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Volney Berkenbrock
Fabricar a Teoria PDF Imprimir E-mail

 

 

 

 

A fabricação da teoria[1]

 

A verdadeira etapa inicial da investigação se situa no instante em que o pesquisador, após ter contemplado todo seu material, decide tratar de seu conteúdo, para chegar enfim a um texto [...] elaborado: fase geralmente definida pelo termo consagrado de “análise de conteúdo”. [...] O resultado não depende do conteúdo, simples matéria-prima, mas da capacidade analítica do pesquisador. O tratamento não consiste simplesmente em extrair o que está nas gravações e ordená-lo. Ele toma forma de uma verdadeira investigação, aprofundada, ofensiva e imaginativa: é preciso fazer os fatos falarem, encontrar indícios, se interrogar a respeito da mínima frase. [...] São as hipóteses e os conceitos continuamente atualizados e aperfeiçoados que permitem este avanço. A fabricação da teoria não é, portanto, apenas um objetivo final, ela representa um instrumento muito concreto de trabalho, que permite ir além do conteúdo aparente e dar volume ao objeto (p. 119-120).

A boa condução deste trabalho implica, por parte do pesquisador, a adoção de uma postura e de um estado de espírito característicos. A investigação do material deve ser ativa e produtiva. Ora, não há descoberta sem vontade de descobrir. O pesquisador deve, portanto, a cada dia, cultivar sua vontade de saber, não encarar o material como uma tarefa entediante e passiva, mas com curiosidade e paixão. Uma boa imagem é a de uma investigação policial: da mesma forma, ele deve encontrar indícios, confrontar testemunhos, imaginar motivos, recolher provas. [...] Ele deve viver tamanha paixão por suas hipóteses a ponte de elas o possuírem, perseguindo-o a todo instante. Ele só pensa nisso (p. 120).

Como nascem as hipóteses? Wright Mills explica que elas provêm da mistura paradoxal de dois elementos. De um lado, a vontade ativista do pesquisador, sua “agilidade intelectual” e seu “desejo feroz de querer entender”; por outro lado, ao contrário, sua passividade, sua abertura tolerante, que lhe permite acolher “soldas imprevisíveis”. Se o pesquisador fica prisioneiro de suas próprias ideias (suas ideias fixas) sem se abrir ao novo, suas aquisições teóricas ficam estagnadas e rígidas; caso ele seja insuficientemente intervencionista, o que foi assinalado nas “soldas” permanece descritivo e não é utilizado como instrumento criativo. A combinação destes dois elementos contrários está na base da maneira tradicional de fazer teoria; a volatilidade das ideias abstratas permitindo imaginar com facilidade as “soldas” mais diversas (p. 131).

As hipóteses aparecem por “soldas imprevisíveis”, interconexões entre as categorias conceituais que nunca foram relacionadas. O pesquisador deve, portanto, preservar sua abertura intelectual a todos os movimentos possíveis, deixar agirem as transversalidades mais sacrílegas dos dogmas estabelecidos. Entretanto, na teoria fundada sobre os fatos, uma estrutura particular de confrontação domina largamente: a confrontação permanente entre saber local (categorias nativas) e saber global (conceitos abstratos). A chave da produtividade de análise é a atividade incessante de “go-between” entre observações concretas e modelos gerais de interpretação, “vai e vem dialético contínuo entre o mais local dos detalhes e o mais global das estruturas globais (GEERTZ). Clifford Geertz insiste na necessidade de compreensão das categorias nativas. Para isto, é preciso entrar no sistema de valor, na vida do informante, mantendo-se aberto ao entendimento das expressões mais discretas e bizarras, “aprender um provérbio, discernir uma alusão”, para chegar a reconstruir todo o seu sistema simbólico, a “ver as coisas do ponto de vista do nativo”. Quanto mais o detalhe se aperfeiçoa e encontra seu espaço  em um conjunto coerente, mais ele se articula a níveis intermediários de conceituação, mais a interconexão dos conceitos se torna fraca (p. 133). [...] A nova hipótese parece vir de lugar algum. Na verdade, ela resulta de um longo trabalho cognitivo subterrâneo que experimenta conexões audaciosas. É por isso que é absolutamente indispensável encontrar, em determinados momentos, o modo de deixar os pensamentos divagarem livremente, notadamente no movimento de vai e vem entre saber local e saber global (p. 135).

Os conceitos, assim como os homens, têm um ciclo de vida. Caso sejam jovens ou estejam envelhecendo, eles ocupam uma posição diferenciada no processo de construção do objeto; é, portanto, útil saber onde eles se encontram em sua história. O nascimento é a fase mais confusa: as hipóteses (formas originais dos conceitos) aparecem das formas mais diversas. Há (felizmente!) aquela incrível, imensa, que se impõe bruscamente, vinda não se sabe de onde, derrubando tudo em sua passagem (mas que, quase sempre, não tarda a se revelar menos importante e a ter um lugar mais modesto dentro do modelo). Há também aquela discreta, minúscula, pequena anotação de um detalhe que, ao contrário, se instala aos poucos em um argumento de primeiro plano que ainda não se tivesse prestado atenção a ela. Há também aquela maldosa, atordoante, que chega para demolir o modelo sem dar a impressão de trazer algo em troca (na verdade, ela traz algo, mas nos recusamos a vê-lo num primeiro momento, pois o trabalho de luto ainda não terminou). A juventude da hipótese já se encontra menos incerta. Para ela, trata-se de definir sua verdadeira importância (aquela que havia exagerado seu argumento modera suas ambições, aquela que havia sido muito tímida garante-se ainda mais) e de encontrar seu lugar no conjunto do modelo. A idade adulta, finalmente, é a da estabilização definitiva, e a da busca de confirmação pela comunidade dos pares, idade em que a simples hipótese se torna, por essa virtude, conceito (p. 147-148).

A construção do objeto é, portanto, resultante de um movimento contínuo e contraditório; emergência de hipóteses que desarrumam e desorganizam o modelo de um lado; reorganizam o modelo do outro. A inovação teórica depende da capacidade de fazer emergir hipóteses. Mas se essas últimas desarticulam o modelo, elas se tornam contraprodutivas e de nada adianta, então, inventar novas hipóteses. A condição primeira de inovação é, de fato, o domínio da coerência da pesquisa; quanto mais o modelo se sustenta, mais é possível imaginar as hipóteses mais longínquas. Ao contrário, se o modelo é frágil e corre o risco de explodir, o pesquisador é levado à defensiva e condenado à não criatividade. Portanto, é fundamental ultrapassar a simples acumulação de ideias (assim como a acumulação sem princípio do material), que só leva à confusão. Cada hipótese nova deve ser posta em seu lugar exato, articulada a outras, criando encadeamentos lógicos. A interpretação compreensiva está fundada na evidenciação “dos encadeamentos e das regularidades” (Weber). [...] Não há pesquisa possível sem fio condutor, um encadeamento de ideias centrais permitindo não se deixar afogar pelo material ou pela emergência não controlada das hipóteses (p. 149-150).

Como fazer os fatos falarem? Como discernir, notadamente, as “categorias nativas” que permitem trabalhar concretamente o modelo teórico? Após haver definido os princípios gerais da construção do objeto numa lógica compreensiva, eis alguns exemplos mais operacionais de ferramentas que podem ser usadas (p. 150).

1. As frases recorrentes

O homem é um ser intimamente formado pela sociedade de sua época, não somente sob o efeito de determinações exteriores, mas também profundamente em si mesmo. É possível, aliás, que ele incorpore fragmentos do social (ideias, imagens, modelos, expressões) sem digeri-los, e em seguida exprime-los em estado bruto, tal qual os assimilou. [...] O que se torna ainda mais interessante é que esses fragmentos não personalizados ou pouco personalizados não circulam por acaso: os que assim circulam, e que se preservam inalterados de um indivíduo ao outro, correspondem a processos subjacentes essenciais que devem necessariamente se expressar desta forma: eles tomam forma de um “pot-pourri de noções disparatadas” que fundam o senso comum em torno de uma questão. É a razão pela qual eles não podem ser nem exageradamente personalizados, nem explícitos: eles são recebidos e transmitidos como um dado de evidência. Eles ocupam uma posição crucial no processo de construção da realidade. Pois, quanto mais uma ideia é banalizada, incorporada profundamente no implícito (e, paralelamente, largamente socializada), maior o seu poder de estruturação social. As frases socialmente mais importantes são as mais banais e as que mais convêm para qualquer situação. Isso não facilita o trabalho do pesquisador: como identificar frases banais? Com um pouco de treino, de fato, não se torna tão difícil. Sobre um tema específico, são sempre as mesmas expressões que surgem de maneira obsessiva. E, sobretudo, que são repetidas de forma precisa, com as mesmas palavras. No início, não se as ouve, pois elas são justamente feitas para passarem despercebidas. Mas se o pesquisador se prepara para essa escuta específica, ele não pode deixar de se surpreender pela repetição. Em seguida, será necessário fazer a frase falar, o que certamente é menos fácil (p. 150-152).

2. As contradições

Cada um traz em si dinâmicas de personalidade diferentes, uma infinidade de esquemas pouco coerentes entre eles, até mesmo contraditórios. A impressão de unidade dada pelo informante em sua narrativa não deve, portanto, enganar o pesquisador. É necessário desconfiar dela e ir mais adiante. [...] Para o pesquisador, o instrumento privilegiado para não se deixar levar pelo jogo da linda história que ele escuta é a identificação de contradições no discurso. Elas lhe indicam a existência de lógicas diferentes que, uma vez evidenciada, lhe darão uma margem de ação e uma chave de interpretação. Ele poderá, graças a elas, desconstruir a narrativa e dar um sentido mais preciso aos seus diversos elementos. Algumas das contradições se referem ao modelo teórico, outras mais especificamente à biografia; sua utilização não é exatamente a mesma nos dois casos. [...] Em numerosos contextos analisados nas entrevistas, há uma passagem incessante de uma a outra compreensão (sobre determinado tema): não é raro que uma frase expresse um papel no início e outro no final. Quando o pesquisador foi capaz de desenhar as agrupações de papéis e de seguir o encaminhamento da pessoa no interior, ele se dá os meios de compreender o sentido oculto da confusão aparente dos propósitos. As contradições podem ser igualmente mais particulares à história de vida. Elas não devem ser negligenciadas, pois aqui também elas oferecem um poderoso instrumento de análise (p. 154-156).

3. As contradições recorrentes

No cruzamento das contradições e das frases recorrentes, a felicidade do pesquisador é descobrir este verdadeiro tesouro: frases ao mesmo tempo contraditórias e recorrentes, que representam um instrumento de análise de potência considerável, pois elas frequentemente assinalam um processo central (p. 158).



[1]Texto elaborado a partir de: KAUFMANN, J.-C., A Entrevista Compreensiva – Um guia para a pesquisa de campo. Petrópolis: Vozes 2013, p. 117-159.