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Volney Berkenbrock
Teologia ecumênica - Capítulo 5 PDF Imprimir E-mail

 

Capítulo 5 – Pentecostalismo e ecumenismo: um fenômeno especial

 

A consciência sobre a necessidade do diálogo ecumênico é sem dúvida um dos pontos essenciais para que o próprio diálogo possa acontecer. Esta consciência da necessidade do diálogo em busca da unidade - mesmo com concepções diferentes de unidade - foi aos poucos crescendo no interior do cristianismo e atingindo as Igrejas. Hoje - como já tivemos oportunidade de dizer anteriormente - esta consciência está presente na grande maioria das Igrejas cristãs.

No Brasil tem ocorrido acentuadamente nas últimas décadas um fenômeno de surgimento rápido de muitas novas Igrejas cristãs autônomas, todas elas - ou pelo menos a sua grande maioria - de orientação pentecostal. Este fato novo precisa ser, pois visto a também no contexto do esforço pela unidade. O que se observa, porém, é que é praticamente nulo o movimento ecumênico destas Igrejas com a Igreja católica e com as Igrejas chamadas protestantes históricas. Certamente a Igreja católica e as protestantes históricas têm sua parcela de culpa nesta falta de diálogo. Não há, porém como negar que há de fato por parte de muitas das novas Igrejas uma grande dificuldade para o diálogo.

Não queremos aqui analisar o fenômeno pentecostal como um todo e nem construir juízo de valores a respeito destas Igrejas. Não podemos por outro lado, no entanto, fazer de contas que este fenômeno seja algo que não nos diz respeito, ou, - quase que cegos - tomar a atitude do "isso logo vai passar e os adeptos destas Igrejas irão voltar então ao seio do catolicismo". Queremos aqui somente tecer alguns comentários no âmbito ecumênico, sobre as dificuldades que têm o movimento ecumênico de englobar as Igrejas pentecostais autônomas, bem como pensar em possibilidades que nos ajudem a - mesmo sob dificuldades - crer que todos somos um em Cristo. Antes porém de considerarmos a questão do ecumenismo com as Igrejas pentecostais, faz-se necessário lançar os olhos rapidamente sobre este fenômeno, colocando um pouco de seu surgimento, as diferenças entre as Igrejas e os pontos que caracterizam o pentecostalismo brasileiro.

 

5.1 O fenômeno do pentecostalismo[1]

a) Surgimento

O fenômeno do pentecostalismo teve início nos Estados Unidos no começo do século passado. Numa Igreja Batista da cidade de Los Angeles ocorreu no ano de 1906 que um menino começasse a falar em línguas durante o culto. O fenômeno chamou a atenção de muita gente e recordou-se o tempo do Novo Testamento, onde também se fala do fenômeno da glossolalia. Este fenômeno foi interpretado por muitos como um sinal da ação do Espírito Santo, como um novo Pentecostes, onde o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e ocorreu o fenômeno da fala em línguas. Por causa desta interpretação, o movimento e as Igrejas que surgiram em torno deste fenômeno recebem - e às vezes assumem elas mesmas - o nome de pentecostal.

Características importantes deste fenômeno e que têm até hoje um significado central é justamente o falar em língua e o considerado "batismo no/através do Espírito Santo". Batismo não entendido aqui como o sacramento pelo qual a pessoa é batizada (com água), mas sim o fenômeno de ser tomado pelo Espírito Santo e impelido por ele a falar em línguas.

Em torno do fenômeno de falar em línguas ocorrido em Los Angeles nasceu todo um movimento de experiência espiritual. Este movimento teve nos Estados Unidos em seu início logo duas vertentes: a do movimento negro e a do movimento branco de louvor. Os espaços de experiência espiritual nova foram ocupados sobretudo nas Igrejas negras dos Estados Unidos como espaço de expressão de pessoas engajadas na sociedade e na luta contra o racismo. Pelo fenômeno da glossolalia, os negros foram ocupando espaços importantes na condução da experiência religiosa em suas Igrejas. Era um movimento de auto-afirmação e de engajamento. Concomitantemente o fenômeno pentecostal também passou para as Igrejas de maioria branca dos EUA. Aqui porém, praticamente não teve este caráter de engajamento social e contra o racismo, mas apenas o aspecto de louvor.

 

b) No Brasil

É este movimento pentecostal branco que chega ao Brasil, ou seja, um movimento pentecostal baseado no louvor e não como espaço de expressão de grupos socialmente engajados, principalmente em favor da causa dos negros, como era o caso nos EUA. O movimento pentecostal chega ao Brasil através de um italiano chamado Francescon. Este, membro da Igreja presbiteriana, passara pelos Estados Unidos, onde conhecera lá a experiência pentecostal. Ao chegar ao Brasil, dedica-se sobretudo à ação missionária religiosa - dentro da Igreja presbiteriana de São Paulo - entre os descendentes de italianos. A ação de Francescon criou polêmica dentro da Igreja episcopal e as tensões levaram a um cisma. Francescon saiu da Igreja presbiteriana e fundou no ano de 1910 a Congregação Cristã no Brasil. Com isso surge a primeira Igreja pentecostal em solo brasileiro. Por muitas décadas esta Igreja permaneceu praticamente restrita aos descendentes de Italianos de São Paulo e do Paraná, onde Francescon vivera por um tempo.

A segunda Igreja pentecostal a surgir no Brasil também foi fundada por pessoas vindas dos Estados Unidos. Trata-se dos missionários batistas suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. Estes dois, que também haviam conhecido nos EUA a experiência pentecostal, chegam ao Brasil, indo para a cidade de Belém do Pará, dispostos a missionar e a espalhar a experiência pentecostal. Também eles inicialmente atuaram em sua Igreja de origem, ou seja, na Igreja batista em Belém. E novamente por causa das tensões causadas por suas ações, eles desentenderam-se com a Igreja batista e fundaram no ano de 1911 a Igreja Assembleia de Deus. Por diversas décadas estas (Congregação Cristã e Assembleia de Deus) foram as duas únicas igrejas pentecostais no Brasil. Enquanto a primeira ficava mais restrita aos descendentes de italianos (até a década de 30 os cantos ainda eram em italiano), a Assembleia de Deus conheceu - após algumas dificuldades iniciais - uma grande expansão, vindo do norte e atingindo o Nordeste. Fator decisivo na sua expansão foi a simplicidade de sua proposta: trata-se de uma Igreja "leiga" (isto é, qualquer pessoa pode fundar uma comunidade), formada por um grupo de famílias (pessoas) coesas em torno sobretudo da leitura da Bíblia e do canto. Esta maneira simples de formar comunidade foi o grande motor propulsor da Assembleia de Deus.

A segunda fase de Igrejas pentecostais no Brasil surgiu apenas no final da década de 40, com a vinda para o Brasil da Igreja do Evangelho Quadrangular. Esta Igreja havia sido fundada em Los Angeles por uma mulher (Aimee Semple McPherson) e seu nome se deve a quatro funções de Cristo consideradas essenciais: Cristo Salvador, Cristo Médico, Cristo Batizador e Cristo Rei que há de voltar. Esta Igreja apareceu no Brasil no final da década de 40 na cidade paulista de São João da Boa Vista. A grande inovação da IEQ - já praticada com imenso sucesso nos EUA - era a pregação em tendas ambulantes e a utilização do rádio como veículo de evangelização. No Brasil, a pregação em tendas ambulantes na chamada "Cruzada Nacional de Evangelização" chamou muito a atenção da imprensa e fez com que a IEQ crescesse rapidamente no Brasil. Seguindo a receita de sucesso da fórmula da IEQ, surgiu em fins de 1955/início de 1956 a primeira Igreja pentecostal fundada por um brasileiro: a "Brasil para Cristo". Seu fundador, Manoel de Mello, era um jovem pregador de um grande carisma e que conseguia atrair multidões. Iniciou sua atividade religiosa de pregador como membro da Assembleia de Deus. Logo depois passou para a Igreja do Evangelho Quadrangular. Não demorou a fundar seu próprio grupo, tendo inicialmente o nome de Igreja de Jesus Betel, mudando logo em seguida para "Brasil para Cristo". Mello centrou sua ação evangelizadora sobretudo o uso do rádio e nos meios de comunicação (jornal, publicações). Como líder carismático tinha posições políticas muito definidas e engajadas. Mello foi um crítico do governo militar, era engajado socialmente e também no movimento ecumênico. Após a morte de Mello (1990), a BPC conheceu uma mudança de linha e não conservou a linha engajada de seu fundador.

Seguindo praticamente os mesmos passos e a receita de Mello, Davi Miranda fundou em 1962 a Igreja Deus é Amor. Davi Miranda havia sido católico e depois entrara para a Igreja Jerusalém, de onde saiu com 26 anos de idade para fundar a própria Igreja, utilizando o dinheiro da indenização por ter sido mandado embora do emprego para alugar um local em São Paulo. Davi Miranda centrou suas atenções nos centros, onde muitos transeuntes estão dispostos a ouvir a pregação. O rádio foi o instrumento por ele privilegiado para propagar sua Igreja. A Pentecostal Igreja Deus é Amor caracteriza-se por um estilo rigorista de controlar seus membros: proibição de ver televisão, rigidez no costume de vestir-se, de usar o cabelo etc. Esta Igreja encontrou ressonância sobretudo nas camadas mais pobres da população e entre as pentecostais de maior expressão, é aquela cuja pobreza dos membros é a mais visível.

Uma seguinte fase do Pentecostalismo brasileiro deu-se no final da década de 70, com a fundação de Igrejas voltadas para o grande público, para a massa e sem muito compromisso com a formação de comunidade nem com a utilização da Bíblia. Exemplos aqui são a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo em 1977 e a Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada em 1980 por R. Soares, cunhado de Macedo. Ao estilo da Igreja de Macedo, que tem como público alvo a massa, como meio a utilização dos meios e métodos modernos de comunicação e como estilo o culto baseado na exploração da emotividade, surgiram muitíssimas Igrejas, principalmente na década de 90, algumas delas com grande sucesso, outras que não tiveram continuidade.

 

c) Fases do Pentecostalismo

O pentecostalismo no Brasil pode ser caracterizado em quatro fases, cada qual com seu estilo próprio.

1o – Assim há a primeira fase, na qual se encontram a Congregação Cristã no Brasil e a Assembleia de Deus. Características das Igrejas desta primeira fase são: a formação de comunidade, a leitura e louvor em comunidade, a união e solidariedade entre os membros da comunidade, a formação de uma estrutura eclesial, a rigidez nos costumes e a periferia das grandes cidades como lugar social privilegiado de ação e fundação de comunidades.

2o – Uma segunda fase do pentecostalismo é inaugurada com a vinda para o Brasil da Igreja do Evangelho Quadrangular. A esta fase também se podem contar a Brasil para Cristo e a Deus é amor. Características do pentecostalismo desta segunda fase é a pregação para as massas, a pregação ambulante (em tendas, cinemas velhos...), o acento nos milagres e bênçãos, a formação de comunidades, a rigidez nos costumes e o controle bastante grande dos membros pela própria comunidade. O local privilegiado de ação desta forma de pentecostalismo não é mais a periferia, mas os locais de grande concentração de pessoas: praças, centros de passagem...

3o – A uma terceira fase do pentecostalismo brasileiro se podem contar como mais expressivas as Igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça, a Igreja da Libertação e a Igreja Messiânica. Características destas Igrejas é a pregação com todos os meios para o grande público, o não compromisso do pregador com o seu público, a grande ênfase dada à ação do demônio, a não formação de comunidades, a concentração em centros de cidades e locais de grande afluência de público e a utilização de uma estratégia de marketing de expansão.

4o – No momento se pode falar já no surgimento de uma quarta fase do pentecostalismo no Brasil, com o aparecimento do fenômeno de “Igrejas de segmento”, ou seja, igrejas voltadas para um determinado segmento de público. Trata-se de Igrejas que nasceram e encontram o seu público num determinado grupo social. Assim temos por exemplo uma igreja de ex-presidiários, onde tanto o fundador como a maioria dos seus membros é oriunda de ex-presidiários e o grupo social que em torno deles se aglutina. Outro exemplo é uma igreja voltada para jovens adolescentes usando sua linguagem e seu modo de expressar-se. Nela não é incomum que o pastor faça a pregação em cima de um skate. Seu público alvo é este segmento social de jovens e adolescentes que se identificam com este tipo de comportamento. Assim, esta quarta fase do pentecostalismo é representada por igrejas especializadas em um determinado tipo de público, e por isso, comparando com o que acontece no mercado, poder-se-ia dizer que se trata de “igrejas de segmento”.

 

5.2 A identidade na diferença

A grande maioria dos membros das Igrejas pentecostais no Brasil provém do catolicismo. Isto pelo simples fato de a grande maioria da população ser católica. São porém não católicos institucionais, isto é, católicos que se identificam com a instituição Igreja católica, que seguem seu ritmo, seus sacramentos, que participam regularmente de suas atividades, mas sim católicos nominais, isto é, são católicos pelo fato de um dia terem sido batizados na Igreja católica, de frequentarem algum sacramento (primeira comunhão, matrimônio). Há casos de católicos engajados que passaram a fazer parte de alguma Igreja pentecostal. Estes casos, apesar de serem bastante comentados quando acontecem, são porém a grande minoria dos casos.

A experiência de entrada em uma Igreja pentecostal - conhecida popularmente como "virou crente" - é uma verdadeira experiência de conversão. Ou seja, uma mudança de vida, de hábitos, de comportamento por causa da experiência religiosa feita nesta Igreja. Constrói-se então uma nova identidade. Nesta nova identidade é preciso ficar claro que houve uma mudança de vida. Isto se percebe pela forma externa de se vestir, se percebe no comportamento para com os filhos, na linguagem (a utilização frequente do nome de Deus ou de Jesus), na formação de um novo círculo de amizades, onde certas amizades são deixadas e outras conscientemente cultivadas (amizades dentro do novo grupo), um engajamento eclesial marcante e forte (participação em todos os cultos, leitura frequente da Bíblia), num novo comportamento social (não frequentar mais bares, danças...). Esta nova identidade é construída em contraste com a identidade anterior: quer dizer, tudo se faz para mostrar que não se é mais o mesmo, que houve uma mudança radical da identidade a partir da religião. Como a nova Igreja é o centro da nova identidade, todas as atitudes anteriores - agora identificadas como errôneas - são tidas como atitudes relacionadas com a antiga identidade religiosa. Ou seja, eram atitudes de católicos. Agora faz-se de tudo para mostrar que não se é mais católico. Ou seja, a identidade é construída na diferença para com o anterior. No caso, na diferença para com a identidade católica. A grande maioria das Igrejas pentecostais construiu suas identidades religiosas no Brasil justamente tendo como base a oposição/diferença à Igreja católica. Com as atitudes e a nova maneira de ser, tenta-se provar exatamente isto: não se é mais católico. E tudo o que diz respeito ao catolicismo é pois errôneo ou deve ser evitado. Esta atitude é, não raras vezes, cultivada pela própria liderança destas Igrejas, para manter seus fiéis em contraste com o catolicismo, caracterizando assim uma identidade pela diferença.

Do ponto de vista institucional, era para estas Igrejas pentecostais nascentes questão se sobrevivência marcar sua diferença para com o "grande mundo católico". Uma instituição pequena tem uma necessidade muito maior de coesão, de marcar posição, de fazer oposição, que uma grande, que não sente sua identidade ameaçada pela existência do outro.

Este fator da identidade criada na oposição e na diferença dificulta enormemente qualquer movimentação de ecumenismo por parte destas Igrejas em relação à Igreja católica no Brasil. Não se pode dizer porém, que estas Igrejas não tenham um espírito ecumênico. Elas têm um ecumenismo - mesmo que um ecumenismo de solidariedade - com outras Igrejas pentecostais. Há uma certa identificação entre elas pelo fato de serem oposição à católica. Nesta identificação pode-se ver a possibilidade - e que de fato ocorre - de um ecumenismo. Um ecumenismo com a Igreja católica, pelo menos em ação ecumênica direta, é ainda bastante dificultado, exatamente pelo fenômeno ao qual chamávamos a atenção acima, da identidade na oposição.

 

5.3 É possível ecumenismo católico-pentecostal?

Esta pergunta é muito complexa para ser respondida com um "sim" ou um "não". Talvez se pudesse começar a respondê-la esta questão, colocando a própria atitude de católicos diante destas Igrejas. Se por um lado há de se constatar uma dificuldade por parte de membros destas Igrejas nos contatos com católicos, não se pode deixar também de observar também que há por parte dos católicos uma resistência a contatos com membros destas Igrejas, enquanto membros destas Igrejas. Não pode ainda deixar de observar que na caminhada ecumênica, não sem tropeços, existente entre as diversas Igrejas cristãs, o surgimento das Igrejas pentecostais é um fator de revés nesta caminhada. Enquanto entre a maioria das Igrejas cristãs (luterana, metodista, episcopal, católica, anglicana, ortodoxas...) já se havia conseguido pelo menos uma situação de respeito mútuo, parece que o fenômeno pentecostal fez voltar a roda da história. Não se pode negar que o relacionamento entre católicos e pentecostais de diversas matizes é de hostilidade, onde sem dúvida ambas as partes tem sua parcela de responsabilidade. Para se quebrar um pouco estas resistências, fazem-se necessárias algumas diferenciações:

a) Distingir as diversas Igrejas pentecostais. É muito comum que se fale em "crentes" para designar indistintamente os membros de todas as Igrejas pentecostais. Como vimos rapidamente acima, as Igrejas pentecostais tem grandes diferenças entre elas. Assim, mesmo sendo ambas pentecostais, não se pode confundir a Igreja Assembleia de Deus com a Internacional da Graça. Uma está interessada em formar comunidades, geralmente nas periferias, proporcionando um grande elo de solidariedade e entre-ajuda entre seus membros, promovendo a leitura da Bíblia como fundamento da comunidade. A outra é uma Igreja de centro de cidade, voltada para as massas e para satisfazer seus anseios religiosos, mas nem a Bíblia nem a formação de comunidades são pontos forte. Em segundo lugar esta distinção necessária entre as diversas Igrejas pentecostais deve ser feita em respeito aos próprios membros destas Igrejas, pois os membros das diversas Igrejas fazem esta distinção e não é visto com bons olhos esta não distinção. E para se poder fazer esta distinção, é preciso conhecer as diversas Igrejas.

b) Distinguir a experiência de fé da prática do pastor. Ou seja, não se pode confundir a experiência de fé feita por alguém em uma destas Igrejas com a orientação ou a prática da direção da Igreja. Este mesmo critério nós o usamos em relação à Igreja católica, ao não confundirmos a experiência de fé das pessoas com o padre, suas práticas ou atitudes. Principalmente não se pode medir, valorizar ou desvalorizar esta experiência de fé a partir da medida ou da valorização que temos de alguma pessoa que possa ocupar função de liderança nesta Igreja.

c) Não é porque o médico é ruim, que o paciente não esteja doente. Continuando o pensamento acima, é preciso reconhecer que não é a atitude de alguma liderança que faz com que a experiência de fé tenha mais ou menos seriedade. A experiência de fé do fiel está ligada a ele e não à direção ou orientação de sua comunidade. Este fato da busca e da necessidade de uma experiência de fé nos moldes como é oferecida por uma determinada Igreja deve ser levado a sério e respeitado. A busca de fé da pessoa deve ser colocada acima da avaliação da instituição.

d) A fé da pessoa precisa ser levada a sério. E esta busca, por estar no nível da fé, é algo para nós a ser respeitada com a mesma profundidade da busca com que acontece a própria fé. A fé é definida como a resposta do ser humano ao chamado divino, é o resultado do encontro divino e humano e este encontro é reconhecido na teologia como graça. Por mais estranha que seja para nós a resposta de fé dada em uma determinada Igreja, desprezar a experiência de fé, como encontro divino - humano, como experiência da graça, é de certa forma desprezar a própria forma de nossa identidade de fé.

e) Perceber - como cristãos - o que leva as pessoas a muitas vezes deixarem ser  enganadas. Não se pode deixar de ver o fato de que em muitas Igrejas destas nascidas ultimamente há uma busca direta dos meios financeiros dos seus membros. Ou seja, que em nome da oferta de experiência religiosa, também acontece a exploração indevida da mesma para proveito de poucos. Partindo do pressuposto de que a busca da experiência de fé destas pessoas é sincera e que grande parte delas eram católicas nominais, não podemos deixar de perguntarmo-nos pela insensibilidade da próprias comunidades católicas em reconhecer esta busca sincera.

f) Perguntar sobre nossas comunidades. A partir da constatação anterior, faz-se necessário pensar sobre as próprias comunidades católicas, sobre como estão ou não estas oferecendo espaço de experiência religiosa, cuja demanda está acontecendo nos moldes pentecostais. O interesse pelo outro no ecumenismo é sempre também um interesse por si mesmo. Assim o preocupar-se com o fenômeno pentecostal deveria levar as comunidades católicas a perguntarem-se também sobre a sua atuação religiosa, sobre a capacidade de nossas comunidades reagirem aos anseios que nascem no meio do povo...

g) Não somos o único legítimo espaço da experiência cristã. Um último ponto a ser considerado nestas diferenciações prévias sobre nossa posição diante do fenômeno do crescimento das Igrejas pentecostais e o ecumenismo, é reconhecermos claramente que não somos - comunidades católicas - o único espaço legítimo da experiência cristã e sua expressão. Vale recordar, somos seguidores de Jesus Cristo, herdeiros de sua mensagem. Mas não podemos de modo algum colocarmo-nos na posição de comunidades que tivessem o monopólio sobre a experiência cristã. Esta posição pode parecer à primeira vista uma relativização de nossa experiência. É no entanto um posição importante a contribuir no diálogo ecumênico. Quando conseguirmos entender e sentir que não temos exclusividade na expressão cristã, a aceitação do outro - mesmo parecendo sua experiência estranha a meu modo de pensar, agir e experienciar - torna-se mais fácil.

Depois de fazermos estas distinções, é de se perguntar sobre a possibilidade da construção dum relacionamento positivo entre católicos e membros das diversas Igrejas pentecostais. A primeira coisa que devemos estar cientes é o fato de todos sermos cristãos, seguidores de Jesus Cristo. E Jesus nos deixou como maiores mandamentos o amor a Deus e ao próximo. A prática do amor ao próximo é pois a primeira exigência da atitude do cristão e portanto dos católicos. Não ter uma atitude de amor ao próximo diante do membro de uma outra confissão religiosas é renegar a própria identidade cristã.

Um segundo ponto importante é ter a consciência da necessidade de uma abertura para o diálogo. Ou seja, criar uma atitude básica que se predispõe a dialogar e não que se predispõe logo à hostilidade. Uma atitude de diálogo é uma atitude de saber ouvir o outro, de ter consciência de não possuidor sozinho da verdade, nem ser o dono de Jesus Cristo.

Dentro desta atitude de abertura ao diálogo, há um terceiro ponto importante que é ter clareza sobre a própria identidade. O encontro com o outro deve levar a perguntar sobre o específico da própria identidade. O diálogo não acontece quando não há uma clareza sobre a própria identidade. E mais do que isto, diria até que ao diálogo é importante também a defesa da própria identidade.

Tendo uma atitude de amor ao próximo, de abertura ao diálogo, dando importância à própria identidade, faz-se necessário que os católicos tenham ainda duas atitudes especificamente relacionadas com o ecumenismo. Uma poderia ser caracterizada como "ecumenismo prático". O "ecumenismo prático" é aquele que acontece através da prática do dia-a-dia, onde acontece muitas vezes que nos relacionamos com pessoas pertencentes a alguma Igreja pentecostal. Este relacionamento pode se dar através da família, da vizinhança, do trabalho... No centro do "ecumenismo prático" não está a questão religiosa, mas sim as questões do dia-a-dia, que dizem tanto respeito a mim como ao outro. Um bom entendimento nestas questões (no ambiente de trabalho, na vizinhança...) já é um passo para se superar as distâncias entre as pessoas, para poder ver o outro com os olhos da normalidade e da benevolência. Não se pode parar porém apenas no estágio do "ecumenismo prático". É importante passar para uma segunda atitude, que se poderia chamar de "ecumenismo ativo". "Ecumenismo ativo" é a capacidade de buscar o diálogo ao nível religioso. Ou seja, não ficar em uma posição passiva, onde o ecumenismo - se ocorrer - é apenas uma reação à iniciativa do outro. Caso os dois lados ficarem esperando a iniciativa do outro, o encontro ecumênico nunca acontecerá. Um pouco de ousadia, de iniciativa na busca do diálogo faria muito bem ao ecumenismo.



[1]. Para este assunto da história das diversas Igrejas pentecostais e suas características, veja o livro "Nem Anjos nem Demônios" (Vozes - 1994), p. 67-157. Sobre o pentecostalismo e a reação católica frente a este fenômeno, veja também A. P. Oro, Avanço Pentecostal e Reação Católica, Vozes, Petrópolis, 1996