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Volney Berkenbrock
História das Religiões - Cap. 7: O Islã PDF Imprimir E-mail

 

3.6 Islã ou Islamismo

 

No Islamismo temos mais uma religião cujo surgimento está ligado historicamente à atuação de uma pessoa: Mohammed. Sua vida, sua experiência religiosa e sua atuação são decisivas para o surgimento desta (a mais nova) religião universal. Por se tratar, porém de uma religião estritamente monoteísta (de culto unicamente a Deus), a figura do fundador não adquiriu nenhuma aura religiosa transcendente, como aconteceu, por exemplo, em outras tradições religiosas. Mas o modo de vida de Mohammed é considerado, entretanto um exemplo para a vida de todo fiel.

 

a) Mohammed.

Mohammed nasceu entre 570 e 580 d.C. na cidade-oásis de Meca. Meca era basicamente uma cidade comercial independente (não submetida a nenhum reino) e governada por um conselho no qual estavam representantes das principais famílias (dez famílias) que dominavam o comércio. Ela tinha uma importância estratégica na rota comercial que ligava Ásia, África e Europa. Por ali passavam as rotas comerciais que traziam produtos da Índia (e talvez também da China) e do sul da península arábica (hoje Iêmen) para os mercados do Mediterrâneo. Seus habitantes – os beduínos – (calcula-se em cerca de 10 mil) viviam do comércio e as fontes de riqueza eram os camelos e o gado miúdo. Também os assaltos a caravanas constituíam fonte de renda dos habitantes de Meca. Do ponto de vista religioso, os beduínos não formavam uma unidade. Havia seguidores de diversas tradições religiosas, inclusive grupos cristãos e judeus. Estes adoravam o Deus único sob o nome árabe de Alá (ou Allah). À cidade de Meca acorriam não apenas caravanas de comércio, mas também peregrinos. Lá estava o templo da Caaba, onde eram veneradas diversas divindades, entre elas Hubal. Esta ligação entre comércio e lugar de peregrinação contribuía para enriquecer a elite de Meca.

De uma destas famílias dominantes em Meca – mas de importância inferior – nasceu Mohammed. Seu pai, de nome Abdallah segundo a tradição, morreu pouco antes ou pouco depois dele nascer. Sua mãe morreu quando tinha seis anos. Segundo o costume árabe, o menino órfão foi acolhido pelo avô paterno, que veio a falecer quando o menino tinha 8 cerca de anos de idade. Ele foi criado então pelo Tio paterno Abu Taleb. Descendente de uma família que havia perdido o poder, muito cedo Mohammed é obrigado a trabalhar para o próprio sustento. Trabalha no comércio. Com cerca de 25 anos de idade casa-se com uma rica viúva, Khadija, à qual servia como braço direito nos negócios comerciais. Com ela teve dois filhos, que morreram ainda crianças e quatro filhas. Somente através de sua filha Fátima teve Mohammed descendentes masculinos. Seu casamento parece muito feliz. Kadhija fica ao lado de seu esposo em todas as perseguições que ele irá sofrer e ele, por sua vez, enquanto ela vive, não tomou nenhuma segunda esposa.

Pelo ano 610 Mohammed fez um retiro numa gruta no monte Hira e teve uma experiência religiosa de revelação. Nesta, o que ele identificou depois como o anjo Gabriel, o chamou de “Enviado de Deus” e lhe mandou anunciar uma mensagem (atualmente os 5 primeiros versos da sura 96 do Alcorão). Segundo a tradição muçulmana, esta revelação iniciou-se através de visões e audições, quando Mohammed estava dormindo. Esta ocasião teria sido narrada pelo próprio Mohammed da seguinte forma: “No sonho veio até mim uma figura celeste (que mais tarde veio a se revelar como o arcanjo Gabriel), estendeu até mim um pano de brocado de seda no qual estava escrita uma mensagem e me disse: ‘Anuncie!’ Eu disse: ‘Eu não posso pregar’. Ele então me estrangulou até eu pensar que havia morrido. Aí ele me soltou e disse: ‘Anuncie!’ ‘O que devo pregar?’ Disse isto apenas para que ele não me estrangulasse novamente. Ele disse: ‘Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso. Recita em nome do teu Senhor que criou, criou o homem de sangue coagulado. Recita. E teu Senhor é o mais generoso, que ensinou com a pena, ensinou ao homem o que não sabia’”.

Mohammed passou a pregar a bondade do Deus criador, a proximidade do juízo final e a necessidade de conversão ao único Deus verdadeiro. A cidade cultuava diversas divindades e isto era uma importante fonte de renda por causa das peregrinações especialmente à Caaba. Mohammed pregava a conversão, honestidade nos negócios e justiça frente aos escravos, mulheres e órfãos. Aos poucos foi conseguindo um grupo de seguidores, primeiramente em sua própria família. A pregação de Mohammed começou a gerar tensões entre ele e os comerciantes. Quando no ano de 619 morreu seu tio e sua mulher, ficou Mohammed em grandes dificuldades. A pressão sobre seu grupo ficou insuportável, de modo que se começou a pensar em uma saída de Meca. A primeira tentativa de emigrar (para a Abissínia) fracassou. A cidade de Jatrib (ou Jathrib ou Yatrib), distante 100 quilômetros de Meca era dominada por duas tribos, além dos grupos judeus que lá moravam. Ali havia melhores condições para acolher o grupo de Mohammed e sua nova religião. Após muitas negociações, o seu grupo é recebido em Jatrib. Esta mudança ocorreu em setembro do ano de 622, ano em que começa a contagem muçulmana. A cidade passa a ser chamada com outro nome Madinat-an-nabi (a cidade do profeta) ou simplesmente Medina.

Enquanto em Meca a atividade de Mohammed limitava-se praticamente só à pregação de conversão, em Medina, Mohammed pode desenvolver outras atividades, como a organização religiosa de seu grupo, a liturgia, a jurisprudência, etc. Ao lado disso, Mohammed vai desenvolver um outro talento pelo qual se destaca: a capacidade de articulação política. Ele consegue fazer uma aliança entre os grupos rivais, inclusive grupos judeus (árabes) e colocar-se no comando. As revelações passaram a ter também caráter jurídico na solução de problemas. A tensão com os habitantes de Meca continuou e aconteceram diversas batalhas entre de 622 a 630. Uma batalha importante no ano de 624 consolidou a liderança de Mohammed. Esta foi vencida por seus partidários, apesar de estarem em número bastante inferior. Isto foi interpretado como intervenção de Deus e confirmação do chamado de Mohammed. A aliança com judeus e cristãos se desfaz, sobretudo por questões de fé e de conspiração. Mohammed esperava ser aceito por judeus e cristãos como profeta. O que não foi o caso. Com o rompimento com os judeus, Mohammed mudou a direção da oração: não mais a Jerusalém, mas a Meca. No ano de 627, Meca marcha com um grande contingente de soldados contra Medina e a queda desta estava praticamente certa. Através de um simples fosso de defesa, Mohammed consegue proteger a cidade. Estas lutas sem um vitorioso definitivo, levou a um armistício entre as duas cidades. O acordo foi feito no ano de 628 e permite que os habitantes de Medina pudessem peregrinar a Meca. No ano de 630, os líderes de Meca reconhecem que terão mais a ganhar aderindo ao novo movimento religioso. No ano de 630 Mohammed entra em Meca com seu exército e os habitantes desta entregam-se sem muita resistência. Ele purifica a Caaba de figuras e outros deuses e anuncia a verdadeira (e única) religião para todo o mundo. Por perdoar generosamente seus adversários, Mohammed foi bem aceito em Meca. Continuou, entretanto a morar em Medina. A partir dali organiza a expansão de sua religião, sobretudo através de conquistas de novos territórios e alianças.

No ano 632 fez Mohammed mais uma peregrinação a Meca e nesta cumpriu um ritual que é seguido até hoje pelos muçulmanos em suas peregrinações a Meca. Nesta peregrinação, chamada de peregrinação de despedida fez uma última pregação elencando diversos pontos que se tornaram muito importantes para a religião. Nela destacou especialmente a igualdade entre todos os fiéis e a importância de todos os muçulmanos considerarem-se uma grande fraternidade.

Nos anos após a morte de Khadija, Mohammed teria se casado com 12 mulheres. Morreu no dia 8 de junho de 632, sem deixar descendente masculino. Foi sepultado em Medina. Entendeu-se como servo de Deus, como um profeta em seguimento de muitos outros profetas, cujas mensagens não foram integralmente conservadas com o tempo – assim a compreensão islâmica. O modo de vida do profeta influencia a vida do muçulmano. Há uma grande veneração e consideração para com tudo o que diz respeito à sua vida. Apesar desta veneração, os muçulmanos o entendem sempre como pessoa humana. Não há no Islã qualquer compreensão de Mohammed como algo acima da condição humana. Em torno de sua pessoa surgiram pela piedade popular muitas lendas.

 

b) O Alcorão[1]

Livro fonte para a fé desta tradição religiosa é o Alcorão. O Corão é entendo como sendo Palavra de Deus. Todo o seu texto foi revelado (ditado) por Alá a Mohammed por intermédio do anjo Gabriel. A revelação não aconteceu de uma só vez, mas ao longo de 22 anos: entre 610 e 632. Os muçulmanos entendem a revelação como um processo que acontece em quatro níveis: a) A palavra está com Deus e é eterna como Deus (em linguagem poética chamada “mãe do livro”). b) Desta palavra os anjos (geralmente o anjo Gabriel) tomam parte em tempo determinado e trazem à terra e a compartilham com enviados de Deus. c) O anjo revela ao ouvido do enviado palavra por palavra e este tem por obrigação transmitir estas palavras para a comunidade, sem esquecer ou deixar fora uma só palavra, nem acrescentar alguma palavra sua. d) Pessoas de confiança recolhem o texto e o escrevem. Surge assim o livro como coleção de todas as revelações. Nestes textos não podem ser acrescentadas nenhuma palavra ou modificação nem explicação, pois isto misturaria a palavra de Deus com a palavra humana. Esta forma de revelação não é entendida pelos muçulmanos como exclusiva de sua religião. O mesmo caminho teria sido percorrido nas revelações a Moisés, Davi e a muitos outros profetas, inclusive a Jesus. Nas escrituras que resultaram destas revelações foram, porém imiscuídas outras mensagens pelas pessoas das comunidades e introduzidas modificações pelos fiéis. Por isso Deus decidiu enviar mais uma vez sua revelação e para isto escolheu Mohammed para o qual transmitiu a revelação definitiva, segura contra qualquer falsificação. Mohammed ouviu as revelações e as transmitiu a seus discípulos. A beleza da linguagem da revelação contida no Alcorão impressionou os ouvintes e impressiona até hoje. Os fieis muçulmanos têm do texto um certo temor e por muito tempo não foram feitas traduções dele. Estas hoje são feitas mas não têm autoridade e são chamadas de interpretações.

A palavra ‘Corão’ (quran) quer dizer leitura ou recitação de um texto sagrado. Cada revelação transmitida por Mohammed era chamada de quran, isto é, textos a serem recitados por ele. Com o tempo eram muitas as qurans. Estas foram escritas e recolhidas por amigos do profeta. Estas revelações tiveram início no ano de 610. Durante a vida de Mohammed não houve problema ou confusão com os muitos qurans existentes. Qualquer dúvida poderia ser esclarecida por Mohammed. Após a morte de Mohammed (em 632) e as lutas que se seguiram, ficou claro o problema da confusão que poderia se originar pelo fato da existência dos muitos qurans. No ano de 653 o terceiro Califa Osman (ou Otmã) conseguiu – com a ajuda dos melhores conhecedores da revelação – ajuntar um texto das revelações que foi reconhecido por todos como original e único. Um dos companheiros de Mohammed, Zaid ibn Thabit foi quem fez a reunião das qurans e as colocou por escrito. Foi feito, sobretudo um trabalho no sentido de distinguir o texto das revelações de outros comentários do próprio Mohammed. Este texto passou a ser aceito como o conteúdo único da revelação feita a Mohammed. Todas as outras variantes deveriam ser destruídas. A reunião original ficou em Medina e foram enviadas cópias desta coletânea a diversos lugares. Com o tempo, porém, estas primeiras cópias foram se perdendo. O manuscrito mais antigo que se tem atualmente data de 776. Fica, portanto claro que o Alcorão não foi escrito pelo próprio Mohammed, sobre quem, aliás há duvidas se sabia ou não escrever.

Na época em que foi feita a coletânea das qurans, a escrita arábica não estava ainda plenamente desenvolvida como nos dias atuais. Nela não se escreviam as vogais, de modo que na leitura do texto surgiram dúvidas. Consultavam-se os que conheciam o conteúdo de cor, mas entre ele começou com o tempo a haver variações. Apenas no ano de 1923 os peritos da famosa universidade Al-Azhar (do Cairo, Egito) publicaram um texto com os sinais de vocalizações que tem a pretensão de ser o correto e que esperam ser um dia aceito por todos os muçulmanos.

Como palavra ditada pelo próprio Alá (através do anjo), o texto do Alcorão está na língua na qual o próprio Deus falou. Ali está a palavra de Deus não apenas no sentido da mensagem ou do conteúdo a ser entendido, mas também no sentido linguístico e fonético. Por isso não há para os muçulmanos a possibilidade de se traduzir o Alcorão em outras línguas. Mesmo sob esta resistência foram feitas traduções. A primeira delas para o latim, data de 1143. Hoje está este livro traduzido em muitas línguas, mas nenhuma tradução tem autoridade religiosa para os fiéis. A tradução é somente uma interpretação. A autoridade religiosa (de ser “palavra de Deus”) cabe somente ao texto árabe original.

O texto do Alcorão é dividido em capítulos e versículos. Os capítulos são chamados de Suras ou Suratas (palavra de origem desconhecida) e os versículos de ayat. Ao todo são 114 Suras no Alcorão e cada Sura tem (pelo menos desde o século VIII) um título, geralmente condizente com o tema por ela abordado ou com o seu início. Nos países muçulmanos as Suras são citadas pelos títulos e não pelos números. A ordem na qual se encontram as Suras no livro do Alcorão foi feita pelo próprio Zaid, seguindo um critério muito simples, o tamanho: da maior Sura (288 versículos) até a menor (3 versículos). A primeira Sura é uma exceção nesta ordem e é chamada de al fatiha (aquela que abre) e é uma oração fundamental no Islã[2].

Todas as Suras começam com a mesma invocação a Deus:  “Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso”[3]. Apenas a Sura número 9 é uma exceção. 29 Suras trazem letras após a invocação inicial. O sentido destas letras não é claro.

Os temas dos quais trata o Corão podem ser divididos em quatro grupos: a) A convicção de fé: temas que dizem respeito às convicções e conteúdos de fé, isto é, a fé no Deus uno, a fé nos profetas e no seu enviado, nos anjos, no juízo final, etc.; b) As celebrações, às quais também pertencem o mês de jejum (Ramadan) e a peregrinação a Meca (Hadjj); c) A organização social: sobretudo a organização e o direito familiar; d) As normas moral-éticas, nas quais o muçulmano deve se orientar.

 

c) A religião

1) Compreensão de Deus. “Eu testemunho, não há divindade além de Deus. Eu testemunho, Mohammed é seu enviado”: esta é a profissão de fé dos muçulmanos[4]. A Sura 112 explica melhor a compreensão de Deus: “Fale: Ele, Deus, é único. Ele é eterno. Ele não gera nem é gerado. Nada é igual a ele”. Com isso fica claro: trata-se de uma religião estritamente monoteísta.

A palavra Allah (Alá) utilizada para a divindade era já conhecida com este significado antes de Mohammed. Ela advém de ilah e tem raiz comum com eloah e elohim (hebraico). Allah é composto de al ilaho Deus”. Também o Cristianismo árabe usa esta palavra para Deus, bem como o Judaísmo. Mohammed entendeu-se como um profeta na corrente de muitos que antes dele anunciaram o juízo de Deus e pregaram a conversão. A corrente de profetas começa com Adão e Noé, e passa por muitos outros como Abraão, Moisés, Davi e Jesus e segue até Mohammed, que é entendido pelo muçulmanos como “o selo dos profetas”, isto é, o último profeta. Abraão tem um significado especial para a fé. O Corão exorta ao seguimento da “religião de Abraão” (Sura 4,125).

O estrito monoteísmo seguido pelos muçulmanos tem uma característica interessante que são os chamados “nomes de Deus”. Na verdade não são propriamente nomes, mas sim títulos ou atribuições que caracterizam, descrevem ou qualificam a divindade. “Segundo a teologia muçulmana, os Nomes de Deus – representação vocalizada dos Seus atributos – são quatro mil. Mil desses nomes são conhecidos somente por Deus; mil por Deus e pelos anjos; mil por Deus, pelos anjos e pelos profetas; e mil por Deus, pelos anjos, pelos profetas e pelos crentes. Destes últimos mil, trezentos são mencionados na Torá, trezentos nos Salmos, trezentos nos Evangelhos e cem no Alcorão. Destes cem, noventa e nove são conhecidos pelos fiéis comuns, ao passo que um é escondido, secreto e acessível apenas aos místicos mais iluminados”[5].

No próprio Alcorão consta: “Ele é Allah, o Criador, o Moldador, o Conformador. Seus são os mais belos nomes. Tudo o que está nos céus e na terra o glorifica, e ele é o poderoso, o sábio” (54,25). Estes nomes podem ser classificados de diversas. Assim a classificação há em seis grupos:

- nomes se referem a seu poder e soberania;

- se referem à sua misericórdia e graça;

- nomes se referem à Deus Uno e Absoluto;

- nomes se referem à sua ação criadora;

- se referem à sua dureza e ao castigo;

- se referem a seu papel de regulador das normas morais e juiz.

Aliás, os nomes que mais ocorrem são “o clemente” e “o misericordioso”, com 113 citações.

Numa outra classificação se fala em quatro categorias:

1) Os atributos da essência existencial; 2) os atributos essenciais que sublinham a transcendência; 3) os atributos de qualificação e 4) os atributos de ação.[6]

Em torno dos nomes de Deus desenvolveu-se toda um seção da teologia muçulmana. De certa forma, estes nomes colocam um problema para a teologia, pois por um lado Deus é absoluto, santo (separado do humano) e por outro lado, alguns nomes de Deus dão a ele um certo tom antropomórfico e antropopático (com forma e sentimento divinos). Ou seja, eles representam uma certa contradição. Duas são as funções destes nomes: por um lado eles qualificam a divindade, fazem com que os fiéis conheçam melhor a Deus, tenham maior compreensão; por outro lado o conhecimento destes nomes ajuda os fiéis a trilhar um caminho que os aproxima da divindade. Ou seja, na piedade popular muçulmana, os nomes tem uma função importante.

2) Compreensão de ser humano. Deus é único e todo o ser humano deve dobrar-se (submeter-se) diante dele (isto é Islã). Assim o ser humano encontra a paz (salam), ao tornar-se servo de Deus (abd Allah). Por ser servo de Deus, o ser humano tem um lugar acima de toda a criação. Ele a deve governar (califa). O Alcorão foi dado ao ser humano para lhe mostrar como viver segundo a sua vontade. Diante destas instruções, o ser humano terá que prestar contas no juízo final para a ressurreição dos mortos. A vida do próprio Mohammed mostra como viver o Alcorão. Esta forma de vida exemplar de Mohammed e seus discípulos deve ser seguida e é tida como tradição (sunna).

As regras para a forma de vida foram inicialmente transmitidas de forma oral. Mais tarde foram postas por escrito na Sharia: leis e regras de vida para o muçulmano. Estas são em muitos casos extremamente detalhadas. Esta forma de vida está apoiada nos chamados cinco pilares da adoração: 1o. Testemunho da fé (profissão de fé = Shahada); 2o. Oração ritual cinco vezes ao dia (em árabe, como a profissão de fé = salat); 3o. Ajuda aos pobres (zakat); 4o. Autocontrole e disciplina, sobretudo no jejum - principalmente no Ramadã (saum); e 5o. Peregrinação a Meca (hadjj) que deve ser feita pelo menos uma vez na vida, desde que a família não entre em miséria financeira por isso. Vejamos um poucos mais sobre os Cinco Pilares da Adoração (da prática religiosa):

1o O testemunho de fé (ou profissão de fé – Shahada). A profissão de fé é simples, curta e clara: “Eu testemunho, não há divindade além de Deus. Eu testemunho, Mohammed é seu profeta” (em árabe: La ilah ila Allah wa Muhammad rasul Allah). Esta fórmula é repetida pelos fiéis várias vezes ao dia e está permanentemente a lembrar duas questões centrais da fé muçulmana: há um só Deus e ele revelou-se através do profeta Mohammed.

2o A oração cinco vezes ao dia (Salat). Cada fiel maior de idade e capaz está obrigado à oração ritual cinco vezes ao dia, feita antes do nascer do sol, ao meio dia, à tarde, ao por do sol e antes de dormir. Esta tradição é bastante antiga e remonta ao próprio Mohammed, de seu tempo em Medina, embora no início devam ter sido duas vezes ao dia. O dia é marcado assim pelo ritmo da oração, que o divide em cinco partes. A oração pode ser feita em qualquer lugar, sem exigência de vestes especial. Apenas o lugar e a vestimenta devem estar limpos. Para garantir a pureza do lugar, é comum que os fiéis tragam consigo um pequeno tapete, sobre o qual fazem a oração. Ela pode ser feita sozinha, embora se recomende que a oração seja comunitária. Caso o fiel não consiga fazer a oração na hora certa, compensa mais tarde. Nos países muçulmanos é comum soar o convite à oração (que antigamente era feito pelo muezim, no minarete da mesquita), de modo que todos sabem que está na hora certa. Nos outros países há hoje tabelas de horários ou aplicativos que sinalizam o horário da oração. A Salat é uma combinação de exercícios físicos com fórmulas de orações feitas pelos fiéis voltados para Meca (é costume que em cada mesquita haja um nicho indicando a direção correta). Esta segue um ritmo bem determinado de pelo menos 17 passos (rak’a): 1o Declaração da intenção de oração (ou seja, que fique clara a intenção de fazer a oração determinada para o momento do dia); 2o Levantar as mãos até a altura dos ombros, acompanhada pela fórmula “Alá é grande” (Allah akbar); 3o Abaixar as mãos, pegando com a mão direita o pulso da mão esquerda sobre o abdômen, proclamando simultaneamente a Sura de abertura (Sura no 1 – al fatiha); 4o Inclinação do tronco até a palma da mão tocar os joelhos; 5o Elevação; 6o Prosternação. Para isto, primeiro o fiel se ajoelha, depois toca o chão com as palmas das mãos abertas e depois, inclinando o tronco, toca o chão com a fronte; 7o Eleva-se o tronco até a posição vertical, permanecendo de joelhos e com as mãos sobre as coxas; 8o Repetição da prosternação (passos ou rak’as 3 a 8 – o número de prosternações depende do momento diário que está sendo feito. Oração matinal: dois ciclos; meio-dia e meio da tarde: quatro ciclos; crepúsculo: três ciclos; oração da noite: quatro ciclos). O fiel deve permanecer sempre por um pequeno momento em cada um dos passos da prosternação, fazendo as orações previstas e na passagem de uma posição para a outra pronunciar a fórmula Allah akbar (Deus é grande); 15o Após o final das prosternações prescritas, o fiel permanece de joelhos em oração e recita a profissão de fé; 16o Faz-se então uma oração de bênção e paz do profeta para os fiéis presentes, na qual dirige-se – voltando a cabeça – primeiro aos que estão à direita e 17o depois – votando a cabeça – para os que estão à esquerda. Após este ritual, cada qual pode fazer suas orações particulares. Quando a oração é feita em comum na mesquita, ela é presidida por um imam, atrás do qual todos se colocam em filas. Inicialmente o Imam era o próprio Califa (governador) ou uma pessoa importante na comunidade. Mas esta função não é um sacerdócio. Hoje em muitas mesquitas há um funcionário designado para esta tarefa. Às mulheres é aconselhado participar das orações, mas em filas separadas das dos homens. Mohammed não prescreveu nenhum dia da semana consagrado como é o sábado para os judeus e o domingo para os cristãos. A Sura 62,9, porém, prevê: “Ó vós que credes, quando fordes chamados para as preces de sexta-feira, apressai-vos para invocar Deus e deixai o comércio. É melhor para vós. Se soubésseis!” Por isso a prece de sexta-feira ao meio-dia é tida como o dia da reunião geral obrigatória de oração em comum. Há o costume de nesta oração de sexta-feira haver pregação nas mesquitas, como também nos outros dias especiais. A sexta-feira não é, porém, necessariamente um dia livre de trabalho. Há o costume em países muçulmanos de se poder fazer da sexta-feira um dia livre. Das cinco obrigações do Islã, a do Salat (a oração cinco vezes ao dia) é sem dúvida a mais marcante para os fiéis e une os muçulmanos numa grande fraternidade.

3o O jejum (saum, prescrito para o mês de Ramadã = nono mês do ano muçulmano). Junto às orações, é o jejum um sinal da importante fidelidade religiosa. O jejum perdoa os pecados. O jejum de um mês equivale a 70 meses de outras obrigações, diz a tradição. A prescrição do jejum encontra-se no próprio Alcorão (Sura 2,183-187). Ali também se encontra a indicação do mês de jejum: Ramadã. Ramadã é o mês da paciência e a paciência é a recompensa do paraíso. É também o mês da reconciliação, da misericórdia. O jejum é prescrito a todo muçulmano maior de idade e consiste no seguinte: Do nascer ao pôr do sol (quando se consegue distinguir um fio preto dum branco) o muçulmano não toma nenhuma bebida nem comida (e não fuma) e se abstém de relações sexuais. Depois do por do sol, isto é permitido, até o alvorecer. No 27o dia é lembrado o dia da primeira revelação a Mohammed. O final do mês é festejado com três dias de festa (festa do açúcar). Pelo fato de se orientar pelo ano lunar, na comparação com o calendário gregoriano (calendário oficial no Brasil), o Ramadã começa cada ano 11 dias antes do ano anterior pela contagem do ano solar.

4o A ajuda social (aos pobres = zakat). No Islã, a ajuda aos pobres não é entendida como uma ação espontânea, mas sim um dever religioso. O dever de ajuda aos pobres está diretamente ligado à fé e à oração (Sura 107). Este dever está presente nas revelações: “O homem foi criado impaciente. Quando a desgraça o toca, desanima; quando a felicidade o toca, ensoberbece-se, exceto os que oram e perseveram na oração e parte de seus bens destinam, como por direito, ao mendigo e ao deserdado...” (Sura 70,19-25). Este dever religioso recebera críticas já no tempo de Mohammed, como a Sura 9,58-60 deixa transparecer: “Entre eles há os que te censuram com respeito à distribuição dos donativos. Quando são incluídos neles, aprovam. Quando não o são, indignam-se. Antes tivessem aceito o que Deus e Seu Mensageiro lhes concederam, dizendo: ‘Basta-nos Deus. Ele e Seu Mensageiro nos agraciarão de Sua abundância. A Deus nos submetemos’. Os donativos pertencem aos pobres, aos necessitados, aos viajantes, aos cobradores, aos neófitos. Destina-se a libertar os cativos e os devedores e a promover a causa de Deus. Assim Deus o decretou. Deus é conhecedor e sábio”. Quem possui bens é obrigado a uma espécie de imposto social destinado a pobres e necessitados, aos que trabalham em serviços sociais, para ajudar neo-convertidos que se encontram em dificuldades financeiras, para quem se coloca a serviço da mensagem e com isso não tem outro ganho e para viajantes em necessidade. Os destinatários dos bens são chamados no Alcorão de al-mustad’afûn que é traduzido por deserdados e significa literalmente “os que estão em situação de fraqueza”. No início do Islã, a esmola era um costume voluntário, mas rapidamente se torna um dever religioso obrigatório. Além desse dever, é bem vista na piedade muçulmana a doação de ajuda aos pobres de forma espontânea e voluntária (a chamada sadaqa). Segundo o costume antigo (introduzido pelo califa Abu Bakr), o Zakat deve ser pago sobre a) a colheita, b) as frutas, c) o gado, d) o ouro e a prata e e) as mercadorias de comércio. A regra básica é a seguinte: cerca de 2,5% dos bens e ganhos com o trabalho, o comércio e a indústria (a ser pago mensalmente) e 10% da colheita ou do gado (a ser pago então anualmente). No caso dos estados islâmicos, não é fácil distinguir esta ajuda social do imposto estatal. Mas trata-se acima de tudo de um dever moral e religioso. Com isso há uma distribuição de bens entre os adeptos da religião, de tal modo que a solidariedade seja garantida.

5o A peregrinação a Meca (hajj) e festa do sacrifício. A peregrinação a Meca está prevista no Alcorão (Sura 3,96-97).  Esta peregrinação deve ser feita pelo menos uma vez na vida e é prescrita a homens e mulheres. Não deverá, porém ser feita se a pessoa não tiver reservas para arcar com as despesas da viagem, se a peregrinação colocar em dificuldades de sustento os membros da família do peregrino e se o caminho a ser percorrido não for seguro (representar perigo para a vida do peregrino). Os muçulmanos que já fizeram a peregrinação recebem o título honorífico de peregrino. Dois meses depois do Ramadã começa o tempo de peregrinação. Em Meca se encontram peregrinos de todo o mundo, fazendo com que todos se sintam membros de uma única comunidade (a Umma, da qual falou Mohammed em sua última pregação). Meca é lugar sagrado para os muçulmanos: nela não se pode derrubar nenhuma árvore nem matar nenhum animal (a não ser nos casos previstos). A peregrinação segue todo um ritual que começa já quando da entrada na cidade, recitação de orações que serão repetidas diversas vezes durante a permanência na cidade. O peregrino deve usar uma veste especial, abster-se de relações sexuais e não cortar o cabelo durante a peregrinação. O ritual segue os seguintes passos: 1o. O peregrino dá sete voltas ao redor da Caaba. A Caaba é uma construção retangular de cerca de 12X10m, com 15m de altura, cujos cantos estão voltados para os pontos cardeais. No canto oriental (leste), a cerca de 1,5m de altura, está encravada uma pedra preta, que é tida como um sinal especial. As paredes externas da Caaba são revestidas de tecido (tapete) de brocado, sobre o qual estão bordados dizeres piedosos. Este tecido é trocado uma vez ao ano e o costume é que o pano venha do Egito. Na parece nordeste da Caaba, a uma boa altura, está uma porta (ou janela) para se poder entrar no edifício, que está totalmente vazio (desde que Mohammed a purificou). Segundo a tradição, a Caaba teria sido fundada pelo próprio Adão e após o dilúvio foi restaurada por Abraão. Em frente ao canto oriental da Caaba está o “poço de Zemzem”, de 42m de fundura e cuja água é tida como milagrosa. Segundo a tradição, este poço foi aberto pelo anjo Gabriel para dar de beber a Agar. Após as voltas à Caaba, segue-se a oração na Praça de Abraão. 2o. Os peregrinos passam sete vezes entre as elevações al-safa e al-merwa (como teria feito Agar, mulher de Abraão à procura de água); 3o. No sétimo dia jogam-se pedras nas três colunas em Mina, recordando que Abraão resistiu à tentação do demônio; 4o. O ponto alto da peregrinação é o sacrifício de animais. Este sacrifício ritual é feito ao mesmo tempo também pelas comunidades muçulmanas espalhadas no mundo. Ao todo a peregrinação dura 13 dias, apesar de haver conselhos para se fazer apenas a “pequena peregrinação (com menos obrigações).

3) O direito e a lei. A Sharia (a palavra significa “caminho que leva ao Oásis ou ao bebedouro”) é a lei dada por Deus. Quem a segue tem a vida. Deus deu a lei, para que o ser humano governasse a terra conservando a ordem colocada por ele. A lei é um sinal de misericórdia de Deus, que sempre de novo mostrou o caminho (através dos profetas). A Sharia foi elaborada com o tempo. A fonte básica é o Corão, depois a vida e os ditos de Mohammed, depois a vida de seus companheiros. No século IX terminou o processo de formação da Sharia, que se tornou a segunda fonte obrigatória para o direito muçulmano, depois do Alcorão. Mas de forma alguma a Sharia é considerada palavra de Deus ou tem alguma aura de revelação. Casos não previstos em nenhuma destas duas fontes são resolvidos por analogia (considerada uma terceira fonte), em concordância com as fontes. O quarto princípio é a decisão da comunidade, quando nada está previsto. Estas leis têm, porém interpretações diferentes, conforme a escola que seguem. Existem quatro escolas mais famosas de interpretação da lei, cada qual iniciada por algum mestre antigo. São elas a escola dos seguidores de Malik ibn Anas (Malikitas), de Abu Hanifa (Hanafitas), de Mohammed asch-Schafi’i (Schafiitas) e de Ahmed ibn Hanbal (Hanbalitas). As diferenças entre as diversas escolas não está tanto no conteúdo, mas sim no método de encontrar a interpretação da lei. Estas escolas podem ser também consideradas – para usar um jargão – mais liberais ou mais rigoristas na interpretação da lei. Além disso, elas influenciam determinadas regiões islâmicas. Assim a escola Hanafita (considerada mais liberal) influenciou mais a Turquia, enquanto a escola Hanbalita (mais rigorista) domina na Arábia Saudita. As leis são divididas em cinco categorias: obrigatório, proibido, recomendado, desaconselhado e permitido (no sentido neutro).

4) A mulher e a família. Segundo o Corão, homem e mulher têm o mesmo status perante Deus e podem igualmente alcançar o paraíso. Têm, porém direitos e deveres diferentes, que mostram uma estrutura claramente patriarcal: somente o homem é considerado plenamente maior de idade. As mulheres são excluídas de diversas funções públicas, seu direito à herança é somente a metade da do homem, diante de um tribunal é preciso o testemunho de duas mulheres para valer como o de um homem. Por outro lado, as mulheres têm direitos, o que para época foi um enorme avanço. O Islã trouxe uma melhora sensível à situação da mulher, que têm agora direitos e não mais é simplesmente propriedade do marido como era o costume entre os beduínos. A esposa tem direito ao sustento e no contrato de casamento deve ser colocada a soma de indenização a ser paga em caso de separação. O casamento é resultado de um contrato entre o noivo e o responsável pela noiva (pai, avô, tio, irmão...). Cada homem pode casar-se com até quatro mulheres (mas a poligamia não é tão comum, a não ser entre os homens de mais posses) e pode também pedir a separação. A mulher, porém, pode casar-se com apenas um homem. Após a separação ou a viuvez há um período de espera para a mulher antes de contrair novo matrimônio. A mulher tem o direito de pedir a separação em dois casos: a) quando ela faz a devolução do dote e b) quando o homem é incapaz de a sustentar (é preciso um processo no tribunal). Há diversos impedimentos para o casamento: o parentesco (inclusive “de leite”, isto é, entre parentes adotivos), desigualdade social (principalmente quando o homem é de uma classe inferior) e diferença religiosa (Sura 2,221). O homem tem direito de disciplinar a mulher. Em certos países ou em situação de minoria, estes costumes tendem a adaptar-se à situação particular.

5) Morte e vida eterna. No Islamismo há fé na ressurreição, realização (paraíso) ou frustração, no juízo final. O critério é o cumprimento da ordem estabelecida por Deus e revelada através dos profetas (judaísmo e cristianismo [religiões do livro] estão incluídos nesta possibilidade). Segundo a tradição, um anjo irá perguntar aos mortos: Quem é teu Deus?, Quem é o Profeta? e Qual a tua religião? A resposta certa irá ajudar no tempo de espera ao juízo final. Quem perder sua vida na guerra santa (o mártir) ganha ipso facto o paraíso. O agonizante não deve ser deixado sozinho e deve-se tentar colocar a pessoa com o rosto voltada para Meca. Após a morte, segue-se um ritual que leva ao sepultamento: o corpo é lavado, envolvido em um lençol branco (sem caixão), feitas orações até o túmulo [para onde é carregado por muitas pessoas], colocado na sepultura (o sepultamento é função masculina) sobre o lado direito, com o rosto para Meca. A sepultura deve ser simples.

6) Os artigos de fé da tradição muçulmana. Diz-se, de forma resumida, que os muçulmanos acreditam a) no Deus único; b) na existência de anjos; c) no Sagrado Alcorão, revelado pelos profetas; d) no juízo final e e) na ressurreição.

 

d) Desenvolvimento e situação atual.

1) O problema sucessório

Com a morte do profeta Mohammed, no ano 632, coloca-se a questão da sucessão. O profeta era a liderança natural e inconteste da religião nascente. Há aqui duas questões bem distintas: a questão da revelação (o fato de Mohammed ser “o profeta”) e a questão da sucessão “no comando” (Califa) de seu grupo, ou seja, a questão política. A primeira questão não gerou nenhuma controvérsia entre os muçulmanos: com a morte de Mohammed, estava encerrado o período da revelação. Mohammend é considerado, inclusive, o “selo dos profetas” (o último profeta) e isto está no Alcorão (33,40). A questão problemática foi a da sucessão na liderança do grupo. Uma afirmação daquele que vai ser o primeiro Califa, Abu Bakr, a respeito da morte do profeta, não deixa de ser interessante: “Se alguém adora Mohammed, Mohammed está morto. Se alguém adora a Deus, Deus vive e nunca há de morrer”. Com isto fica claro que Mohammed não tem nenhum status religioso diferenciado. Deus é o centro da fé. A ele – e somente a ele – se deve adorar. Mesmo que Mohammed tenha sido uma figura de fundamental importância, seu chamado profético é entendido como o chamado a uma pessoa humana. Ele é “o profeta”, nada mais. De tal modo que se poderia inclusive afirmar que para o muçulmano a importância está no caráter profético de Mohammed (enviado/escolhido de Deus) e não em seu caráter pessoal. Por isso é inclusive de certa forma irritante a um muçulmano ser chamado de maometano (totalmente diferente dos cristãos, por exemplo, cujo nome provém do fundador).

Se então está claro que não haverá sucessão no que diz respeito ao caráter profético (ou de revelação), o mesmo não se dá quanto à sucessão no comando do grupo. O profeta não deixara sucessor masculino, nem havido dito algo que pudesse ser interpretado como decisivo na questão da sucessão. Dois grupos tinham pretensão da sucessão: por um lado aqueles que entendiam que o Califa deveria vir do grupo dos companheiros do profeta, ou seja, aqueles que tinham estado com ele o tempo todo e faziam parte do núcleo em torno de Mohammed; por outro lado, aqueles que achavam que a questão da sucessão deveria ser decidida levando em conta a questão familiar, a partir do parentesco e tinham como “candidato nato” a Ali, primo e genro do profeta. Estes, favoráveis a Ali, são chamado de shi´at Ali (partidários de Ali, mas tarde chamados de Xiitas). O grupo dos companheiros do profeta conseguiu, no entanto se impor e o primeiro Califa foi Abu Bakr, da tradição do profeta (= sunna, dos que foram chamados mais tarde de sunitas).

A grande divisão entre os muçulmanos teve ali o seu início. Abu Bakr foi eleito e contava a seu favor sobretudo o fato de ter sido um dos primeiros a ouvir a revelação feita a Mohammed e nela ter acreditado. Ele governou de 632 a 634. Seu sucessor foi Umar ibn al-Chattab (634-644). Este expandiu enormemente o domínio muçulmano. Estabeleceu regras importantes para o modo de vida (a chamada tradição, sunna), tendo por base o Alcorão e a vida do profeta. Também estabeleceu regras para lidar com os grupos subjugados. Além disso, devemos a Umar a fixação da contagem a partir da hégira (quando começa a contagem do ano muçulmano). Morreu assassinado. Seu sucessor Uthman ibn Affan (644-656) destacou-se, sobretudo por ter sido o califa que reuniu e colocou por escrito as revelações do profeta, fazendo surgir assim o livro do Alcorão. Morreu também assassinado, enquanto recitava o Alcorão. Foi eleito então para o califado o primo e genro do profeta, Ali ibn Abu Talib (656-661). Com sua eleição, parecia que a divisão do grupo estava para ser superada. Partidários de Uthman e de Aisha (a viúva do profeta) contestavam a eleição. Os partidários de Aisha contestavam desde o início o direito de Ali ao califado. Isto levou ao enfrentamento violento entre os dois grupos, tendo Ali ganho a chamada “batalha dos camelos”. Após a batalha, Ali quis atacar também Mu´awiya, o senhor da Síria, da parentela de Uthman. Após se negar a submeter-se a um julgamento sobre sua eleição, Ali perde o apoio de muitos companheiros e Mu´awiya se declara califa. Ali foi assassinado quando entrava em uma mesquita para a oração em 661. Com isto, o califado ficou com Mu´awiya, que fez seu filho Yazid sucessor, fazendo do califado uma questão hereditária (a dinastia dos Omíadas). Há com isto uma mudança radical na forma de entender esta função, de maneira que os muçulmanos chamam os quatro primeiros de “califas bem guiados”, ou os “califas piedosos”, no sentido de reconhecer neles uma legitimidade não reconhecida aos seguintes. Com a morte de Ali, termina o que se pode chamar de “período áureo” do início do Islamismo.

2) Os Xiitas. As diferenças entre as correntes sunita (tradicional) e xiita não se refere à fé, nem à oração ou liturgia ou obrigações ou proibições. As diferenças encontram-se na forma de conceber a hierarquia, à interpretação do Corão e à jurisprudência. O xiismo tem sua origem ainda na discussão sucessória após a morte de Mohammed em 632. A maioria das pessoas muçulmanas com influência havia decidido nomear um Califa para a liderança política e religiosa, mas que não tivesse nenhuma autoridade legitimada divinamente. Uma minoria não concordou com esta decisão e era da opinião que Deus mesmo iria indicar o sucessor, da descendência de Mohammed. Viam em Ali, primo de Mohammed, o Califa designado por Deus. Estes foram chamados pelos tradicionais (sunitas) de shi’at Ali (do partido de Ali). Por um pouco de tempo, Ali exerceu o califado sobre todos os muçulmanos, mas foi assassinado em 661, cinco anos após ter assumido o califado. Os filhos de Ali (Hassan e Hussain) não conseguiram ser os sucessores, pois o poderoso senhor sunita de Damasco tomou o califado e o ligou à sua sucessão hereditária. O assassinato de Hussain no ano de 680 trouxe a separação definitiva do grupo de xiitas da liderança dos sunitas. Até hoje a morte de Ali e Hussain são celebradas pelo xiitas como o dia dos mártires e há peregrinação para Kerbela (Iraque), onde está o túmulo de Hussain (fazem o ritual de ferir-se pela flagelação). O que caracteriza a fé xiita é a posição do Imam, do qual se crê ser partícipe da sabedoria de Deus para indicar o caminho da salvação. Todo o Islamismo conhece o título de Imam como aquele que puxa a oração. Para os xiitas, o Imam tem um significado especial, visto que é reconhecido como o único líder legítimo da religião e descende da parentela de Mohammed. O Imam é colocado pelo próprio Deus. Ele tem autoridade para interpretar o Corão. Como houve interrupção na linha de descendência de Mohammed por desentendimentos, o Imam é nomeado, mas com autoridade divina. Acredita-se que o último legítimo Imam descendente de Mohammed não morreu, mas foi arrebatado para um lugar sem tempo e voltará como Imam Mahdi no final dos tempos. Na ausência de Imam, os mudjtahidun (doutores da lei) interpretam legitimamente o Corão. Com isso a interpretação xiita do Corão é muito mais flexível que na tradição sunita. Os xiitas viveram muito na oposição e foram perseguidos pelos senhores sunitas. Isto deu à religião um tom de religião da resistência. Também a esperança da volta do Imam marca o xiismo. Dentro do próprio xiismo surgiram dissidências, com estruturas diferentes (como a importância do Aiatolá = Sinal de Deus). Cerca de 10% dos muçulmanos pertencem ao ramo do xiismo.

 

e) Islã no Brasil

O Islã entrou no Brasil através da África, trazido por escravos que para o país foram traficados. Tratava-se de povos africanos que haviam sido islamizados. O principal grupo étnico africano muçulmano trazido ao Brasil foram os Haussá. Além deste, há o grupo dos Mandinga e dos Peuhl. Os escravos muçulmanos eram em sua maioria conhecidos com a designação de Malês. Diversos estudos sobre a escravidão destacam que os muçulmanos tinham uma forte consciência de sua identidade religiosa própria e especialmente devido a este fator, foram os protagonistas de muitas revoltas no século XIX, entre as quais se destaca o grande levante de 1835 na Bahia, conhecido como a Revolta dos Malês. Nos documentos dos revoltosos apreendidos pela polícia foram encontrados escritos em árabe e versos do Alcorão. Além da Bahia, o Rio de Janeiro também recebeu escravos muçulmanos e há notícias inclusive da venda de exemplares do Alcorão em livrarias do Rio de Janeiro em 1869. Diversos fatores fizeram com que a presença muçulmana no Brasil tenha diminuído muito ainda no tempo da escravidão: o massacre de pessoas envolvidas nas revoltas, a deportação de escravos revoltosos e a volta para a África de negros muçulmanos que haviam conseguido a carta de alforria. Desta presença muçulmana vinda através dos escravos sobraram poucos vestígios. Entre eles as palavras mandinga (que vem do costume destes escravos de escrever versos do Alcorão e trazer junto ao corpo para pedir proteção) e salamaleque (que vem da saudação assalamo alaikum [a paz esteja contigo]).

A presença do islã no Brasil atualmente deve-se menos à introdução de escravos muçulmanos e mais à imigração, sobretudo de sírios, libaneses e turcos que começaram a chegar a partir de 1860 até o início da república. Somente entre 1890 e 1930, entraram cerca de 74 mil sírio-libaneses no Brasil. A maioria deles era cristã, mas havia muitos muçulmanos. O número de pessoas que se declararam muçulmanas no censo demográfico do ano 2000 (IBGE) foi de 27.233 indivíduos e este número subiu para 35.167 no censo de 2010, sendo que os maiores núcleos estão nas cidades de São Paulo e de Foz do Iguaçu (PR). Mas as comunidades muçulmanas contestam este número tão reduzido de fieis no Brasil.

 

f) Outras observações sobre o Islã

- As palavras Islã e Muçulmano: Islam quer dizer submeter-se (a Deus) e muslim, aquele que se submeteu (a Deus).

- Sufismo ou Movimento Sufi. Movimento místico dentro do Islã, mas com influência de outras religiões. Os sufis formavam comunidades religiosas. Chegaram a ter grande influência por causa de senhores (Xeques) terem por vezes adotado esta espiritualidade.

- Jihad (esforço ou guerra santa). Esta palavra causa muita confusão por ter sido traduzida simplesmente como “guerra santa”. A palavra significa esforço para as coisas de Deus e pode designar tanto a luta externa como interna. A expansão armada do Islamismo deu a esta palavra uma conotação de guerra.

O período colonial não destruiu o Islã, apesar de quase todos os países muçulmanos terem sido ocupados por países colonizadores europeus.



[1] Alcorão ou Corão. As duas grafias estão corretas. Alcorão é a mesma coisa de “o” Corão (al é o artigo “o”). Muitas palavras provenientes do árabe incorporaram o artigo à palavra (alambique, alface, alfândega, etc.), de modo que é correto escrever “o Alcorão”, tanto quando “o Corão”.

[2] Há tentativas de conseguir classificar as suras por ordem de revelação, o que daria uma ideia de evolução religiosa. Uma destas classificações pode ser encontrada na tradução brasileira ao Alcorão feita por Mansour Challita e publicada pela Associação Internacional Cultural Gibran.

[3] Isto na tradução de M. Challita. Na tradução de Bento de Castro, encontra-se “Beneficente e Misericordioso”.

[4] Esta fórmula de fé pode ser traduzida de diversas maneiras, mas o sentido é o mesmo: “Eu testemunho que somente Deus é Deus. Eu testemunho, Mohammed é seu profeta”; “Eu testemunho que há um só Deus; eu testemunho que Mohammed é seu profeta”; “Eu testemunho que Deus é um só; eu testemunho que Mohammed é seu profeta”. Por vezes se encontra a tradução “Eu testemunho que somente Alá é Deus”, mas ela não é correta, dado que Alá não é o nome próprio de Deus para os muçulmanos, mas sim a palavra Deus, no sentido de Deus único.

[5] MANDEL, G. Os 99 nomes de Deus no Alcorão. Petrópolis: Vozes 1999.

[6] MANDEL, G. Os 99 nomes de Deus no Alcorão. Petrópolis: Vozes 1999, p. 13.