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Volney Berkenbrock
Pesquisa de Campo - 1a parte PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Dom, 13 de Maio de 2018 23:52

 

Primeira Parte: As condições da pesquisa

 

Introdução

- Os dados da pesquisa não podem ser analisados fora de seu contexto de produção. Nesta primeira parte vamos tentar ver justamente quesitos que cercam, que formam o contexto da pesquisa de campo.

 

1. Escolher um tema e um campo

 

Como se escolheu o tema da pesquisa? “Objeto da pesquisa” é expressão que reduz. Inicialmente é importante apegar-se ao “tema”. O tema conduz ao objeto.

 

O prosaísmo do campo

Enquanto o tema da pesquisa é algo “aberto”, amplo, apontando para o infinito (mais ou menos!), procurando respostas globais, o campo de pesquisa é algo necessariamente limitado, circunscrito, local, específico e “sem vocação para fornecer resultados gerais”. O trabalho de campo está muito ligado a atividades prosaicas, “pouco intelectuais/acadêmicas”: ir ao campo, encontrar as pessoas, conversar, entrevistar, transcrever, anotar, observar.

O campo “tende num primeiro tempo a não responder àquilo que se poderia chamar de demanda da teoria”. O campo não satisfaz a “expectativas intelectuais” e – por sua lentidão e caráter – nem outras expectativas que se possa ter: denunciar injustiças, fazer justiça, resgatar a importância, transformar a realidade, reformar o mundo...

Uma tendência espontânea de responder a grandes assuntos, apontar para tendências, adivinhar a direção que caminha a sociedade são expectativas legítimas, mas que claramente não são para ser identificadas com o campo.

Lembre-se: o tema de pesquisa é seu. O campo é uma invenção sua como campo, mas é algo prosaico enquanto realidade.

Este prosaísmo do campo exige algumas capacidades do pesquisador:

- Lidar com situações um pouco imprevistas;

- Capacidade de entrar em relação com pessoas desconhecidas;

- Capacidade de entrar em relação com pessoas pertencentes a outros meios sociais que o pesquisador;

- Capacidade de ganhar a confiança e construir relações de confiança com os pesquisados;

- Capacidade de negociar um lugar (lugar do pesquisador) no campo.

Mas ao mesmo tempo – se estas capacidades dão a entender um certo ceder ao campo, a habilidade de lidar com o campo não é tudo. O campo tem seu ritmo próprio, que não vai andar no ritmo do pesquisador. Por isto este tem que cultivar também outras qualidades (aparentemente opostas às primeiras):

- Prudência;

- Circunspeção (interagir com o campo não faz você e o campo não ter mais fronteiras!);

- Capacidade de sempre escutar de novo (como se fosse a primeira vez!);

- Capacidade de ficar retirado;

- Capacidade para não julgar;

- A timidez pode ser um trunfo;

- Essencial: a curiosidade por outrem, pelo que os pesquisados manifestam e que isto seja visível e contamine os pesquisados.

Perigo: fazer da pesquisa um exercício escolar; quanto antes e mais rápido acabar, melhor!

 

O que convém evitar

- Desconfiar dos temas muito amplos

A pesquisa de campo é algo limitado, estreitamente circunscrita no tempo e no espaço. Sua duração é curta. Por isso é preciso estar preocupado com “amealhar rapidamente resultados” (não confundir isto com confirmar as conclusões/convicções que já se tinha!): boas entrevistas, observações interessantes, assinalar pontos a serem aprofundados, resumir, enfim, resistir à tentação do mar aberto. “A experiência mostra que se você está empenhado numa pesquisa que não ‘deslancha’ por ser muito ampla, muito vaga, não suficientemente definida, você corre o risco de desanimar rapidamente, de perder o chão e, sobretudo, de manter uma relação ‘infeliz’ com sua pesquisa”.

A escolha do tema deve estar baseada em duas regras: ser realizável na prática (com tudo o que isto implica) e estar apoiado em “questões prévias” minimamente construídas a partir de leituras.

Diferentemente dos jornalistas, você não precisa estar preocupado com o sensacional do seu campo.

Sempre que pensar no tema, ele deve ser visto como colado nalgum lugar concreto: lugar geográfico, pessoas, endereços, contatos.

A tentação do pitoresco

É uma tentação ver no campo aquilo que choca a imaginação por sua aparente estranheza. É preciso cuidar com a tentação de ver o bizarro, o estranho, o exótico. “A curiosidade pré-construída pelo pitoresco social mostra-se, muitas vezes, um mau parceiro com uma empreitada de pesquisa sociológica. Os temas ‘exóticos’ proporcionam uma espécie de alteridade barata e cultivam o mito da originalidade, mas permitem, muitas vezes, esquecer o essencial”. O olhar para o pitoresco corre o risco de ser um olhar fechado, que não percebe questões além dos aspectos exóticos.

Nem tudo deve ser assunto da pesquisa de campo

A pesquisa de campo tem uma relação limitada com o seu tema. Muitos dados sobre o próprio campo não estão no campo. É preciso ter a clareza da limitação do campo sobre o seu tema. Há dados, informações sobre o campo que devem ser buscados em outras fontes (estatísticas, bibliografia, histórico, estatutos...). Ou seja, ter a clareza que certas amplidões necessárias para a análise, o campo não tem como oferecer (histórico da questão, quantificações...). Estas informações devem ser buscadas em outras fontes.

 

Os princípios da escolha de um tema

Todos já escolheram o seu tema.

A partir de que? Algumas coisas importantes. 1o conselho: o tema deve interessar-lhe (questionar-lhe) pessoalmente, 2o conselho: realizável num período curto de tempo, 3o ser pequeno, no sentido de traduzir uma questão geral num objeto empírico.

Ser guiado por uma questão de partida

O tema escolhido tem que falar ao pesquisador, ou seja, ser um tema sobre o qual se queira saber mais, descobrir coisas. Pode ser que a pesquisa, no decorrer do processo, vá por outros caminhos, mas se não se tem uma questão de partida, não se parte. Esta questão de partida deve ser transformada rapidamente em fatos objetivados, isto é, objetos, lugares, escritos, algo de que se possa falar (tema de conversa). Ou seja, a questão de partida deve ter aderência no universo do interconhecimento em que vai tornar-se seu campo de pesquisa.

A questão de partida tem que ser questão para você. Ela tem que ter eco em sua pessoa: sua história, sua família, seu roteiro de vida (escolar, social, esportivo, amoroso...).

“Sabe-se que a maior parte das obras dos grandes sociólogos podem ser analisadas como autobiografias disfarçadas”.

Ou seja, as questões colocadas para análise têm que ser questões que você se coloca a si mesmo. Ou seja, você tem que aprender a usar, em proveito de seu trabalho intelectual, a experiência recolhida da sua vida. O seu desejo pessoal de conhecer mais sobre a questão é um grande motor da pesquisa.

Fazer valer o princípio do interconhecimento

Num campo não se escolhem os pesquisados. Talvez seja o contrário. Mas o campo é uma “oferta explícita de encontro, de fala (a do pesquisador) e uma demanda (no mais das vezes implícita) e fala por parte dos pesquisados”. “Muitas vezes, na pesquisa, é a ocasião que faz o ladrão”. Por isso é preciso valer-se do princípio do interconhecimento, conhecimento das relações (entre as pessoas pesquisadas, entre a fala e a prática dos pesquisados, entre seus universos de referência...).

“O pesquisador deve levar a sério as tagarelices, os mexericos, os ‘casos’, as pequenas histórias, pois elas lhe liberam a estrutura do meio de interconhecimento e dos universos de referência que constituem o seu campo”.

Fantasma do observador iniciante: “basta observar de longe para compreender”. Há um certo incômodo nas relações de interconhecimento, mas que precisa ser enfrentado. É preciso “estar com”, “fazer com” para compreender.

A relação com o campo deve seguir um pouco a norma da reciprocidade: se eu me apresento, o outro se apresenta; se eu me explico, o outro se explica. São as regras das relações sociais. Não se pode cair na ilusão de que se deve tirar o peixe da água para observar melhor como ele nada! Seria ingenuidade pensar que quem está fora das relações as pode entender melhor.

Do tema à questão da pesquisa

O mundo não é auto explicativo. A mesma coisa na passagem do tema para a pesquisa. O que de fato na pesquisa vai elucidar o tema e não ser periférico? Difícil... Mas algumas dicas interessantes:

- Privilegiar as relações sociais mais cristalizadas (nos escritos, nos objetos, nas construções, na geografia, nos monumentos, em estatutos, em cerimônias...);

- Transformar uma questão abstrata em uma série decomposta de práticas sociais e de eventos. Reconstituir as cadeiras de práticas, perceber as práticas mais comuns. Estas são estruturantes e devem ser privilegiadas na observação.

O trunfo de ser estranho

Ser estranho no campo de pesquisa (não pertencer naturalmente a ele) é um trunfo importante, pois exige construir e reconstruir as lógicas do campo.

Para pesquisa de temas muito familiares, é imprescindível o exercício de desambientação, desnaturalização. “É preciso aprender a considerar o ‘banal’ como qualquer coisa que não é automática, que poderia ser de outro jeito, que tem uma história”. Exercício de estranhamento do ordinário: como se chegou a isto? Reconstruir a história, passo por passo.

Não há regra geral que diz o quanto o campo pode ser familiar ou não ao pesquisador. Fato é que é mais fácil pesquisar objetos desconhecidos e que é muito difícil pesquisar objetos que estão muito próximos. Eles criam a “ilusão de uma compreensão imediata”.

 

Escolher um campo: um lugar, um ambiente de pesquisa

- A escolha do campo é tão importante quanto a escolha do tema.

Como – salvo exceções – não se mudará de tema, também – salvo exceções – não se mudará de campo. A questão vaga inicial do pesquisador toma forma concreta (em termos de respostas) no campo. Tema e campo de pesquisa são inseparáveis (não existe um bom tema com campo ruim, nem campo bom para tema ruim!). Por isso a escolha do campo deveria ser feita não simplesmente pelos critérios de “facilidade de acesso”, mas de foco com o tema. Seria interessante antes de escolher o campo, o pesquisador fazer uma pequena análise do seu universo (geográfico, político, religioso, familiar, social): o ideal é que o campo não fosse próximo a este universo. Não há nada proibido nem imprescindível na escolha do campo, mas algumas coisas podem ajudar.

Os campos difíceis

A acessibilidade do campo pode fazê-lo difícil (distância, rarefeito, constrangimento). Mas também acessibilidade bloqueada pela hierarquia inerente ao campo. É preciso ter sensibilidade para a acessibilidade. Tornar-se um membro do campo para a observação (também possível).

Os campos próximos

Tornar-se pesquisador quando de antemão se é participante do campo exige exercício de distanciamento. Sem livrar-se dos pré-conceitos é muito difícil realizar pesquisa de campo quando se é participante. Exercícios de distanciamento: narrar para si mesmo a sua relação com este campo (onde começou, como se desenvolveu, qual lugar você ocupa hoje, como chegou a este lugar); reconstruir como se chegou à estrutura ou configuração atual do campo (instituições: quem é o presidente, como chegou a esta função, o que fazem outros membros da estrutura, como chegaram).

Do tema ao campo

A ida do tema ao campo exige uma certa definição provisória e prévia do objeto. Mas a fixação do objeto só vai ocorrer depois do campo. Isto, pois não é o pesquisador que dita as leis ao campo, mas o campo que dita as leis ao pesquisador. O campo pode revelar novos sub-temas, novas questões. “Uma pesquisa que não transforma os termos da questão de início é uma má pesquisa, inútil e ineficaz”. Para isto o pesquisador não pode conceber seu tema como algo fixo ou fechado. E isto não é só uma questão relacionada ao tema: é também uma questão psicológica. Pesquisa é também aprendizagem da modéstia. O desenvolvimento da pesquisa irá fazer aparecer questões que não estavam no ponto de partida.

 

2. Preparar a pesquisa

Tema escolhido, campo escolhido: partir logo para a pesquisa? Não. A pesquisa precisa ser preparada. É necessário primeiro apropriar-se de um mínimo de conhecimentos e só ir ao campo quando se tiver uma certa clareza de conteúdo. Há aqui um primeiro desafio a ser posto: quando se está preparado? Há o risco de se perder fazendo leituras. Princípio de base: as leituras devem ser de tal monta que o pesquisador tenha segurança sobre o tema.

 

O trabalho de documentação prévia

- As leituras prévias devem ter como pergunta: o que eu quero saber no campo? Ninguém vai dizer isto ao pesquisador!

- Ser competente no seu tema. Quatro razões:

 1o Dificilmente se é o primeiro a pesquisar um assunto. As leituras devem levar a conhecer resultados de pesquisas semelhantes, conhecer conceitos construídos e pré-conceitos destruídos.

2o As leituras prévias devem levar a formular as questões a serem pesquisadas. A qualidade dos dados da pesquisa não dependerá apenas das respostas do campo. Dependerá em boa parte das boas questões formuladas.

3o Não se pode chegar ao campo de cabeça vazia. Até os pesquisados vão notar que não há qualquer seriedade ou direção. Isto compromete os dados.

4o Se o pesquisador chegar ao campo sem leituras prévias, sem ideias sobre o que quer procurar (sem curiosidades), com isto terá apenas as suas próprias idéias (conceitos e pré-conceitos), que são muito pobres para servir de parâmetros de pesquisa e análise.

Familiarizar-se com o campo

Aprender a linguagem nativa do campo. Estar atento aos significados da linguagem do campo. Uma interpretação errônea do que foi dito ou observado, levará fatalmente a conclusões errôneas. No que tange ao aprendizado da linguagem, é preciso prestar atenção, sobretudo à “linguagem de ofício”, isto é, à linguagem própria daquele ambiente (palavras que dizem estruturas, funções, organizações, posições, convicções). A leitura prévia é um primeiro lugar de contato com esta linguagem. O quanto mais o pesquisador conseguir incorporar a linguagem do pesquisado, mais chance ele terá de interagir.

Quando parar de ler previamente?

Regra simplista, mas funcional: quando já se têm questões (perguntas) suficientes e respostas insuficientes. Ou seja, quando já se sabe pela leitura as respostas para as questões, desconfiar que “passou do ponto”.

Informar-se sobre o campo (imprensa, rádio, televisão)

Estar informado sobre o campo é uma técnica excelente de interação (“Vi na televisão que...” “No jornal deu que...” sempre rende um bom início de conversa e cria proximidade). Ou seja, as leituras prévias à pesquisa deverão concentrar-se em livros e artigos sobre o tema a ser pesquisado (por um lado), mas também leitura prosaica sobre o campo (por outro lado). Na escolha de leitura prévia de conteúdo sobre o tema, deve-se dar preferência a leituras que tenham proximidade de conteúdo e também de método. Não é de todo necessário ter lido “todos os clássicos” sobre o assunto para iniciar a pesquisa de campo. Mas é necessário conhecer as “teorias clássicas” sobre o tema.

Como ler?

- As leituras de preparação para o campo devem ser um pouco diferentes das leituras de construção de argumentação. Aqui se está querendo ficar seguro sobre o tema e levantar questões.

- Ler artigos: eles dão geralmente um panorama melhor que um livro sobre o assunto.

- Ler para criar opinião crítica própria e manter até uma postura desrespeitosa com os textos. Ou seja: ler para distinguir posições, opiniões, ser senhor das diversas posições (sem necessariamente optar por alguma delas).

Preparar uma monografia local prévia

- Tendo sido feito todo o trabalho de documentação prévia, se está apto a ir ao campo. Antes, algumas advertências a armadilhas: o sonho da exaustividade (não se vai conseguir conhecer todos os aspectos do campo); o risco da hipóstase do coletivo (começar a emprestar consciência e vontade ao grupo: “os xyz pensam que...”).

- Estudar o quadro histórico e geográfico do campo de pesquisa.

- Conhecer os dados sócio-demográficos de base. Ou seja, de outras fontes de pesquisa, saber o máximo possível sobre o âmbito do campo, a composição do campo, as estratificação do campo (classe, famílias, escolaridade, situação econômica...).

 

3. Conduzir a pesquisa

Tendo tudo sido preparado para a pesquisa de campo, aí a coisa fica séria. É preciso dar o primeiro passo: ir ao local, encontrar pessoas que serão os pesquisados, experimentar recusas, dar explicações, chatear-se com coisas que não dão como planejado...

O diário de campo, arma do etnógrafo

- O diário de campo é a principal ferramenta do pesquisador. Ele será uma espécie de roteiro que o pesquisador vai construindo. Em forma telegráfica e direta, ali devem ser anotadas descrições dos lugares, dos eventos, das pessoas e das coisas encontradas. Ele requer precisão e capacidade para detalhes.

- As primeiras anotações sobre o campo deverão ser uma espécie de desejo que se tem, pré-noções do que se quer buscar. As primeiras impressões são importantes. Elas não virão nunca mais.

- O diário de campo é uma auto-análise: ali se descreve objetivamente as expectativas subjetivas. Ali não se deve mascarar uma falsa neutralidade: ali deve ser anotado o sentimento, as impressões, por mais pessoais que sejam.

- O diário de campo deve acompanhar o pesquisador desde o início até o fim de sua inserção.

- Quando o campo é muito próximo do pesquisador, o diário de campo é uma boa ferramenta de distanciamento: trata-se de tornar-se estranho a si mesmo (sugestão de exercício de distanciamento: Por que quer fazer esta pesquisa? Que posição você ocupa neste campo? Seu ponto de vista é dependente desta sua posição? Sente-se à vontade pesquisando em seu meio? As pessoas pesquisadas dependem de você? Você depende das pessoas pesquisadas? Há uma relação de hierarquia entre você e as pessoas pesquisadas? Quem lhe é simpático e quem lhe é antipático? Por que? Responder por escrito a estas questões é um bom exercício de distanciamento/romper hábitos/questionar o que parecia natural).

- O diário de campo permite que seja guardada a memória dos fatos na sequência em que ocorreram. Isto mais tarde não se consegue reconstruir.

- O que se faz com o diário de campo? “A principal utilidade do diário de campo está na releitura dele que se fará, a qual revela a distância entre o que foi anotado e o que se relê”. Interpretar é em parte a arte de comparar as coisas, notar diferenças, apontar semelhanças.

Tornar-se pesquisador

- Não se nasce pesquisador. É preciso tornar-se: tomar a consciência da situação.

- Um novo papel social a desempenhar

O pesquisador coloca-se num papel social diferente. Se você sente mal estar em desempenhar este papel, isto pode prejudicar o resultado da pesquisa. Ela não é uma relação social natural com o campo a ser pesquisado. Você e seu meio terão que mudar nesta situação: adaptações de horários, de hábitos, de contatos... enfim, ficar um pouco esquisito. E isto também na relação com os pesquisados: é preciso questionar sempre que necessário, não fugir de situações que possam ser inclusive embaraçosas... Ninguém gosta de ter a sensação de que está sendo observado: por isto não diga às pessoas que você está ali para pesquisá-las ou observá-las. Diga que esta fazendo uma pesquisa. É preciso levar isto em consideração. O melhor é ter uma relação muito franca com os pesquisados: isto inspira confiança.

Pesquisar é um trabalho: é preciso impor-se regras a si mesmo, obrigações, metas, tarefas e tempos a serem cumpridos.

Instalar-se no campo.

Para quem pesquisa um campo distante de sua moradia, o planejamento material para a estadia no campo é tão importante quanto o planejamento intelectual.

Isto significa: lugar para morar e se alimentar, condições de trabalho, condições de deslocamento, condições de materiais de pesquisa. Estas coisas não podem nem devem depender dos pesquisados! O lugar físico para moradia deve ser seguro (no sentido tanto de sua pessoa como de suas anotações).

Neste período instalado no campo se ele for sua casa mesmo, é preciso deixar claro para as pessoas próximas a sua nova rotina. É preciso um certo rompimento provisório com seus próximos. É importante conquistar este espaço-tempo de pesquisa.

Apresentar-se: os pesquisados não podem ser surpreendidos de que são objeto de pesquisa. Não tente se disfarçar de alguma coisa: é interessante para a sua pesquisa que o campo saiba que você está pesquisando.

Se o campo de pesquisa estiver ligado a uma instituição, o primeiro passo (mesmo que penoso) deve ser apresentar-se aos representantes da instituição, dizer o propósito, conseguir as anuências e saber das regras da instituição.

Seguir as normas do campo no que diz respeito ao comportamento social (bom-senso): horários, comportamento, relações pessoais, territórios, vestimentas... isto o faz previsível e confiável.

Dar partida à pesquisa

- Você já está no campo, instalado. Mas e agora? Começar por onde? Pelo que foi anotado: quem quero procurar, onde... passou-se da intenção para a pesquisa...

- O que dizer aos pesquisados? Que você o está contatando por conta de seu trabalho, sua pesquisa, seu estudo, seu mestrado. Escolha a palavra mais adequada ao meio que está pesquisando. Pense sobre a palavra a ser usada para descrever sua atividade junto aos pesquisados, pois ela pode despertar confiança ou desconfiança. E apresente, em poucas palavras o seu projeto. Isto não significa já ir dizendo tudo ou tirando conclusões... Esta apresentação pode ter algo de vago, mesmo porque não se sabe o rumo que a pesquisa vai tomar.

- Isto não garante que os candidatos a pesquisados queiram ser pesquisados. É preciso contar com algum não! Há lugares e situações que pesquisadores são acolhidos de braços abertos (pois geralmente dão uma certa legitimidade ao campo) e há lugares que são intrusos.

- Regras a serem seguidas na relação de pesquisa:

1º Nunca gravar entrevista sem seu interlocutor saber que está sendo gravado.

2º Pedir permissão para tirar fotografias.

3º Manter à disposição do seu interlocutor as fotos, as fitas e as transcrições que o afetam.

4º Nunca divulgar nada de seu pesquisado em seu meio de interconhecimento.

5º Vigiar, o quando possível, para manter separados os meios de pesquisa e as análises da pesquisa. Estas não devem circular no meio de pesquisa. Prefira fazer um texto que resuma suas principais conclusões, no interesse de seus pesquisados.

6º No texto a ser escrito e posto em público (o que é o caso de uma dissertação) mantenha o anonimato não só de seus pesquisados, mas – se preciso – dos lugares e coletivos. Seus pesquisados devem ser protegidos em seu anonimato.

- Fazer contatos. Isto é uma regra de ouro no campo. Os contatos são sua referência, abrem portas (mas não exagere: nem todo o campo tem que se movimentar porque você ali está!). Como fazer contatos: telefonando, indo ao local, apresentando-se, pedindo indicações... Mas atenção no primeiro contato: prestar atenção para não atrapalhar nem atropelar a vida do pesquisado. E para isto é preciso conhecer um pouco os hábitos dos pesquisados: se não se sabe? Pergunte.

- Fugir da tentação do porta-a-porta. As experiências das pessoas com contatos porta a porta são geralmente negativas: vendedores, representante comercial, proselitismo... Lembre-se, você não faz pesquisa de estatísticas, nem de marketing. Você precisa estabelecer relações.

Continuar a pesquisa

- Você já tem contatos. E como continuar? O que é interessante observar?

- Procurar aliados.

Trate seus contatos como aliados. Eles podem levar a outros. Geralmente as pessoas fazem este serviço de contar adiante o contato e com isso fazê-lo conhecido. Isto abre portas. Muitos destes aliados não são necessariamente pesquisados. Eles funcionam mais como informantes. “Não procure sistematicamente pessoas que o evitam mas não se atire também à frente das mais entusiasmadas”.

- Aproveitar ocasiões: Tentar sempre estar no lugar certo, na hora certa, encontrar as pessoas certas (para isto é importante o interconhecimento).

- Colocar-se em posição de aprendizagem: sempre ouvir.

- Conselho prático: se não se sentiu surpreso frente a uma situação nunca vista antes, cuidado. Você a está rotulando (interpretando) dentro de seus preconceitos e isto não é um bom sinal.

- Negociar seu espaço. É preciso estar atento para ter seu espaço garantido no campo da pesquisa. Se necessário, procurar sempre negociar este espaço.

Conclusão: os tempos da pesquisa

- Tem a pesquisa um tempo (timing) certo? Não tão rígido, mas há quatro fases distintas: exploração, acumulação, questionamento e reorientação e finalmente verificação. Depois disto, é claro, a redação final da pesquisa.


 

Exemplo de timing das fases da pesquisa:

 

Fase

Do tema ao objeto

Técnicas

Relação pesquisador/pesquisado

Estado psicológico

Domicílio/campo

Exploração: 15 dias

Etapa prévia: escolha do tema e do campo

- Diário

- Auto análise

- Pesquisa de documentos

- Tomada de contatos

- Primeiras observações

- Primeiras entrevistas

- Recusas de entrevistas

- Pesquisador = estranho que busca seu espaço intruso nos meios de interconhecimento.

- Medo, apreensão mas também excitação.

- Campo intensivo

- Instalação no local

- Rompimento com domicílio

Acumulação:

4 meses

Primeiras hipóteses

- Diário de pesquisa

- Fichas de anotação

- Acumulação de entrevistas e observações

- Fichas pessoais

- Fichas temáticas

- Certos pesquisados = aliados

- Pesquisador envolvido em conflitos que não entende.

- Confusão

- Menor excitação

- Menor apreensão

Estabilização

- Chateação (isso não anda!)

- Campo

- Volta periódica ao domicílio

Questionamento e reorientação:

15 dias

Definição do objeto

Novas hipóteses

- Diário de pesquisa

- Redação provisória

- Leituras

- Discussões com aliados

- Recentramentos em casos privilegiados

- Manutenção de contatos soltos com outros pesquisados

 Neutralidade

- Do campo ao domicílio

- Rompimento com o campo

- Acredita-se ter fechado o campo

Verificação:

15 dias

Testes

Experimentos = testar as observações e entrevistas

- Limpidez do campo

- Romper progressivamente com a maior parte do campo

- Explicar o que se fez

- Inquietação e excitação

- Retorno ao campo (para lacunas)

Redação final:

2 meses

 

- Classificação, recopiagens, reescrita, releitura, redação final

- Relações de amizade

- Angústia da página em branco

- Domicílio

 

 

 

Última atualização em Dom, 13 de Maio de 2018 23:54