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Volney Berkenbrock
Pesquisa de Campo - 3a parte PDF Imprimir E-mail

 

 

 

Terceira Parte: Analisar os dados etnográficos

 

Introdução

“Aprende-se mais com os seus erros que com os seus sucessos”.

O pesquisador muitas vezes formula hipóteses, acredita nelas, fica seduzido por elas e aí vem a tentação de falsear os resultados para dar uma ajudinha à hipótese.

Para a maioria dos casos, inicia-se agora a fase mais angustiante da pesquisa: foram formuladas hipóteses a serem investigadas, preparou-se o terreno, foi-se a campo, abriu-se um mundo de descobertas e relações, juntou-se um material considerável de escritos, anotações e entrevistas. E agora? Como colocar tudo isto num texto final?

À primeira vista tudo parece uma montanha confusa de materiais. Logo, porém se poderá perceber que as coisas não são tão complicadas. Grande parte das análises, na verdade, já foram feitas em anotações do diário de campo (por isso é importante anotar!). O desafio está mais em desossar os materiais, que em formular hipóteses e análises.

Esta será a tarefa a ser enfrentada. Para esta tarefa, um conselho inicial: disciplina. Para este trabalho é necessário reservar períodos longos de tempo (algumas horas sempre, pois de nada adianta trabalhar uns 20 minutos). Ajuda muito impor limites a si mesmo e se colocar metas: “Não sairei do meu escritório (ou do computador), enquanto não tiver escrito... Não terei terminado meu dia de trabalho enquanto não tiver produzido duas páginas inteiras (por dia)”. Estes objetivos e instruções rígidas a si mesmo irão ajudar muito para fazer o trabalho avançar. Vamos por partes:

 

7. Trabalhar as entrevistas e o diário de campo

 

- Como utilizar-se dos materiais heterogêneos que recolheu? Como fazer as corretas ligações entre eles? Ganhará muito tempo se proceder pela ordem: primeiro uma classificação, selecionando as entrevistas e os materiais mais importantes; a seguir fazer a transcrição das entrevistas e por fim relacionar os dados com o seu contexto.

 

Produzir materiais escritos

- O pesquisador tem em mãos um diário de campo: à primeira vista um amontoado confuso e volumoso de anotações. Ele deverá ser usado de duas formas: para refazer a cronologia e colocar cada documento recolhido em seu contexto por um lado e por outro, para isolar as narrações de observações significativas. Quais os riscos desta tarefa?

- Fazer escolha entre suas entrevistas e suas observações

Todo o material recolhido é utilizável. Mas se tem boas observações e outras vazias, se tem boas entrevistas e outras rasas. Não tenha receio de hierarquizar este material em mais importante e menos importante.

“Quanto às entrevistas, não comece por concentrar-se num trabalho de transcrição longo e repetitivo e não busque decifrar integralmente todas suas entrevistas. Em outros termos, não vá a fundo demais nem acelere demais ‘digitando por quilômetro’. Isto é uma fuga. Se tem tendência a fazê-lo é porque essa tarefa que faz mecanicamente o acalma”.

“Quanto às observações releia o diário de campo, localizando os eventos mais marcantes e comparando-os. Chegará a séries de interações ou de cerimônias repetidas. O primeiro interesse desta releitura consiste em trazer uma nova luz sobre as primeiras anotações de campo; e, perceber ou relembrar detalhes cuja importância não o havia chocado. O segundo consiste em obrigá-lo a montar uma série, a relacionar eventos que não viveu como sendo semelhantes”.

Conselhos sobre as entrevistas: Junte e classifique de um lado as entrevistas e de outro as anotações; hierarquize-as a partir de seu foco de busca. O que transcrever? Esta pergunta deve ser respondida sempre a partir de outras: Por que fazer? Esta entrevista tem toda essa importância? Faça um ranking das entrevistas por importância. Elas, em princípio, podem ser classificadas em três categorias: a) Informativas. Geralmente estas são as primeiras entrevistas ou entrevistas com representantes de instituições envolvidas. Ouça e anote as informações dadas. No mais das vezes não vale a pena transcrever estas entrevistas. No máximo, transcreva trechos mais interessantes. b) Entrevistas mais pessoais. São entrevistas que de uma maneira ou de outra você teve que fazer, mas não tinham tempo nem assunto (volume) suficiente. Aqui igualmente transcreva apenas algo que lhe parecer digno de nota. c) Entrevistas aprofundadas. Aqui pode ocorrer dois tipos de situações: Primeiro entrevistas longas, nas quais o entrevistado de fato se abre, fala da questão em tom até confidencial, faz ele mesmo análises da situação. Segundo, entrevistas longas mas que foram truncadas, tensas, difíceis, daquelas que no momento que aconteceu você julgou fracassada. Elas então cheias de mal entendidos e discordâncias. Neste momento de análise elas serão vistas de outra maneira que no momento da entrevista. Estes dois tipos de entrevistas valem a pena transcrever integralmente.

Conselhos sobre as anotações/observações: Para escolher e hierarquizar as anotações, saiba que você realizou três tipos de anotações: a) Anotações sobre situações de entrevistas ou de negociações. Estas serão úteis mais tarde. Num primeiro momento, deixe-as de lado. b) Observações de eventos públicos (cerimônias) que dizem respeito ao seu tema. Estas você deve passar a limpo e refazer o conjunto do evento. “Elas constituirão o coração de seu material de observação”. c) Observações de interações pessoais. Dê importância somente as que estão diretamente relacionadas com o seu tema.

É preciso passar a limpo o diário de campo?

Dele se deve tirar duas séries de anotações: a) Reconstruir o desenrolar da pesquisa, fazendo uma espécie de cronologia resumida. b) Passar a limpo os eventos marcantes, reconstituindo suas anotações da época e colocando suas novas anotações (mas não jogue fora o seu diário depois destas duas tarefas!).

Conselhos: Ao reconstituir por escrito um evento, pergunte-se se alguém que não esteve lá irá entender o evento através de sua descrição (isto para não deixar a reconstrução incompleta e nem cheia demais).

- Transcrever as entrevistas

Princípio básico: uma boa entrevista também deve ser bem transcrita! A transcrição pode enriquecer ou empobrecer a entrevista. A transcrição das boas entrevistas, por isso, deve ser feita com o maior cuidado possível, deixando aparecer justamente sua tonalidade: captando inflexões de voz, silêncios, hesitações, subterfúgios. Mas, como transformar um texto falado num texto escrito? São dois estilos de textos.  Nesta passagem, “há uma verdadeira ilusão da fidelidade. Não se pode ficar fiel na transcrição”. Por isso o texto da transcrição deverá ter duas fidelidades: ser o mais fiel possível ao que foi dito, com suas nuances, e ser o mais fiel possível ao leitor, isto é, ser legível. “Achamos inútil a transcrição literal que se esforça por ficar o mais próximo possível da língua falada que produz também um texto ‘difícil’ de ler”.

A transcrição é muitas vezes considerada uma fase prática do trabalho, burocrática. A análise seria a parte nobre. Isto não é bem assim: um bom trabalho de transcrição é já uma análise. Pode-se distinguir dois tipos de transcrição: a) A transcrição de trabalho. Este é o primeiro estágio da transcrição. Nele você irá decifrar a entrevista. Anote neles os lapsos, os silêncios, as gagueiras, o nervosismo, o embaraço... (mas não precisa transcrever escrupulosamente os “hein, né, bem, aham...”. Não censure os erros gramaticais. Esta transcrição não tem vocação para ser publicada. b) A transcrição final. Esta é a transcrição que tem vocação para ser publicada. É aconselhável reescreve-la parcialmente a fim de que se torne mais legível. Aqui deve ser privilegiado o ponto de vista do leitor. Este texto deve ser muito fiel ao entrevistado (conservar, por exemplo, as expressões nativas) e legível para o leitor (ser corrigido do ponto de vista gramatical). Este é o desafio! E para conseguir vencê-lo, é importante que você faça a transcrição pessoalmente (não terceirize a transcrição!).

Conselho: Para este texto final da entrevista, você pode dar-lhe um título, dividi-lo em parágrafos e – se interessante – dar-lhe subtítulos. Fazendo isto, você já estará em pleno trabalho de análise. Estes dois trabalhos (transcrição e análise) deverão/poderão ser feitos juntos. Paralelamente à transcrição, vá anotando as hipóteses, as análises, as idéias no texto que irá escrever. Resumindo: não faça da transcrição um trabalho mecânico, que tem que ser terminado o mais rápido possível. Com um trabalho atento de escuta das entrevistas, anotações das idéias que surgem, o trabalho de análise estará parcialmente realizado.

 

Contextualizar

 

A principal força do trabalho de campo será conseguir contextualizar os pontos de vista diversos ali descobertos e faze-los convergir para um mesmo local ou propósito.

- A necessidade da contextualização

As entrevistas de pesquisas qualitativas não são ligadas entre si necessariamente por nenhum fio condutor intrínseco. O que as liga é o contexto. Por isso, evite generalizações a partir de uma única entrevista. A entrevista não fala por si própria. Ela fala dentro de um contexto. Assim, as afirmações da entrevista devem ser sempre contextualizadas, isto é, colocadas no contexto onde surgiram.

- Descrever e analisar relações de pesquisa

As afirmações feitas por um pesquisado dentro de uma entrevista não podem ser tomadas como afirmações em si. Elas só aconteceram dentro de um contexto de relações (com o pesquisador, com o tema). Reconstituir estas relações da pesquisa é um bom método de contextualização.

- Analisar o desenrolar da pesquisa: reler o diário de campo

Três contextos podem ser considerados úteis para a análise dos dados. a) O contexto imediato. Isto é, a situação em torno da entrevista ou da observação. Este contexto é relativamente fácil de ser reconstruído. b) O contexto da pesquisa completa. Ou seja, no todo da pesquisa, onde está localizada esta entrevista ou observação. Para reconstruir este contexto é preciso reler o diário de campo e buscar ali a localização da entrevista ou observação. c) O contexto social de cada pesquisado. Cada pessoa pesquisada esta presa dentro de um contexto social: trata-se aqui de reconstituir o contexto do universo do interlocutor, para entender ‘por que ele faz tais afirmações’ e ‘a partir de onde ele faz tais afirmações’.

- Analisar o desenrolar da entrevista.

Uma entrevista longa, como uma a duas horas de duração, nunca é linear. Ela tem mudanças interessantes a serem observadas. Por exemplo: momentos em que o entrevistado discorre longamente sobre algum tema, momentos em que ele fala na primeira pessoa, momentos de contradição de afirmações... Estes pontos de análise parecem mais perceptíveis quando se escuta a entrevista por mais de uma vez.

Terminada esta primeira fase da análise, você terá todo o seu material de campo recolhido e devidamente classificado/avaliado: as observações classificadas por series e importância; as entrevistas transcritas conforme sua importância, bem como suas contextualizações; os documentos que pode recolher numa ordem de relação com o foco. Além disso, os cadernos do diário de campo. É hora de passar para a redação do texto final.

 

8. Interpretar e redigir

 

Esta fase pode ser comparada à junção das peças de um quebra-cabeça. “Resta-lhe ajuntá-los. Não tente teorizá-los a qualquer custo nem generalizá-los a qualquer preço. Deve fazer um relatório de pesquisa, o campo não deve desaparecer nos conceitos mas, pelo contrário, os conceitos devem iluminar o campo e fazer justiça aos casos singulares”.

 

Interpretar os dados

Para proceder à interpretação dos dados, três elementos devem receber atenção em relação aos pesquisados: Posições objetivas, práticas e pontos de vista subjetivos.

Posições objetivas: fazer uma ficha sintética do pesquisado, usando já pseudônimo, colocando sua posição subjetiva (relacionado com o seu tema): formação, trajetória pessoal, função, pontos de referência temporal...

Práticas: um segundo elemento a observar são as práticas do pesquisado, ou seja, sua ação, o que ele faz (ou diz que faz);

Posição subjetiva: aqui se recolhem os pontos de vista expressados pelo pesquisado a respeito do tema. Quais são suas opiniões pessoais sobre o assunto em questão, o que o distingue dos outros...

Atenção às palavras nativas

Preste atenção às palavras nativas, isto é, palavras típicas daquele contexto. Esta categoria de palavras diz geralmente mais que as palavras comuns num contexto específico. Elas muitas vezes “condensam a verdade social de uma situação”.

Prestar atenção às maneiras de falar, aos silêncios e aos não-ditos.

Busque tirar proveito destes detalhes da entrevista. As coisas não são ditas sempre da mesma maneira. Existem entonações com sentido, existem coisas não ditas (mas que foram perguntadas). Aqui o exemplo do modo de ouvir do psicanalista pode ser uma ajuda: lapsos, associações, coisas evitadas...

- Procurar interpretar os mal-entendidos

Os mal-entendidos durante a entrevista ou interação são também fonte interessante de interpretação (mesmo que no momento que ocorreram tenham causado um mal-estar). Mas não caia na tentação psicologizante...

 

Rumo a uma problemática

- O pesquisador tem agora diante de si as séries de observações, as entrevistas e os seus comentários, as contextualizações... todos estes materiais que foram tratados individualmente. É tempo de fazer os materiais dialogarem entre si.

- Comparar seus materiais entre si. Um controle cruzado

Os diversos materiais não são homogêneos. É preciso confrontá-los. Este confronto deve ser feito em dois níveis: a) no nível da própria pesquisa, isto é onde há convergências e divergências sobre o mesmo assunto, isto entre as falas, as observações e as interações. b) no nível da interpretação geral. Mesmo que os seus materiais sejam heterogêneos, eles devem ser confrontados com textos publicados sobre o tema.

- Destacar uma problemática

O trabalho agora é reclassificar todo o material não conforme a ordem cronológica, mas segundo a ordem lógica de seu tema (sua problemática, sua busca). Para isto, uma maneira prática é numa primeira etapa destacar as questões conceituais, ou seja, conceitos, temáticas ou problemáticas surgidas do diálogo entre sua busca e o material pesquisado e num segundo momento tentar compreender os laços lógicos entre as questões que destacou. Nesta etapa você perceberá convergências, divergências, contrastes na medida em que os materiais vão respondendo à mesma questão conceitual. Há aqui um diálogo interessante entre formulação de hipóteses e respostas. Quando são encontradas respostas, as hipóteses são reforçadas; quando não, devem ser descartadas. Nesta relação, deixe-se sempre conduzir pelo que colheu no campo. Lembre-se que não é objetivo seu encontrar exemplos ilustrativos para as teorias já existentes.

Conselhos importantes:

- Esclareça agora, se já não o fez, entre as diversas questões que os materiais respondem, a mais importante. Esta será uma espécie de viga-mestra para a sua análise. Se você fixou muito cedo a sua questão mais importante, corre o risco de ficar cego às respostas do campo; se fixou muito tarde, corre o risco de ter organizado os materiais de forma não adequada. A partir da questão mais importante, nascem as questões secundárias. Mas elas devem ser construídas a partir dela.

- Aceite a ideia de que tudo o que foi recolhido e não está relacionado com a questão central e as questões secundárias não lhe servirão para nada (entre um terço e a metade, em média do que foi juntado no campo). “Não hesite em ‘jogar fora’, se não fisicamente, pelo menos mentalmente, boa parte do seu material de pesquisa. Não seja fetichista com seus materiais acumulados”.

 

Escrever um relatório de pesquisa

Começa a tomar corpo agora o texto/resultado da pesquisa. Algumas observações a respeito:

- Uma linguagem simples

Privilegie uma linguagem simples e clara. “Se não se é claro, não há mensagem alguma”. E lembre-se que simplicidade e clareza não são incompatíveis com rigor e precisão.

- Não mitifique a fase da escrita.

A escrita deve brotar a partir dos textos já escritos. É mais semelhante a uma montagem de quebra-cabeças que a uma criação totalmente nova.

- Escrever o resultado de pesquisa de campo não é um improviso, um jogar no papel a inspiração. Ele é antes de tudo um trabalho e não uma peça literária. Preocupe-se, pois em primeiro lugar com o relato dos dados da pesquisa. Nas revisões que se fazem do texto, ali pode aparecer a melhora no estilo.

- O relatório do trabalho de campo a ser escrito não deve ser em primeiro lugar um texto que seduza o leitor. Ele é um texto que quer demonstrar com rigor e precisão o que foi pesquisado e o que foi descoberto (analisado). O mesmo é válido quanto às citações: uma pesquisa de campo será avaliada pelos resultados de pesquisa de campo e não pelo número de notas de rodapé ou de citações de autores. A força de seu trabalho reside em mostrar o que foi pesquisado, bem como a construção de uma análise disto e não em comprovar teorias escritas em algum texto, por mais clássico que este possa ser.

- Relatar

Como dito já anteriormente, o campo é um lugar limitado e não o lugar que irá a tudo responder. Por isso, no relato de seu trabalho, não tenha medo de mostrar lacunas, coisas que poderiam também ser pesquisadas.

A construção do texto deve ser um explicitar os detalhes e um reatar estes detalhes através de seu raciocínio. E isto deve ser construído, mesmo num escrever e reescrever.

“Seus dados não devem em caso algum servir simplesmente de ilustrações a seu propósito”. Ou seja, o seu texto deve ser escrito a partir dos dados. O espírito do texto deve ser muito mais o de um “prestar contas” que um “comprovar teorias”. E isto é um momento de confiança em suas fontes (seu diário, suas observações e seus pesquisados).

- Os principais obstáculos

Três são os obstáculos que podem ser citados como principais: a) A síndrome da enumeração. Quem não fez uma boa pesquisa tende a enumerar dados. A pesquisa mal feita, às pressas pode levar a criar sustentação enumerando, listando, justapondo dados e casos. E se a pesquisa foi mal feita e dos dados recolhidos de tal forma que não dão segurança, de fato o caso é grave. b) A tentação literária. Este obstáculo ronda, sobretudo os românticos do campo de pesquisa. Há aqui o risco de apagar a fronteira entre etnografia e ficção. Não se trata de impedir de ter tentações literárias, mas estas devem ser satisfeitas, de preferência, em outro texto, que não o do relatório de pesquisa de campo. O remédio para isto é a concisão. Ela se exerce geralmente com frases curtas, nada de frases muito sutis, parágrafos igualmente curtos. O uso de advérbios e adjetivos deve ser muito comedido. Ajuda muito o exercício de dar um título mental a cada parágrafo escrito. c) A complicação inútil. “A complicação inútil consiste em obscurecer aquilo que deveria esclarecer, notadamente por um excesso de conceitualização fora de propósito”. Neste uso excessivo de conceitos, desaparece o campo e os pesquisados. Com isso se abandona o que de mais seguro tem sua pesquisa. O melhor remédio aqui é a simplicidade.

 

Da prova à experimentação

Quem realiza pesquisa de campo e tira suas análises a partir dela, pode ser acusado de falar sem provas. É uma acusação de certo modo com fundamento, se comparada com historiadores, com estatísticos. Estes têm, de certa maneira, como mostrar a base de dados.

Quem garante que os dados da pesquisa de campo não foram inventados pelo pesquisador? Ninguém! Por isso é prudente arquivar o material do trabalho de campo. Por outro lado, no relatório de pesquisa, se deve deixar claro dados que deem mais credibilidade à pesquisa: datas, duração, universo pesquisado... Pesquisas de campo que não mostram estes dados deveriam ser desqualificadas. Ou seja, o texto deve ser construído de tal modo a não apenas mostrar a análise feita, também dar legitimidade à pesquisa de campo. A legitimidade da pesquisa de campo é em boa parte embasada na construção da legitimidade do campo. Por isso o pesquisador deve deixar claro em seu relatório o contexto onde esteve, o tempo que esteve presente no campo pesquisado, a forma como se aproximou do campo, as reações do campo à sua pesquisa, como fez as entrevistas, quais critérios utilizou para escolher seus entrevistados, as dificuldades que encontrou (inclusive as dificuldades que não conseguiu superar), os materiais que conseguiu juntar (é interessante colocar num anexo fotografias de materiais importantes)... Tudo isto faz parte da construção da legitimidade do campo.

 

Conclusão

 

Você acaba de redigir sua dissertação ou sua tese e sustentou-a: foi julgado, louvado, criticado... aprovado. Parabéns! Aparentemente fechou-se o círculo: você tem o almejado título!

- Mas...

- O texto que você produziu pode ficar arquivado no departamento da universidade para consulta de alguém que se interessa e pesquisa a mesma temática. Aparentemente este seria o destino dele. Porém, para o seu bem e o bem da temática, esforce-se para colocar os resultados de sua pesquisa em público: faça artigos, proponha publicação de partes, participe de congressos e encontros, mostre-se e mostre o que você descobriu. Caso contrário, não terá se tornado um pesquisador. Terá apenas cumprido um exercício escolar, por melhor que tenha sido feito.