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Volney Berkenbrock
Pneumatologia: introdução e capítulo 1 PDF Imprimir E-mail

 

Pneumatologia

 

O Espírito Santo - Deus em nós

 

 

V. J. Berkenbrock

 

Introdução

 

O que dizer sobre o Espírito Santo? Dos muitos temas clássicos da Teologia, este pertence àqueles sobre os quais não há tantos tratados ao longo da história, se compararmos aos tratados sobre Jesus Cristo, sobre a Igreja, sobre os Sacramentos ou mesmo sobre a Trindade. Refletir sobre o Espírito Santo é sempre uma tarefa aberta: se pode, por um lado repetir o que a tradição diz, mas se pode também ter a experiência atual do Espírito Santo como ponto de partida. Vamos, nesta trajetória, fazer um pouco daquilo e um pouco disto: recolher as dificuldades que a história da Teologia teve para refletir sobre o Espírito Santo, narrar a tradição desta reflexão, mas tentar manter a reflexão aberta para o atual, de modo que a pergunta inicial se transforma em “O que dizer sobre o Espírito Santo em nosso contexto atual?”

Sem dúvida não é novidade alguma dizer que há uma disciplina da Teologia que tem como assunto a reflexão teológica sobre o Espírito Santo, a Pneumatologia. Esta palavra, um tanto diferente, é derivada do grego, para dizer o estudo (logia) a respeito do espírito (pneuma). Trata-se da temática do Espírito Santo: como se compreendeu e compreende o Espírito Santo na história do cristianismo, como pensar sobre a ação do Espírito Santo, como entender e receber na reflexão a chamada experiência do Espírito Santo.

Mas quem é e o que é o Espírito Santo? Indubitavelmente, se tivermos de responder a esta pergunta de supetão, a resposta não vem tão clara e direta como se tivéssemos que responder algo sobre quem é Deus-Pai ou quem é Jesus Cristo. Com o Pai e com Jesus Cristo conseguimos ligar coisas mais diretas, mas específicas. Seja em termos de conteúdos, seja em termos de imagens. E isto independentemente de pensarmos estarem estas coisas corretas ou não. Os cristãos têm, por assim dizer, uma certa intimidade com o Pai e com o Filho – pelo menos com os dois conceitos – que não a têm com o Espírito Santo.

A ligação, à primeira vista, com o Espírito Santo, parece não poder ser fixada em algo definido. Quando se pensa em Espírito Santo, especialmente em sua ação e experiência, nos vem à mente uma enxurrada de coisas um tanto quanto indefinidas: o espírito age e inspira como e onde quer, cada pessoa pode ter uma experiência do Espírito Santo, os membros dos movimentos carismáticos agem tocados pelo Espirito Santo, igualmente o papa (e não só ele, mas a hierarquia em geral) se diz inspirado pelo Espírito Santo, o Espírito Santo é a alma da Igreja, o Espírito Santo "renova a face da terra", o Espírito Santo vem sobre as pessoas, etc. Mais que isto: Os que pretendem introduzir novidades dizem estar agindo inspirados pelo Espírito Santo[1]; os que pretendem continuidade na tradição afirmam contar com a inspiração do Espírito Santo[2]. Como se vê, o Espírito Santo é invocado em ocasiões diversas e para apoiar desejos até contraditórios.

Na expressão Espírito Santo está a palavra espírito. Mas o que é um espírito? Quando caímos neste campo semântico, parece que a confusão ou melhor a multiplicidade de sentidos é muitíssimo maior. Tanto em termos bíblicos, como na tradição cristã de fé ou nas diversas tradições culturais, o termo espírito foi e é usado para significados muitíssimo diversos.

O “Espírito de Deus" é invocado por profetas para justificar suas ações. O salmista reza pedindo a permanência do "espírito de Deus" nele:

"Não me rejeites de tua presença

nem retires de mim teu santo espírito!" (Sl 51,13)

O próprio Jesus usa uma passagem de Isaías, reportando-se ao "Espírito do Senhor" para definir sua missão:

"O Espírito do Senhor está sobre mim,

porque ele me ungiu

para anunciar a boa-nova aos pobres;

enviou-me para proclamar

aos aprisionados a libertação,

aos cegos a recuperação da vista,

para pôr em liberdade os oprimidos,

e para anunciar um ano da graça do Senhor" (Lc 4,18-19).

Jesus entende, pois seu agir e sua missão impulsionado pelo Espírito. Sob a égide dele é acontece a sua ação.

Paulo entende que o Espírito é mediador da fé para o cristão, pois:

"Ninguém pode dizer 'Jesus é o Senhor' senão no Espírito Santo". (1Cor 12,3b)

Ao próprio Espírito Santo é atribuída uma importância tal no Evangelho de Marcos que o pecado contra ele não será jamais perdoado:

"'Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais será perdoado, será réu de um pecado eterno'. Falou assim porque diziam que ele estava possuído de espírito impuro". (Mc 3,29-30)

Se ao olharmos a Bíblia encontramos o uso da palavra espírito ou espírito de Deus ou Espírito Santo em uma gama grande de ocasiões e sentidos, não menos cheio de conotações é o uso da palavra espírito em nossa linguagem habitual ou na linguagem do imaginário popular. Basta dar uma olhada no verbete Espírito do Dicionário Aurélio para se perceber algumas das muitas acepções da palavra em nosso linguajar: consta a ali uma lista de doze acepções da palavra, bem como uma enumeração maior ainda de expressões construídas com a palavra.

Parece que a palavra espírito em si e por si não diz muita coisa, apenas aponta para muitas possibilidades que são geralmente definidas pelo adjetivo ou complemento que a acompanha ou pelo contexto em que é usada. Assim se pode colocar à palavra espírito tanto o adjetivo santo, como também o adjunto adnominal de porco, construindo a expressão muito popular: “Espírito de porco”. Espírito pode apontar tanto para uma espécie de personificação ("o espírito da falecida ainda perturbava aquela casa") como para caracterizar um modo de ser ou uma atitude ("É preciso que os franciscanos tenham o espírito de São Francisco!") ou então uma lógica de raciocínio ("Não entendeu nada do que foi exposto, porque não pegou o espírito da coisa").

Nem espírito, nem Espírito Santo parecem, pois à primeira vista apontar para algo determinado, mas muito mais para algo aberto, para a liberdade, para a pluralidade de sentidos, para possibilidades muitas. Dentro destas muitas possibilidades do espírito é necessário, pois que se façam logo de início delimitações para este estudo.

Algumas delimitações, isto é, dentro das muitas possibilidades para as quais a palavra espírito aponta, esta reflexão irá se limitar a usar:

a) Espírito no sentido religioso. A palavra espírito não é utilizada apenas no contexto religioso (por mais amplo que este religioso seja entendido). Esta palavra também é utilizada, por exemplo, no sentido químico (menos conhecido) e no sentido filosófico, conceito este com uma longa tradição na filosofia, da filosofia grega ao idealismo alemão. E dentro do sentido filosófico há uma grande variação de usos do conceito. Mas esta reflexão não se ocupará com este sentido filosófico da palavra espírito, por mais interessante que possa ser. Nem com outros sentidos que não o sentido religioso.

b) Espírito no sentido cristão. Ao falarmos em espírito e Espírito Santo, vamos nos limitar praticamente apenas à experiência e ao significado dentro do cristianismo. O termo espírito pode ser encontrado em quase todas as religiões, culturas ou modos de pensar. Cada vez com um significado muito diverso. O que traz toda uma problemática inclusive de se traduzir o sentido cristão desta palavra para outras línguas e culturas. Assim, por exemplo é comum de muitas religiões africanas a crença na existência do que se costuma traduzir por espíritos. Estes são entendidos como seres ou forças intermediárias entre um ser superior e os seres humanos[3]. As pessoas podem entrar em contato com estes espíritos e até manter com eles um certo relacionamento[4]. Estes não são entendidos basicamente como sendo bons ou maus. Do ponto de vista da origem, se pode distinguir duas espécies de espíritos: os que foram criados como espíritos e aqueles, dos quais se pensa que tiveram uma vida na terra e após a morte tornaram-se seres-espíritos. Assim há, por exemplo, mitos que falam da criação, onde determinados espíritos já estavam presentes, e há mitos que contam da vida humana nesta terra que tiveram espíritos antes de tomarem esta condição e força em tradições africanas. Com este pequeno exemplo, já se pode perceber que seria um campo muito vasto examinar o significado da palavra espírito quando usada em conotação religiosa. Outra questão – e correlata – é o uso do termo espírito nas diversas culturas: na língua chinesa, por exemplo, há muitas palavras para exprimir espírito, refletindo o modo de pensar e de diferenciar daquela cultura. Há uma palavra espírito que indica o "espírito do imperador" e há outra palavra espírito que diz o "espírito do camponês" ou outra que diz "espírito do servo" e assim por diante. Só podemos imaginar a dificuldade do cristianismo em querer colocar o significado de "Espírito Santo" em uma cultura onde a palavra espírito já está multiplamente pré-definida e ocupada por significados outros. Outra questão ainda –e igualmente correlata – é a utilização da palavra espírito na tradição filosófica. O espírito, como princípio de conhecimento cosmológico (tanto do macro- como do microcosmos) da forma que o entende o filósofo grego Phílon é muito diverso do espírito (Geist) do idealismo alemão como força, capacidade do humano em tomar à mão sua história e pela razão resolver as questões. Todo este verdadeiro universo de significados para o termo espírito não será abordado neste texto, a não ser onde se fizer necessário para a compreensão cristã.

c) Uma perspectiva do Espírito Santo. Dentro do próprio cristianismo há todo um campo muito vasto de abordagem do termo espírito. Iremos nos concentrar numa abordagem sistemática relacionada com o Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Trindade, deixando de lado toda uma outra abordagem relacionada com a espiritualidade ou a vida espiritual cristã. A espiritualidade ou vida espiritual cristã está, sim, diretamente ligada à ideia da experiência e da ação do Espírito Santo. Não a iremos abordar, entretanto pelo fato de esta temática ser coberta por uma área própria da Teologia, a Espiritualidade.

d) Uma perspectiva experiencial. O roteiro de reflexão incluirá uma abordagem da Pneumatologia como de praxe, colocando-a dentro da tradição teológica sistemática: o contexto bíblico e o desenvolvimento dogmático ocorrido na tradição cristã sobre o Espírito Santo. Far-se-á, entretanto um esforço para ler esta história a partir de uma perspectiva experiencial, ou seja, fazer uma Pneumatologia a partir da experiência do Espírito Santo. Com isso estaremos tentando recolher para a reflexão a realidade que ficou clara nos últimos anos, especialmente depois do Concílio Vaticano II, a de uma atenção maior à importância da experiência para a vida da fé.

e) O Espírito Santo como Deus em nós. Dentro desta preocupação com a experiência do Espírito Santo, se pretende dar uma atenção especial à ação do Espírito Santo em nós. Nós que pode ser entendido aqui como pessoa (no âmbito individual), como cristãos (no âmbito da fé cristã), como comunidade (no âmbito social), como criação (no âmbito de todo o meio ambiente) ou como universo (no âmbito da totalidade). Se atribuímos ao Pai a criação de tudo de modo que tudo o que existe tem a marca de Deus; se dizemos que em Jesus-Deus veio até os humanos, tornando-se um deles, assumindo a sua condição de espaço e tempo, queremos definir o Espírito Santo como Deus que permanece em nós, Deus que mora em nós, que habita em nós ("Não sabeis que vosso corpo é templo do Espírito Santo?" [1Cor 6,19a]). Este “corpo templo do Espírito Santo” aludido por Paulo pode ter a extensão que a ele se quiser perceber: o corpo de cada pessoa humana individualmente ou o corpo como a totalidade do universo. Todas estas dimensões podem ser percebidas como corpo. E é através do Espírito Santo que realiza plenamente o Deus-conosco, realizando-se assim a promessa de Jesus:

"Eu pedirei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, que estará convosco para sempre. Ele é o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis porque permanece convosco e está em vós. Não vos deixarei órfãos. Voltarei para vós". (Jo 14,16-18)

A tentativa de pensar o Espírito Santo com a categoria de “Deus em nós” pode ter tanto uma conotação de intimidade (Deus em mim), como também uma conotação ampla do Espírito de Deus que enche o universo. Isto vai depender da amplitude do que entendemos como nós: a pessoal, a cristã, a comunitária, a de toda a criação ou de todo o universo. Nenhum destes âmbitos é ao outro contraposto. Todos podem ser igualmente considerados, desde que não se excluam. O âmbito que dermos, mostra tão somente, a limitação do modo humano de ver, sentir, perceber a experiência do Espírito Santo.

f) Deus em nós, como garantia do seguimento do Evangelho. O Deus agindo em nós ("o Paráclito"), em “nosso espírito", fazendo com que ele seja Espírito Santo é uma garantia que nos aponta para duas direções: 1º Uma garantia que nos aponta para a Boa-Nova de Jesus Cristo. O Espírito não nos deixa órfãos em nossa relação com Jesus Cristo, isto é, como discípulos, no âmbito do seguimento. É o Espírito Santo em nós que move a fé e, para repetir a afirmação de Paulo, só se pode dizer que Jesus é o Senhor por causa do Espírito Santo em nós. O Espírito Santo aponta então para dentro, para o centro da tradição de fé, para a identidade cristã que acontece no seguimento, no discipulado de Jesus Cristo. 2º Em segundo lugar é o Espírito Santo que, segundo a tradição cristã baseada no relato de Pentecostes, impulsiona os cristãos a levarem seu seguimento para fora, para o mundo. Graças à ação do Espírito Santo, o cristão não fica apenas em seus círculos, não fica preso ao cenáculo. O Espírito Santo rompe o medo, rompe o isolamento, leva à ousadia, leva ao encontro, à diversidade, ao diálogo do entendimento de muitas línguas, como indica o relato de Pentecostes no livro dos Atos dos Apóstolos. Por isso ele leva ao novo, ele é sempre renovação, nunca se deixa prender nem confinar. A ação do Espírito Santo é, pois gerativa, criativa, fértil. Por isso também a importância de recuperar a interpretação do Espírito Santo ligada à maternidade, à feminilidade. A própria definição dogmática mais importante sobre o Espírito Santo (do Concílio de Constantinopla, 381) coloca o Espírito Santo ligado à doação da vida: "Cremos no Espírito Santo, Senhor que dá a vida..." Está aí incluída a maternidade, a fertilidade, a dinâmica, a renovação.

Estas delimitações são também eixos que deverão estar presentes e nortear a reflexão sobre o Espírito Santo. O texto será dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo, haverá uma aproximação à palavra espírito e seus significados. Não se pode esquecer que quem ouve esta palavra, irá logo fazer todas as delimitações apontadas acima. A palavra está em contextos de muitos sentidos e será interessante olhar justamente este meio-ambiente semântico no qual ela se encontra. O segundo capítulo irá voltar o olhar para o tema propriamente dito: a Pneumatologia. Na história da Teologia, esta temática recebeu acentos muito diversos. E o que se tem hoje na reflexão teológica sobre o Espírito Santo é, em parte, fruto e consequência das dificuldades que o cristianismo teve, ao longo da história, de lidar com a experiência do Espírito Santo. O terceiro capítulo irá resgatar o pensamento sistemático da tradição judaico-cristã sobre o Espírito: desde o nascimento bíblico da expressão, até a Teologia do Espírito Santo que subjaz ao Concílio Vaticano II e suas consequências. Neste longo percurso – que precisa ser abordado de maneira reduzida – passar-se-á pelo nascimento da expressão Espírito Santo e sua definição como pessoa da Trindade, o tempo do cristianismo antigo, a idade média, a reforma, etc., até se aproximar aos dias de hoje. O quarto e último capítulo será dedicado à reflexão do Espírito Santo, Deus-em-nós. Tentar-se-á apresentar chaves de leitura para a percepção da experiência do Espírito de Deus que mora em nosso meio, que perpassa toda a realidade, que faz com que a presença de Deus não seja uma experiência da manifestação de um estranho, mas sim uma experiência humana que remete à totalidade da realidade.


Capítulo I: Espíritos e Espírito Santo

 

Antes de a reflexão entrar na temática pneumatológica do Espírito Santo propriamente dita, é preciso olhar em volta. A palavra Espírito não é unívoca e ao se acrescentar o adjetivo Santo, em pouco ou nada ganha em precisão. O exercício deste capítulo será justamente este de tentar demonstrar em quantos campos semânticos a palavra Espírito está implicada, seja por ela mesma, seja na história do pensamento, seja por outras palavras formadas a partir de seu radical, seja por expressões que se utilizam desta palavra. Além do campo muito amplo de significados em torno da palavra espírito, também se atribui ao espirito uma série de ações ou efeitos. Assim, iremos colocar rapidamente o olhar sobre esta questão do que faz (ou se diz fazer) o Espírito, chamando atenção especialmente para narrativas e compreensões populares.

 

1.1 Compreensões do termo espírito

 

a) Significados da palavra espírito.

Um rápido panorama sobre as definições de espírito em dicionários diversos oferece indicações interessantes sobre a amplidão de significados ligados ao termo.

Dicionário Houaiss

ESPÍRITO: 1. Parte imortal do ser humano; 2. Alma; 3. Parte do espiritismo, a pessoa que viveu na terra ou em outro mundo, fora do envoltório matéria; 4. O ser supremo, Deus; 5. Entidade sobrenatural ligada ao bem ou ao mal; 6. Sopro criador de Deus; 7. Princípio vital, superior à matéria, sopro; 8. Substância imaterial, incorpórea, inteligente, consciente de si, onde se situa o processo psíquico, a vontade dos princípios morais; 9. Mente, pensamento, cabeça; 10. Inteligente, ou pessoa inteligente (um espírito admirável); 11. Pensamento em geral, princípio pensante, dinâmico, infinito, impessoal e imaterial que conduz a história da humanidade, e que concretiza plenamente neste processo em seu final, quando se manifesta no ser humano como plena razão e liberdade.

 

Dicionário Aurélio:

ESPÍRITO. Do latim: spiritus.

1. A parte imaterial do ser humano; alma (por oposição ao corpo); alma; 2. Suposta entidade superior que transcende a matéria: o espírito criador do Universo; 3. Suposta entidade imaterial que pertence a uma ordem sobrenatural: espíritos angélicos; espíritos malignos; os espíritos da floresta; 4. Entidade sobrenatural ou imaginária, como os anjos, o diabo, ou os duendes; 5. A parte incorpórea, inteligente ou sensível do ser humano; o pensamento; a mente: as atividades do espírito; ter paz de espírito; 6. Inteligência fina, brilhante: é um homem de espírito; pessoa considerada segundo as qualidades intelectuais, morais, culturais etc.: é um grande espírito; 7. Ideia predominante; significação; sentido: o espírito da obra está claro; o espírito da lei; 8. Ânimo, índole: espírito empreendedor, espírito forte; 9. Capacidade de captar o cômico, o divertido, o ridículo; graça, humor, ironia: uma anedota sem espírito; 10. Líquido obtido pela destilação; álcool; 11. Filosofia: domínio da subjetividade, da consciência e do pensamento, que se opõe ao das coisas corpóreas ou materiais.

 

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:

ESPÍRITO: (latim spiritus, -us, sopro, ar, alma) 1. Coisa incognoscível que anima o ser vivo; 2. Entidade sobrenatural. = abantesma, alma, espetro, fantasma; 3. Ente imaginário; 4. Ser de um mundo invisível; 5. Conjunto das faculdades intelectuais (ex.: espírito curioso); 6. Vida; 7. Razão; 8. Inteligência; 9. Energia; 10. Caráter, índole; 11. Aptidão, capacidade; 12. Opinião, sentimento; 13. Intenção; 14. Gênio, talento; 15. Pessoa; 16. Imaginação, graça, engenho; 17. Essência; 18. Sentido; 19. Ideia predominante; 20. Tendência; 21. Ar; sopro; 22. Respiração, hálito; 23. Parte volátil de um líquido. = álcool; 24. [Gramática] Sinal diacrítico do grego, para marcar a aspiração inicial ou a sua ausência; 25. [Religião] Alma; 26. Alma do outro mundo.

 

Dicionário Dorsch de Psicologia

ESPÍRITO: Sinônimo em parte de “psíquico” (psíquico-espiritual designa a diferença do somático-material), em parte do conjunto de capacidades superiores exclusivas do homem como pessoa: pensamento e vontade.

 

Dicionário Junguiano

ESPÍRITO: 1. O mesmo que psique. Enquanto tal é posto em relação complementar com corpo. 2. Em sentido estrito, o fator inconsciente derivado do conjunto das características normativas hereditárias. [...] atividades racionais, contraposto à alma enquanto conjunto das tendências instintivas – pulsões. Jung comenta de um fenômeno chamado possessão por um complexo, que ocorre quando estes (os complexos) ficam mais carregados que o próprio ego. Há casos em que se diz: “Nossa, não sei o que aconteceu, parece que na hora um espírito tomou conta de mim”.

 

Dicionário das Religiões (Ed. Cultrix)

ESPÍRITO: O conceito singular, denotando a forma do ser que carece distintivamente de propriedades materiais – muitas línguas, de palavras que indicam alento, ou vento, invisível, embora poderoso e criador de vida; conota vida, consciência, atividade própria.

 

Enciclopédia e Dicionário ilustrado (KOOGAN; HOUAISS).

ESPÍRITO: s.m. 1. Princípio imaterial, alma: submeter o corpo ao espírito; 2. Ser incorpóreo: Deus, os anjos são espíritos; 3. Ser imaginário, como os duendes, os gênios, os silfos, os gnomos etc.: crer nos espíritos; 4. Faculdade de compreender, de conhecer: cultivar o espírito; 5. Inteligência: ter espírito vivo; 6. Julgamento: ter espírito generoso; 7. Disposições, aptidões: espírito de invenção; 8. Humor: ter espírito; 9. Pessoa dotada de inteligência superior: os grandes espíritos formam as grandes nações; 10. Sentido, significação: penetrar no espírito da lei; 11. Quím. A parte mais volátil dos corpos submetidos à destilação; 12. Espírito rude sinal que indica aspiração na língua grega ( ? ); 13. Espírito doce, sinal contrário ( ’ ); 14. Fazer espírito, exprime-se com termos vivos e engenhosos, fazer jogo de palavras.

 

Enciclopédia Barsa Universal

ESPÍRITO: 1. Parte imaterial do ser humano, alma; 2. Nome genérico de diversas entidades incorpóreas, como deuses, anjos, duendes, etc.; 3. Índole, temperamento; 4. Capacidade para o gracejo; graça, humor, sutileza; 5. Inteligência, ideia, razão, raciocínio; 6. Ideia predominante, intenção, sentido; 7. Líquido obtido por destilação; álcool.

 

b) Palavras formadas a partir do termo espírito

Outro campo semântico da palavra espírito se abre quando observamos as palavras formadas a partir do termo espírito. Reproduzimos aqui as explicações que diversos dicionários trazem para termos derivados do termo espírito:

1. Espírita: a) Pessoa partidária do espiritismo; b) Que é próprio do espiritismo; relativo ao espiritismo; c) Pessoa que crê no espiritualismo com comunicação dos espíritos, com os mortos.

2. Espiritar: a) Endemoninhar, meter o demônio no corpo de; b) Tornar endiabrado, travesso, inquieto; c) Inspirar, insuflar; d) Incutir; e) Incitar, estimular, animar.

3. Espiriteira: a) Pequeno fogareiro a álcool; b) Vaso onde se deita o espírito de vinho ou álcool para arder.

4. Espiritismo: a) Doutrina e prática segundo a qual o espírito dos mortos podem entrar em contato com os vivos principalmente pela ação dos médiuns e manifesta-se por toque-movimento de objetos e outras formações materiais (ectoplasma); b) Culto religioso fundado nesta doutrina ou prática.

5. Espiritista: Sinônimo de espírita.

6. Espiritologia: É a psicologia espiritual. Segundo esta corrente o ser humano pode entrar em contato com outros lugares e outras épocas.

7. Espirito-santense: Relativo ou pertencente ao Estado do Espírito Santo. Habitante ou natural desse Estado. Pl: espírito-santenses. Sin: capixaba.

8. Espiritual: a) Relativo ou pertencente ao espírito; b) Imaterial, incorpóreo; c) Alegórico; d) Místico; e) Sobrenatural; f) Devoto do foro eclesiástico; g) Vida espiritual; h) Relativo à religião ou próprio dela, devoto; i) Atividade ou condução: ex.: diretor espiritual, médico espiritual, pai espiritual, poder espiritual, retiro espiritual.

9. Espiritualidade: a) Qualidade ou caráter do que é espiritual. b) Conteúdo da vida espiritual enquanto doutrina e prática; c) Rel. Tendência para o desenvolvimento das capacidades espirituais da alma; d) Doutrina acerca do progresso metódico da vida espiritual.

10. Espiritualismo: a) Doutrina filosófica que tem por base a existência da alma e de Deus; b) tendência para a vida espiritual; c) Doutrina que reconhece a independência e a prioridade do espírito sobre a matéria; d) Tendência para a vida espiritual; e) Doutrina que admite, quer quanto aos fenômenos naturais, quer quanto aos valores morais, a independência e o primado do espírito em relação às condições materiais, afirmando que os primeiros constituem manifestações de forças anímicas ou vitais, e os segundos criações de um ser superior ou de poder natural e eterno inerente ao homem.

11. Espiritualista: a) Pessoa que segue a doutrina do espiritualismo; b) Relativo ao espírito, ou ao espiritualismo.

12. Espiritualização: a) Ato ou efeito de espiritualizar; b) Conversa do que é espiritual e fundamental; c) Ato ou efeito de espiritualizar(-se).

13. Espiritualizado: Que se tornou espiritual.

14. Espiritualizar: a) Dar feição superior ou espiritual: Espiritualização ao amor; b) Identificação com coisas espirituais; c) Interpretar alegoricamente; c) Buscar a espiritualidade; d) Converter em Espírito; espiritar; e) Assimilar ao Espírito; f) Destilar, alambicar; g) Animar, excitar, estimular; h) Despir-se de afeições terrenas; i) Readquirir energia, reanimar-se.

15. Espiritualmente: a) De forma espiritual; b) De maneira não corporal ou material.

16. Espirituosamente: De modo espirituoso, com espírito.

17. Espirituoso: a) Que tem espírito, que tem graça, que tem ou revela graça; vivacidade b) Alcóolico, que contém álcool. c) Conceituação aguda de respostas argutas humorísticas.

18. Espiro: Aragem, sopro brando.

 

            c) Expressões com a palavra Espírito

            Além de uma série de palavras formadas a partir do termo espírito, a língua portuguesa também é pródiga em expressões que se utilizam da palavra espírito. Vejamos uma pequena amostra:

1. Espírito de Porco: Que interfere e, ou, causa problema;

2. Espírito Gaulês: Caracterizado por uma alegria libertina;

3. Espírito Esportivo: Virtude de quem sabe perder, justo e generoso nas competições;

4. Render o Espírito: Morrer;

5. Espírito Forte: Pessoa que se põe acima de preconceitos; livre pensador;

6. Espírito Fraco: Que se deixa levar pelos outros; dominado por maus exemplos;

7. Espírito Doce: Temperamento amável e afável;

8. Espírito Imundo: Sinônimo de Espírito das Trevas;

9. Espírito Prático: Qualidade de quem procura solucionar tudo de forma ligeira e sem complicações;

10. Espírito Público: Quem se preocupa com a cidade e o país;

11. Espírito Rude: Não cultivado ou natureza brutal;

12. Espírito Crítico: Atitude intelectual que não admite afirmação sem legitimidade;

13. Espírito Natalino: Que se deixa envolver e empolgar pelo Natal, tornar-se generoso;

14. Espírito Gordo: Glutão;

15. Espírito Santo de Orelha: Pessoa que fala ao pé do ouvido ou aluno que diz a um colega respostas em voz baixa;

16. Espírito Engarrafado: Pessoa sem graça;

17. Espírito da Lei: Ideia básica que predomina em texto positivo da legislação;

18. Espírito das Trevas: Forças malignas;

19. Espírito de Contradição: Aquele que gosta de contrariar;

20. Espírito de Grupo: Sentimento partilhado por um grupo ou trabalho em equipe;

21. Espírito de Luz: Pessoa iluminada; diz-se também – no espiritismo – daqueles que no ciclo de reencarnações já atingiram o ápice, e que não mais irão reencarnar.

22. Espírito de Observação: Vontade de esmiuçar, capacidade de perceber detalhes;

23. Nobreza de Espírito: Capaz de ações grandiosas e altruístas;

24. Pobreza de Espírito: Falta de capacidade de ações generosas, mesquinhez;

24. Estado de Espírito: Situação emocional em que alguém se encontra;

25. Espírito de Geometria: o espírito de geometria está presente na ordem técnica do fazer arquitetônico, representando a razão calculatória, instrumental-analítica, ou seja, a própria ciência moderna, que com seu poder mudou a face da Terra;

26. Espírito de Finesse: Espírito de finura ou de fineza, que é a capacidade de captar as coisas com sensibilidade.

27. Espírito fraterno: Capacidade de convivência e de dividir as coisas com a fraternidade.

28. Espírito de arrependimento: Capacidade de rever as atitudes, reconhecer os erros e fazer o possível para repará-los.

29. Repouso no Espírito: Expressão utilizada no contexto tanto das igrejas pentecostais quanto do movimento Renovação Carismática Católica para designar a experiência de ser tomado pelo Espírito Santo, podendo inclusive ser levado ao chão.

30. Espírito de pertença: Sentimento e ação de sintonia com o grupo do qual se é membro.

 31. Espírito demoníaco: Atitude de quem planeja infligir o mal a outras pessoas.

32. Espírito aberto: Diz-se de quem é capaz de ouvir e aceitar opiniões alheias.

33. Espírito de morna: Monótono.

34. Espírito de pesadume: Ausência de boa vontade; má disposição para atender alguém ou fazer algo.

35. Ele não tem espírito: Pessoa com dificuldade de participar ou interagir com seu meio de convivência.

36. Espírito de torcida: Atitude daqueles que participam de grupos de torcedores com organização e fineza.

37. Espírito de liderança: Diz-se de alguém com talento para liderar pessoas ou grupos.

38. Espírito empresarial: Capacidade empreendimento de empresa.

39. Espírito de busca: Força de vontade e capacidade tanto de superar problemas como não se acomodar na busca por soluções.

40. Espírito olímpico: Capacidade desportiva de competir com lealdade e franqueza, respeitando as regras e os adversários.

41. Espírito de camaradagem: Capacidade de bem conviver e participar em conjunto de atividades.

42. Espírito de aventura: Ter gosto por aventuras.

43. Espírito de classe: Atitude de se manter em unidade com a classe ou grupo a que pertence.

44. Espírito de corpo: Atitude de indivíduos que se mantém unidos a seus grupos no modo de pensar ou agir.

45. Espírito do século: Formas de pensar e de comportamentos de uma determinada época.

46. Espírito do mundo (ou espírito mundano): Conjunto de atitudes ou comportamentos repreensíveis.

47. Espírito sedutor: Capacidade de seduzir;

48. Espírito da coisa: O sentido do que está sendo realizado;

49. Falta de espírito: Atitude não colaborativa;

50. Espírito franciscano: Desapego, ao modo de Francisco de Assis.

Esta lista de expressões poderia ser acrescida ainda de muitas outras. A amostra apresentada, entretanto, deixa entrever que o termo espírito é combinado de formas muito variadas. Mas, mesmo dentro desta grande variação, há duas ideias que são bastante comuns nas expressões: por um lado a ideia de atitude (modo de ser ou de portar-se) e por outro lado o fato de que grande parte das expressões tem alguma conotação moral, positiva ou negativa.

 

d) O conceito de espírito na filosofia

Na tradição do pensamento filosófico, há termos que são praticamente uma constante através dos tempos. E um destes é justamente o termo espírito, que recebeu interpretações muito diversificadas, mesmo dentro de um único tempo, mas não apenas foi sempre presente, como foi um termo importante para se exprimir o pensamento. O pequeno panorama apresentado abaixo é apenas para demonstrar a amplidão do conceito dentro da história da filosofia.

Na filosofia antiga: Espírito é a presença nas coisas vivas (psyché, no grego; anima no latim). Para Platão, a alma é um composto imaterial de um organismo. Contrariamente às coisas materiais, as imateriais não se dissolvem ou se decompõem, assim a alma é imortal. Para Aristóteles, o espírito corresponde às funções vitais nos seres vivos.

Na filosofia patrística: Agostinho de Hipona emprega o termo espírito (spiritus) para designar a parte da alma que difere o ser humano dos animais. Segundo essa interpretação, podemos considerar que o filósofo faz referência à parte racional da alma, esta enquanto uma faculdade que irá definir o ser humano. Na obra De fide et symbolo (Sobre a fé e os símbolos) Agostinho afirma: “E porque as três coisas são pelo homem estabelecidas: espírito, alma e corpo, os quais dois são ditos inversamente, pois a alma muitas vezes é nomeada juntamente com o espírito; com efeito, a certa parte racional da mesma, que faltam às bestas, é chamada de espírito; entre nós o espírito é o principal; depois somos unidos ao corpo pela vida, a isto é chamado alma; enfim o último é o corpo, pois o próprio é visível de nós.”

Na filosofia medieval: Segundo Tomás de Aquino, o agir manifesta o ser, de forma que uma superioridade de ordem no modo de agir é a consequência e o sinal de uma superioridade mais profunda e mais importante no próprio ser. Essa superioridade provém precisamente da racionalidade. Esta é a forma assumida pela intelectualidade em um espírito que só existe e age em um corpo e por seu intermédio: a esse título, traz com ela essa prerrogativa do espírito que do conhecimento deriva no agir: a consciência. Conhecimento e liberdade, eis o que, segundo Santo Tomás, caracteriza a pessoa, elevando-a acima de todos os entes que lhe são inferiores. Tomás de Aquino irá derivar seu modo de pensar do aristotelismo, entendendo espírito no ser humano não como imortalidade, mas como força de vivacidade.

Na filosofia moderna: B. Pascal, ao falar de espírito assume como base o significado de espírito como atitude ou uma disposição. É essa compreensão que está presente nas suas célebres expressões “Espírito de geometria”, “Espírito de finesse”. Kant usou o termo em sua teoria estética: "No significado estético, Espírito é o princípio vivificante do sentimento. Mas aquilo com que esse princípio vivifica a alma, a matéria de que se serve, é o que confere impulso finalista à faculdade do sentimento e a insere num jogo que se alimenta de si mesmo e fortifica as faculdades de que resulta" (Crítica do Juízo, § 49; Antr., § 71 b). Georg Friedrich Hegel irá entender o espírito como a verdade da natureza. Há o espírito subjetivo, na consciência e nos fatos psíquicos individuais; há o espírito objetivo, através da moral e do direito; e há o espírito absoluto, que se manifesta através da arte, religião e da filosofia. Para Leibniz, espírito é o principio da vida e, consequentemente, alma individual. Conservou este sentido, sobretudo, ligado à linguagem teológica e mística.

Na filosofia contemporânea: Para Marx não existe um espírito da história e da humanidade, com queria Hegel, mas a história é uma construção dos indivíduos reais. A religião, a moral e até mesmo a metafísica não têm uma história própria, elas mudam conforme mudam as bases das relações econômicas entre os indivíduos. As ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante dessa época. Nicolau Hartmann considera o espírito como uma superestrutura que se eleva acima do mundo orgânico. Ao espirito pertenceriam todas as produções espirituais: Letras artes, técnicas, religião, mitos, ciências, filosofias, etc. Ele é o verdadeiro protagonista da história.

 

1.2 Em nome do espírito!

Não só a palavra espírito é usada de formas e sentidos diversos, diretamente, com derivações ou expressões, mas ao próprio espírito – seja lá o que isto for – se atribui uma série de ações ou influências. O termo espírito caiu também no gosto popular e ali se propagam uma série de ideias e narrativas em torno do que seria algo pretensamente desencadeado pelo espírito. Destarte grassam em nosso meio muitas histórias, lendas e causos de coisas ocorridas “em nome do espírito!”

Estas compreensões populares sobre o que faz (ou pretensamente faria) o espírito têm origens diversas, muitas delas certamente em tradições religiosas presentes no Brasil, seja dos imaginários oriundos dos povos autóctones, seja de imaginários trazidos da Europa, da África e inclusive da Ásia.

Vejamos algumas destas coisas que os espíritos estariam fazendo:

Alma penada: este é um dos imaginários bastante comuns e pode ser encontrado por todo o país. Nele se diz que o espírito de algum falecido que não encontrou o caminho de volta (ou de ida) ao além fica vagando por aí, em sofrimento (penando). Este descaminho de um tal espírito é por vezes interpretado como sinal de algo mal resolvido. Enquanto alguma coisa que ficou para trás não se resolver (por parte de algum vivo), esta alma não encontrará descanso e vagará penando entre os vivos.

Espirito revelador: Noutro imaginário, os espíritos – geralmente tidos como de algum finado – se mostram a algumas pessoas para revelar coisas. São feitos inclusive alguns rituais pelos quais estes espíritos falariam. Assim há jogos de mesas, copos girantes, etc.

Espírito comunicador de tragédias: Há também relatos populares de espíritos, subentendidos como espíritos de mortos, que aparecem para avisar que alguma tragédia ou morte está para acontecer para uma pessoa ou em seu entorno. Desta forma, este espírito estaria tentando prevenir tal acontecimento.

Espírito da noiva: outra lenda bastante popular dá conta de uma noiva que teria morrido no dia do casamento. O espírito dela apareceria de madrugada, a caminhoneiros, em curvas de estrada, vestida de noiva e pretensamente lamentando seu infortúnio.

Espírito de falecido que volta: Outro campo de muitas lendas e histórias populares diz respeito a narrativas de espíritos de falecidos que teriam voltado (aparecido) a algum conhecido em diversos tipos de circunstâncias. Assim há histórias de espíritos de falecidos que apareceram para pedir que seu conhecido resolva alguma pendência deixada por eles em vida; noutras narrativas os espíritos de falecidos aparecem para revelar algum segredo não contado em vida, geralmente de algo que lhes pesava na consciência; noutras ainda os espíritos de finados se mostram para ajudar algum conhecido a resolver ou encontrar alguma coisa a partir de uma informação que só a pessoa finada detinha.

Espírito de avós que aparecem a netos: Outro campo comum de narrativas populares em torno de espíritos dá conta de que os espíritos de avós aparecem aos netos, seja nas casas dos avós ou nos ambientes dos próprios netos.

Espíritos de escravos que carregam correntes: A vida e a morte em situações violentas, trágicas ou degradantes também são pródigas em gerar histórias de ações de espíritos. Assim, é comum que se diga ouvir até os dias de hoje barulhos de correntes sendo arrastadas ou outros objetos em lugares que foram de escravos. Ali, pretensamente, onde os escravos viviam em situações desumanas, seus espíritos continuariam a vagar carregando as correntes que os aprisionavam.

Currupira, Caipora, Anhangá: Um conjunto de narrativas fantásticas em torno de espíritos temos também advindo de tradições de povos autóctones. Estas figuras, oriundas da mitologia de povos nativos, foram aos poucos sendo incorporadas a outras narrativas dando assim origem a lendas muito diversificadas. Uma das mais conhecidas é a em torno de um espírito conhecido por Currupira (nalguns lugares chamado de Caipora), que seria um espírito protetor da flora e da fauna. Neste imaginário, Currupira seria um anão, de cabeça vermelha e pés virados ao contrário. Assim, o caçador que destruísse fauna e flora, se perderia na floresta seguindo – erroneamente – os rastos deixados por Currupira. Como os pés destes eram virados para trás, quem o seguia andava em direção contrária. Há também o espírito Anhangá, dissimulado e maldoso, que fazia não vingar as ações dos invasores da floresta. Na esteira de narrativas chamadas muitas vezes de folclóricas, há muitos outros espíritos nomeados como Lobisomen, Mula-sem-cabeça, Saci Pererê, etc.

Espíritos da meia-noite nos cemitérios: Mais uma narrativa comum em quase todo o Brasil é a de que não se deve ir à meia noite nos cemitérios, pois a esta hora os espíritos saem pretensamente a vagar fora dos túmulos.

Espíritos de médicos: Ligado geralmente à tradição do espiritismo, há a ideia de que espíritos de médicos podem tomar os corpos de pessoas para realizarem as chamadas cirurgias espíritas. Assim, o espírito de médico mais conhecido é o de Dr. Fritz, que toma médiuns em diversos lugares, com a finalidade de realizar curas. Também Dr. Hans é citado nestas narrativas.

Ações de espíritos perturbadores: Outra atividade muito comum atribuída popularmente aos espíritos é a perturbação de pessoas, seja de ordem psíquica, física, de relacionamentos, de situação econômica ou outra qualquer. Nesta linha de raciocínio, algum desfortúnio ocorrido de origem não muito clara é visto como ação de algum espírito perturbador, espírito obsessor, também chamado por vezes de encosto. Para se conseguir afastar estas ações, é necessário realizar – via de regra – uma série de rituais específicos.

Espíritos assustadores localizados: Outro campo de narrativas em torno da ação de espíritos é atribuir a sua presença em lugares específicos. Seja nalgum caminho, nalguma árvore, nalguma moita de bambu, nalguma curva de rio, precipício ou gruta. Pretensamente, estes lugares podem ser habitados por espíritos assustadores e é preferível se manter afastado deles. Muitas vezes as narrativas que criaram a noção de espírito presente nestes lugares remontam a algum acontecimento estranho presenciado por alguém nestes espaços.

Espíritos invocados por benzedeiras: A atividade de pessoas que benzem ou rezam (geralmente exercida por mulheres) é também muito espalhada em todo o Brasil (e não só). Estas pessoas invocam muitas vezes espíritos em seus rituais, que seriam forças capazes de realizar as tarefas desejadas.

Casas mal-assombradas: Outra especialidade de espíritos, nas narrativas populares, é habitar casas ou construções onde algo de cruel ou ruim teria acontecido. Estes espaços continuariam ser a habitados por espíritos assustados pelos acontecimentos, tornando-os assim mal-assombrados.

Espírito que abre a porta: É muito popular a ideia – muitas vezes aplicada inclusive de forma jocosa – de que quando pessoas estão e algum ambiente e a porta se abre sem que ninguém o tenha feito, é porque algum espírito desejava adentrar ou sair do ambiente.

Após termos dado esta volta no entorno, isto é, percebido – pelo menos minimamente – que o termo espírito se insere num complexo campo semântico, vamos voltar o olhar ao campo específico, a compreensão de Espírito Santo na tradição teológica cristã.

 



[1] Veja como exemplo do Documento final do IV Congresso Internacional de Padres Casados, intitulado "Conduzidos pelo Espírito de Deus". SEDOC 259 (1996), p. 389-390.

[2] Veja como exemplo a Carta Apostólica de João Paulo II aos Bispos da Igreja Católica sobre a Ordenação Sacerdotal Reservada somente aos Homens "Ordinatio Sacerdotalis", nº 2. Documentos Pontifícios 268. Petrópolis: Vozes, p. 8.

[3] Cf. AMADO, W. J. e outros. A religião e o Negro no Brasil. São Paulo, 1989, p. 56; TOSSOU, K. J. Welche Geister rufen wir? Em: Theologie und Glaube, 78 (1988), p. 244.

[4] "Como o africano não entende estes seres-espíritos de forma racional-abstrata, mas de forma pessoal, estabelece com eles relações pessoais e expressa com isso o próprio ser dependente do outro numa dimensão pessoal constitutiva da existência humana" TOSSOU, K. J. Welche Geister rufen wir? Em: Theologie und Glaube, 78 (1988), p. 244.