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Volney Berkenbrock
Pneumatologia - Cap.: 3 1a parte PDF Imprimir E-mail

 

Capítulo III: A tradição judaico-cristã

 

Havíamos acentuado acima quando foi comentada a origem da expressão "Espírito Santo" o fato de ela querer traduzir uma experiência originária da ação de Deus percebida pelo humano. Na Bíblia, como vimos, há várias outras expressões que tentam colocar em palavras esta experiência: Espírito de Sabedoria, Espírito da Verdade, Espírito de nosso Deus, Espírito de Santificação... Pretendemos olhar agora mais de perto como foi compreendida a experiência do Espírito de Deus na tradição judeu-cristã, examinando sobretudo os testemunhos do Antigo e do Novo Testamento. A própria expressão "Espírito Santo" a temos do relato bíblico, especialmente como se impôs no Novo Testamento. A experiência que está por detrás da experiência é de Deus que se faz perceber pelo "coração"[1] humano (Gl 4,6; Jo 14,26), que é "derramado" no humano (Is 29,10; 32,15; 44,3; At 2,17.33; 10,45; Rm 5,5). A presença deste Espírito "enche" com sua força profetas e reis, ungidos e fiéis (Ex 31,3; Dt 34,9; Mi 3,8; Mc 12,36; Lc 1,15.41.67; 2,25; 4,1; 10,21; At 2,4; 7,55; 13,52). O Espírito de Deus tem a capacidade de movimentar, arrebatar, encher, repousar sobre, iliminar, embeber aqueles no quais age (Nm 24,4; Jz 3,10; 6,34; 1Sm 10,6; 16,13; Is 11,2; 42,1; 61,1; Ez 11,5; Mt 22,43; Lc 1,35; 2,25; Jo 1,32; 1Cor 12,13; 1Pd 4,14). Esta experiência na Bíblia não é colocada como experiência de uma criatura ou de um dom de Deus, mas sim como a experiência da ação de Deus mesmo em pessoa e realidade. "Deus está com a pessoa" - esta é uma forma comum de expressar a ação do seu Espírito em alguém (cf. p. ex. 1Sm 10,7).

- Müller, 391

 

1. O Antigo Testamento

 

A experiência de Deus ou o encontro com Deus no Antigo Testamento parece estar ligada originariamente com a experiência de uma força ou poder de Deus que age em favor do humano, que salva. Esta quase total identificação entre espírito (pneuma) e força/dinâmica (dunamiz) de Deus ainda se conservou presente mesmo no Novo Testamento: 1Ts 1,5; Lc 1,35; 4,14.36; 5,17; 6,19; 24,49; At 1,8; 10,38; Rm 15,13).

Esta força de Deus age e se mostra presente de diversas maneiras, mas especialmente através de figuras intermediárias, que impulsionadas por ela agem em nome de Deus: Juízes (Jz 3,10; 6,34; 11,29; 13,19.25), sacerdotes (2Cr 24,20), artesãos (Ex 32,4) e reis (1Sm 10,6-13; 16,13; 2Cr 20,14). Mas são as figuras do profetas no Antigo Testamento as que por excelência demonstram estar e agir sob o impulso da força de Deus (1Rs 22,21; 2Rs 2,9; Os 9,7; Mi 3,8; Ez 2,2; Zc 7,12). Além disso a esperança da vinda do Messias está ligada com a certeza de que ele agirá possuído do Espírito de Deus. Isaías colocou esta esperança num dos mais belos textos do Antigo Testamento: "O espírito do Senhor Deus repousa sobre mim, porque ele me ungiu. Enviou-me para levar uma boa-nova aos pobres, medicar os homens descoroçoados, proclamar aos cativos a libertação e aos prisioneiros a abertura do cárcere, para proclamar o ano da mercê do Senhor e o dia da vingança para nosso Deus; para dar conforto a todos os que estão de luto, para entregar aos enlutados de Sião um turbante festivo em lugar do pó, óleo de alegria em lugar de luto, vestido de festa em lugar de espírito deprimido, de modo que sejam chamados "carvalhos de justiça, plantados para a glória do Senhor" (Is 61,1-3).

Vamos tentar seguir mais de perto esta experiência que tem o povo de Israel de ser tocado, impulsionado, arrebatado por uma força identificada como Espírito do próprio Deus.

 

a) A Palavra

 

A palavra "espírito" que encontramos em nossas versões do Antigo Testamento, traduz a palavra hebraica "ruah". No AT esta palavra ocorre 378 vezes. Como palavra pode ter diversas traduções como vento, sopro, espírito, hálito, dinamismo, força, energia misteriosa, respiração... Trata-se pois de uma palavra de difícil tradução, pelo fato de ter diversas acepções e seu significado pode talvez ser melhor lido quando a palavra é observada em seu contexto. Diversos são eles:

- provável utilização originária no contexto da vida (Sitz im Leben): ofegar, respirar quando do nascimento;

- significado básico: experiência de vitalidade percebida no movimento forte do ar que faz, cria espaço (respiração, vento);

- significado físico: o vento, a brisa, o furacão, enfim o ar em movimento;

- significado cósmico: os quatro "cantos" ou pontos cardeais do mundo: oriente, ocidente, norte e sul (cf. 1Cr 9,24; Ez 37,9);

- acepção antropológica: força de vida, ânimo, vontade, capacidade, "ego";

- significado psicológico: inteligência, razão, origem do conhecimento;

- significado teológico: força espiritual divina, força profética, espírito de Deus. Neste significado teológico a palavra "ruah" encontra-se de 60 a 70 vezes no Antigo Testamento. Sua importância teológica está ligada a este significado. Aqui é particularmente importante a ligação entre força e vida. A cultura semítica não pensa "espírito" em termos como o faz a cultura grega. Esta pensa em categorias de substância e assim "espírito" é algo imaterial. A cultura semítica vê em "ruah/espírito" o sentido de força, princípio de ação, princípio de energia[2]

"Ruah" é um substantivo feminino, podendo, porém, algumas vezes ser usado como masculino, dependendo do contexto. Para esta mudança de gênero não se encontrou até hoje explicação clara; parece estar ligado com à ocasião: é usado no masculino toda vez que "ruah" significa algo com violência (vento impetuoso, força que pode arrastar o profeta). Toda vez que estiver ligado à força criadora, força de vida, vitalidade, inspiração, força profética, o substantivo é usado no feminino - em seu gênero original[3].

É interessante notar ainda que a palavra "ruah" não é usada no AT em contraposição a corpo ou a matéria; também não é usada como se fosse uma parte do humano, mas como capacidade. A palavra que se contrapõe a "ruah" na Bíblia é "carne", que não tem o significado de corpo, mas sim de fraqueza, de algo passageiro (terreno) (Ex.: "Meu espírito não ficará para sempre no homem, porque ele é apenas carne. Não viverá mais do que 120 anos" - Gn 6,3).

O próprio Antigo Testamento nos mostra em sua riqueza de significados, que a palavra "ruah/espírito" não pode ser usada sem contexto. Só dentro de um determinado contexto se pode precisar o que se está querendo exprimir com ela. A nós interessa ver o signficado desta palavra em seu contexto teológico, ou seja, quando "ruah" é usada para expressar a experiência da força de Deus agindo das mais diversas maneiras.

 

b) A Experiência

 

"Ruah" quando utilizada em sentido teológico, expressa a experiência de uma força identificada como procedente de Deus. A percepção desta experiência se dá de diversas formas e em diversos âmbitos:

- força imprevisível, estranha (sempre diferente), arrebatadora, irresistível. Não é possível prever o acontecimento desta força. Ela apodera-se ou manifesta-se de forma imprevisível e, ligado a isto, é sempre entranha, ou seja diferente, sempre nova e inovadora. Sempre suscita algo que está fora do decorrer normal do cotidiano. Um caso típico desta força imprevisível e estranha que se apodera das pessoas é relatado em 1Sm 19,19-24: Davi, fugindo da perseguição de Saul, busca refúgio junto à comunidade profética presidida por Samuel. Por três vezes Saul envia mensageiros para prender Davi e por três vezes estes entram em transe ao chegar junto à comunidade que estava profetizando. O próprio Saul vai em encalço de Davi, mas o espírito de Deus não poupa nem Saul: "Quando se pôs a caminho para lá, para Naiot em Ramá, baixou também sobre ele o espírito de Deus, de modo que durante todo o caminho até chegar a Naiot em Ramá, estava em transe profético. Também ele tirou a roupa e ficou em transe diante de Samuel; caiu no chão e ficou sem roupa todo este dia e toda a noite" (v. 23-24). Outros exemplos do mesmo fenômeno podem ser encontrados em 1Sm 10,10; Nm 11,25-29; Nm 24,2-3. Muitas das vezes nos relata o Antigo Testamente que a força de Deus, ao apossar-se de uma pessoa, a arrebata (Ez 3,12) - mesmo contra sua vontade (Ez 3,14: "O espírito me arrebatou e me levou, e eu fui com ânimo amargurado e excitado, enquanto a mão do Senhor pesava sobre mim") -, a envia para uma determinada missão, o possibilita coisas incríveis (Sansão mata mil homens usando uma queixada de burro: Jz 15,14-16) ou - o que é mais comum - coloca em sua boca palavras, mensagens a serem ditas. Esta força age mesmo contra a vontade da pessoa, ela é irresistível, ela supera a capacidade física do arrebatado ("Caí prostrado, mas o espírito entrou dentro de mim e me pôs de pé": Ez 3,24). Este espírito arrebatador não é necessariamente sempre experimentado como positivo, benévolo e muito menos harmonizador. Ele tanto pode promover a vida, como ser experimentado como destruidor[4]. Sansão, sob a ação do espírito, esquartejou um leãozinho e matou trinta homens (Jz 14,6.19). O espírito de Deus tanto pode ser bom, como pode ser mau, como o diz claramente o AT: Jz 9,23; 1Sm 16,14; 18,10; 19,9. Ambas são, no entanto, identificadas como procedentes de Deus. Uma característica parece porém ser constante: o espírito do Senhor é uma força inquieta, que muda a situação onde age, que causa transformação.

- o espírito como força criadora, de vitalidade, de vida, de libertação na ação percebida em acontecimentos da natureza. A experiência da ação do espírito de Deus não é sentida apenas em forças que agem sobre as pessoas. Em acontecimentos históricos ou da natureza também pode ser identificada a ação do espírito de Deus. Os acontecimentos em torno da libertação do Egito são vistos como sinais da ação destes espírito: é ele que amontoa as águas, é ele que faz elas voltarem ao lugar e engolir os egípcios (Ex 15). Também é o espírito (sopro) que faz as águas do dilúvio baixarem (Gn 8), é ele que faz o gelo derreter na primavera (Sl 147,18). O próprio advento da criação está sob o signo da força do "espírito" que pairava sobre a terra quando tudo ainda estava vazio (Gn 1). A menção da presença do "vento impetuoso" (ruah) parece indicar no Gênesis a condição de possibilidade de criação, de vida. A presença do espírito de Deus é vida em todos os animais da terra, do mar, inclusive do Leviatã: Sl 104 ("Se retiras o seu alento (ruah), morrem e voltam ao pó. Envias o teu alento, e são recriados e renovas a face da terra" v. 29-30). A mesma ideia vale para o ser humano: se Deus tirar dele seu "alento", volta ao pó (Jó 27,3; 34,14-15). Nestas passagens espírito, alento ou hálito de Deus são praticamente sinônimo de vida e isso leva a crer que a vida era entendida não como pertencente aos seres (pessoas e animais), mas sim dom[5]. Sem este dom de Deus tanto o humano como os animais não se sustêm. Um das descrições mais plásticas do espírito de Deus dá alento, vida ao humano é a de Ezequiel na visão dos ossos secos (Ez 37). Nesta descrição fica também claro que o espírito não apenas dá a vida individual, mas também dá vida, ânimo ao povo como povo: "Eu vos farei sair de vossas sepulturas e vos conduzirei para a terra de Israel" (v. 12).

- o espírito como fonte de sabedoria. Como já afirmávamos acima, na Bíblia o contraposto de espírito é carne. Na visão semítica, "carne" designa o que é passageiro, o que não é elevado nem perspicaz. Nesta contraposição, "espírito" é utilizado também como sabedoria, inteligência. Os livros sapienciais fazem esta utilização (cf Sb 1,6-7; 7,22-27)[6]. Trata-se tanto de inteligência e sabedoria individual, como também do povo em seus atos coletivos (mesmo políticos): "Ai dos filhos rebeldes - oráculo do Senhor! Executam um plano que não é meu, contraem um pacto que não é conforme o meu espírito, para amontoar pecado sobre pecado" (Is 30,1). Ligada a esta acepção de espírito como sabedoria, fala o Antigo Testamento também no espírito que inspira palavras, que fala de modo sábio pela boca das pessoas: "Meu espírito que repousa sobre ti, e minhas palavras que pus na tua boca, não se apartarão da tua boca nem da boca de teus filhos e netos, desde agora e para sempre" (Is 59,21); "O espírito do Senhor falou por mim e sua palavra está sobre minha língua" (2Sm 23,2). Da mesma forma o messias esperado será conduzido pelo espírito do Senhor: de sabedoria e discernimento, de conselho e fortaleza, de conhecimento e temor do Senhor (cf. Is 11,1-5; cf. também Is 42,1-7).

- o espírito como força renovadora e escatológica. A ação do espírito de Deus está também ligada com o novo. É uma constante o fato de se entender o espírito de Deus como portador de novidade, de renovação. Desta ligação com o novo, há a ligação da ação do espírito com o aparecimento de uma nova condição, com o futuro. Assim a ação do espírito proporcionará uma "nova aliança" (Jr 31,31), "um novo coração e um novo espírito" (Ez 11,19; 18,31; 36,26), "novas coisas", um "nome novo", um "novo céu e uma nova terra" (Is 43,19; 48,6; 62,2; 65,15.17; 66,22)[7]. É a ação do espírito que irá "renovar a face da terra" (Sl 104). Com isso a ação do espírito liga-se ao fins dos tempos, à criação escatológica do sentido pleno em Deus.

 

c) A compreensão da ação do espírito

 

Mesmo sendo a compreensão da ação e da experiência do espírito no Antigo Testamento bastante variada em todos os tempos, parece haver uma evolução na compreensão. Esta evolução dá-se em dois níveis: do particular para o universal e do concreto/pessoal para o abstrato/conceitual. As experiências mais antigas da ação do espírito são experiências de ação particular. Ou seja, o espírito não age no todo, mas neste ou naquele caso particular, nesta ou naquela situação, nesta ou naquela pessoa (ou pessoas). A experiência mais tardia interpreta já a possibilidade de uma ação mais universal do espírito: em toda a criação, em toda a comunidade... Do mesmo modo há uma evolução no sentido de se entender primeiramente a ação do espírito em casos concretos, em pessoas concretas. A compreensão é pois do espírito que age em casos/pessoas concretas e a ação é sua prova, sua veri-ficação. A interpretação mais tardia da ação do espírito tende a pensar o espírito de forma mais abstrata, como princípio (ex.: ânimo, princípio de vida...). Ou seja, a tendência da reflexão é apresentar o espírito em um conceito e não mais apenas observar/constatar sua ação em casos  e - especialmente - pessoas concretos.

Esta mudança na forma de perceber e interpretar a ação do "espírito" dá-se com o tempo. A experiência do exílio é aqui porém um marco divisor. Pode-se dizer que na experiência pré-exílica há uma interpretação mais particular e concreta desta experiência e no pós-exílio ela tende a ser mais universal e abstrata.

 

aa) Antes do exílio

Diversos são aqui as experiências concretas nas quais se identifica a ação do espírito:

- na liderança carismática. Na história antiga de Israel, principalmente a narrada em Juízes e 1 Samuel pode-se perceber uma utilização determinada da palavra "ruah", como uma força tempestuosa e irresistível que advém sobre as pessoas e as impulsiona a cometer certos atos. Assim o espírito "vem sobre" Otoniel (Jz 3,10) e Jefté (Jz 11,29), "impele" Sansão (Jz 13,25), "baixa sobre" os mensageiros de Saul (1Sm 19,20) e depois sobre o próprio rei Saul (1Sm 19,23), "apodera-se" de Gedeão (Jz 6,34) e de Sansão (Jz 14,6.19; 15,14), "toma conta" de Saul (1Sm 10,6.10; 11,6). Em muitos destes casos, o espírito do Senhor toma conta das pessoas para as impelir para a guerra, para atos de violência (ex.: Jz 6,34; 11,29; 1Sm 11,6), muitos deles atos de salvação e libertação para Israel diante de seus inimigos.

- em êxtase de profetas. O espírito do Senhor também é identificado em ação em profetas, individualmente ou em grupo, que entram em êxtase (1Sm 10,5-13; 19,20-24), situação esta que é passageira (1Sm 19,24). Este fenômeno de êxtase parece que podia ser provocado em algumas circunstâncias (1Sm 10,10-13; 19,8-24) e nem sempre era identificado como sendo uma situação boa (ex.: 1Sm 18,10; 19,9). Estes grupos de profetas extáticos não gozavam necessariamente de boa fama e isto pode estar ligado ao fato de serem influência cananeia (1Sm 10,5-6).

- nas ações do rei. A ligação entre a ação do espírito em líderes carismáticos ou de profetas extáticos é algo passageiro. O espírito "toma conta" destas pessoas por um curto espaço de tempo e "legitima" ou "impulsiona" suas ações neste período. Esta situação muda quando se analisa a ligação entre ação do espírito e o rei. Esta mudança fica clara especialmente em Davi, de quem se diz após a unção com óleo feita por Samuel: "Em consequência o espírito do Senhor tomou conta de Davi desde este dia e tambem em seguida" (1Sm 16,13). Não se trata pois mais de um momento passageiro, mas de uma ação permanente do espírito do Senhor em Davi. A ação do espírito é aqui uma dádiva permanente para seu ungido. Há aqui o início de uma ligação que será importante para a história de Israel: a ligação entre a ação do rei e sua legitimidade a partir de Deus. Os reis procuram legitimar suas atuações a partir do próprio impulso divino. Também há em Davi uma importante ligação entre a ação de Deus e a unção, ligação esta que tem um papel importante na teologia messiânica.

- O espírito de Deus e os profetas. É interessante observar que tanto nos profetas clássicos, como também nos escritos proféticos, de Amós a Jeremias, falta praticamente toda referência à ação do espírito. Os motivos para isso deve procurar tanto no distanciamento dos movimentos de profecia de êxtase (transe), como na discussão com os falsos profetas, cujo espírito é o espírito da mentira (cf. 1Rs 22; 2Cr 18). No profeta Jeremias falta a palavra ruah no sentido de espírito. Esta situação começa a mudar a partir de Ezequiel. O profeta se sente impelido pelo espírito do Senhor (Ez 3,14; 8,3; 11,24) O anúncio feito pelo profeta ainda não é entendido como anúncio impulsionado pelo espírito do Senhor. Esta compreensão muda radicalmente durante o exílio e após este, especialmente no círculo do Deutero- e Trito-Isaías. Javé coloca seu espírito sobre seu servo (Is 42,1), seu espírito repousa sobre seu ungido (Is 61,1), é espírito de santidade (63,10). A partir daí, profecia e dom do espírito estão intimamente ligados.

 

bb) Experiência no exílio e pós-exílio

O exílio marca a religião de Israel em muitos aspectos. O aspecto geral principal de mudança observado é a elaboração de uma teologia mais universal. O exílio alarga os horizontes, desnacionaliza, de modo que Israel não se vê mais apenas em sua relação particular para com Deus, mas elabora uma teologia da história como um todo e da atuação de Deus no todo. Em termos de espírito, no exílio há uma maior precisão do termo "ruah", no sentido de colocar de forma mais clara e universal a ação do espírito de Javé. Alguns pontos desta reelaboração pneumatológica:

- O criador age por seu espírito. Uma das grandes elaborações do exílio é a teologia da criação. Na ideia da criação universal, a "ruah" de Javé permite a vida na criação: "Escondes a face e estremecem; se retiras o seu alento, morrem e voltam ao pó. Envias o teu alento, e são recriados, e renovas a face da terra" (Sl 104, 29-30). Também em Gn 1,2 fica clara a ação da "ruah" de Javé como agente, possibilitador da criação. O "vento impetuoso" soprava sobre as águas (o verbo "rahaf" pode significar também "chocar", dando a clara ideia de "ruah" como feminino). Mas no relato do Gênesis ainda não se coloca claramente o espírito como atuante na criação, ideia esta que se diz expressamente no Salmo 33,6: "Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todos os seus exércitos pelo alento de sua boca". A "palavra do Senhor" que tem no Gênesis o poder de criar, torna-se na teologia do exílio praticamente sinônimo de "espírito", "sopro" do Senhor.

- O espírito como alento mantenedor da vida humana. Na teologia do exílio e pós-exílio passa a haver uma ligação muito mais explícita entre espírito do Senhor e o ser humano enquanto ser vivente. É o espírito do Senhor que mantém o ser humano. Aqui é tanto entendido o "espírito" como capacidade (cf. Gn 41,38) e talento (cf. Ex 28,3; 31,3; 35,31) que provém do Senhor, como também o "espírito" como o hálito vital, como sopro de vida que está dentro de cada ser humano (Gn 2,7: Jó 34,14), mas que ao mesmo tempo não é posse sua (no sentido de não estar disponível à manipulação do humano).

- O espírito como força de restauração ou renovação de vitalidade do povo. O espírito do Senhor não apenas mantém a vida dos seres individuais (também humanos) mas também a vitalidade do povo de Israel. Os reveses da história, principalmente o exílio, são como que momentos em que se esvai a "ruah" do povo. Morre a vitalidade do povo como um todo. Nestas situações, a "ruah" do Senhor é invocada como a força que restaura e renova Israel. Aqui recordamos especialmente o livro de Ezequiel - que já citamos acima -: Enquanto nos capítulos 11 a 13 há morte, destruição, disperção do povo e a própria glória de Deus abandona Jerusalém, os capítulos 36 e 37 são a volta do espírito de Deus no povo de Israel, culminando com a visão dos ossos secos que termina afirmando: "Quando incutir em vós o meu espírito para que revivais, quando vos estabelecer em vossa terra, sabereis que eu, o Senhor, digo e faço" (37,14). As promessas de terra e descendência são agora colocadas em ligação com uma nova forma de vida, com uma conversão: "Eu vos tomarei dentre as nações, recolhendo-vos de todos os países, e vos conduzirei à vossa terra. Derramarei sobre vós água pura e seres purificados. Eu vos purificarei de todas as impurezas e de todos os ídolos. Dar-vos-ei um coração novo e incutirei um espírito novo dentro de vós. Removerei de vosso corpo o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Incutirei o meu espírito dentro de vós e farei com que andeis segundo minhas leis e cuideis de observar os meus preceitos. Habitareis no país que dei a vossos pais. Sereis o meu povo e eu serei o vosso Deus" (Ez 36,24-28). Trata-se de uma nova aliança, garantida agora pelo espírito do Senhor a ser incutido no coração do povo. Esta mesma promessa de derramar o espírito sobre todo o povo é repetida de forma mais clara ainda em Joel: "Depois derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Mesmo sobre os escravos e sobre as escravas derramarei o meu espírito naqueles dias" (3,1-2).

- O espírito e o ungido. Enquanto no tempo pré-exílico e principalmente pré-monárquico é comum interpretar a ação do espírito do Senhor sobre um indivíduo no meio do povo (exemplo típico sãos os juízes, que agem impelidos pelo espírito), a ação do Senhor sobre um indivíduo no meio do povo passa ser uma espécie de esperança no pós-exílio. Esperança esta ligada tradicionalmente com o ungido, com o Messias. Este sim agirá impelido e imbuído pelo espírito: "Sairá um rebento do tronco de Jessé, e de suas raízes brotará um renovo. Repousará sobre ele o espírito do Senhor, espírito de sabedoria e discernimento, espírito de conselho e fortaleza, espírito de conhecimento e temor do Senhor... (Is 11,1-2); "O espírito do Senhor Deus repousa sobre mim, porque ele me ungiu. Enviou-me para levar uma boa-nova aos pobres, medicar os homens descoroçoados, proclamar aos cativos a libertação e aos prisioneiros a abertura do cárcere, para proclamar o ano da mercê do Senhor e o dia da vingança para nosso Deus; para dar conforto a todos os que estão de luto, para entregar aos enlutados de Sião um turbante festivo em lugar do pó, óleo de alegria em lugar de luto, vestido de festa em lugar de espírito deprimido, de modo que sejam chamados 'carvalhos de justiça, plantados para a glória do Senhor '" (Is 61,1-3). Há, pois uma idealização da pessoa e da ação daquele que estiver imbuído do espírito do Senhor. Com isso a ação do espírito do Senhor sobre uma pessoa é algo projetado para o futuro e não mais lido no passado da história do povo. A era vindoura do messias é a era da ação do espírito do Senhor que conduzirá o Messias.

Resumindo: pode-se dizer que o uso da palavra "ruah" no Antigo Testamento para designar a ação do Senhor não tem apenas um significado. Há com a evolução histórica a tendência de se perceber a ação deste espírito de forma mais universal, ligando-o mais estreitamente a Deus. Ao mesmo tempo fica claro no Antigo Testamento que não se pode limitar a ação do espírito: ele age nas pessoas, na criação, nas atividades humanas, nas decisões do povo, na renovação e conversão. Mas é sempre indisponível ao humano, isto é, o humano não dispõe a sua ação.

 

cc) Influência helenística no período inter-testamentário

Após o exílio babilônico e a tentativa de reconstrução de Israel após a volta, Israel entra cada vez mais sob influência do mundo grego: tanto do ponto de vista político, como especialmente do pensamento grego. Os próprios textos tardios do Antigo Testamento já deixam clara esta influência. Além disso, os livros chamados deutero-canônicos já são escritos em grego[8]. A nós interessa observar alguns pontos desta influência no que concerne à compreensão do termo espírito. Esta influência grega no mundo judaico também foi reforçada pela Septuaginta. Nesta "ruah" é traduzida por "pneuma", termo este que tinha já um significado específico no grego. Há aqui especialmente três conotações do termo no modo de pensar grego: a) No já conhecido dualismo grego (corpo-alma), pneuma é a alma humana, aquilo que diferencia o ser humano dos outros animais. b) O sistema de pensamento grego muito ligado à questão da substância e a não existência dum monoteísmo, davam a pneuma o significado de substância imaterial autônoma ou cósmica (também chamada por vezes de divina) e por isso pré-existente. c) O termo pneuma usado no sentido de inspiração, tinha a ver com êxtase, com uma situação de desligamento da razão onde o "espírito", como nível de conhecimento superior, tomava conta do ser.

Esta forma de pensar advinda do mundo grego faz-se notar no judaísmo inter-testamentário (entre séc. II a.C. e séc. I d.C.). "Ruah" continua a significar sopro, hálito, mas já também espírito/alma em contraposição a corpo. A conjugação de três fatores influencia muito o uso do termo espírito: a literatura apocalíptica, a expectativa escatológica (tb. messiânica) e a ideia da ressurreição. A conjugação destes três fatores possibilitam diversas formas de pensamento: no final dos tempos o corpo juntar-se-á novamente ao espírito (pré-existente); o espírito de Deus será enviado novamente ao mundo para completar os tempos; a alma não morre junto com o corpo, mas continua em algum lugar; o espírito que age sobre os profetas dá a eles um conhecimento superior, ligado principalmente à capacidade de prever acontecimentos futuros. Nos círculos rabínicos desenvolveu-se a teologia do "fim do espírito", ou seja, o espírito de Deus não mais age sobre os profetas desde a primeira destruição do templo e voltará a agir apenas no fim dos tempos em Israel. Nestas acepções praticamente desaparece o sentido semítico de "ruah" como força criadora de Deus.

Um outro aspecto começa nesta época a ganhar corpo: a relação entre ação do espírito e atitude moral/ética, segundo a lei. O Espírito de Deus - age quase como que recompensa - naqueles que procedem em sua vida conforme a lei prevê. Uma vida correta e no cumprimento da lei religiosa garantirá a ação do espírito. Nota-se aqui já traços da teologia farisaica nascente.

É exatamente neste período inter-testamentário que surge a expressão "espírito santo". Tanto a expressão hebraica "ruah hakodesh" (espírito de santidade), como a grega "pneuma agion" são de significado dúbio. O atributo "santo" marca porém claramente a diferença entre humano e divino. Deus é santo. A expressão "espírito santo" está também ligada ao esforço do judeu de dizer Deus, sem poder falar o seu nome JHWH. Há aqui também a ligação que não pode deixar ser vista entre "santo" e "santuário", lugar privilegiado da revelação de Deus. Segundo P. Schäfer, a expressão "espírito santo" (pneuma agion) não traduz exatamente o que "ruah hakodesh" queria dizer. Uma descrição mais adequada desta expressão seria: "espírito do Deus que se está revelando no santuário como lugar do encontro entre Deus e o humano"[9]. Apesar de ser uma descrição à primeira vista um tanto obscura, ela tem elementos interessantes, por um lado a ideia de que espírito é necessariamente dinâmico ("está revelando") e, principalmente, por outro lado, se levarmos em conta o significado de "santuário", termo que designava inicialmente povo profético, e somente mais tarde "terra" (prometida), depois Jerusalém e depois o templo, como o lugar da ação/presença de Deus. Não deixa de ser um aspecto importante recuperar para a Pneumatologia a ideia de que o espírito é a presença de Deus em ação e o lugar próprio da ação do espírito é o lugar "povo" em seu contato com Deus. Há um termo na literatura rabínica que designa este lugar próprio da presença ativa de Deus em seu encontro com o povo: xekiná. A palavra significa em si "o habitar", mas na literatura rabínica significa "Deus que mora no meio de seu povo". Pode-se pois estabelecer uma clara ligação entre a expressão "espírito santo" e "xekiná". Desta ligação, J. Moltmann tira as seguintes conclusões: "1) A ideia da xekiná mostra claramente o caráter pessoal do espírito: o espírito é a presença ativa de Deus mesmo. O espírito é a presença de Deus em pessoa. Por isso o espírito é mais que uma característica de Deus e mais que um dom de Deus às criaturas, ele é a empatia de Deus. 2) A ideia da xekiná chama também a atenção para a sensibilidade de Deus do espírito: o espírito habita, ele sofre com, ele é afligido e reprimido, o espírito alegra-se com, o espírito - em sua presença e habitação na criatura errante e sofredora, cheia de impulso e angustiada por sua união com Deus e em seu anseio pelo descanso na nova e definitiva criação. 3) A ideia de xekiná aponta para a quenose do espírito: em sua xekiná, Deus abdica de sua invulnerabilidade e torna-se passível de sofrimento por estar disposto a amar. A teopatia do espírito não é nenhum antropomorfismo, mas é possibilitada por sua habitação em suas criaturas"[10].

 

2. Novo Testamento[11]

 

2. A manifestação da divina soberania messiânica de Jesus através do Espírito de Deus

Como legitimação de Jesus ser verdadeiramente o mediador da soberania divina do fim dos tempos, mostra-se a posse específica do Espírito Santo, própria ao messias. A confissão dos discípulos sobre a messianidade de Jesus antes da páscoa, mas sobretudo a pós-pascal, está ligada intimamente com a experiência de que Jesus está interiormente cheio do Espírito de Deus, a quem ele chama de Pai, e está com o poder do Espírito Santo para realizar neste mundo o reino de Deus escatológico. A unidade do conhecimento e da revelação do Pai e do Filho é comunicada pelo Espírito Santo (cf. Lc 10,21s).

Tendo por base esta união inseparável entre a messianidade de Jesus e sua posse do Espírito, a falta de fé sobre o seu envio e sua missão pelo Pai é algo que contradiz a própria vontade salvífica de Deus e por isso “pecado contra o Espírito Santo” (Mc 3,29). A ação de Jesus pelo Espírito Santo não é outra coisa que uma ação do poder de Deus ou do pleno poder divino (???????). Quando Jesus, pelo dedo de Deus (=força salvífica divina), expulsa os demônios, então o Reino de Deus chegou aos homens (Lc 11,20). Aqui se mostra a ligação inseparável entre a messianidade do mediador escatológico do poder divino e a presença de Deus através de sua ação (Mt 12,28 iguala o dedo ou o poder de Deus com o Espírito de Deus).

Na passagem do batismo de Jesus (cf. Mc 1,9-11 e par.; Jo 1,32-34; 2Pd 1,17) torna-se especialmente claro que há uma unidade entre Deus, o Pai, o Filho messiânico de Deus e o Espírito de Deus, que tem sua origem e seu meio na vontade reveladora do Pai.

Dado que a constituição original de Jesus como ser humano é idêntica à sua constituição como filho messiânico de Deus, a relação do homem Jesus com Deus também pode ser a revelação da relação interna na essência divina do Pai, Filho e Espírito Santo (cf. Mt 1, 16.18; Lc 1,26-28; 3,23). Que Jesus tenha sido gerado da Virgem Maria em sua natureza humana através da ação incriada de Deus em seu Espírito criador (sem a intermediação de uma segunda causa criada e material) não pode ser interpretado como uma simples ilustração de uma fundamentação diversa dos fatos. Trata-se da constituição da realidade humana de Jesus e sua relação filial como homem a Deus através da ação de Deus, que somente a ele é própria em seu Espírito Santo. Sobre a unção de Jesus através do Espírito, quer dizer, a introdução de sua realidade humana na relação da Palavra e do Filho com o Pai no Espírito, esta leva consequentemente à culminação da autorevelação de Deus no destino do Cristo crucificado e pelo Pai glorificado e elevado. A oferta de Jesus na cruz acontece por força do Espírito eterno e divino (Hb 9,14). Jesus é ressuscitado pelo Pai e como homem elevado à direita de Deus e justificado no Espírito Santo (Rm 1,3s; 8,11; 1Tm 3,16; 1Pd 3,18). Pela ressurreição ele é legitimado por Deus, o Pai, com o selo do Espírito (Jo 6,27) .

O conhecimento já pré-pascal dos discípulos, de que Jesus é, na força do Espírito de Deus, o messias escatológico, foi totalmente destruído pela catástrofe da sexta-feira da paixão. Somente pelo fato de o Senhor mesmo elevado ter transmitido aos seus discípulos a partir de Deus o Espírito escatológico é que eles à luz das aparições pascais puderam reconhecê-lo como o Filho autêntico do Pai e mediador da salvação. A síntese cristológica primitiva “Jesus é o Senhor” somente é possível quando é dado o Espírito Santo (1Cor 12,3). Somente quem se deixa conduzir pelo Espírito de Deus pode proclamar que Jesus é o Filho de Deus que veio na carne (cf. 1Jo 4,2).

3. O Senhor elevado como mediador do Espírito do Pai e do Filho

Lucas destaca através da narrativa do envio do Espírito na festa de pentecostes a relação entre a ressurreição de Jesus e o envio escatológico do Espírito (cf. Lc 24,49: “Eu vos mandarei aquele que meu Pai prometeu. Por isso permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto”, cf. At 2,1-41).

Também na teologia paulina e em João o evento da ressurreição é visto em ligação próxima com o envio do Espírito Santo. O acontecimento pascal mostra-se como o ponto alto histórico da autorevelação do nome de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo (Mt 28,19; 1Jo 4,8-16).

O evento pascal e a fé pascal são uma ação do Espírito vivificador e doador da fé do Pai e do Filho (Rm 1,3; 8,11; Jo 6,63.65; 1Cor 12,3; Mt 16,16; 1Jo 4,2).

O envio do Espírito (Jl 3,1-5) aponta a ressurreição de Jesus como acontecimento escatológico salvífico. Quem recebe o Espírito, entra na comunidade dos vivos com o Senhor ressuscitado. No batismo ele se torna uma nova criatura (Gl 6,15; 2Cor 5,17) e recebe do Espírito a vida eterna (cf. batismo como renascimento da água e do Espírito Santo: Jo 3,5; Tt 3,5). A existência no santo Pneuma eleva o batizado acima de sua existência carnal, do mundo da lei antiga e não-salva e doa a ele a graça da justificação, que livra de todo egoísmo, pecado e finalmente da morte (Rm 8,9: “Vós, porém, não viveis segundo a carne mas segundo o Espírito, se o Espírito de Deus habita deveras em vós”).

Como porém o amor de Deus foi derramado no coração dos homens através do Espírito Santo (Rm 5,5), podem eles por força da comunhão com o Cristo ressuscitado e elevado tomar parte na comunhão de amor do Pai e do Filho no Espírito: “Porque sois filhos, Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho que clama: Abba, Pai!” (Gl 4,6; cf. Rm 8,15; Jo 15,26; 16,13; 1Jo 4,13).

O Espírito único do Pai e do Filho realiza nos fieis uma profunda interiorização do acontecimento da salvação. O Espírito da verdade testemunha que Jesus é o filho de Deus, que veio em “água e sangue” em sua existência histórica como salvação de Deus (1Jo 5,6).

O Espírito realiza também a universalização escatológica do evento salvífico pascal, porque “Deus deseja que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4). Ele revela a relevância salvífica universal da ação do Pai em seu Filho Jesus, o mediador histórico da basiléia escatológica, que é a soberania do Pai (1Cor 15,24) e a basiléia do Filho (Lc 1,33; 22,30; 23,42; 1Cor 15,28; Ef 5,5; Cl 1,13).

A presença atual do Messias elevado e realizado no Espírito Santo (cf. 2Cor 3,17: “O Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor há liberdade”) é determinante para o envio e a ação de sua Igreja. Ela é o sinal sacramental da vinda da soberania divina e ao mesmo tempo, o instrumento para a sua realização ainda não completada no coração dos homens. O Espírito Santo é, por assim dizer, a “alma da Igreja” (Papa Leão XIII, Encíclica “Divinum illund munus [1897], DH 3328). Ele é o princípio que movimenta a existência cristã e a esperança na realização escatológica (Rm 8,22-24). Ele realiza também a unidade de todas as missões, serviços, tarefas, bem como de todos os dons pessoais e forças proféticas que são necessários à construção da Igreja na história. Não existe então uma contradição entre a ação sacramental-ministerial da Igreja e o carisma, pois é o único e mesmo Espírito, o único Senhor e o único e mesmo Deus, o Pai (1Cor 12,4s), que fundamenta e vivifica por um lado os ministérios dos apóstolos, presbíteros, epíscopos, diáconos, pastores e de ensinar (Rm 12,3-8; 1Cor 12,4-31; At 20,28; Ef 4,11; 1Tm 4,14; 2Tm 1,14) e dá por outro lado os muitos e muitos dons e forças milagrosas como a fala profética, o dom de discernir os espíritos e a fala em línguas para “a edificação da Igreja” (1Cor 14,26; Ef 4,12).

 

4. O Espírito Santo, o outro Paráclito (João)

Nos escritos de João encontra-se uma fala igualmente tão rica sobre o Espírito Santo quanto a de Paulo e Lucas. O Espírito Santo aponta Jesus como a palavra e a revelação do Pai (Jo 1,32; 3,34). A mediação plena do Espírito aos discípulos acontece justamente quando Jesus é glorificado pelo Pai por sua morte e sua elevação e é revelado em sua divindade (Jo 7,39). O Senhor ressuscitado envia os seus discípulos da mesma forma que ele mesmo foi enviado pelo Pai, depois de ter soprado sobre os discípulos como sinal de terem sido dotados com o Espírito Santo: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados serão perdoados” (Jo 20,22-23).

A ação salvífica da Igreja em toda a sua dimensão mostra-se como uma continuidade do envio do Filho, enviado pelo Pai, e pela presença do Espírito Santo na comunidade dos discípulos.

A ação efetiva do Espírito Santo é acentuada de maneira especial no discurso de despedida (Jo 13–17 ).

O Espírito da Verdade mostra-se em sua unidade originária com o Pai e o Filho, enquanto por outro lado a autonomia de sua ação aponta para uma diferenciação pessoal-relacional com o Pai e o Filho.

O Espírito da Verdade ou o outro Paráclito revela-se em sua relação

a) Com o Pai:

O Espírito procede do Pai para o mundo. O Pai envia o Espírito em nome de Jesus e ao seu pedido (Jo 14,16.26). O Espírito toma do que é do Pai e do que é do Filho para os anunciar aos discípulos (Jo 16,14s);

b) Com o Filho:

O Paráclito é diferente do Filho. Frente a ele, este é o outro Paráclito (Jo 14,16: “Eu pedirei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito que estará convosco para sempre”). Ele é dado pela oração de Jesus e enviado em seu nome. O Filho glorificado o enviará (Jo 16,7). Ele dá testemunho de Jesus (Jo 15,26; 16,13). Ele se revela aos discípulos depois que Jesus tiver saído do mundo (cf. 1Jo 4,2; 1Cor 12,3).

c) Com os discípulos:

O Paráclito permanece para sempre com eles e neles (Jo 14,16). Ele os foi dado (como auto-oferta de Deus) ou foi a eles enviado (Jo 14,26; 15,26; 16,7). Ele os recordará de tudo o que o revelador Jesus lhes disse (Jo 14,26). Ele os conduz na plena verdade, ou seja, no reconhecimento pleno da unidade do Pai e do Filho (Jo 16,13). Ele revela aos discípulos o que irá acontecer (Jo 16,13).

d) Com o mundo:

 O “mundo” como conceito da existência humana diversa da divina não conhece o Espírito e também não o quer receber (Jo 14,17; cf. Mc 3,29: o pecado contra o Espírito. O Espírito põe à luz o que é pecado, justiça e juízo: pecado, que é não crer em Jesus; justiça, que ele vai para o Pai; e juízo, que o poderoso deste mundo será julgado).

 

5. Páscoa e Pentecostes como origem da fé trinitária

A fé na trindade de Deus não é resultado de uma especulação racional ou de uma experiência mística. A profissão da Igreja e a fé no Deus trino é muito mais o reflexo da autorevelação de Deus como Pai de Jesus Cristo, a palavra eterna tornada humana, e como dom do Espírito. Palavra e Espírito não são forças subordinadas e apessoais da única realidade-pessoa de Deus em sua ação histórica. Quando a teologia na reflexão a partir do testemunho bíblico fala de uma própria personalidade e hipóstase de Filho e Espírito, então não se trata de uma multiplicação da experiência original de Deus em sua realidade como pessoa, mas sim do conhecimento de uma constituição relacional da única realidade-pessoa de Deus. Segundo o testemunho da Sagrada Escritura o único nome de Deus é: Pai, Filho, Espírito Santo (Mt 28,19). A economia salvífica da revelação de Deus é concomitantemente também comunicação de seu ser interior (Rm 8,15; Gl 4,4-6; 2Cor 13,13; Ef 1,1-14; Jo 14–17; 1Jo 4; Jd 20 e semelhantes).

É transmitido o conhecimento da ligação intradivina do Pai, Filho e Espírito e ao mesmo tempo a sua diferença pessoal através da autorevelação de Deus no homem Jesus de Nazaré. Em sua relação com o Pai, mostra-se a diferença interna de Palavra e Deus, à medida que Deus, o Pai é a origem de sua autocomunicação na Palavra. Na relação de Jesus com o Espírito do Pai também é visível a diferença do Filho com o Espírito e do Espírito com o Pai e o Filho. Na ação de Deus no homem Jesus de Nazaré na ressurreição dos mortos e em sua introdução como mediador do poder escatológico de Deus, Deus se mostrou como o Pai, que enviou seu Filho e seu Espírito ao mundo. Nestes dois envios de Deus revela-se a essência de Deus em sua diferença pessoal-relacional do Pai, Filho e Espírito.

 



[1] O "Coração", no modo de entender bíblico, não é apenas a sede do sentimento, mas também da razão, da decisão humana.

[2] "Quando falamos em 'Espírito', quando dizemos que 'Deus é espírito', o que queremos dizer? Falamos de forma grega ou de forma hebraica? Se estamos falando de forma grega, então estamos dizendo Deus é imaterial e assim por diante. Se falamos de forma hebraica, então estamos dizendo: Deus é furacão, tempestade, poder irresistível. Por isso o grande número de acepções quando se fala em espiritualidade. Consiste por acaso espiritualidade em tornar-se imaterial, ou em deixar-se animar pelo Espírito Santo?" (J. Daniélou)". Aqui citado por CONGAR, Y. Der Heilige Geist. Freiburg: Herder 1982, p. 20.

[3] Cf. HILBERATH, B. J. Pneumatologie. Düsseldorf: Patmos 1994, p. 36-37.

[4] Cf. B. J. Hilberath, Pneumatologie, Patmos 1994, 33.

[5] Cf. E. Schweizer, O Espírito Santo, 26.

[6] Esta utilização de 'espírito' no sentido de razão, inteligência, sabedoria é nos livros sapienciais uma clara influência helenística no judaísmo. Na filosofia grega, espírito é colocado em ligação com a capacidade humana de entender, de captar as coisas. O espírito é a fonte/sede do conhecimento.

[7] Cf. M. Isidro Alves, Porei em vós um espírito novo. In: A. Amato et al., Maria e o Espírito Santo, 19-20.

[8] Mesmo que os judeus não aceitem estes livros como canônicos, não há como negar que eles nasceram no mundo judaico.

[9] Aqui citado por B. J. Hilberath, Pneumatologie, Patmos 1994, 59.

[10] J. Moltmann, Der Geist des Lebens - Eine ganzheitliche Pneumatologie, 64.

[11] Todo este texto de “2. Novo Testamento” é retirado de MÜLLER, G. L. Dogmática Católica. Petrópolis: Vozes 2015, p. 287-290.