gehmurd e Murdiyanag. O ser humano, nascido pois desta sucessão de cruzamentos, tem em si a forma animal de Achontes (demônio), que o instiga a também cruzar para perpetuar a alma luminosa presente na matéria.

Como a queda do “Ser Humano Primitivo” exigiu um ato salvífico, também a criação deste humano o exige. Como a luz na matéria está concentrada em Adão e seus descendentes, são eles que se tornam o objeto principal do processo de salvação. Sobre este processo de salvação há diversas variantes conhecidas. Numa delas afirma-se que a matéria fez o primeiro humano cego e surdo, sem consciência e desorientado, de modo que ele não reconhece seu substrato nem sua origem (a origem divina). A matéria fez o corpo como uma prisão, na qual a alma está acorrentada, a consciência perdida. A alma foi feita feia e má, raivosa e vingativa. Os cinco anjos – que são a formação celeste contraposta aos cinco elementos presos na matéria –, ao verem a criatura da luz nesta degradação, pedem que seja enviada uma criatura, um salvador para dar ao ser humano consciência e honradez, para o arrancar do poder dos demônios. A divindade envia Jesus, também chamado de “Jesus, o brilho”, ou o “Filho de Deus” para salvar Adão. Transformado em forma humana, o salvador vem à terra, castiga os dois demônios criadores e aproxima-se do primeiro ser humano. Este o acorda do sono da morte, o liberta de muitos espíritos. O salvador o acorda, o dá consciência, o purifica, expulsa para longe dele os demônios, prende longe do ser humano principalmente o demônio feminino da sedução. Adão então perscruta-se a si mesmo e descobre quem ele é. Jesus mostra-lhe seu pai nas alturas e ele reconhece seu estado lastimável por estar presente nas trevas. Jesus o faz levantar e comer da árvore da vida. Com isso Adão olha em torno de si e chora. Ele levanta sua voz poderosa como o rugido de um leão e grita: “Ai, ai dos que formaram meu corpo, dos que aprisionaram minha alma e dos impostores que me escravizaram”. Adão deixa então o corpo de morte e estava salvo para sempre. Com isso é elevado ao paraíso, ao reino dos bem-aventurados.

Nesta salvação do ser humano há muitos paralelos com a salvação do “Ser Humano Primitivo” do segundo quadro. Sempre volta o tema de que o elemento a ser salvo é parte divina. O reconhecimento (consciência) desta parte divina é o caminho da salvação. Com isso uma espécie de auto-salvação. Por outro lado o salvador (tanto do Ser Humano Primitivo, como de Adão) é identificado como uma corporificação de Nus (espírito/consciência). A salvação da alma é sempre conseqüência do conhecimento da consciência. Ela é que acorda a alma, acorda para si mesma e para o saber universal (a consciência do todo, de sua origem, de seu destino). É o surgimento da consciência que faz Adão reconhecer sua situação (em algumas variantes, este surgimento da consciência é descrito como o “abrir os olhos”). Em outras variantes este processo acontece quando ele come da árvore da vida, que é ao mesmo tempo a árvore do conhecimento. Com isto é dada a ele a capacidade de reconhecer sua situação. Ele percebe que sua alma está misturada com a matéria, reconhece a origem demoníaca de seu corpo, reconhece estar nele presente um dualismo radical. Este reconhecimento de sua situação pessoal também lhe abre ao conhecimento da totalidade. Ele reconhece o paraíso, os deuses, o inferno, o demônio, a terra e o céu, o sol e a lua. A consciência cosmológica é ao mesmo tempo soteriológica.

Há neste reconhecimento o claro conselho de que Adão não deve se aproximar de Eva, pois ela é a personificação do mal, do princípio da procriação da espécie humana, através da qual se perpetua o sofrimento e o mal.

Conclusão: A existência continuada tanto do ser humano como do universo está pois fundada na mistura da luz com as trevas. As mesmo tempo esta mistura vai exigindo continuamente atos salvíficos. O universo, a matéria e o ser humano são permanentemente uma mistura de Luz e Trevas. Como a roda do universo continua em movimento, a mistura continua. O passar dos meses, anos e séculos é a história da mistura, mas também da separação gradativa da substância divina (luz) das trevas.

Escatologia: Este processo de libertação é retardado pelo pecado humano. Este é caracterizado principalmente pela perpetuação da mistura. Apesar da exortação de Jesus, o ser humano continua a se reproduzir. A reprodução irá continuar enquanto o ser humano não voltar-se completamente à abstinência sexual (pregada por Mani). Quando todos se converterem então terá início o fim dos tempos. Este será precedido de uma grande guerra, um período de provações. Um fragmento de uma homilia de Mani descreve o apocalipse como um triunfo do maniqueísmo. Todos terão uma última chance de conversão. Após esta, acontecerá o juízo final. Os não convertidos serão entregues aos demônios. Após um curto período de domínio de Jesus e seus escolhidos, estes irão deixar o mundo. Com isso o mundo irá cair, passando por um processo de purificação que irá durar 1468 anos até a extinção completa. A última luz que restar no mundo será levada à coluna de luz. Enquanto o mundo, com os condenados e os demônios, a matéria com seu desejo de procriação cairá para o abismo onde ficará coberta com uma enorme pedra.

Com ato escatológico termina o terceiro e último quadro, que mostra a volta ao dualismo radical de separação entre luz e trevas, como estava presente no primeiro quadro. Este porém difere do primeiro no sentido de que já é o quadro final, pois a derrota do mal é definitiva e este não mais terá condições de voltar-se contra a luz. Esta vitória final da luz não significa a salvação do ser humano. Este pode ficar do lado das trevas e ser lá aprisionado para todo o sempre.

 


[1] Sigo aqui a reconstrução feita por H.C. Puech, Die Religion des Mani. In: F. König (org.), Christus und die Religionen der Erde, Herder, Freiburg, 1951, p. 523ss.

[2] Cf. H.C. Puech, Die Religion des Mani. In: F. König (org.), Christus und die Religionen der Erde, Herder, Freiburg, 1951, p. 526.