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Volney Berkenbrock
História das Religiões - Cap. 6: O Judaísmo PDF Imprimir E-mail

 

3.5 O Judaísmo

 

O que é um judeu? O que forma a identidade judaica? Pergunta que pode receber diversas respostas:

- Uma comunidade religiosa, cujo centro é a fé num único Deus, o Deus de Israel (Shemá Israel);

- Uma comunidade de descendência dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, portanto, uma comunidade étnica, antepassados comuns;

- Uma construção que se deu por um processo espiritual (Martin Buber), de tal forma que o pertencimento à comunidade judaica é uma questão de consciência ou de confissão;

- Uma definição externa, para a qual o antissemitismo muito contribuiu, de tal forma que é judeu muito mais quem é visto como tal (Sartre: “O judeu é judeu porque a sociedade o vê como judeu”).

Cada uma destas respostas tem sua razão de ser. E não há resposta definitiva. O que parece estar fora de discussão é que o que se entende por judeu (independente do que seja) está ligado à história de um povo, do qual falam os assim chamados textos bíblicos. O termo Judaísmo, porém, é relativamente tardio na história e vai aparecer apenas no tempo da helenização da palestina, quando este território está sob o governo dos selêucidas. No texto bíblico hebraico este termo não aparece. Ele aparece apenas no texto bíblico do cânon católico, no texto deuterocanônico do Segundo Livro de Macabeus (2,21: “as manifestações celestes em favor dos intrépidos guerreiros que lutaram zelosamente em defesa do judaísmo e que por isso, não obstante seu pequeno número, reconquistaram o país”), quando do contexto revolta dos hasmoneus contra os selêucidas.

Para se falar, pois de Judaísmo, faz-se necessário falar antes de um pré-judaísmo, visto que este nome surge tardiamente, mas a história desta tradição religiosa é muito anterior à constituição deste nome.

 

a) História: pré-judaísmo

Muitas são as hipóteses sobre a formação deste povo, que com o passar do tempo vai recebendo, inclusive no texto bíblico, um nome diferente, passando de hebreus, para israelitas e depois judeus. O nome “povo de Israel” parece, porém, ser a expressão mais abrangente e recorrente nos textos antigos, por isso a vamos usar com mais frequência. Vamos seguir aqui uma hipótese comum para a origem deste povo, sabendo que muitas pesquisas colocam por vezes isto em questão.

Há uma grande discussão sobre o quando começaria a história do Judaísmo, ou seja, não somente sobre o quando datar historicamente o início da história religiosa disto que mais tarde irá ser chamado de religião judaica, mas sobre o que deveria ser considerado início: a criação, descrita no livro do Gênesis? A saga do patriarca Abraão? Moisés, a saída do Egito e a conquista da chamada Terra Prometida? Ou o período imediatamente anterior ao tempo da monarquia? Se há poucos que defendem que se deveria começar pela história da criação, não são poucos os que defendem que somente com a organização que levou à monarquia é que se pode pensar em dados mais concretos para se falar na história religiosa um pouco mais unificada deste povo[1]. Outro problema correlato é o das fontes para esta história. Há muito pouco material histórico extrabíblico para o tempo antigo. E mesmo sabendo que as informações do texto bíblico contêm elementos históricos interessantes, eles não podem ser lidos simplesmente como um livro historiográfico, por uma série de motivos: seu interesse é teológico, a sua composição de dá por muitas mãos (às vezes intervenções tardias), as informações (pretensamente) ali contidas foram escritas por vezes séculos depois de que os fatos teriam (se é que teriam) ocorrido, etc. Mas é preciso começar por algum lugar... então o ponto mais comum de início é a história dos chamados patriarcas[2]. E uma datação disto – embora imprecisa – gira por volta do século XVIII a.c.c. É por ali que iremos começar a traçar as considerações, deixando de lado a discussão se isto seria o mais correto ou não.

A fundação do povo de Israel é o resultado de um longo processo de aliança entre diversas tribos, entre diversas etnias ou diversos grupos culturais, inclusive com concepções diferentes de divindade. Na origem do povo de Israel estariam grupos (por vezes chamados de tribos) denominados hebreus. A origem da palavra hebreu não é clara e não designaria necessariamente um povo. O termo adviria do egípcio hapirus e significaria, segundo diversos estudiosos, “gente sem pátria”, “pessoas sem terra” ou mesmo “fora da lei”. Segundo esta compreensão, o termo não indica um grupo do ponto de vista cultural, linguístico ou étnico, mas uma condição socioeconômica. Tratava-se especialmente de três tipos grupos.

Um grupo é formado por pessoas que viviam no país de Canaã e participavam da vida dos cananeus. Tanto se colocando como seus empregados (trabalhadores volantes), como também participando de sua vida religiosa, cujo centro encontrava-se na cidade de Siquém, no alto da montanha, onde os cananeus cultuavam o Deus El Berith (Deus ou Senhor das Alianças). Viviam entre os cananeus, mas não eram cananeus de origem.

Os outros dois grupos seriam compostos de tribos que imigraram para a Cananeia, com duas origens diferentes. Dentre estas tribos havia aquelas que tinham vivido no deserto. Eram tribos nômades, que sobreviviam na divisa entre o deserto e a terra fértil, basicamente com a economia à base do gado miúdo (cabras e carneiros) e do pequeno comércio. Andavam errantes à beira do deserto, sempre à procura de melhores pastagens para seus rebanhos. Não formavam um só grupo, mas diversos clãs e famílias, não necessariamente aparentados entre si.

O outro grupo de tribos era advindo do Egito, de onde havia fugido da escravidão do Faraó. Estas traziam consigo a fé num Deus que inspirara o líder Moisés a organizar a fuga, num Deus que propiciara a sua libertação, segundo a tradição de fé. As tribos originárias do deserto tinham em sua tradição o culto a um Deus que era adorado no Monte Sinai e que selara uma aliança com o povo prometendo a eles terra e liberdade. As tribos que viviam no meio dos cananeus contavam de seu antepassado Abraão, a quem Deus tirara de sua terra e mandara vir para esta região, fazendo a ele a promessa de terra e descendência.

Estas tribos uniram-se aos poucos para conseguir se estabelecer na terra e com esta união foram formando um único povo, com o nome de Israel. A base de fé desta união de diversas tribos é o Deus das alianças, que prometera em todas as tradições terra e liberdade (autonomia). O texto bíblico conserva a diversidade religiosa na origem desta unificação e mostra que são diversos os nomes que se usam para o próprio Deus: nalgumas tradições fala-se em El Sebbaoth (o Deus dos exércitos), noutras em El Shaddai (o Deus dos lugares altos), noutras em El Berith (o Deus das alianças), noutras Elohim (o Deus dos Deuses). As tribos vindas do deserto adoravam o Senhor (Adonai), cujo nome não se pronunciava (YHWH, Javé), divindade cujo nome se origina provavelmente do culto dos madianitas.

Também as formas de prestação de culto eram diversas. Os textos bíblicos antigos falam em formas de adoração como o sacrifício de animais e o derramamento de sangue em honra ao Deus; fala em oferendas de frutos da terra (frutas e cereais); fala no costume de se fazer um amontoado de pedras e se adorar a Deus colocando algo sobre elas; fala num outro costume de se cortar animais ao meio e passar por entre os pedaços pronunciando juramento (Gn 15,8-12). Também ao recolher as orações do povo, a Bíblia é bastante includente. Há Salmos de origem cananeia (ex. Sl 19 e 29) e de origem egípcia (Sl 104).

A formação do povo de Israel é – como foi descrito acima em poucas palavras – um grande e longo processo de unificação, um processo verdadeiramente de diálogo inter-religioso de séculos, no qual muitos elementos diferentes estavam presentes, mas do qual resultou uma relativa unidade de fé. Nesta unidade, muitos elementos foram incorporados e muitos outros foram rejeitados. Na Bíblia lemos passagens que deixam claro que elementos diversos foram integrados no processo de formação do povo. Assim a serpente de bronze foi aceita (a serpente de bronze era o símbolo de uma divindade cananeia) como símbolo de Deus que cura (Nm 21); já o bezerro de ouro não foi aceito, mesmo tendo sido feito pelo próprio povo. Não era o símbolo de Deus, mas sim da riqueza? Como o bezerro de ouro, muitos outros deuses de povos vizinhos também foram rejeitados, como Baal, Moloc, as divindades do Egito e Babilônia. O critério para a aceitação dos elementos parece ter sido a participação do respectivo povo (tribo) no processo de se conseguir terra para se estabelecer.

A conquista da terra não gera logo uma unidade político-social, muito menos uma unidade religiosa. Há um período intermediário, onde lideranças ora daqui, ora dali tomam a iniciativa de defender o povo. É o tempo relatado nos textos bíblicos como o dos juízes. O processo de unificação começa a ficar mais claro quando do estabelecimento da monarquia. Apesar de o primeiro rei, Saul, não ter sido feliz na condução do processo de unidade, a tendência monárquica continua e tem em Davi e Salomão duas personagens que unificam o povo. Esta unidade é frágil e dura apenas por dois governos: Davi (1010-970 a.c.c.) e Salomão (970-931 a.c.c.). Na monarquia de Davi e Salomão, a questão religiosa passa a ter alguma importância para a coesão do povo. Assim Davi cria uma capital, Jerusalém (a Jebus, conquistada dos jebuseus) e leva para lá – segundo tradição – dois símbolos religiosos: a Shekiná (a tenda de Deus) e a Arca da Aliança (uma arca que continha as tábuas da lei). Salomão aprofunda esta importância religiosa na centralização da monarquia, construindo um templo. Este será, mais tarde, símbolo do culto ao Deus único. No tempo de Salomão, é entretanto um elemento importante como símbolo de unidade (ou de tentativa de unidade) religiosa. Esta unidade, tanto política quanto religiosa, é, no entanto muito fraca, dado que após Salomão vem a divisão no reino em Reino da Samaria (Norte) e Reino de Judá (Sul).

A divisão é tanto política quanto religiosa. O reino do Sul centra mais e mais sua religião em Jerusalém e seu Templo, tido como morada do próprio Deus. O Deus que mora no Templo tem algumas características: é um Deus pessoal (tem inclusive um nome: Javé), é o Deus que libertou do Egito, é o Deus santo e o Deus que caminha junto com o povo (defendendo a justiça e o pobre). O Reino do Norte centra seu culto no monte Garizim (perto de um antigo centro de culto dos cananeus: Siquém). Ali foi construído o templo dos samaritanos. Este passou a ser o ponto de referência religiosa para os samaritanos, mesmo após a destruição deste templo em 128 a.c.c. No tempo de Jesus ainda havia esta rivalidade entre judeus e samaritanos por causa do centro de orações e até hoje é o monte Garizim lugar de orações dos samaritanos.

Após a divisão, o Reino do Norte subsistiu por um tempo, mas foi enfraquecendo e por conta de alianças erradas com o Egito, caiu finalmente em 722 diante dos assírios comandados por Salmanasar V (a conquista já começara com Teglatfalasar). O Reino do Norte (ou Reino da Samaria) nunca mais veio a se recompor. O Reino do Sul (ou Reino de Judá) sobreviveu um pouco mais (com alianças precárias) e foi finalmente derrotado pelos babilônios em 587, comandados por Nabucodonosor II. A elite foi deportada para a Babilônia e em 538 pode voltar, graças ao Edito de Ciro, rei da Pérsia.

 

b) Formação do Judaísmo

A formação e consolidação do Judaísmo propriamente dito começam a acontecer durante o exílio babilônico (587-538 a.c.c.) e a rigor só a partir dali é que se pode falar em Judaísmo. Este se formou com a exclusão de certas tradições e o centramento religioso em uma única tradição religiosa. Este período de “formação do judaísmo”, que começa durante o exílio babilônico, continua sob o domínio persa (até 333). Alguns elementos são característicos deste período e vão ser fundamentais na consolidação do Judaísmo.

A Escritura. Há ali a transformação em religião de escritura (religião do livro): reconhecimento do Pentateuco como Tora (a Lei). Este conjunto de cinco textos (daí a palavra Pentateuco) recebe neste período, boa parte de sua redação e – em muitas passagens – reelaboração. Existiam já outros textos, mas não eram aceitos por todos como escritos sagrados, o que vai acontecer somente mais tarde. Como a Torá não previa tudo, formou-se uma gama de leis ao lado dela.

A Religião Familiar. Dado que na Babilônia os fieis não tinham nenhum templo para a realização de seus rituais, as tradições religiosas passaram a ser mais cultivadas em âmbito familiar. O núcleo familiar passou a ter grande importância tanto na manutenção da religião, como em sua tradição de pai para filho.

A Sinagoga. Outro elemento surgido no período do exílio babilônico foi o costume dos fieis terem um local de reunião. Este não era um templo, mas sim um lugar tanto de leitura e interpretação da Lei, como de oração. Este local passou a ser chamado de beit knésset, (que pode ser traduzido por casa de reunião) e, mais tarde, será mais conhecido pelo seu nome grego: Sinagoga. No contexto da Sinagoga surge a figura dos especialistas na interpretação da lei, os doutores da lei, os mestres da lei, os rabinos, como são mais conhecidos.

Nabucodonosor colocou a elite que levara para o exílio sobretudo em trabalhos administrativos do império, onde a grande maioria rapidamente se adaptou. Os babilônios foram vencidos pelos persas, comandados por Ciro. Este promulgou no ano de 538 um edito, permitindo que os Judeus voltassem a Jerusalém. Nem todos voltaram, mas aqueles que o fizeram, aplicaram-se com afinco em reconstruir a religião, agora entretanto aquela já marcada pelas mudanças ocorridas no exílio. Sobretudo a questão da Lei (Torá), vai criar uma ideia de religião pura, na qual não cabia, por exemplo, os samaritanos – justamente aqueles do Reino do Norte. Assim, a religião pós-exílio não é mais a mesma do pré-exílio. Os rituais do Templo de Jerusalém foram, entretanto reintroduzidos.

Após a reconstrução do Templo, Judá era uma província-estado do império persa, centrada no templo, sob um sumo sacerdote e um grupo de notáveis. Sob Esdras e Neemias (meados do séc. V) conseguiu-se impor uma delimitação pessoal e territorial, além do reconhecimento da Tora como lei pelo Estado persa. Com esta delimitação pessoal, os samaritanos foram excluídos e considerados não-judeus. Este status quo permaneceu relativamente inalterado sob Alexandre Magno (333-323), os Ptolomeus (egípcios 320-200) e os Selêucidas (Síria, a partir do ano 200).

O império de Alexandre Magno, que se constituiu muito rapidamente, como também rapidamente caiu com a sua morte, teve para o Judaísmo uma grande importância, por criar um novo sistema de governo e, sobretudo criar condições para um intercâmbio muito grande com o mundo grego. Assim, o sistema das polis criadas por Alexandre desenvolveu-se especialmente no tempo dos Ptolomeus, que não tiveram grande interesse no território dos judeus, dando a eles uma certa liberdade (menos no que dizia respeito aos impostos). Este período é marcado pela influência grega sobre a religião judaica, inclusive com a tradução da Bíblia feita do texto hebraico para o grego, em Alexandria, conhecida como Septuaginta. Este período ficou conhecido como o tempo da helenização do Judaísmo. Mas o período desde o Edito de Ciro, até o tempo dos Selêucidas, foi sem grandes sobressaltos nem guerras para os judeus.

O período de paz termina quando já sob os selêucidas (a partir do ano 200 a.c.c.) começaram a existir problemas entre os judeus e os selêucidas. Em 167 a.c.c., Antíoco IV, rei selêucida, proíbe o culto no Templo de Jerusalém a Javé e dedica o mesmo a Zeus Olímpico. Começa então a revolta judaica contra os selêucidas, liderada pelos Macabeus (ou Hasmoneus), uma resistência fiel à Torá e que foi vitoriosa com a retomada do Templo no ano 164. Mas a luta contra os selêucidas continua e o movimento irá ganhar aos poucos novos territórios, até conseguir a independência em 142. De 142 a 63 a.c.c., Judá vive então um período de independência sob a dinastia dos Hasmoneus (Macabeus). Nesta época surgiram os partidos político-religiosos judaicos: saduceus (stablishment clerical e aristocrático, grupo que controlava o Templo de Jerusalém), essênios (grupos de expectativa escatológica e que em parte viviam separados do resto do povo, em espécie de mosteiros) e fariseus (partido muito popular, de moderados politicamente e piedosos do ponto de vista religioso). É neste tempo também que surge uma instituição judaica interessante: o Sinhedrim (Sinédrio), espécie de Conselho que tinha atribuição de decidir tanto sobre matéria legal (de bens, de casamentos, de costumes), bem como sobre matéria ritual. Era composto por 70 membros, escolhidos entre os grupos de influência provenientes dos partidos político-religiosos. Este Conselho teve papel mais importante mais tarde sob a dominação romana e foi dissolvido com o início da guerra judaica no ano de 66 d.c.c.

Com a decadência dos selêucidas, surge o Império Romano com pretensões territoriais sobre a região. Divergências internas entre os judeus levaram à intervenção romana em 63 a.c.c. quando Jerusalém é tomada por Pompeu, colocando fim a um período de independência judaica. Após um período de trocas diversas de governante, os romanos colocaram no poder o Idumeu Herodes, com o título de rei, que governou de 37 a 4 a.c.c. e seu filho Arquelau até o ano 6 d.c.c. (com poder já controlado pelos romanos). Neste período, o Sinédrio tinha um certo poder determinado e delimitado pelos romanos. A partir do ano 6 há o governo direto de Roma, através de procuradores (ou governadores). Surge entre os judeus o movimento dos zelotas (ou zelotes), sobretudo na Galileia para fazer oposição (religiosa e política) à ocupação romana. Em meio a este clima surge o cristianismo.

 

c) O judaísmo após a destruição do Templo

No ano 66 d.c.c. os judeus, insuflados especialmente pelo movimento dos zelotes, começam um levante contra a ocupação romana. Os romanos cercam Jerusalém e este cerco termina com a destruição do Templo em 70 d.c.c. A chamada guerra judaica dura quatro anos nem tanto por conta da resistência militar dos judeus, mas pelo fato de o imperador romano, Nero, ter se suicidado no ano de 68, parando assim a guerra. Vespasiano, comandante romano contra o levante judaico, acaba sendo proclamado imperador, numa sucessão um tanto conturbada. O general Tito levou a cabo a guerra judaica, com a destruição do Templo no ano 70 d.c.c. Esta não foi, porém a última tentativa judaica de levantar-se contra Roma. Novas tentativas foram feitas em 115-117 e 132-135, tendo sido ambas esmagadas por Roma. Após a última derrota judaica, Jerusalém torna-se cidade proibida para os judeus. A cidade de Jerusalém é reconstruída pelos romanos com o nome de Aélia Capitolina. Nela não habitam judeus. Os romanos espalham os judeus pelo império. A partir disto, fala-se em Judaísmo de diáspora. Há comunidade cristã nesta cidade, composta por gentio-cristãos. Após as derrotas judaicas nas guerras com os romanos, o Judaísmo que sobrevive na diáspora é uma versão religiosa praticamente só do judaísmo rabínico e de tradição farisaica.

Alguns elementos importantes da história religiosa pós-destruição do Templo:

A formação do Talmud

Neste tempo e situação de diáspora, toma importância a chamada Torá oral ao lado da Torá escrita, sobretudo a partir da Palestina, para regulamentar a vida e religião judaica.

O Rabino Johanan ben Zakkai funda uma escola rabínica em Javneh (costa). Seu sucessor, o Rabino Gamaliel, recria o Sinédrio. Neste período é estabelecido o Cânon dos escritos sagrados judaicos, a chamada Tanakh, composta por três conjuntos de textos: a Lei (Torá), os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim). Como as comunidades judaicas da diáspora não dispõem de tantos recursos para seguir a lei e conhecer o seu significado, a interpretação da Torá é posta por escrito. É a Torá, com as opiniões legais. A isto chama-se Mishnah. É um texto longo dividido em seis partes: Agricultura (Zeraim), Sábado, jejuns e festas (Moed), matrimônio e divórcio (Nashim), código civil e criminal (Nezekin), rituais e sacrifícios (Kodashim) e purificação (Tohoroth). Ou seja, os textos da Torá foram divididos por temas (em seis blocos) e cada qual recebeu comentários de interpretação.

Surgiram novos centros de estudo da Lei. Além do centro palestinense, particularmente importante é o da comunidade judaica da Babilônia, onde o chefe da comunidade é inclusive reconhecido oficialmente pelo rei babilônico (recebe o título de Exilarca).

O trabalho de interpretação da Lei continua e no século IV já havia todo um novo material interpretativo, chamado de Guemara (do aramaico Guemar = aprender, completar). Este novo material textual foi acrescentado à Mishnah e ao todo da obra deu-se o nome de Talmud (a palavra quer dizer “o Ensinamento”). Surgiram dois Talmudes: um na Palestina (que foi fixado no final do século IV) e outro na Babilônia (que foi fixado no século VI). O Talmud babilônico é bem mais extenso que o palestinense (cerca de quatro vezes maior) e – justamente por ter muito mais material interpretativo – tem mais autoridade. Eles regulamentam o direito e os costumes (vida diária) no Judaísmo de diáspora, ganhando com isto uma grande autoridade. Este tipo de Judaísmo rabínico influencia aos poucos todo o judaísmo da diáspora. O estudo do Talmud passou a ser algo de muita importância na manutenção da religião nesta nova condição religiosa: sem uma organização central, espalhada pelo império, vivendo sob outros grupos. A autoridade religiosa do Talmud não foi, porém aceita por todo o Judaísmo. Uma corrente religiosa fundada no século VIII (conhecida como os Caraítas) defendia que a única lei era a Tora, por isso se deveria ignorar o Talmud e buscar somente a Torá. Esta corrente, mesmo sendo combatida pelos rabinos, ganhou uma certa influência dentro de todo o judaísmo e só veio a perder influência no século XVI.

Judeus sob cristãos e muçulmanos

Sob os cristãos – os Judeus asquenazitas. Após a diáspora, parte dos judeus passou a conviver lado a lado com comunidades cristãs espalhadas por todo o império romano. Mas no século IV, o Cristianismo torna-se, porém, a religião oficial do império e com isso a situação dos judeus mudou radicalmente. Os judeus passaram a ser acusados pelos cristãos de assassinos de Deus, o que veio a contribuir muito para o antissemitismo que emergiu séculos mais tarde. Os judeus passaram a ser vistos com crescente desconfiança pela cada vez mais hegemônica comunidade cristã. Sob os cristãos, as comunidades judaicas tiveram que – para poder sobreviver – cada vez mais viver reservadamente para se proteger e se defender. Esta situação ora se agravava ora amainava.

Com o movimento das cruzadas (século décimo em diante), os judeus passaram a sofrer novas perseguições por conta da luta dos cristãos contra os infiéis entre os quais eles eram incluídos. A perseguição aos judeus recrudesceu a partir de uma acusação feita contra a comunidade judaica de Norwich (Inglaterra) em 1144: os judeus utilizariam sangue de crianças cristãs para fabricar pães ázimos. Esta acusação fantasiosa espalhou-se por toda a Europa, culminando com a expulsão dos judeus da Inglaterra em 1290, seguido pela expulsão da França em 1298. Por conta da mesma acusação, cerca de 150 vilarejos de comunidades judaicas foram destruídas na Alemanha na mesma época. Na Polônia, ao contrário, os judeus não sofriam perseguições. Isto levou a grandes levas de migração judaica para a Europa oriental. Ali as comunidades desenvolveram inclusive uma língua própria, o Yidish (uma mistura de alemão com hebraico, dado que grande parte dos judeus para lá migrados eram também de língua alemã). A partir da Polônia estas comunidades se espalharam fortemente para os países bálticos e a Rússia.

Sob os muçulmanos – os Judeus sefarditas. Com a conquista dos árabes muçulmanos de todo Oriente Médio, norte da África e península ibérica nos séculos VII e VIII, os judeus destes territórios assumiram a língua árabe e começaram a participar da vida cultural de seu ambiente. Houve no início perseguição dos muçulmanos contra os judeus e, sobretudo nos territórios árabes a expulsão de judeus. Com a conquista de outros territórios, os muçulmanos impuseram aos judeus diversas restrições: não podiam pregar, tinham que usar uma veste que os distinguia, tinham que pagar pesadas taxas, não podiam montar a cavalo nem portar armas, não podiam assumir cargos públicos, não podiam construir novos centros de oração (sinagogas). Mas o exercício da religião era permitido. Na verdade, estas regras para os judeus no mundo muçulmano eram as mesmas que para os cristãos destes territórios (e também de outros grupos religiosos). A tradição atribui estas regras a Omar, o 2º califa, que governou de 634 a 644. Com o passar do tempo, as restrições foram esquecidas (só de quando em vez voltavam) e mostrou-se a tolerância prática (muito mais generosa que a teórica) dos muçulmanos. Assim, documentos dos séculos X, XI e XII mostram que os judeus haviam se adaptado muitíssimo bem ao estilo de vida muçulmano, seja no que dizia respeito a costumes (vestimentas) como o uso da língua árabe. Participavam inclusive da administração de diversos lugares, sendo que na Espanha ocuparam cargos importantes da administração, incluindo um comandante do exército. E em quase todas as cidades maiores foram construídas sinagogas. Faziam os judeus também parte muito ativa da vida econômica em muitas cidades, o que conferia uma grande respeitabilidade inclusive destes judeus quando em viagens comerciais à Europa cristã (inclusive entre os judeus que ali viviam). Isto não significa que a convivência fosse sempre pacífica, mas perseguições maiores de muçulmanos contra judeus ocorreram em apenas três ocasiões: sob o califa al-Hakim (996-1022, que também perseguiu cristãos), em Granada em 1066 e as perseguições movidas pelos Almôadas, tribos berberes da África do Norte. No mais, a convivência era por mais das vezes harmônicas.

Vivendo em territórios dominados pela cultura cristã, por um lado, e por outro lado pela cultura árabe-muçulmana surgiram aos poucos dois grandes troncos do Judaísmo: um oriental baseado, sobretudo na língua árabe (centrado na Mesopotâmia e na Espanha, tendo como base o Talmude babilônico) e outro ocidental, da Europa central e oriental, mais influenciado pela traição palestina (Talmude palestinense) e italiana. Quando no século VIII os Abássidas tomaram dos Omíadas o califado, Bagdá tornou-se uma cidade muito importante para o mundo muçulmano. Os judeus que ali viviam ganharam com isto um grande impulso e exerceram uma liderança praticamente sobre todo o Judaísmo sob os muçulmanos. Desenvolveu-se ali importante literatura judaica, seja de interpretação religiosa, seja de discussão com a filosofia grega. Mas também surgiram entre os judeus sob os territórios muçulmanos diversos movimentos messiânicos. Um dos mais conhecidos foi o de Davi (que se chamava na verdade Menachem) Al-Ruhi, judeu do Curdistão, que no século XII deu início a um movimento messiânico que atingiu também o Irã, o Iraque e o Azerbaijão. Predisse que em determinado dia e hora iria conduzir sobre suas (imaginadas) asas os judeus de Bagdá para Jerusalém. Muitos acreditaram e subiram nos telhados esperando o anunciado voo. Como no dia seguinte ainda se encontraram sobre seus telhados, se tornaram alvo de chacota de toda a vizinhança. A comunidade judaica da palestina, também sob os muçulmanos é bastante pequena, mas de uma importância intelectual grande, pois para os judaísmo esta região, principalmente Jerusalém, nunca irá perder o seu peso simbólico. A pequena comunidade judaica da Galileia irá ter uma grande importância e projeção no século X por conta dos estudos dos textos sagrados pelos massoretas (de massorá, tradição). A eles se deve uma segunda canonização da Bíblia Hebraica, no sentido de terem decidido quais versões dos textos seriam consideradas canônicas. Também a eles se deve a definição sobre o modo oficial de se ler estes textos. Deve-se a eles a introdução de sinais vocálicos na escrita hebraica, permitindo a sinalização da pronúncia.

Os judeus que viviam sob os cristãos passaram a ser chamados de Asquenaz (ou asquenazitas de Ashkenaz, Alemanha no hebraico medieval) e os que viviam em territórios muçulmanos foram denominados Sefarad (ou sefarditas, de Sefarad, termo hebraico para designar a península ibérica). Os dois grupos reconheciam-se mutuamente como judeus. As diferenças estavam, sobretudo nos costumes religiosos. Enquanto os sefarditas se caracterizavam pela conservação dos costumes religiosos antigos, os asquenazitas eram mais abertos à integração com as culturas locais.

Surgiu uma enorme literatura, especialmente no judaísmo oriental, sob o florescimento islâmico. Com as cruzadas e a decadência do califado oriental, o judaísmo que vivia sob o Islamismo foi fortemente abalado. O judaísmo foi também fortemente perseguido, tanto na Europa como no Oriente no tempo das cruzadas e nos séculos subsequentes. Houve decadência do nível cultural e filosófico e ocorreu um processo de popularização da cabala.

A expulsão dos judeus da península ibérica

Diz uma lenda que no século X teria chegado à península ibérica o rabino Moisés ben Henoc, vindo através de um navio italiano capturado por um muçulmano. Ele seria originário da mesopotâmia e teria se posto a estudar junto ao rabino Natã, na comunidade judaica de Córdoba. Este, ao ouvir os doutos comentários do aluno, teria renunciado imediatamente ao cargo e indicado Moisés como o novo rabino-chefe da cidade. Independentemente da historicidade desta narrativa, fato é que a partir, sobretudo do século X, o Judaísmo na península ibérica irá florescer e tomar um lugar de destaque entre os sefarditas. E este período de ouro irá durar diversos séculos, ora com maior ora com menor tolerância muçulmana. É neste tempo que nasce em Córdoba, no século XII, Moses ben Maimon (ou Moisés Maimônides), um dos maiores pensadores judaicos de todos os tempos. Por conta da troca de poder e rivalidades entre os muçulmanos, sua família se vê obrigada a fugir e ele irá fazer toda sua carreira como médico, jurista, filósofo e teólogo no Egito. A situação dos judeus ibéricos começa a mudar com o início da chamada reconquista, quando os cristãos começam a retomar os territórios muçulmanos da península a partir do século XIV. Se no início da reconquista houve ainda uma grande tolerância por parte de cristãos em relação a judeus e muçulmanos que agora viviam sob seus domínios, esta situação irá mudar aos poucos e se radicalizar a partir de meados do século XV. Os tribunais da inquisição irão perseguir sistematicamente os judeus até que por influência do grande inquisidor Torquemada, a casa real irá assinar aos 31 de março de 1492 o “Edito geral sobre a Expulsão dos Judeus de Aragão e Castela”. Os judeus tinham quatro meses para decidir se assumiam o catolicismo ou saíam do país. Acredita-se que entre cem e duzentos mil judeus fugiram da Espanha. Muitos fugiram para Portugal, mas lá o rei Manuel assinou decreto semelhante em 1496, dando prazo até outubro de 1497 para a conversão ou a saída do país.

Com a expulsão dos muçulmanos e dos judeus que com eles conviviam da Espanha e Portugal (os muçulmanos haviam entrado na Espanha em 711-715), embora continuasse a tradição judaica erudita, houve um reforço do tradicionalismo e da cabala. Também neste período após a expulsão dos judeus da península ibérica, houve movimentos messiânicos e o surgimento de subdivisões judaicas. Parte dos judeus que vivia sob os muçulmanos, os sefarditas, com a chamada reconquista migrou para junto dos asquenazitas

O judaísmo da Europa central e oriental passa a ter, com a decadência do judaísmo sob o Islã, um maior peso religioso. Há pequenos grupos de judeus na Europa que ganham importância, não necessariamente religiosa, por conta de sua erudição (os chamados “judeus da corte”, especialmente na Polônia). Os judeus expulsos de Portugal e Espanha e exilados no Ocidente fundaram comunidades que em parte se desenvolveram bem, principalmente do ponto de vista da associação entre tradição e economia.

Perseguições no leste europeu

A tranquilidade das comunidades judaicas na Europa oriental foi rompida em 1648, quando o cosaco Bogdan Chmielnicki liderou uma revolta contra a aristocracia polonesa. Como os judeus estavam ligados a esta aristocracia, foram duramente perseguidos. Cerca de um quarto deles foi assassinado e muitos outros foram vendidos como escravos. Neste contexto surge um movimento messiânico liderado pelo judeu Shabbetai Zevi (1626-1676). Pregava que iria aparecer um Messias para livrar os judeus da perseguição. Ele próprio chegou a se declarar Messias, o que causou grande alvoroço nas comunidades judaicas entre os que o apoiaram e os que o rejeitaram. Ele e seus seguidores chegaram a anunciar uma data para a intervenção do Messias: 18 de junho de 1666. Shabbetai foi a Constantinopla esperar o feito. Lá foi preso pelo Grão-Vizir muçulmano e poderia escolher entre a pena de morte ou a conversão ao Islã. Escolheu a segunda opção e foi viver com a esposa na Albânia. Seu movimento não morreu ali. Muitos dos seguidores passaram a pregar que esta era uma etapa da vinda do messias, que ele teria justamente que viver no mundo do pecado para depois se manifestar.

Outro movimento surgido dentro do judaísmo tinha por base a ideia que a Torá era a devoção e devia ser vivida no cotidiano. A vida era uma oferenda a Deus e por isso ela deveria ser sempre alegre. Seu iniciador foi Israel ben Eliezer (1700-1760, também conhecido como Baal Shem Tov). Insistia num judaísmo piedoso e ficaram conhecidos como hassidim, “os devotos”. Com isto se constitui o Hassidismo, um grupo judaico rigorista e moralista, tendo como princípio básico da conduta diária o amor a Israel. Os membros deste movimento deram muita importância ao método místico da cabala. Surgiram mais tarde muitas subdivisões dentro deste grupo. O Hassidismo acabou influenciando grande parte do judaísmo em sua época. Ao mesmo tempo surgiu uma corrente contrária, criticando o Hassidismo, que havia – segundo estes opositores conhecidos como Mitnagdim (oponentes) – negligenciado as escrituras. Os conflitos foram grandes entre as duas correntes judaicas.

Tempo de tolerância: O judaísmo no Iluminismo

O surgimento do Iluminismo e suas ideias de liberdade trouxeram modificações benéficas às comunidades judaicas na Europa. Assim no Sacro Império Romano, na França e na Alemanha os judeus tiveram seus direitos reconhecidos e sua liberdade religiosa protegida inclusive por lei. Sob a França de Napoleão (1769-1821), os judeus puderam inclusive reorganizar o Sinédrio como instância oficial a cuidar de seus direitos e interesses. Este modo de pensar também veio a influenciar o pensamento religioso e surge o iluminismo judaico, integrando a comunidade à vida intelectual e profissional dos países onde viviam. De dentro das próprias comunidades de judeus, que em muitos países viviam até então bastante isoladas, surgiram pensadores que tiveram importância e reconhecimento para toda a sociedade, levando para as discussões filosóficas e científicas da época elementos advindos da tradição judaica de pensamento. Nomes exemplares a se destacar neste contexto são Baruch Spinoza e Moisés Mendelssohn. Baruch Spinoza era de uma família judaica sefardita, que havia fugido de Portugal e achado abrigo na Holanda. Ali nasceu ele no ano de 1632 e faleceu em 1677, com apenas 44 anos. Embora tivesse tido uma vida relativamente curta, teve uma atividade intelectual intensa. É considerado hoje um dos pais do iluminismo, embora o reconhecimento de seu pensamento tenha ocorrido somente mais tarde. Em vida, por conta de seu pensamento crítico, foi inclusive expulso da sinagoga judaica portuguesa de Haia. Profissionalmente ganhou a vida trabalhando com lentes e poucos de seus escritos filosóficos foram publicados enquanto vivia. Diversos inclusive com pseudônimos. Após sua morte o seu pensamento foi aos poucos sendo conhecido e difundido. Seus temas mais importantes são a metafísica, a ética, filosofia política, teoria do conhecimento e a crítica à religião (motivo pelo qual foi expulso da sinagoga). Seu pensamento influenciou a filosofia de Fichte, Hegel, Schleiermacher, Scheling, Feuerbach, Nietzsche, etc. Moisés Menselssohn nasceu na cidade alemã de Dessau (1729) e faleceu em Berlim (1786). Diferentemente de Spinoza, Mendelssohn foi muito reconhecido intelectualmente na tradição judaica. Estudou os clássicos, ajudou a editar obras de Moisés Maimônides, foi especialista e comentarista do Talmud. Por suas interpretações da tradição judaica, é tido como um dos precursores do iluminismo judaico. Seu reconhecimento como filósofo deu-se tanto na comunidade judaica como no ambiente acadêmico de seu tempo.

Disto surgiu o Judaísmo Reformado, com suas sinagogas próprias, com orações na língua dos países onde viviam, omitindo a ideia de um messianismo ou de uma volta à Terra Prometida. Eles consideravam-se cidadãos dos países onde habitavam. A religião deveria ser, sobretudo uma religião ética. Este movimento espalhou-se especialmente pelos Estados Unidos. Os judeus destas correntes em pouco se distinguiam dos outros cidadãos de onde viviam. O iluminismo atinge mais fortemente as camadas da elite do Judaísmo. Estes participaram ativamente do desenvolvimento do pensamento iluminista, deixando por vezes de lado o valor da Torá e da tradição. Em contraposição a esta secularização, surgiu na Alemanha judaísmo ortodoxo, fundado por Samson Raphael Hirsch (1808-1888), defendendo a importância da Torá como de origem divina e que suas leis não poderiam ser ignoradas. O judaísmo iluminista foi porém vitorioso, menos no oriente, onde prevalecia a influência rabínica sobre as comunidades judaicas. Houve no ocidente uma secularização do Judaísmo (adoção da língua vernácula, abandono de certos rituais quando não abandono da prática religiosa). Este judaísmo se engaja em todas as reviravoltas e correntes filosófico-políticas a reboque do iluminismo.

Perseguições racistas e o Sionismo

Quando parecia que os judeus estavam finalmente em paz na sua convivência entre os europeus, surge novamente uma segregação contra os judeus, advinda agora de outra argumentação: a raça. Os judeus não são de raça teutônica e por isso representam uma ameaça à manutenção da pureza racial da nação germânica. Este pensamento vai se desenvolver, sobremaneira a partir da segunda metade do século XIX. Os judeus eram intrinsecamente covardes, mercenários, egoístas, enganadores, degenerados... Também na Rússia começam a aparecer fortemente estes sentimentos que – na década de 1870 – foram chamados de antissemitismo. E é na Rússia no final do século XIX que começam a acontecer os chamados pogrom (ataques de um setor da sociedade contra outro) e os judeus são as vítimas destas ondas de ataques. Diversas ondas de pogroms ocorreram contra os judeus, levando a uma emigração em massa dos judeus, sobretudo da Rússia. De 1881 até o início da 1a guerra mundial (1914), calcula-se que cerca de 2 milhões de judeus russos emigraram para os EUA e mais outro milhão para outros países. O antissemitismo crescia também na Europa Ocidental. Ficou conhecido mundialmente o caso do militar judeu francês Alfred Dreyfus (1895-1935), que foi condenado à prisão perpétua por uma falsa acusação de traição à pátria e mesmo após ter sido provada que a acusação era falsa, a condenação foi mantida (em 1899). Um jornalista judeu, Thedor Herzl começa a defender a ideia de que a única solução para o antissemitismo seria a criação de um Estado para o povo judeu, iniciando assim o chamado Movimento Sionista, que vai ter sua I Conferência em 1897, em Basiléia, Suíça. O movimento defendia que a Palestina era o lugar apropriado para este estado judeu. Os britânicos chegaram a oferecer uma parte de Uganda para a criação deste estado, mas isto não foi aceito pelo movimento.

A criação do Estado Judaico

Duas tendências começam a se firmar dentro da religião judaica: uma que acentuava a autonomia regional, de língua e cultura Yidish (língua e cultura adaptadas ao ambiente onde viviam os judeus); outra voltada para Palestina, com a ideia de re-colonização e de língua hebraica. Surge a Organização Sionista Mundial objetivando um Estado judeu secular e moderno (do ponto de vista religioso aceitava todas as tendências), sobretudo como pátria de refúgio dos judeus perseguidos. Entre os sionistas estavam judeus de correntes muito diversas (de tradicionalistas a socialistas). Este movimento enfrentou alguma resistência dos judeus tradicionalistas que acreditavam num “Estado judaico” apenas como cumprimento das promessas messiânicas. A re-colonização da Palestina, iniciada na segunda metade do século XIX e de cunho socialista, era um sucesso, mas ainda era relativamente restrita (a Palestina está sob domínio turco e depois de 1917 sob domínio britânico). Quando eclode a 2a guerra mundial, a questão da criação do Estado judaico está em plena discussão, mas os acontecimentos da guerra não permitiram que fosse levada adiante.

Após a perseguição e extermínio de milhares de judeus sob o regime nacional-socialista de Adolf Hitler, o sionismo recebeu maior solidariedade e foi possível a criação do Estado de Israel (14/05/1948). Sobretudo os judeus norte-americanos assumiram esta causa e Israel recebeu muitos imigrantes da Europa central e oriental, bem como refugiados dos países islâmicos.

No Estado de Israel há discussão sobre o relacionamento entre Estado e religião, entre sionistas socialistas e a direita nacionalista. O partido dos ortodoxos, apesar de pequeno, consegue também ter boa influência.

 

d) O Judaísmo no Brasil

A chegada de judeus ao Brasil está ligada ao tempo da colonização. Quando da reconquista da península ibérica pelos espanhóis e os portugueses, em 1492, os judeus que viviam nestes territórios foram expulsos e perseguidos ou então submetidos à conversão para o catolicismo. Estes judeus convertidos à força (bem como também muçulmanos) são chamados de cristãos novos e estão presentes em diversos empreendimentos no tempo da conquista e colonização portuguesa do Brasil. Quando da dominação holandesa no nordeste brasileiro (1624-1654), muitos judeus que haviam fugido de Portugal e procurado refúgio na Holanda, resolveram acompanhar o príncipe Maurício de Nassau e se fixaram em Pernambuco. Em 1645, dos 6.500 brancos que moravam em Pernambuco, 1.500 eram judeus e formavam a primeira comunidade judaica na colônia, reunindo-se na sinagoga Tzur Israel (Rocha de Israel) em Recife, a primeira sinagoga das Américas. Em 1624 veio à colônia judaica no Brasil o importante rabino Isaac Aboab da Fonseca, autor do considerado primeiro texto escrito em hebraico nas Américas: “Zekher asiti liniflaot El” (erigi um memorial aos milagres de Deus), composto em Recife no ano de 1646. Com a saída dos holandeses do nordeste, mais da metade dos judeus que ali morava resolveu também deixar a colônia e buscar outras terras na América Central ou do Norte ou então voltar para a Holanda. Os judeus que permaneceram na colônia, juntamente com os judeus cristãos novos vindos de Portugal tiveram possibilidades bastante restritas de continuidade da tradição religiosa no Brasil. Com o incentivo à imigração por parte do império brasileiro, sobretudo na segunda metade do século XIX, política esta continuada pela república nascente e com os acontecimentos que precederam a segunda guerra mundial, se estabeleceram no Brasil grupos judaicos maiores. Entre 1840 e 1942 imigraram para o Brasil aproximadamente 71.360 judeus, vindos sobretudo da Alemanha, Rússia, Lituânia, Romênia e Polônia (deste país, o maior contingente). Muitos destes, no entanto, não eram reconhecidos no Brasil como judeus, mas como um subgrupo dentro dos grupos de imigrantes europeus. Com o término da segunda guerra mundial e o fim do Estado Novo no Brasil, houve condições propícias para que os judeus pudessem melhor se organizar no sentido de mostrar sua identidade, defender seus interesses dentro do Brasil e apoiar os interesses judaicos no plano internacional. Com estes objetivos foi fundada em 1947 no Rio de Janeiro a Federação das Sociedades Israelitas, que nasceu congregando 42 entidades. Encontra-se hoje no Brasil comunidades judaicas de todas as tendências, desde as secularizadas até as mais tradicionalistas. Através da Federação Israelita, o judaísmo no Brasil tem se mostrado muito ativo na defesa dos direitos humanos e na promoção do diálogo inter-religioso. O número de brasileiros que se declararam pertencentes à religião judaica no Censo Demográfico de 2000 (IBGE) foi de 86.819 pessoas sendo o maior contingente nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Já o Censo de 2010 aponta a existência de 107.329 judeus no Brasil.

 

e) As escrituras sagradas

A existência de escrituras sagradas no Judaísmo é o resultado de um longo processo tanto de elaboração, reelaboração e depois reconhecimento como sagrados. Os textos atuais guardam resquícios de muitas reelaborações e sobreposições textuais, como em camadas, feitas especialmente com interesses teológicos.

O primeiro conjunto de textos a ser reconhecido como sagrados é composto de cinco escritos e por isso também chamado de Pentateuco. Para o Judaísmo é chamado simplesmente de Torá (= a Lei). Depois foram acolhidos no Cânon os textos de origem profética. Por muito tempo, os textos sagrados judaicos eram conhecidos como a Lei e os Profetas. Mas tarde foram acolhidos no reconhecimento como sagrados outros textos, chamados simplesmente de Escritos. Assim, o conjunto dos textos sagrados judaicos é conhecido atualmente pelo nome de Tanakh, nome advindo das letras iniciais dos três conjuntos de escritos: Torá, (a Lei, 5 livros), Neviim (os Profetas, 8 livros) e Ketuvim (os Escritos, 11 livros).

Estes textos sagrados são de diversos gêneros literários: sapienciais, históricos, apocalípticos, proféticos, legislativos, ritualísticos, etc. Não há, pois nenhuma padronização no que diz respeito a gênero literário. A língua original destes textos é o hebraico. A partir do século III a.c.c. estes textos foram traduzidos para o grego, na tradução chamada de Septuaginta. Estes textos religiosos são os mais traduzidos no mundo.

 

f) A compreensão de Deus nos escritos sagrados

A história de Israel é também uma “história teológica”. Teológica em dois sentidos. Em primeiro lugar pelo fato de o próprio povo ter tido sempre a capacidade de ler a presença de Deus nos fatos históricos. A fé judaica é essencialmente uma fé história, uma fé baseada nos acontecimentos da história onde se percebe – mesmo que em uma leitura feita a posteriori – a presença e atuação da divindade. Com esta fé lida a partir da história, a tradição teológica dos judeus é refletida de forma narrativa. É a narração da história que vai explicitando e expondo a fé. Não se trata de uma compreensão de fé a partir de conteúdos, mas de uma leitura da fé a partir do desenrolar da história, o que pode ser chamado de “teologia narrativa”. O fato de a fé ser lida a partir da história fez com que houvesse um desenvolvimento dos conceitos centrais de fé do povo judeu. Este desenvolvimento pode ser seguido bastante bem através, por exemplo, da compreensão de Deus na experiência do povo. E esta experiência ficou registrada através dos escritos bíblicos. Estes textos, por sua vez, não nasceram como os temos hoje. Boa parte deles conheceu um longo desenvolvimento, onde novas experiências contribuíam para revisar e reinterpretar o mesmo. Há, na formação teológica do povo de Israel um longo caminho de descobertas ou desvelamento em conceitos a partir da interpretação da experiência histórica.

Neste trajeto, é preciso que se diga, também foram rejeitadas ou deixadas de lado certas compreensões. Trata-se de um processo tanto de desenvolvimento de compreensões, quanto de afunilamento em algumas compreensões. E ao final, não é que se pode dizer que haja uma compreensão unificada. Ela permaneceu sempre plural e aberta a novas compreensões. A partir do texto bíblico, se pode dizer destacar alguns conceitos de compreensão de Deus.

O Deus libertador

Uma experiência básica de Deus que teve o povo de Israel e que se tornou referência para a fé e chave de leitura para as outras experiências de Deus na história foi a experiência da libertação do Egito. Nesta expe­riência histórica de libertação é que está fundada a fé bíblica. Esta experiência torna-se para toda a posteridade do povo de Israel um acon­teci­mento de significado radical, no sentido literal da palavra (do latim radix = raiz). Esta raiz vai fornecer força para todo o desen­volvi­men­to posterior da fé bíblica e a este acontecimento é que se reporta o povo em sua caminhada quando fala da experiência de Deus. Esta experiência histórica irá se tornar uma espécie de marca para o próprio Deus. Assim, por exemplo, no livro do Êxodo, antes de uma das mais importantes listagens de mandamentos, aparece: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te libertou do Egito, lugar da escravidão” (Ex 20,2). Ou seja, a experiência histórica do povo passa a ser quase que um nome próprio, um distintivo para o próprio Deus (“Deus que libertou do Egito”). Esta concepção aparece também na chamada fórmula de “profissão de fé do israelita”:

Meu pai era um arameu erran­te que desceu ao Egito para morar lá como estrangeiro. Mas ele se tornou um povo grande, forte e numero­so. Então os egípcios nos mal­trataram e nos oprimiram, impondo-nos uma dura escravidão. E nós clama­mos ao Senhor Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu nossa voz e viu nossa opressão, nossa fadiga e nossa angústia; o Senhor nos libertou do Egito com mão podero­sa e braço estendido, no meio de grande pavor de sinais e prodí­gios e nos introdu­ziu neste lugar, dando-nos esta terra, terra onde corre leite e mel (Dt 26, 5b-9).

            A libertação é que dá a identidade da fé. Até a libertação o povo era errante e estrangeiro, quer dizer, sem objetivo ou pátria, em outras palavras, sem identidade. A libertação através da ação de Deus torna-se para o povo sinal de referência para a própria identidade. E esta compreensão de Deus como Libertador é tanto o que funda a fé do israelita, como também a distingue de outras experiências religiosas de povos vizinhos, ou seja, que dá à fé um perfil próprio e original. Ela é de significado tão básico para o povo, que além de dar a ele uma identidade, ela passa a ser a identificação do próprio Deus: "Eu sou o Senhor, teu Deus, que te libertou do Egito, do antro de escravidão" (Ex 20,2).

 

O Deus santo

O profeta Isaías (Is 6,1-7) coloca em sua visão a experiência da santi­dade de Deus. O que distingue Deus tanto do humano como de outros entes é a santidade de Deus. Santidade não tem aqui nenhuma conotação moral ou de virtude, mas sim de sua condição. Em hebraico está a expressão kadosh, que significa separado. Deus é de uma essência separada da essência humana, a divindade é de um outro nível que o nível humano. Nesta santidade de Javé manifesta-se seu caráter fascinante e terrível. Por isso ligado à santidade estão outros atributos: o glorioso, o Deus dos poderes (El Sebbaoth = senhor dos exércitos), o Deus ciumento, que não admite o culto a outros deuses por parte de seu povo, o Deus cheio de cólera, que castiga e destrói. Esta santidade de Javé contrasta com o pecado do povo, que desperta a sua indig­nação. Este pecado é visto de muitas formas e níveis no decorrer do Antigo Testamento: como conduta ética errônea, como falta de fidelidade cultual, como falta de justiça social, etc. Mas sempre o pecado é visto por um lado como algo que fere a santidade de Javé, mas no qual ao mesmo tempo fica claro que Deus é santo, isto é, é separado no nível pecador.

 

O Deus comunhão com o humano

Apesar de termos dito acima que a santidade de Javé é aquilo que o distingue do humano, de modo algum isto quer dizer que isto o distancia do humano. Como a experiência do Deus libertador já mostrou, Javé é experimentado em profunda comunhão e até intimidade (como mostram principalmente os Salmos) com o humano. Javé é visto como um Deus que caminha com o seu povo. Este caminhar com é descrito na Bíblia muitas vezes literalmente: Javé tem sua tenda (a Shekinah), Javé acompanha o seu exército, Javé é um nômade, como o povo o era. Mas tarde, com sedentarização do povo na "terra prometida", Javé também se torna de certa forma sedentá­rio: ele habita no templo. Mas nunca perdeu o seu caráter nômade de andar junto com o povo para onde este for. Com o exílio da Babilônia, volta a parecer fortemente este caráter: Javé que acompanha seu povo para o exílio. Deus, nesta experiência narrativa, se ocupa e preocupa com seu povo.

 

O Deus vivo

O Antigo Testamento não faz em lugar nenhum uma reflexão sistemática sobre a pessoa ou a compreensão de Deus. Há sim os traços constantes, mas além disso a compreensão de Deus conhece va­riações muitas dentro do texto. E isto revela mais uma constante na com­preensão de Deus: Deus é um Deus vivo, dinâmico, em atividade permanente, que não se deixa apreender aqui ou ali. Deus não é em primeira linha um Deus estático, que está parado eternamente sobre tudo e todas as coisas, uma qualidade uniforme da realidade. À sua mobilidade e vivacidade está ligado o fato de ser en­ten­dido como um Deus de caráter pessoal. Ele é entendido de forma tão pessoal que chega a ter um nome próprio: Javé. Esta forma tão persona­lista de entender Deus leva, é claro, ao fato dele ser entendido de uma maneira bastante antropomórfica e antropopática. Mas isto de modo algum levou a experimentar Deus ou entender Deus como limitado. Apesar de toda a proximidade de Javé com as pessoas e com o seu povo, ele nunca é, porém entendido como um companheiro que está no mesmo nível. Se por um lado muitas expressões mostram a proximidade de Deus, por outro lado, muitas outras deixam claro a sua diferença para com o humano: Mil anos são para o Senhor como o dia de ontem que passou, diz o salmista (Sl 90,4). O que talvez deixa mais claro esta proximidade e distância é a questão da imagem: por um lado a proibição severa de se fazer qualquer imagem de Deus, por outro lado a afirmação de que o humano foi feito à imagem de Deus.

Profissão de fé: O texto bíblico traz no Livro do Deuteronômio (26, 5-10) uma confissão de fé, tida por muitos como uma espécie de Credo dentro da tradição teológica judaica (teologia narrativa), já visto acima e que repetimos aqui:

Meu pai era um arameu errante que desceu ao Egito com um punhado de gente e ali morou como estrangeiro. Mas ele tornou-se um povo grande, forte e numeroso. Então os egípcios nos maltrataram e nos oprimiram, impondo-nos uma dura escravidão. Clamamos então ao Senhor Deus de nossos pais, e o Senhor ouviu nossa voz e viu nossa opressão, nossa fadiga e nossa angústia; o Senhor nos libertou do Egito com mão forte e braço estendido, no meio de grande pavor de sinais e prodígios, e nos introduziu neste lugar, dando-nos esta terra, terra onde corre leite e mel. Agora, pois, trago os primeiros frutos da terra que tu mês deste, Senhor.

Com tantas reviravoltas na história (inclusive teológica), como se poderia resumir a fé judaica mais tarde? Em que acreditam os judeus? Diversas foram as tentativas de fazer isto e uma das mais conhecidas e mais aceitas são os 13 artigos de fé, pretensamente formulados por Moisés Maimônides, embora haja argumentos bastante consistentes para contestar a autoria dele (Moses ben Maimon - 30/03/1135-13/12/1204):

1. Deus existe;

2. Deus é um só;

3. Deus não possui nenhum corpo;

4. Deus é eterno, sem começo e sem fim;

5. Somente Deus possui divindade e somente a ele se pode adorar;

6. As palavras dos profetas têm validade;

7. Moisés foi o profeta mais importante;

8. Moisés recebeu toda a Tora;

9. A Tora é completa e não será substituída por outra lei;

10. Deus é onisciente;

11. Deus irá recompensar aqueles que observam seus mandamentos e castigar os outros;

12. A fé na vinda do Messias;

13. A fé na ressurreição dos mortos, no tempo que a Deus aprouver.

 

g) As festas judaicas

 

A religião judaica também é marcada por festas, muitas delas. A maioria tem origem ou recorda algum momento histórico da religião. Estas festas são realizadas na maior parte dos casos nas famílias e há prescrições para as mesmas que vão de orações a alimentos, de funções de pessoas a horários determinados. O calendário de festas da tradição judaica acaba sendo um elemento muito importante tanto na conservação da memória religiosa, como da identidade judaica e sua sociabilidade. A datação das festas segue o calendário próprio do Judaísmo (que não é exatamente igual em todas as tradições judaicas), por isso não coincidem a cada ano com as datas do calendário gregoriano (calendário civil comum no ocidente). As principais festas religiosas são:

Shavuot. Esta festa é realizada no dia 6 (e 7) do mês de Sivan e lembra na tradição religiosa a dádiva da Torá no Monte Sinai. Ela é conhecida também como Festa das Primícias ou Festa da Colheita ou Festa de Pentecostes. Sua origem é provavelmente agrária, uma festa do começo da colheita.

Yom Kipur. Celebrada no dia 9 (ou 10) do mês de Tishri, Yom Kipur é a Festa do Perdão. Trata-se de uma festa bastante tradicional e importante no Judaísmo. No antigo Templo de Jerusalém, somente neste dia o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos, a parte mais sagrada da construção. A origem teológica da festa é lembrar que Deus perdoou o povo pelo pecado de ter adorado o bezerro de ouro e deu a Moisés as tábuas da lei pela segunda vez. Faz-se neste dia jejum e penitência, para se pedir o perdão de Deus. Diz uma tradição que neste dia Deus abre as portas do céu para acolher todas as orações e quando ele a fecha, ele decide quem vai morrer no ano seguinte. O final do dia e final do jejum é festejado com muita comida, troca de presentes. Também é costume dar esmola aos pobres e pedir perdão a quem se possa ter ofendido.

Rosch ha Schanah. É a festa do ano novo judaico (literalmente “cabeça do ano”). Esta festa recorda a criação de Adão e segundo a tradição judaica, os anos são contados a partir desta data. Ela é celebrada em 1o dia do mês de Tishri (cai geralmente em setembro ou outubro do calendário gregoriano). Diz uma tradição, que neste dia os nomes dos totalmente maus são escritos no livro da morte, os nomes dos totalmente virtuosos, no livro da vida e os nomes dos outros são deixados adiados até a festa do Yom Kippur (festa do perdão). Por causa desta tradição, é costume entre os Asquenazim, a saudação neste dia: “Que você possa estar escrito para um bom ano”. O calendário judaico é lunar, mas segue algumas regras do calendário solar. Na contagem atual (5779), o novo ano se iniciou no dia 10 de setembro de 2018 e o próximo ano novo ocorrerá em 29 de setembro de 2019 (iniciando o ano 5780).

Purim. Festejada no dia 14 do mês de Adar, trata-se da festa da sorte ou do sorteio. Nela lembra-se o milagre da sorte do povo conseguido pela rainha Ester, quando o rei persa Asuero, insuflado por seu ministro, havia condenado à morte muitos judeus. Como este ministro foi desmascarado, acabou sendo morto em lugar dos judeus. Purim tem sua origem certamente numa festa profana, talvez inclusive se origem babilônica (festa da deusa Ishtar – deusa do amor?). Ela é uma festa da alegria e nela se pode ficar embriagado. Comparativamente, é uma espécie de carnaval. É também uma festa para as crianças, que são vestidas especialmente para ela. É costume se eleger a “rainha da festa” neste dia.

Sukkot. É a festa das cabanas ou das tendas. Ela acontece cinco dias após a festa do Yom Kippur, portanto no dia 15 do mês de Tishri. O motivo religioso da festa é lembrar a história de o povo ter andado no deserto por 40 anos e ter morado em tendas. É uma festa de tradição antiga e como é feita no outono, é também uma festa da colheita. Sua origem é provavelmente do contexto agrário. Há o costume de se fazer uma tenda para esta festa e dormir nela, recordando assim o tempo que o povo de Israel passou no deserto, morando em tendas.

Chanukah. É a festa da reconsagração do Templo de Jerusalém, também chamada de festa das luzes, celebrada no dia 25 do mês de Kislev. Nela se recorda que o Templo de Jerusalém após a dominação grega dos selêucidas (e sua dedicação a Zeus Olímpico) foi novamente consagrado a Javé. Por esta ocasião, ocorreu o milagre do óleo utilizado nas lâmpadas do templo. Segundo a tradição, quando se foi reconsagrar o Templo a Javé, havia óleo da lâmpada do templo suficiente para apenas um dia. Mas milagrosamente a lâmpada ficou acesa por oito dias. Esta festa também adquiriu em muitas regiões um caráter popular, uma festa de troca de presentes. A lâmpada de Chanukah (chamada Menorah) é tão importante que se tornou um dos símbolos mais conhecidos e reconhecidos do judaísmo. Chanukah representa uma espécie de festa do “orgulho judaico” pela sobrevivência religiosa e a vitória sobre os selêucidas.

Peshah. Festa da páscoa (passagem), que lembra a libertação milagrosa da escravidão do Egito, quando os primogênitos dos egípcios foram mortos e o anjo do Senhor passou pelas casas, poupando os hebreus. Muito conhecido é o costume de se comer um cordeiro assado nesta festa, o cordeiro pascal, bem como pães sem fermento (ázimos) e ervas amargas. Esta festa se celebra no dia 15 do mês de Nissan.

Além destas festas anuais, o dia de maior importância religiosa para o Judaísmo é o Shabat, celebrado a cada semana. É a primeira festa a ocorrer no texto bíblico e a Halachá (a lei judaica) atribui a ele o dia mais importante entre todos. Ele é uma espécie de data básica e formadora/mantenedora semanal da identidade religiosa judaica.

Ao lado destas festas religiosas, há também aquelas ligadas a acontecimentos pessoais para os judeus. Dentre elas temos:

Berit Milah. A Festa da Circuncisão, feita ao oitavo dia do nascimento do menino.

Bar Mizvah (Filho da obrigação). Com 13 anos, o menino tinha que ler a Tora e é considerado responsável; e a menina com 12 anos. É uma festa praticamente obrigatória para todo judeu.

Nissuin (casamento), precedido tradicionalmente pelo Erusin (noivado) e o Ketubbah (contrato de casamento do noivo com a família da noiva).

 

h) Conceitos importantes do Judaísmo

 

Divindade

Religião que se entende hoje (e já há muitos séculos) como estritamente monoteísta. O monoteísmo judaico é, porém resultado de um longo processo. Alguns passos deste processo: a) unificação de cultos a diversas divindades; b) formação do monoteísmo, sob a ideia de uma única divindade: Javé; c) Javé é o Deus particular deste povo, a quem escolheu; d) Javé como Deus único e universal, criador de todo o universo. Com isso a missão especial do povo judaico no mundo.

Eleição - aliança

O conceito de divindade está intimamente ligado ao conceito da relação deste povo com a divindade. Esta relação é descrita com o conceito eleição: Javé elegeu Israel como seu povo (“Vós sereis o meu povo e eu serei vosso Deus”). Trata-se de um pacto de fidelidade. A teologia judaica fundamente esta eleição primeiramente na figura do patriarca Abraão, a quem Deus promete terra e descendência. O segundo pilar da teologia da eleição é a aliança feita no monte Sinai, liderada por Moisés: fidelidade mútua, promessa da terra, mandamentos...

Reino de Deus – Messias

Consequência da aliança sinaítica. O povo será propriedade de Deus, seu reino. Concepção teocrática de sociedade. Introdução da monarquia (1 Sam 8). Javé como o legitimador do poder régio. O rei é ungido (messias). Com a separação entre a figura do Rei e a religião, surge a ideia do ungido (messias), como restaurador do Reino de Deus. Figura muito trabalhada pelos profetas e pelo exílio. Figura cada vez mais elevada e escatológica. Messias e fim dos tempos: Reino de Deus.

Morte e pós-morte

Na concepção hebraica antiga, na organização do universo, havia um lugar depois das águas profundas para o qual iriam os mortos. Este lugar era chamado de Sheol, a morada dos mortos. Bons e maus tinham indistintamente este destino. Com o passar do tempo começa aparecer – sobretudo por influência babilônica – a ideia da separação de justos e injustos no pós-morte. Finalmente, o Judaísmo assume também a ideia da ressurreição (defendida pelo farisaísmo). Ideia esta certamente também de origem mesopotâmica.

 

i) Reviravoltas na religião

A religião judaica conheceu em sua trajetória histórica muitas reviravoltas que a marcaram. Algumas destas:

- Processo de unificação das tribos e sua divisão: a formação do povo de Israel, a partir dos hebreus, foi o resultado de um longo processo de unificação de diversos grupos. Esta unificação veio a ocorrer com a monarquia (Saul, Davi e Salomão), mas se desfaz com a morte de Salomão e nunca mais se recompôs (daquela forma);

- Fé inicial em diversos deuses e cultos para uma monolatria e depois um monoteísmo. Esta talvez seja uma das mudanças teológicas mais radicais ocorrida ao longo da história religiosa e teológica do Judaísmo. Ao que tudo indica, lá nos inícios havia a fé em divindades diversas, com rituais muito diversificados. Com o passar do tempo se impôs o culto a uma única divindade (monolatria) e mais tarde se irá entender esta divindade como única (monoteísmo);

- Povos nômades, com o próprio Deus morando em tendas, para grupo sedentário (Deus morando no Templo), com uma ideia de Reino. Ao longo dos séculos, a forma de vida deste povo mudou bastante: de uma cultura muito mais nômade nos inícios, para uma cultura mais sedentária quando da conquista da chamada Terra Prometida. Estas mudanças no estilo de vida tiveram grande influência no pensamento religioso e na própria compreensão de Deus;

- Período do Exílio babilônico: importância do livro, da família e da sinagoga. Quando a religião havia estabelecido Jerusalém como seu centro e a morada do próprio Deus no templo desta cidade, o período do exílio babilônico irá refazer esta compreensão. Naquela situação três elementos serão muito importantes para a religião: a ideia de um texto sagrado (inicialmente a Torá), o retorno à compreensão de religião familiar (o que já havia sido antes da centralização da religião em Jerusalém) e o surgimento do lugar de reunião religiosa (a sinagoga), como uma novidade na estrutura religiosa judaica. Estes três elementos irão marcar o Judaísmo até os dias de hoje;

- Reconstrução do templo pós exílio: pureza religiosa e mais unidade teológica. A concepção de uma religião mais unificada e pura irá se impor após a volta dos exilados da Babilônia. É neste tempo que surge propriamente a discussão sobre a identidade religiosa judaica. Aqueles que não foram considerados como judeus puros, foram excluídos da religião do templo reconstruído (como é o caso dos samaritanos);

- Religião do Templo para uma religião da sinagoga. Com a destruição definitiva do Templo de Jerusalém no ano 70 d.c.c, a religião não mais teve um centro simbólico, nem a ideia de um lugar de morada da divindade. A sinagoga, inicialmente lugar de reunião, irá se tornar mais e mais importante para as comunidades judaicas da diáspora, até tomar uma centralidade única na estrutura religiosa dos dias atuais;

- Destruição do Templo, com volta à religião familiar e de sinagoga. Outros elementos religiosos decisivos ocorridos com a destruição do Templo de Jerusalém, foi o fato de a religião ter se estruturado retomando um elemento muito antigo da religião familiar e ter assimilado totalmente a invenção da sinagoga como central representação espacial da religião (embora não tenha tido nunca o significado que teve o Templo de Jerusalém);

- Religião da Diáspora: sobrevivência da religião via farisaísmo. Se ao longo dos séculos havia muitas correntes religiosas dentro do Judaísmo, com a diáspora imposta pelos romanos, foi somente a corrente farisaica que sobreviveu;

- Sobrevivência sob o Cristianismo como religião dominante. O Cristianismo nasce como uma dissidência dentro do Judaísmo e em pouco tempo será não apenas numericamente muito maior que a tradição da qual descende, mas será a religião oficial do império romano, dentro do qual vive o Judaísmo. Ocorre assim uma inversão muito grande: de religião oriunda do Judaísmo, o Cristianismo irá se tornar a religião dominante, sob a qual os judeus terão que viver. E isto teve consequências muito decisivas na forma como o Judaísmo foi visto ao longo da história;

- Tradição Ocidental e Oriental (sob cristãos e sob muçulmanos). Se com a destruição do Templo de Jerusalém e a diáspora judaica sob o império romano apenas a corrente religiosa do farisaísmo é que irá sobreviver, o fato dos judeus terem vivido por muitos séculos parte sob os cristãos e parte sob os muçulmanos, fez com que tivessem surgido dois grupos distintos de judeus: sefarditas (sob os muçulmanos) e asquenazitas (sob os cristãos). Embora estes grupos se reconheçam mutuamente como judeus, diferem entre si não só elementos teológicos, mas principalmente no que tange aos costumes;

- Holocausto e recriação do Estado de Israel. Após muitos e muitos séculos vivendo em diáspora e sob o domínio de outros povos (e religiões), os judeus irão reconstruir um estado próprio em 1948. Este processo foi fruto do chamado Movimento Sionista, surgido no final do século XIX, mas que ganhou grande impulso com os acontecimentos da 2ª grande guerra e o extermínio de judeus sob o nazismo alemão (o chamado holocausto).

 

Algumas referências bibliográficas sobre Judaísmo

 

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AZRIA, R. O Judaísmo. Bauru: Edusc 2000.

BRENNER, M. Breve história dos Judeus. São Paulo: Martins Fontes 2013.

COHN-SHERBOK, D. Judaísmo. Lisboa: Edições 70 1999.

EHRLICH, C. S. Conhecendo o Judaísmo. Petrópolis: Vozes 2010.

FARIA, J. F. História de Israel e as pesquisas mais recentes. Petrópolis: Vozes 2004.

GERSTENBERGER, E. Teologias no Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal 2007.

MAZZINGHI, L. História de Israel – Das origens ao período romano. Petrópolis: Vozes 2017.

NEUSNER, J. Introdução ao Judaísmo. Rio de Janeiro: Imago 2004.

OTZEN, B. O Judaísmo na Antiguidade. São Paulo: Paulinas 2003.

PIXLEY, J. A história de Israel a partir dos pobres. Petrópolis: Vozes 2004.

RIBEIRO, A. B. T. Introdução à História do “Povo de Israel”. Jundiaí: Paco Editorial 2017.

 

Volney J. Berkenbrock



[1] Sobre esta temática, veja: MAZZINGHI, L. História de Israel – Das origens ao período romano. Petrópolis: Vozes, 2017, p. 24-25.

[2][2] A obra de MAZZINGHI “História de Israel – Das origens ao período romano” (Petrópolis: Vozes, 2017) traz todo um capítulo com esta discussão sobre “As origens de Israel” (p. 27-47).