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Volney Berkenbrock
Pesquisa de Campo - 2a parte PDF Imprimir E-mail

 

Segunda parte: O trabalho no campo

 

Introdução

 

Tudo o que se deveria preparar, estudar, prever, etc. já foi feito. O pesquisador está agora no campo. Esta segunda parte de nossa reflexão irá colocar alguns elementos para este “tempo de imersão”. Uma dupla de ações deverá acompanhar o pesquisador neste período: observar e entrevistar. As duas convergem para um mesmo ponto: escrever. Escrever (colocar por escrito) é uma das pernas que vai acompanhar a pesquisa. A outra perna é analisar. Com estas duas pernas é que caminha a pesquisa.

A dupla observar-entrevistar não pode, no entanto ser concebida como momentos separados. A separação é didática apenas. No trabalho de campo as duas coisas ocorrem juntas, numa dinâmica ditada pela própria interação. Como as duas ocorrem juntas, também seus dados não devem ser tratados de forma separada ou contraditória, mas de forma complementar e mutuamente esclarecedoras.

 

4. Observar

 

A observação é composta de um triplo trabalho: percepção, memorização e anotação. Um observador iniciante corre sempre o risco de ou nada ver ou ver somente aquilo que remete a suas experiências anteriores. Por isso a observação sempre está sujeita ao risco do mal-entendido. Justamente a análise posterior das observações irá transformar mal-entendidos em conhecimento.

Observar não é, porém colher imagens e impressões a partir de um ponto escondido, como a observação de animais selvagens. A observação não deve ser independente das entrevistas. É aconselhável testar as observações nas entrevistas. Por exemplo, algo visto tanto por pesquisador como por entrevistado, pode ser um elemento interessante para testar as observações. Ou seja, isto pode/deve ser assunto de entrevista para levantar as percepções diferenciadas sobre a questão.

Não há para a pesquisa observação sem anotação. A anotação de observação não é um exercício filosófico-literário. É simplesmente uma descrição do tipo pergunta e resposta, ou – para usar uma comparação – uma série de fotografias legendadas. Isto é, coloca-se um retrato descrito do que se viu (observou) e suas impressões sobre o que foi observado. Vamos ver mais de perto algumas coisas importantes no processo de observar:

 

O que é observar?

 

- A observação etnográfica sustenta-se num encadeamento de três saber-fazer fortemente entrelaçados: perceber, memorizar, mostrar.

- Isto é um vai-e-vem entre suas percepções, a explicação mental destas percepções com a fixação desta explicitação e a explicitação escrita (diário de campo). Há um jogo entre descoberta e verificação. Mas como não cair na armadilha da verificação previamente pronta, por causa de nossos pré-conceitos? Há sempre o risco de observar apenas o que já se conhece.

- Três conselhos para melhorar a atenção na observação: a) explicitar as observações e impressões primeiro mentalmente e depois por escrito; b) tomar consciência sobre o ponto de vista a partir do qual se fez a observação; c) variar sistematicamente os pontos de vista empíricos da observação (mudar sua posição).

- Nunca se é puramente observador. Numa situação de campo não familiar tudo é confuso por falta de parâmetros (interações); numa situação de campo próximo não se vê nada por tudo ser familiar.

- Tornar familiar o que é estranho e tornar estranho o que é familiar. “A observação prende-se a essa tensão, o mal-estar provocado no momento em que o familiar torna-se estranho, o estranho torna-se familiar”.

Mas o que deve ser observado: três categorias de fatos devem ser alvo de observação na pesquisa de campo:

Cerimônias: eventos coletivos organizados com participação de espectadores, dos quais o pesquisador é um;

Interações pessoais (onde o pesquisador tem o seu papel);

Lugares e objetos significativos para o campo, fora dos momentos ativos.

 

1o Cerimônias

- Por cerimônia se entende aqui eventos coletivos: celebrações, festas, reuniões públicas, espetáculos, rituais, comemorações, encontros, eventos familiares, eventos cívicos...

- Destas cerimônias, quando abertas, o pesquisador é naturalmente parte do público. Nelas o pesquisador deve fazer parte como espectador sem destaque, pois é um ao lado de muitos e deve se igualar. No caso de uma cerimônia não aberta ao público, o pesquisador deverá negociar a possibilidade de sua presença. Neste caso, ele será destaque, mesmo que não queira, por ser estranho ao grupo. É preciso ter consciência do que isto significa. Ou seja, a você cabe julgar e decidir a quem deverá prevenir, com quem deverá negociar e a quem deverá prestar contas. Alguns conselhos para estes casos: não ser inoportuno com os organizadores, sobretudo nos momentos em que estão em ação; apresentar-se de acordo com as exigências (comportamento, veste, horário); tenha clareza de que posição tem quem permitiu sua participação e em qual condição você foi admitido como participante (é uma ocasião importante para mostrar quem são seus aliados); se lhe pedirem contas de sua presença, diga sempre com clareza quem permitiu o acesso (palavra-chave: “O fulano está a par”).

- O que observar numa cerimônia?

Antes da cerimônia:

Como tomou conhecimento; quem lhe falou; como se organiza a cerimônia (pessoas, local, preparativos); destinatários; forma de dar ciência (confidencial/convite pessoal ou anúncio público); entrada (controlada ou não). Se houver convite escrito, cole um exemplar em seu diário de campo com as anotações do que foi dito acima, bem como a caracterização da cerimônia (reunião, comemoração...)

No local: perceber e memorizar

Fazer anotações? Regra geral: não. Só em casos onde todos estão anotando (reuniões, por exemplo). Fazer anotações in loco colocará o pesquisador numa situação de estranhamento (fora o fato de que anotar pode ser entendido como grosseria).

Tirar fotografias? Regra geral: seguir o que o evento naturalmente permite. Há eventos onde é natural que sejam tiradas fotografias e outros não.

Programa, documentos escritos e objetos-lembrança. O pesquisador deve tentar reunir o máximo possível documentos do evento (programação escrita, cardápio, textos distribuídos, roteiros, folders, objetos festivos como lembranças), bem como tentar conseguir documentos escritos não distribuídos (textos de discursos, de leituras feitas...)

Memorização: o que é notar? O evento (em seus detalhes) estará na sua memória por um curto espaço de tempo! Para facilitar sua observação e memória, faça uma lista (pode ser prévia) de detalhes que você imagina dever observar.

Memorização: posicionamento espaço-temporal, variação de pontos de vista. Pode-se dizer que ¾ da observação se dá pela via espaço-temporal. Conselhos para observar o espaço: chegue, se possível, antes de começar a cerimônia, escolha um lugar com visão ampla. Memorize o espaço em sua cabeça (feche os olhos e reconstrua mentalmente: abra os olhos e veja o que faltou. Faça o exercício de novo até ter segurança que irá poder colocar por escrito em seu diário de campo este espaço). Preste atenção à nomenclatura do espaço e objetos usados (quando houver e for nomeada), preste atenção à nomenclatura usada para o público (fiéis, companheiros, alunos... quando for nomeada), preste atenção à nomenclatura das funções (diretor, presidente, secretário geral, obreiro...). Estas nomenclaturas são importantes tanto para a memorização quanto para a análise (elas mostram as tais estruturas cristalizadas). Conte o público: é um dado interessante. Memorize os momentos do desenvolvimento da cerimônia e – se possível – as passagens (divisões) dentro da cerimônia (toda cerimônia tem, simplificadamente, pelo menos três momentos: abertura, desenvolvimento e encerramento).

- Anotar no diário de pesquisa

Ao final da cerimônia dê mais uma passada mental na memória e no espaço concreto. Vá então direto para casa e para o diário de pesquisa. Ali, confira o que anotou antes e faça a descrição: o desenrolar cronológico, o espaço, o que foi feito, o que foi dito, o que lhe pareceu estranho e sua análise (provisória) sobre o todo. Pode-se também usar o método de colocar por escrito tudo o que se lembra e depois organizar.

 

2o Observar uma interação

As dicas anteriores podem aqui também ser usadas. Apenas que as interações não são anunciadas. As interações são os encontros do pesquisador com os pesquisados. Estes encontros podem ser casuais, podem ser marcados, podem ser entrevistas, podem ser bate-papos despretensiosos, etc. Também interações entre os pesquisados podem ser observadas: quem fala com quem, quem forma grupinho com quem, etc. Isto ajuda para entender as interrelações do campo pesquisado.

Há que se ter um cuidado extremo para não passar de um observador de uma interação à impressão de controlador da interação.

Que tipo de interação deve ser observada (descrita)? “O essencial da observação, no caso de uma interação pessoal, reside na decisão de anotar, isto é, na decisão de que se trata de um evento importante. Importante para você, para sua pesquisa, para sua busca”. Vale a dica: é melhor anotar mais do que menos.

 

3o Observar lugares e objetos

Esta observação, por não ter que ser negociada com ninguém, é a mais fácil do ponto de vista técnico, mas a que mais pode trazer ciladas. Grande tentação: descrição literária. Ótima para romances! Neles a descrição de lugares e objetos dá realidade à cena. Não é o caso de uma pesquisa. Quando e por que observar lugares e objetos?

Servem de moldura às cerimônias e às interações. Pessoas têm relações diferentes com objetos e lugares (isto é interessante observar);

Lugares e objetos carregam vestígios de uma história. Por isso as observações de lugares e objetos só podem ser feitas quando o pesquisador já tiver uma boa ambientação no seu campo. Caso contrário a descrição será apenas projeção de impressão pessoal.

Observe as relações das pessoas com estes lugares e objetos: quem frequenta, quando frequenta, que uso faz do objeto e/ou o que faz no local. Depois reflita sobre estas observações: elas formam uma lógica? (sinal de relações cristalizadas).

 

4o Uma observação total

Os três focos de observação acima colocados foram divididos didaticamente. Não necessariamente eles ocorrem separados. É comum que possam ocorrer juntos, mas não esqueça de fazer uma gaveta mental para classifica-los na observação.

Dos três focos de observação, as cerimônias são sem dúvida centrais. Além de funcionarem como um abre-alas para o pesquisador, elas são condensações.

Se é importante fazer um exercício mental (pedagógico) de separação para a observação, é importante igualmente fazer um exercício de reconstrução total, juntando todos os elementos.

 

5. Preparar e negociar uma entrevista etnográfica

 

“Mesmo sendo tão difícil na realidade, a observação continua sendo a principal ferramenta etnográfica, sua melhor arma. A entrevista é seu complemento mais ou menos indispensável”.

Qual a relação de importância entre observação e entrevista? Depende muito do campo a ser pesquisado. No caso de campos de difícil acesso e observação, a entrevista é a principal ferramenta. Nestes casos ela pode ser instrumentalizada para ser também observação. Isto é, seus pesquisados podem fazer observações. Por outro lado, na maioria dos casos, a observação é central, porque “os pesquisados não vêem o que fazem” (não têm distanciamento).

As entrevistas devem ser – via de regra – longas e conduzidas de forma pessoal. As pessoas a serem entrevistadas deverão ser colocadas – pela observação – dentro do quadro da totalidade.

Mas, quantas entrevistas fazer, como escolher, que tipo de relação deve ser estabelecida com o entrevistado? Algumas dicas:

 

Os princípios da entrevista etnográfica

 

Quantas entrevistas?

Esta é uma falsa preocupação, pois as entrevistas são de níveis muito diferentes. Deve-se, pois distinguir entre entrevistas aprofundadas e circunstanciais. As aprofundadas não precisam ser muitas: elas devem ser, porém, representativas. Cada entrevista aprofundada deve demonstrar um ponto de vista singular. Quanto mais fizer aparecer a singularidade de um ponto de vista, mas interessante será a entrevista. Por isso, a questão do número de entrevistas é secundária. “O critério do número de entrevistas importa, pois, menos que aquele que consiste em juntar trabalho por entrevistas e pesquisa de campo propriamente ditas. Não separe as duas operações, faça dialogarem entrevistas e observações, documentação escrita e entrevista”. Claro que acumular entrevistas será sempre uma tentação!

Conselhos: Não acumule grande número de entrevistas realizadas às pressas; é preferível marcar um número menor de entrevistas, mas com condições boas de tempo (hora e meia a duas horas). Não caia na ilusão de que a entrevista sozinha é o conteúdo denso da pesquisa.

As virtudes da entrevista aprofundada:

Por que um entrevistado iria dispor de duas horas para falar com um pesquisador? Porque ela é resultado de uma relação social construída! Esta relação é algo chave para a entrevista. O momento da entrevista aprofundada é algo único na vida de ambos: pesquisador e pesquisado. Deve-se ter a consciência disto. Mesmo que ela seja fruto de uma relação social construída, ela é pela ocasião única, um momento estranho: isto deve ser explorado. Evite entrevistas com pessoas próximas: elas não irão descrever coisas que você conhece, não irão explicar pontos de vista pois sabem que você os conhece, não irão precisar coisas por supor que você conhece os detalhes. Este tipo de entrevista é fadado ao fracasso!

Conselhos: preste atenção à maneira como se construiu a relação pesquisador/pesquisado. Primeiros contatos, reação desta pessoa frente à pesquisa, evolução da relação com o pesquisador. Tudo isto é importante para a análise.

A situação da entrevista como lugar de observação:

A entrevista também deve ser objeto de observação. Logo após a entrevista, anote no diário, observações sobre o lugar, as interações com o ambiente, as reações, bem como suas impressões sobre o momento.

 

Solicitar a entrevista

 

A quem pedir entrevistas? Como pedir? – O ‘momento’ da pesquisa:

Não se deve pedir entrevistas por acaso. Não entreviste todo mundo do campo. Aprenda a selecionar. No início da pesquisa, isto é difícil de definir. Limite-se a perguntar a si mesmo: são bons informantes? A partir disto, vá construindo o “a quem entrevistar”. Siga o “princípio da arborescência”: um ramo faz brotar outro. Saiba fazer renúncias a entrevistas.

Conselho: faça algumas entrevistas e depois faça uma pausa para refletir sobre elas e sobre o que trouxeram. Pergunte-se: foram pontos de vista iguais, pertenciam ao mesmo grupo entre diversos do campo, há pontos que precisariam ser aprofundados. A partir disto: diversifique.

Quem interrogar?

Que pessoa será um testemunho que lhe seja mais útil? Isto não está escrito na testa! Por isso, para decidir-se por quem entrevistar, o pesquisador já deve ter fixado sua perspectiva de busca. Pode ocorrer que muitos se oferecem para ser entrevistados: seja polido e saiba distinguir! Para escolher bons informantes, leve, sobretudo em conta a melhor relação possível dos candidatos a entrevista com a sua perspectiva de busca. Isto quer dizer que nem sempre as pessoas mais importantes do campo serão as que têm a melhor relação com sua perspectiva de busca. (Autoridades constituídas tendem a minimizar e suavizar problemas).

Estabelecer um pacto de entrevista:

Ao convidar alguém para ser entrevistado, esta pessoa certamente terá uma ideia de entrevista a partir do que é isto na televisão, rádio ou em perguntas de opinião pública. É preciso, pois primeiro, desfazer esta imagem genérica e construir a imagem do que se pretende com esta entrevista. Mostre que é muito mais uma conversa que uma coisa rápida e que é muito importante para o seu trabalho.

Conselhos: A entrevista aprofundada não deveria ser seu primeiro contato com a pessoa entrevistada (claro, há exceções impostas pelo tempo...). Tenha conversas anteriores, mostre interesse sobre suas opiniões, faça discussões prévias (e anote no diário), enfim construa uma relação tal que a entrevista seja uma decorrência. Mas peça e agende com toda a importância a entrevista e explique como será: lugar, tempo, gravação... Tudo isto deve levar a um pacto de entrevista.

Recusas de entrevistas:

Mesmo com todo o cuidado para construir uma relação que leve à entrevista, a recusa pode ser uma realidade. As recusas se dão geralmente por dois tipos de motivos: a) o candidato tem algo a ocultar. Ou seja, teme que aquilo que venha a ser dito na entrevista o possa prejudicar de alguma maneira (direta ou indireta, com ou sem razão). Neste caso, se o contato é interessante, continuar com a observação participante. b) A pessoa não se sente legítima o suficiente para a entrevista (quer proteger-se de um olhar externo, tem medo do gravador, não se identifica com este tipo de trabalho como o seu...).

Conselhos: Não interprete as recusas de entrevistas somente como fracassos. Tire delas observações. Descobrir o porquê da recusa pode ser justamente uma chave de interpretação. Se considerar importante o candidato, não desista na primeira recusa.

 

Negociar as condições de realização de uma entrevista

 

Fechado o pacto da entrevista, não descuide dos detalhes para a sua realização.

Negociar horário, data e duração. Quanto à questão de horário e data, este deve ser fixado o mais próximo possível do pacto. Além do horário e data, é de fundamental importância negociar a duração. É aconselhável que uma entrevista aprofundada tenha a duração de uma hora e meia a duas horas. Disponha você deste tempo e certifique-se que o pesquisado também o disporá. Mas não assuste o entrevistado dizendo que vai precisar de “pelo menos duas horas”. Ninguém aceitaria. Fale de um tempo em torno de uma hora e certifique-se se a pessoa não tem outro compromisso agendado para logo em seguida. O prolongamento é algo natural, decorrente do clima da entrevista. É desaconselhável fazer uma entrevista em dois momentos.

Negociar espaço. Tome a iniciativa de propor um lugar determinado. É importante que seja um lugar sem barulho que atrapalhe a gravação; que seja um lugar reservado, isto é, que não se fique exposto à curiosidade das pessoas; que a pessoa possa falar sem ter a sensação de que estará sendo ouvida por outros.

Conselhos: Se o campo de pesquisa for uma instituição, evite fazer a entrevista no espaço da mesma (a pessoa tenderá a falar como instituição); se for possível que a entrevista ocorra na casa do pesquisado, esta é uma boa opção, pois o entrevistado sente-se normalmente mais seguro e à vontade (além de proporcionar ganchos de conversa e momentos de observação). Mas é preciso ter cuidado para não ferir a intimidade da pessoa (nem a sua!).

Relação entre entrevistas e meios sociais

Há dois meios sociais específicos bem distintos para as entrevistas de pesquisa de campo: o meio social de classe alta e o meio social popular/pobre. No meio social de classe alta, é comum que o pesquisador tenha que se impor com seu objetivo. Já nas classes sociais, há o contrário: a própria posição de pesquisador é muitas vezes vista como superior e com isto inibidora. Uma boa solução para estas situações é conduzir a entrevista o mais próximo possível da biografia do entrevistado.

Conselhos: para entrevistas com alta classe, vista-se para a ocasião, prepare sua documentação e a exiba, dê exemplos precisos, ilustre a situação com termos técnicos. Para entrevistas com classe popular, faça um exercício de aproximação, mostre que eles conhecem bem o assunto do qual estão convidados para falar, que tem coisas importantes a dizer, fale do seu trabalho e deixe claro que você não é nenhuma autoridade.

 

6. Conduzir uma entrevista

 

Não há receita para uma boa entrevista. Também não se tem a garantia que boas questões trarão como consequência boas respostas.

O que é essencial: ganhar a confiança do pesquisado, fazer-se entender claramente por ele e entrar em seu mundo mental.

Livrar-se do esquema mental de que entrevista é um exercício de pergunta e resposta. A entrevista da pesquisa de campo deve assemelhar-se mais a uma troca de pontos de vista, pois você como pesquisador deverá colocar suas questões, seus pontos de vista, suas hipóteses (mesmo que provisórias).

 

Desconfiar de “guias de entrevista”

 

É preciso elaborar previamente um guia para a entrevista, uma lista de perguntas a serem feitas? Vantagens e inconvenientes de se fazer isto

Vantagens:

- Dará segurança a você e ao entrevistado de um caminho a ser seguido. Não há o pânico do “e agora, vou perguntar o que?” É um remédio contra a ansiedade.

- Dará a impressão de que se preparou;

- Dará a possibilidade de fazer comparações entre as entrevistas e fazer valorizações quantitativas.

Inconvenientes:

- Você estará preso ao roteiro;

- Não estará totalmente atento a observar o entrevistado (ao invés de seguir o entrevistado, você segue o roteiro);

- Há a constante tentação de enquadrar o entrevistado, quando as respostas fogem do roteiro. Com isso, de suas entrevistas não sairá nenhuma hipótese nova (“esterilização por antecipação”);

- A relação com o entrevistado torna-se enfadonha (“será que está quase no fim?”);

- Seu entrevistado será tolhido de desenvolver pensamentos, pois terá a impressão de que não deve sair do roteiro.

Um guia de entrevista o prende ao seu tema, mas é preciso deixar espaço para digressões, para deixar o entrevistado à deriva. Ele poderá fazer associações de ideias que nunca lhe tinham ocorrido. Deixe o entrevistado discorrer e – se o discurso estiver de fato fugindo da temática – retome com alguma questão (mas não diga: “Bem, vamos voltar ao assunto”). Em resumo: um guia de entrevistas (por exemplo, uma lista de perguntas) lhe trará mais inconvenientes que vantagens.

Como proceder? Anotar numa folha ou caderno os temas (questões) que quer abordar sem falta. Leve-os para a entrevista num bloco de anotações, risque-os à medida que já foram abordados (veja com o desenrolar de entrevistas que há temas que não rendem e há outros a serem incluídos). Deixe o entrevistado ver que você tem uma lista de assuntos e inclusive risca as que já foram abordadas, sem que seja necessariamente numa ordem.

Conselhos: verifique/teste o aparelho gravador, fitas/espaço para salvar, pilhas sobressalentes/baterias carregadas (certifique-se antes a durabilidade da bateria)... Não multiplique entrevistas num dia. Elas são um trabalho que exige bastante concentração.

 

Registrar no gravador


Não há boa entrevista aprofundada se ela não for gravada. É essencial gravar. Por isso, peça autorização para gravar. Não grave sem a ciência dos entrevistados (você não é detetive!).

A necessidade de gravar é um imperativo prático: registra tudo o que foi falado, libera o entrevistador da preocupação de anotar (perguntar novamente, perder coisas ditas), melhora a sua qualidade de escuta e interação na conversa.

Tenha clareza que uma gravação transforma a palavra particular do entrevistado em palavra pública.

Conselhos: muitas pessoas sentem-se um tanto constrangidas por estarem sendo gravadas. Por isso, deixe claro novamente suas intenções de pesquisa e garanta o anonimato do pesquisado. Mas não dramatize o ato de gravar. Faça como se fosse algo natural dentro da conversa iniciar a gravação e a justificativa deve ser na linha do ponto de vista prático (não ter que anotar, não perder coisas, ficar mais à vontade na conversa). Se houver resistência inicial em permitir a gravação, retome seus argumentos, peça que o entrevistado se coloque em sua posição, enfim, se é um contato importante, não desista na primeira resistência. Se mesmo assim o pesquisado for contrário à gravação, faça a conversa e confie em suas notas, sabendo que isto empobrecerá o resultado.

 

Conduzir o intercâmbio


Antes de uma entrevista, se possível, leia entrevistas feitas por outros em situação de pesquisa. Esta leitura lhe colocará mentalmente na situação.

Gerir o tempo:

Há um momento inicial de um certo desconforto. Isto é normal. A entrada no assunto irá melhorar o clima. Para entrar, evoque a pessoa a partir dela, do que ela conhece. Comece por exemplo a partir de interações anteriores: “Você me disse que...”. Siga o filão da conversa do entrevistado e quando se esgotou um assunto, passe para outro. No início, não tenha receio de mostrar seu estágio de pesquisa na entrevista: “estou começando a pesquisar agora e me disseram que... você poderia me dizer algo mais... ” As pessoas gostam de explicitar coisas.

Geralmente numa entrevista acontecem alternâncias entre fases chatas (mais informativas) e fases empolgadas. Isto não tem regra. Mas aproveite os momentos empolgados, entre na discussão. Geralmente são nestes momentos que o entrevistado irá falar sem barreiras: esqueceu o gravador e o tempo. Faça o mesmo!

Se quando terminar a entrevista, o entrevistado lhe disser “esqueci de dizer uma coisa”, não tenha dúvidas, ligue o gravador novamente e dê continuidade normalmente.

Conselhos: De saída, uma entrevista deve ser centrada, isto é, o entrevistado deve saber: quero falar contigo sobre tais e tais assuntos; deixe claro que quer abordar alguns temas (não passe a impressão de que será uma anarquia). Você pode colocar suas opiniões na interação, mas não faça análise do que o entrevistado está dizendo. Isto já é uma outra fase! Para aprofundar um assunto, use o princípio do desenrolar um novelo, ou seja, retome sempre a partir de algo que foi dito e peça para explicar melhor. Siga as suas questões e prolongue-as. Isto faz com que a entrevista tenha rumo e profundidade.

Criar clima de confiança:

Por melhor que seja o pesquisador, em pouco adiantará numa entrevista se ele não ganhar a confiança do entrevistado. Para isto, não se deixe paralisar pela noção de neutralidade do pesquisador. Se o entrevistado perguntar sua opinião, coloque-a. Procure concordar com o entrevistado. Não arrisque a relação por uma discussão contraditória.

Se não entendeu algo que foi afirmado, peça para que seja explicitado. Mas não interrompa a todo momento. Seja progressivamente mais ativo: inicialmente escutando mais, passando para uma fase onde irá colocar questões mais detalhadas, pedidos de explicitação.

Efetuar um trabalho de interpretação:

O momento de entrevista é um momento que exige muita concentração por parte do pesquisador. Ele terá que fazer constantemente exercícios de mini-interpretações: palavras, gestos, hesitações, expressões corporais do entrevistado não podem ser perdidos. Não faça da entrevista um trabalho mecânico.

 

Orientar a entrevista


Você é o entrevistador (e o maior interessado numa boa entrevista), por isso não renuncie ao seu papel de orientar a entrevista.

Interrogar sobre práticas:

A prática do interlocutor deverá ser sempre o ponto de partida. Por isso, se deve evitar questões amplas e genéricas, com pouca aderência à prática das pessoas em questão.

Conselhos: abandone uma postura teórica, use palavras simples, peça descrições, não hesite em ser curioso (correndo o risco até de uma certa indiscrição). Não hesite em pedir histórias. Elas reconstroem contextos e relações. Nelas a pessoa se sente mais à vontade, dizendo coisas que não diria fora do contexto.

Coletar dados objetivos:

Tenha o cuidado de coletar durante a entrevista dados objetivos sobre o entrevistado (mas somente dados que sejam relevantes para a sua pesquisa). Seu contexto, sua situação, suas características. Se não fizer isto, terá que recolher de outra maneira e parecerá estranho. Mas faça isto ao longo da entrevista e não em forma de questionário no início: nome, idade, estado civil... vai parecer interrogatório. Além de dados objetivos, é importante coletar também dados como origem social e religiosa do entrevistado, trajetória profissional e formativa. Estes dados devem ser coletados durante a entrevista e aproveitando ganchos. E mostre sempre sensibilidade (principalmente quando envolve estado civil, nível de recursos, crença religiosa e posição política).

 

Conclusão:

 

Tendo sido feito o trabalho de observação de campo e de entrevistas, o ciclo de inserção no campo acabou. O pesquisador só irá voltar para completar informações e rever os aliados – agora como amigos.

Começa aqui, porém, a fase decisiva para o seu propósito: tratar todo material, classificar e redigir o trabalho.

É preciso ter clareza sobre um corte de pesquisa e psicológico: terá que entrar numa outra fase. O que foi recolhido foi recolhido; o que está feito, está feito. Deve-se passar para a seguinte fase, pois caso contrário irá começar a pesquisa de novo. Claro que sempre ficará a sensação de que deveria ter recolhido mais, se tivesse ainda outra coisa seria melhor... “Aprenda a considerar que a pesquisa está bela e bem terminada e a trabalhar com esta realidade”.