RSS
Volney Berkenbrock
A intrigante busca pela origem do mal PDF Imprimir E-mail

2. BERKENBROCK, V. J. . A intrigante busca pela origem do mal. In: Marcos Roberto Nunes Costa. (Org.). Maniqueísmo - História, Filosofia e Religião.
1 ed. Petrópolis, 2003, v. , p. 09-12.

Apresentação
A intrigante busca pela origem do mal

O mal. Por que existe o mal no mundo? Esta questão é uma das mais refletidas na história do pensamento humano. O ser humano não aceita o mal como um dado da realidade. A existência do mal precisa ser explicada, precisa ser entendida. Quem especialmente lidou com esta questão na história do ser humano foram os sistemas religiosos. Muitas são as religiões nas quais a busca pela origem e existência do mal ocupa um lugar importante. A questão torna-se ainda mais aguda quando em muitas religiões entende-se a origem da existência na própria divindade. Teria então a divindade mesma querido e criado o mal? A tradição judeu-cristã interpretou a origem do mal não no próprio Deus. A criação foi feita toda boa; o ser humano foi criado no paraíso. O mal entra na existência quando o ser humano desobedece a Deus. Na queda humana está a explicação para a origem do mal. Do pecado original origina-se todo o mal subseqüente. Já a tradição budista vê a origem do mal no desejo e na busca de sua saciedade. Não na busca da saciedade do desejo, mas na eliminação do desejo está a superação do mal.
A inquietação humana frente à origem e existência do mal tem sua base última no desejo de eliminação do mal. Quereríamos, como espécie humana, que o mal não apenas fosse explicado e entendido. O que desejamos é que o mal seja banido, seja superado. No fundo, desejamos todos uma “terra sem males”, como conta um mito do povo guarani.
No século terceiro da era cristã surgiu uma religião onde a questão do mal foi colocada como central. Mani é o profeta e visionário que anuncia uma solução. A partir da Babilônia, sob o império persa, este líder religioso vai expandir sua doutrina para o oriente e o ocidente. Sua proposta não encontrou apenas fiéis, mas também forte oposição. Por ordem o rei persa Bahrâm I, teria Mani – segundo a tradição - sido crucificado e esfolado no ano de 277, aos 61 anos de idade. Sua doutrina não morre com o mestre. Quase dois séculos mais tarde, vemos seus discípulos empreenderem famosas disputas filosófico-teológicas com o grande pensador Agostinho, bispo cristão de Hipona e antigo adepto da doutrina maniquéia.
Por causa de sua polêmica com o cristianismo, o maniqueísmo foi visto por muitos séculos apenas como uma heresia que foi combatida pelo cristianismo. O conhecimento que se tinha sobre as idéias maniquéias provinham sobretudo de citações que seus inimigos faziam. Ou seja, não eram os maniqueus mesmo falando, mas sim seus inimigos. Este fato transmitiu uma idéia errônea do maniqueísmo, tanto em seu conteúdo quanto em sua abrangência. Ele passou a ser visto geralmente como uma seita cristã. Pesquisas recentes vêm demonstrando, porém, que o maniqueísmo foi um fenômeno religioso bem mais amplo do que por muito tempo se supunha. Amplo tanto no sentido de organização institucional, de organização doutrinal, de número de adeptos, quanto também no sentido de propor um sistema filosófico-teológico bastante complexo e bem fundamentado.
Para Mani, o mal não é um “acidente de percurso” na existência. O mal é parte da estrutura da existência mesma. O grande objetivo não pode ser, portanto, eliminar o mal, mas sim separá-lo do bem. Esta cosmovisão é apresentada por meio de um mito que relata a existência toda . Segundo este mito, a existência está dividida em três etapas. Numa etapa primordial, mal e bem estão claramente separados em reino das trevas e reino da luz. Este tem à frente o Pai da Grandeza, aquele o Príncipe das Trevas. Numa segunda etapa, os demônios das trevas, por inveja e cobiça, engolem (capturam) parte da luz. Esta precisa ser resgatada e assim é criado pelo Pai da Grandeza o “Ser Humano Primordial”, que com seus filhos parte para o resgate. Sua derrota e de seus filhos os fazem prisioneiros das trevas. O que exige um novo ato salvífico por parte do Pai da Grandeza. O resgate do Ser Humano Primordial acontece, mas seus filhos ficam no reino das trevas. Os demônios, percebendo que lhes será tirado o resto de luz que lhes sobrou, engolem estes filhos da luz e cruzam entre si para procriarem. Desta cruza dos demônios que engoliram algo da luz nascem Adão e Eva e daí toda a humanidade. Com isso inicia-se a terceira etapa da existência. O Pai da Grandeza envia o Salvador para a luta final contra as trevas. A tarefa não é destruir as trevas, mas sim separá-las da luz. O seres humanos, ao continuar procriando, perpetuam a mistura de luz e trevas. O final da história se dará quando luz e trevas, bem e mal, estiverem novamente separados e não mais houver mescla.
Este mito colocado aqui em poucas linhas, dá já uma idéia da antropologia maniquéia. O ser humano é fruto do cruzamento entre luz e trevas. A procriação é o ato que dá continuidade a esta mescla. Daí se deduz a compreensão pessimista que o maniqueísmo tem de ser humano: no ser humano há parte de luz, porém presa na matéria com seus desejos, presa na busca dos prazeres que só perpetuam o drama da existência. Esta compreensão pessimista sobre a matéria e o ser humano acabou influenciando o cristianismo e com isso toda a cultura ocidental. Na cultura cristã ocidental há um certo olhar de desconfiança perante a matéria, há uma certa compreensão de fundo que vê a sexualidade como algo torpe, como um mal necessário.
Compreender melhor o maniqueísmo, sua história e seu modo de pensar não é pois apenas um olhar para o passado. Sua influência marca profundamente nosso modo de pensar cristão ocidental. Infelizmente há pouco material à disposição do público brasileiro que propicie este melhor conhecimento. Tanto maior é nossa honra ao poder aqui apresentar ao público a obra “Maniqueísmo – História, Filosofia e Religião” de Marcos Roberto Nunes Costa. Com grande esforço de pesquisa, o autor consegue apresentar o maniqueísmo não apenas de seus críticos, mas a partir de fontes originais. Ao colocar esta obra ao público, é desejo que o leitor possa se sentir desafiado a medir-se com a proposta filosófico-religiosa de Mani.

Prof. Dr. Volney J. Berkenbrock
Universidade Federal de Juiz de Fora, MG
Depto. de Ciência da Religião