RSS
Volney Berkenbrock
História das Religiões - Cap. 4: O Taoismo PDF Imprimir E-mail

 

3.3 O Taoísmo

 

A religião do Taoísmo nos é de pouco acesso. Trata-se, porém de uma das maiores tradições religiosas dentro do imenso mundo chinês. Apesar de nosso pouco acesso, há de se reconhecer duas espécies, ou melhor, dois vieses, pelo qual o Taoísmo pode ser observado. Há por um lado o Taoísmo como religiosidade popular, com seus cultos, suas ações e práticas religiosas, de piedade individual e familiar, de templos e ritos, de oferendas e sacrifícios. Por outro lado há o Taoísmo como forma de pensamento e vida a partir de uma determinada compreensão – digamos – mais reflexiva ou filosófica, compreensão esta que teria sido elaborada, sobretudo por dois grandes mestres: Lao-Tse e Chuang Tzu. Por um lado há, pois uma prática religiosa popular, cheia de ações, muitas delas relacionadas ao próprio corpo, como exercícios de respiração, prática sexual, comida, etc. ou então relacionadas a lugares nos quais se faz ações religiosas. Esta é composta de muitas tradições, talvez milenares e sem qualquer centralização religiosa institucional. Talvez sejam chamadas de Taoísmo mais por agrupamento de diferenciação do que por terem uma orientação única. Por outro lado há uma maneira de compreender a vida, um modo de pensar: claramente uma filosofia de vida, sem se referir necessariamente a práticas de religiosidade. A ambas as formas se dá o nome de Taoísmo. Seriam ambos a mesma coisa, apenas observado por um ponto de vista diferente? Seriam duas coisas diferentes e independentes? O mais razoável é pensar que sejam duas formas que estejam bastante juntas, mas ao mesmo tempo separadas – bem à maneira de pensar taoísta.

 

a) Origens

 

Devido a estes dois modos possíveis de se ver o Taoísmo, fica logo de início a pergunta: Teria sido o Taoísmo desde o início uma religião ou um agrupamento de praticas que se pode chamar de religiosas, ou seria apenas uma escola filosófica? Há quem afirma que tudo tem início com o movimento filosófico de Lao-Tse, pelo século VI a.c.c. Mais tarde, por volta do século II a.c.c. até II d.c.c. teria havido um movimento popular transformado o Taoísmo filosófico numa religiosidade popular. Há os que afirmam justamente o contrário: o movimento filosófico nasce dentro de uma situação de religiosidade popular já existente. Thomas Merton considera inclusive o Taoísmo popular uma degeneração do Taoísmo filosófico. Assim afirma: “Devemos também considerar Chuang em relação aos fatos que o sucederam, pois seria um grave erro confundir o Taoísmo de Chuang Tzu com aquele amálgama populista, degenerado de superstições, alquimia, mágicas e panaceias, em que o Taoísmo veio a se constituir mais tarde”[1].

Não queremos entrar nesta discussão: apenas constatar a possibilidade de ver o Taoísmo por diversos modos[2]. O Taoísmo esteve tradicionalmente ligado à religiosidade popular do povo chinês, de modo que há nele muitas tradições antiquíssimas, como elementos que foram agregados com o tempo. Afirma W. Piazza a respeito desta discussão: “Em todo o caso, no fundo de toda esta polêmica está um problema religioso, a saber, a experiência xamânica, cultivada pelos taoístas, e que motiva a doutrina da reintegração no Tao por meio da não-ação (wu-wei-wu), levando ao êxtase místico, mas que, sob a influência posterior do budismo, se transformou em técnicas de respiração e métodos de concentração mental, não mais com o fim de procurar a reintegração no Tao, mas com o fim mais pragmático de conseguir a imortalidade...”[3]

 

b) Lao-Tse

 

O movimento filosófico teria sido iniciado por Lao-Tse (ou Lao-Tsu ou Laozi ou Lao-tzu). Lao-Tsé quer dizer literalmente “o velho mestre” ou “a velha criança”, o que já nos dá a pensar sobre a historicidade de sua pessoa. A notícia biográfica mais antiga que se tem sobre esta pessoa é do ano 100 a.c.c. O historiador Sse-ma Chi’ien em seu Shijji (“Apontamentos históricos” ou “Memórias históricas) fala deste mestre que teria sido contemporâneo de Confúcio. Lao-Tse teria sido arquivista palaciano na capital dos reis de Chou. Hoje se contesta a historicidade destas descrições. Elas estão já influenciadas pelas divergências havidas logo cedo entre as duas correntes de pensamento: Taoísmo e Confucionismo. Nas referências taoístas sobre o confucionismo, este sempre aparece como uma doutrina decadente, inferior. Confúcio é apresentado como um falso filósofo que teria se arrependido após visitar Lao-Tse e se tornado inclusive seu discípulo. Confúcio teria visitado Lao-Tse e este o teria admoestado para que “abandonasse seu orgulho e cobiça, renunciasse às suas ambições, pois um bom comerciante encobre as suas riquezas, como se nada possuísse, e o nobre embora seja rico em Te, virtude, aparenta ser um simplório.[4]” Sobre este pretenso encontro, está no Shijji: “Lao-tse lhe disse: ‘O bom comerciante esconde bem no fundo seus tesouros e faz como se os seus cofres estivessem vazios; o homem de bem transborda de virtude, mas seu rosto e sua expressão não manifestam senão idiotia’... Confúcio voltou e disse a seus discípulos: ‘Os pássaros, sei que eles podem voar; os peixes, sei que podem nadar; os animais selvagens, sei que podem correr. O que corre pode ser pego nas redes, o que nada pode ser pego no anzol e o que voa pode ser pego com a flecha. Mas, quando ao dragão, não posso saber como, cavalgando ventos e nuvens, ele se eleva até o céu. Ora, hoje, vi Lao-tse. Pois bem! Ele é como do dragão!’”[5]

Outras referências históricas sobre Lao Tse o situam no século III a.c.c. A historicidade de seu personagem não é certa. A tradição em torno do texto a ele atribuído (o Tao Te King) é que aos poucos vai criando um personagem central como autor e a ele atribuindo uma biografia. Como não há notícias do texto anteriores ao século III a.c.c., também não se pode deduzir de nenhuma historicidade anterior para Lao Tse. Dado ao fato de que as projeções posteriores o colocam dialogando com Confúcio, por muito tempo este “velho mestre” foi interpretado como seu contemporâneo (século V). A maioria dos historiadores hoje, entretanto não atribuem mais esta antiguidade a esta figura chamada de Lao Tse. Alguns são inclusive da opinião que o pensador Chuang Tzu lhe seria anterior, embora a tradição faça de Chuang Tzu um discípulo filosófico de Lao Tse. Independente da discussão cronológica, o que interessa aqui é o modo de pensar e a sua proposta de vida, o que podemos considerar – em sentido lato – uma religião.

A filosofia de Lao-Tse alcançou, porém importância política na dinastia de Han (começo do século II a.c.c.), quando se tornou uma espécie de filosofia de estado. Huang-ti (o Imperador Amarelo), um dos imperadores místicos da antiguidade, teria sido adepto/propagador da doutrina de Lao-Tse. Em 127 a.c.c., porém, a doutrina confucionista logrou alcançar o status de doutrina oficial, ocorrendo uma degradação das doutrinas não confucionistas. Mais tarde, por alguns momentos históricos, a doutrina taoísta ganhou importância localizada.

Todos estes acontecimentos posteriores acabaram influenciando as estórias que surgiram em torno de Lao-Tse. E, segundo estas, o “velho mestre” por ter percebido a decadência da corte de Chou, onde seria encarregado da conservação dos arquivos, decidiu abandonar o país. No último posto de controle da fronteira do império, antes que partir para a estepe, o chefe da guarda, Hin Hsi, lhe teria dito: “Já que estais prestes a retirar-vos do mundo, peço vos digneis compor para mim um livro”[6]. O mestre escreveu-lhe então cerca de cinco mil palavras, compondo o Tao Te King. Depois disso teria desaparecido. Mas como a tradição tudo sabe, dá ela notícia que devido à sabedoria do wu-wei, teria o mestre sido muito longevo: em algumas tradições 87 anos, em outras 160, em outras 200.

 

c) O Tao Te King

 

O livro escrito segundo a tradição pelo “velho mestre” é o “Tao Te Ching” (ou Tao Te King ou Daodejing): que pode ser traduzido como “Livro do Caminho e de sua Virtude”. Trata-se de um texto composto de cerca de 5 mil caracteres chineses e em sua forma atual, está dividido em 81 capítulos. Segundo o Léxico das Religiões, este texto é, depois da Bíblia, o texto mais traduzido e editado no mundo todo. Teria surgido entre o século IV e III a.c.c., embora se reconheça que há partes acrescentadas mais tarde (não há referências a este livro em fontes anteriores ao séc. III a.c.c.). Como muitas temáticas tratadas no texto são típicas do período final dos Reinos Combatentes, imediatamente anterior à unificação do império chinês (de 221 a.c.c.), tendem os estudiosos a datar a origem de boa parte dos textos no século III a.c.c., embora “o conteúdo evita deliberadamente toda referência que poderia fornecer algum elemento para datar ou situar o texto (lugares, acontecimentos, personagens históricos, etc.).[7]

A formação do texto como a temos hoje, é porém bastante antiga, pois dois manuscritos encontrados em túmulos do século II a.c.c. contêm pouquíssimas variações em relação ao texto de hoje. A principal variação é uma outra ordem dos textos e a não divisão em capítulos. Esta divisão atual deve ter surgido num contexto de ritualização, pois 81 (9X9) é um número que pode ser considerado sagrado.

Os capítulos do Tao Te Ching são textos curtos, difíceis de serem interpretados. Por serem textos enigmáticos, cheios de nuanças, não apenas sua compreensão, mas sua tradução também é extremamente difícil. Trata-se sempre claramente de uma interpretação. E isto é que o torna difícil. Como afirma A. Cheng, “temos uma série de poemas ritmados e rimados de uma concisão extrema, de estilo único, obscuro de tanta simplicidade”[8]. Assim, o texto oferece muitas possibilidades de tradução, o que de fato pode ser constatado nos muitos textos publicados nas diversas línguas (inclusive em português).

O texto do Tao Te Ching não é um tratado sistemático. Cada capítulo é um texto em si, não havendo um fio condutor da obra e por isso sua organização pode ter sido mudada com o tempo, bem como podem ter ocorrido acréscimos. O estilo é, na maior parte do texto, de aforismas sapienciais. Mas partes do texto podem ser considerados mais teóricos, como afirmações sobre o Tao ou a não-ação. Outras partes são claramente ligadas à organização política, fazendo críticas sem nomear endereçados. Outras partes podem ser consideradas de conteúdo religioso.

1º - Exemplos de alguns textos de aforismas sapienciais

 

Capítulo II:

Pelo fato de todos sob o Céu reconhecerem a beleza como beleza

é que existe a ideia de feiura.

Da mesma maneira, se todos reconheceram a virtude como virtude,

isto cria simplesmente novas concepções de maldade.

Na verdade, o Ser e o Não-ser nascem um do outro;

O difícil e o fácil se completam.

O longo e o curto formam-se um pelo outro;

O alto e o baixo determinam-se mutuamente.

O ruído e o silêncio fazem a harmonia.

O antes e o depois fazem a sequência.

Por isso o Sábio confia na atividade sem ação,

ensina sem dizer palavras.

Influencia as inúmeras criaturas; a nenhuma renega.

Ele as cria, mas não as reivindica,

Ele as controla, mas não se apossa delas.

Realiza seu objetivo, mas não chama a atenção para o que faz;

E por não chamar a atenção para o que faz,

Não é privado da fruição do que fez.

 

Capítulo IX:

Estique o arco até seu limite

E você desejaria ter parado a tempo;

Afie o gume da espada ao máximo

E perceberá que cedo perderá o fio.

Quando o ouro e o jade enchem tua sala,

Ela já não pode ser protegida.

Riqueza e posição social levam à arrogância.

Em seu cortejo vem a ruína.

Realizado teu trabalho, retira-te!

Este é o Caminho do Céu.

 

Capítulo XI:

Reunimos trinta raios e chamamos isto roda;

Mas a utilidade da roda depende do espaço onde não há nada.

Modelamos a argila para fazer um vaso;

Mas a utilidade do vaso depende do espaço onde não há nada.

Recortamos portas e janelas para fazer uma casa;

E é desses espaços, onde não há nada,

que depende a utilidade da casa.

Portanto, assim como tiramos proveito daquilo que é,

deveríamos reconhecer a utilidade daquilo que não é.

 

Capítulo XXVII

A atividade perfeita não deixa rasto atrás de si;

O discurso perfeito é como alguém que trabalha com jade

e cuja ferramenta não deixa marca.

O contador perfeito não precisa de instrumentos para calcular;

A porta perfeita não tem ferrolho nem tranca,

E assim mesmo não pode ser aberta.

O nó perfeito não precisa de corda nem de fio,

E mesmo assim não pode ser desatado.

Por isso o Sábio

Está sempre ajudando os homens do modo mais perfeito,

Ele certamente não volta as costas aos homens;

Está sempre ajudando as criaturas do modo mais perfeito,

Ele certamente não volta as costas às criaturas.

Isto se chama recorrer à Luz.

Na verdade, “o homem perfeito é o professor do imperfeito;

Mas o imperfeito é a matéria-prima do homem perfeito”.

Quem não respeita seu professor,

Quem não cuida de sua matéria-prima,

Por mais instrução que possua está no caminho errado.

Este é o segredo essencial.

 

Capítulo XXXIII:

Compreender os outros é ter sabedoria;

Compreender a si mesmo é ser iluminado.

Conquistar os outros exige força;

Conquistar a si mesmo é mais difícil ainda;

Estar contente com o que se tem é ser rico.

 

2º - Exemplos de textos críticos quanto à forma de governo. Aqui se mostra que o autor – seja lá quem for – está claramente criticando Confúcio, que propunha um governo organizado. O autor aqui poderia ser considerado um anarquista, dado a crítica feroz que faz à burocracia.

 

Capítulo XVII:

Do mais eminente, o povo apenas sabe que ele existe;

Do que vem em seguida, eles se aproximam e o louvam.

Diante do seguinte, eles recuam temerosos; depois, só injúrias.

Na verdade, “É por não acreditar no povo

que a gente os transforma em mentirosos”.

Mas é tão difícil tirar a qualquer custo uma única palavra do Sábio

Que, quando sua tarefa está realizada, seu trabalho pronto,

Todos dizem no país inteiro: “Isto aconteceu espontaneamente”.

 

Capítulo XVIII:

Quando chegou ao fim o Grande Caminho,

Surgiram a bondade e a moralidade humanas;

Quando apareceram a inteligência e o conhecimento,

Teve início o Grande Artífice.

Quando não houve mais paz entre os seis familiares,

Falou-se de “piedade filial”;

Só quando a pátria estava coalhada de lutas

Ouvimos falar de “escravos fiéis”.

 

Capítulo XXX:

Quem se propõe a ajudar com o Tao um governante dos homens

Vai opor-se a toda conquista pela força das armas;

Pois tais coisas costumam ricochetear.

Onde há exércitos crescem espinhos e cardos.

O aparecimento de grande tropa

É seguido de um ano de carestia.

Por isso um bom general realiza seu objetivo e para;

ele não tira ulterior proveito de sua vitória.

Realiza seu objetivo e não se gloria do que fez;

Realiza seu objetivo e não se ufana do que fez;

Realiza seu objetivo, mas não se orgulha do que fez;

Realiza seu objetivo, mas apenas como um passo

que não podia ser evitado.

Realiza seu objetivo, mas sem violência;

Pois o que tem um tempo de vigor

também tem um tempo de decadência.

Isto é contra o Tao,

E o que é contra o Tao cedo perecerá.

 

Capítulo XXXVIII:

Eis por que se diz:

“Depois que o Tao foi perdido, veio a ‘virtude’;

Depois que a ‘virtude’ foi perdida, veio a bondade humana.

Depois que a bondade humana foi perdida, veio a moralidade,

Depois que a moralidade foi perdida, veio o ritual.

Agora o ritual é o mero invólucro da lealdade e fidelidade,

E é na verdade o primeiro passo para a desordem.

A presciência pode ser a flor da doutrina”,

Mas é o começo da loucura.

Por isso o homem maduro baseia-se na substância sólida

e não no simples invólucro,

No fruto e não na flor.

Na verdade, “rejeita uma coisa e fica com a outra”.

 

Capítulo XLVI:

Quando há Tao no império

Os cavalos de corrida fertilizam o solo com suas gotas de suor.

Quando não há Tao no império

Cavalos de guerra serão criados

até mesmo sobre os sagrados outeiros dentro dos muros da cidade.

(Não há maior engodo do que possuir o que os outros desejam).

Não há maior desastre do que não estar contente com o que se tem,

Nem presságio ou mal maior do que os homens quererem ter mais.

Na verdade, “Quem conheceu uma vez o contentamento que vem pelo simples fato de se estar contente nunca mais quererá ser contentado de outro modo”.

 

Capítulo LVII:

“Reinos só podem ser governados se forem observadas regras;

Guerras só podem ser vencidas se regras forem quebradas”.

Mas a adesão de tudo sob o céu só se consegue pela não-intervenção.

Como sei que assim é?

Através disso.

Quanto mais proibições e impedimentos rituais houver,

Mais pobre o povo será.

Quanto mais “armas afiadas” houver,

Mais desordem haverá no país inteiro.

Quanto mais peritos engenhosos houver,

Mais planos perniciosos serão inventados.

Quanto mais leis forem promulgadas,

Mais ladrões e bandidos surgirão.

Por isso um sábio falou assim:

Enquanto “não faço nada”, o povo se transforma por si.

Enquanto amo a quietude, o povo vai comportar-se bem.

Enquanto atuo só pela inatividade, o povo vai prosperar.

Enquanto eu não tiver desejos, o povo retornará ao “estado do tronco de madeira não trabalhado”.

 

Capítulo LXXV:

O povo passa fome porque os seus dirigentes comem excesso de impostos sobre os grãos. Esta é a única razão por que passa fome.

É difícil governar o povo porque seus dirigentes interferem muito. Esta é a única razão por que é tão difícil governá-lo.

O povo não dá importância à morte porque seus dirigentes estão excessivamente absorvidos na busca da vida. Esta é a razão por que não dá importância à morte.

Pelo fato de seus corações não estarem tão apegados à vida, as pessoas do povo são superiores aos que dão grande valor à vida.

 

3º. Exemplos de textos que remetem a rituais e questões religiosas:

Capítulo VI:

O Espírito do Vale não morre jamais.

É chamado a Fêmea Misteriosa.

E a Porta da Fêmea Misteriosa

É a raiz donde brotaram Céu e Terra.

Ele está lá, dentro de nós o tempo todo;

Disponha dele como quiser, ele jamais se esgota.

 

Capítulo VII:

O Céu é eterno, a Terra é perene.

Como chegaram a ser assim? É porque não criam suas próprias vidas;

Eis a razão de viverem tanto tempo.

Por isso o Sábio

Se coloca em último lugar, mas está sempre à frente;

Fica de fora, mas está sempre lá.

Não é precisamente por não buscar nenhum objetivo pessoal

Que todos os seus objetivos pessoais são realizados?

 

d) Chuang Tzu

 

Chuang Tzu – A pessoa: O livro de Chuang Tzu é uma obra dividida em 3 partes e 33 capítulos. Segundo a tradição, teria sido escrito pelo mestre Chuang Tzu. A este nome não está ligada nenhuma lenda especial. Ele teria vivido no norte da China no século IV a.c.c. O “Dicionário Enciclopédico das Religiões” o define como “o maior dentre os filósofos taoístas da China. “O texto da obra que tem o seu nome descreve-o como um letrado pobre, não conformista e pouco inclinado a abraçar uma carreira de conselheiro dos poderosos de sua época”[9]. Foi, à sua maneira, um contestador da ordem vigente: “Chuang Tzu não exigia menos do que Jen e Yi, e sim, mais. A sua maior crítica a Ju [confucionista] era a de que esta não podia ir muito longe. Que produziu autoridades bem comportadas e virtuosas, realmente homens de cultura. Contudo, limitou-os e aprisionou-os dentro de normas exteriores fixas, e, consequentemente, impossibilitou-os de agirem e de criarem livremente, como resposta às sempre novas exigências de situação imprevistas”[10].

A obra: É improvável que tenha sido escrito por uma só pessoa. Deve ter um núcleo mais antigo, a partir do qual foram sendo acrescentados outros textos. Seu estilo é vivo, jovial e até jocoso. Este texto em muito influenciou os pensadores chineses de todas as religiões. Especialmente o Zen-Budismo foi muito influenciado pelo pensamento taoista de Chuang Tzu. T. Merton considera inclusive que o pensamento de Chuang Tzu foi o principal responsável pela adaptação do Budismo advindo na Índia ao modo de ser e pensar chinês[11].

Exemplos do texto:

1º Destrinchando um boi

Um açougueiro estava destrinchando um boi para o senhor Wenhui. Todo toque de sua mão, todo movimento de seu ombro, todo pisar de seu pé e todo dobrar de seu joelho faziam soar o corte da carne e o manejo da faca – um ritmo perfeito como a dança das amoreiras e um som perfeito como a música no tempo do rei Yao.

O senhor Wenhui exclamou: “Formidável! Você tem habilidade de mestre!”

O açougueiro largou a faca a respondeu: “O que eu amo é o Tao, que é muito mais esplêndido do que minha habilidade. Quando comecei a destrinchar bois, eu só via o boi inteiro. Três anos depois já não via o boi inteiro, mas em partes. Agora trabalho nele por intuição e não olho para ele com meus olhos. Meus órgãos visuais param de funcionar, enquanto minha intuição segue o seu próprio caminho. Seguindo a linha natural, corto ao longo dos veios principais e introduzo a faca nas grandes cavidades. Seguindo a estrutura própria do boi, nunca atinjo veias ou tendões, muito menos os grandes ossos. Um bom açougueiro troca de faca uma vez por ano porque corta a carne; um açougueiro comum troca de faca uma vez por mês porque corta os ossos. Eu uso esta faca há dezenove anos e destrincho milhares de bois, mas a lâmina está tão afiada como se tivesse saído agora da pedra de amolar. Há pequenos espaços entre as juntas, e a lâmina da minha faca é muito fina. Quando introduzo a fina lâmina de minha faca nesses espaços, há muito lugar para ela passar. Eis a razão de a lâmina estar tão afiada, após dezenove anos, comose tivesse saído agora da pedra de amolar. No entanto, quando chego a um ponto complicado e vejo que há dificuldades, procedo com muita cautela. Mantenho meus olhos no que estou fazendo e manejo a faca devagar. Com leve movimento da faca corto fora a carne – ela cai ao chão qual torrão de terra. Com a faca na mão olho satisfeito ao redor. Depois limpo a faca e a guardo com cuidado”.

O senhor Wenhui disse: “Fantástico! Daquilo que você me contou, aprendi como conservar boa saúde”.

 

2º Alegria dos peixes

Andando com Huizi sobre uma ponte do rio Hao, Chuang Tzu disse: “Os peixes nadam tão livremente! É assim que os peixes são felizes”.

Huizi disse: “Você não é peixe. Como sabe que os peixes estão felizes?”

Chuang Tzu disse: “Você não é eu. Como sabe que eu não sei sobre os peixes?”

Huizi disse: “Eu não sou você e certamente não sei sobre você; você com toda certeza não é peixe, donde se conclui que não pode saber sobre os peixes”.

Chuang Tzu disse: “Vamos voltar à pergunta primitiva. Você perguntou: ‘Como sabe que os peixes estão felizes?’ A pergunta mostra que você sabe que eu sei sobre os peixes. Uma vez que você sabe sobre mim, por que não poderia eu saber os peixes? Cheguei a sabê-lo passando na ponte sobre o rio Hao”.

 

Ambas as obras dão pouquíssimas informações sobre a época em que foram escritas, de modo que não se tem – a partir delas – uma ideia mais precisa de até que ponto elas representam o pensamento de um grupo, de uma comunidade religiosa ou de uma escola filosófica.

 

e) O Tao

 

A palavra Tao quer dizer caminho, estrada, senda. O termo tem porém um significado muito amplo e central para o modo de pensar chinês. É sem dúvida um dos conceitos que mais influenciou a filosofia chinesa. A construção do conceito foi lenta e teria sido elaborada a partir do século XI a.c.c. até depois dos grandes filósofos da antiguidade chinesa: Lao-Tsé e Confúcio (séc. IV a.c.c.). O contexto do surgimento do conceito seria o do caos moral e político em que vivia a China. Diante desta situação, muitos foram os que pensaram o ‘caminho’ para se reverter a situação, para se (r)estabelecer a ordem. Assim, o conceito Tao significa caminho, mas caminho para a ordem, para o correto.

Confúcio e Lao-Tsé utilizaram-se deste conceito, entendendo-os de forma diferente, como já ficou claro.

Exemplos de textos do Tao te King sobre o TAO

Capítulo I:

O Caminho que se pode trilhar não é um Caminho Imutável;

Os nomes que se podem pronunciar não são nomes imutáveis.

Foi do Sem-nome que surgiram Céu e Terra;

O que tem nome é a mãe das dez mil criaturas, cada uma segundo sua espécie.

Na verdade, apenas aquele que se livrou para sempre do desejo pode ver as Essências Secretas;

Aquele que jamais se livrou do desejo pode ver tão-somente as Aparências.

Essas duas coisas saíram da mesma fôrma, mas têm nome diferente.

Esta mesma fôrma só podemos chamá-la Mistério,

Ou, antes, o “mais Obscuro que qualquer Mistério”,

A porta donde saíram todas as Essências Secretas.

 

Capítulo IV:

O Caminho é semelhante a um recipiente vazio

Do qual, no entanto, se pode tirar

Sem jamais haver necessidade de encher.

Ele não tem fundo; é a fonte de todas as coisas do mundo.

(Nele todo afiado perde o fio,

Todos os nós são desatados,

Todo brilho ofuscante é abrandado,

Toda poeira é suavizada).

É como um poço profundo que nunca seca.

Foi ele também o filho de alguém outro? Não o sabemos.

Mas como imagem sem substância existiu antes do Ancestral.

 

Capítulo XXV:

Houve alguma coisa sem forma, mas completa

Que existiu antes do céu e da terra;

Sem som, sem substância,

De nada dependendo, imutável,

Tudo penetrando, infalível.

Podia-se pensar que fosse a mãe de tudo sob o céu.

Não sabemos o seu verdadeiro nome;

“Caminho” é o apelido que lhe damos.

Se eu fosse forçado a dizer a qual classe de coisas pertence,

Eu o chamaria Grande.

Grande também significa passar adiante,

Passar adiante significa ir para bem longe

E ir para bem longe significa voltar.

Assim como o Tao tem “esta grandeza”, como a terra a tem e como o céu a tem, também o homem pode tê-la.

Por isso “dentro do reino há quatro porções de grandeza”, e uma delas pertence ao rei.

Os caminhos dos homens são condicionados pelos da terra.

Os caminhos da terra, pelos do céu.

Os caminhos do céu, pelos do Tao, e os caminhos do Tao por ele mesmo.

 

Capítulo XXXII:

O Tao é eterno, mas não tem fama (nome);

O Tronco Não-trabalhado, embora aparentemente pequeno,

É maior que qualquer outra coisa debaixo do céu.

Se reis e barões se deixassem possuir por ele,

As dez mil criaturas se reuniriam para prestar-lhes homenagem;

Céu e Terra haveriam de conspirar

Para destilar um Doce Orvalho,

Sem lei ou compulsão, os homens habitariam em harmonia.

Assim que o tronco for trabalhado, haverá nomes,

E logo que houver nomes

Saiba que é tempo de parar.

Apenas sabendo-se quando é tempo de parar pode o perigo ser evitado.

Tudo debaixo do céu virá ao Tao

Como os riachos e torrentes deságuam num grande rio ou no mar.

 

Capítulo LI:

O Tao as gerou;

A “virtude” do Tao as criou,

Deu-lhes forma segundo suas espécies,

Aperfeiçoou-as, dando a cada uma sua força.

Por isso, das dez mil coisas não há nenhuma que não adore o Tao e preste homenagem à sua “virtude”. Nenhuma ordem foi publicada dando ao Tao o direito de ser adorado, nem à sua “virtude” o direito de ser adorada, nem à sua “virtude” o direito de receber homenagem.

Foi sempre assim e espontaneamente.

Portanto, uma vez que foi o Tao que as gerou e a “virtude” do Tao que as criou, fez crescer, nutriu, abrigou, aperfeiçoou, também vós deveis

“Criá-las, mas não reivindicá-las,

Controlá-las, mas nunca se apossar delas,

Ser chefe entre elas, mas não dominá-las.

Isto se chama o poder misterioso”.

 

f) O wu-wei

 

Sabedoria do wu wei: não-fazer.

“O caráter verdadeiro do wu wei não é a mera inatividade, mas sim a ação perfeita – por se tratar de um ato sem atividades. Explicando melhor, é a ação, não levada avante independentemente do céu e da terra, nem em conflito com o dinamismo do todo, e, sim, em perfeita harmonia com o todo. Não é mera passividade, mas ação que parece ser isenta de esforços e espontânea, pois executada ‘corretamente’, em perfeito acordo com a nossa natureza e com a nossa posição na trama dos acontecimentos. É totalmente livre, porque nela não há nenhuma força ou violência. Não é ‘condicionada’, nem ‘limitada’ por nossas próprias necessidades e desejos individuais, nem mesmo por teorias ou ideias”[12].

 

“A diretriz do Tao é começarmos com o bem simples, de que fomos dotados, pelo próprio fato da nossa existência. Em vez de cultivarmos este bem autoconscientemente (que desaparece quando para ele olhamos e torna-se intocável, quando tentamos pegá-lo), vamos progredindo calmamente na humildade de uma vida simples, corriqueira. (...) O segredo da vida proposta por Chuang Tzu é, portanto, não a acumulação da virtude e do mérito, ensinada por Ju, mas o wu wei, o não-fazer ou a inação, que não almeja resultados, e não se preocupa com planos conscientemente estabelecidos, nem com tentativas deliberadamente organizadas”[13].

 

 

G) O Tei-Gi e os princípios yin e yang

 

Além do conceito do Tao, outros são muito importantes para a compreensão taoísta da existência. Aqui há que se destacar o Tei-Gi e os princípios yin e yang. O Tei-Gi é uma representação do universo e de sua dinâmica. Há o elemento do círculo, que representa a totalidade. O círculo é o perfeito, o englobante, o includente. Este círculo acontece, porém numa polaridade. Polaridade de sombras: claro e escuro. Não são, porém em paralelos retos, mas em simetria dinâmica. Há uma interpenetração contínua. Não há “pureza” no claro, nem no escuro. O Outro está presente na dinâmica.

Esta polaridade/duplicidade/antítese é expressa nos conceitos yin e yang. Há na literatura chinesa já no século VII a.c.c. referência a estes dois conceitos. Eles são a polaridade a partir da qual surgiu o universo. Originalmente yin e yang designam o lado sombreado e o lado ensolarado de uma montanha. Nos séc. IV e III a.c.c. estes conceitos foram trabalhados filosoficamente. Ele baseia-se na teoria das duas forças. A esta teoria das duas forças, foi agregada a compreensão dos cinco elementos: água, fogo, madeira, metal e terra. Nestes cinco elementos há a polaridade de água e fogo. À água associa-se o metal, ao fogo a madeira, enquanto a terra é o centro. Todos os elementos podem ser classificados como pertencentes a uma destas categorias. Na base está a polaridade (yin e yang). “À luz desta teoria agora fundamentada filosoficamente, tudo o que se vinculava intimamente à terra era feminino e do âmbito de yin. Tudo o que se associava ao céu pertencia ao âmbito de yang e era masculino, pois o céu (yang) e a terra (yin), o sol (yang) e a lua (yin) provinham de yin e yang. Yang significa algo que principia, desencadeia, algo dinâmico, que se expande, é redondo, se movimenta, é masculino e fecundante. Associações elementares com yin, por outro lado, são: algo que se completa, estático, conservador, includente, quadrado, tranquilo, feminino, que dá à luz” (Léxico das Religiões). A ideia destes dois princípios foi estendida a outros âmbitos, vindo a designar aspectos complementares em grupos sociais e a complementariedade sexual. Por trás dos conceitos de yin e yang está tanto a ideia de princípios antitéticos, (ou até antagônicos), como também a ideia da complementariedade, da interdependência, da confluência. Há também um elemento interessante nesta polaridade que é a não possibilidade de fixação dogmática em um dos polos. Não está presente na compreensão inicial de yin e yang a ideia da contraposição entre o bem e o mal. Esta compreensão foi mais tarde agregada (inadequadamente) a ela.

A teoria dos cinco elementos e suas polaridades é aplicada em muitos campos: da agricultura à arquitetura; da combinação de cores à dos relacionamentos; das energias pessoais à saúde... Nela está também baseada a técnica conhecida como Feng Shui (pronuncia-se feng shuei). As aplicações práticas disto para estimular a energia, a felicidade, a prosperidade, a harmonia...

 

f) A religiosidade popular

 

O Taoísmo não é uma religião institucionalizada. A atividade “religiosa” taoísta não se distingue das atividades entendidas como pertencentes à sociedade. “Estende-se à vida inteira e atinge o regime alimentar, a organização do habitat, a organização das cidades (bairros agrupados ao redor dos templos), os tempos da vida (nascimento, casamento, morte), as crises da vida, o calendário agrícola, as festas, o artesanato e o comércio (através das associações e corporações), as alianças regionais e nacionais, ou ainda as artes e as técnicas (incluindo a medicina), a literatura, a filosofia, a mística. ... Cabe a cada um determinar-se de acordo com a sua fé, a sua prática, o seu progresso na compreensão do mistério”[14].

 



[1] T. Merton, A via de Chuang Tzu. Petrópolis: Vozes 1999, 19-20.

[2] O que aliás pode-se fazer também muito bem com a religião cristã: pode-se definir o cristianismo a partir dos Evangelhos, da forma de pensar e agir de Jesus, ou se pode definir o cristianismo a partir da religiosidade popular, com seus rituais semi-mágicos ou então a partir da aeróbica do “Erguei as mãos”. Pode-se aqui, como no Taoísmo, colocar a mesma questão: é o mesmo cristianismo, ou são coisas diferentes?

[3] W. Piazza, Religiões da Humanidade, Edições Loyola, p. 336.

[4] E. Bunner-Traut, Os Fundadores das grandes Religiões, Editora Vozes, p. 204.

[5] CHENG, A. História do Pensamento Chinês. Petrópolis: Vozes 2008, p. 209.

[6] CHENG, A. História do Pensamento Chinês. Petrópolis: Vozes 2008, p. 210.

[7] CHENG, A. História do Pensamento Chinês. Petrópolis: Vozes 2008, p. 210.

[8] CHENG, A. História do Pensamento Chinês. Petrópolis: Vozes 2008, p. 210.

[9] J. Delumeau (org.), As grandes Religiões do mundo, p. 516.

[10] T. Merton, A via de Chuang Tzu, Petrópolis: Vozes, 1999 p. 27.

[11] Cf. T. Merton, A via de Chuang Tzu, Petrópolis: Vozes, 1999 p. 20.

[12] T. Merton, A via de Chuang Tzu, 39-40.

[13] T. Merton, A via de Chuang Tzu, p. 33.

[14] J. Delumeau (org.), As grandes religiões do mundo, 530-531.