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Volney Berkenbrock
Os Orixás PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Sáb, 07 de Abril de 2018 21:27

 

Principais Orixás cultuados no Brasil

 

Prof. Volney José Berkenbrock

 

Até agora nosso texto utilizou a palavra Orixás de forma coletiva, sem individualizar ou descrever cada qual. Queremos agora dar um pequeno perfil de cada um dos Orixás. Uma pequena descrição de cada Orixá irá mostrar o caráter individual de cada um, bem como refletir a forma como o Orixá em questão é experimentado pelas pessoas. O número de Orixás conhecidos no Candomblé brasileiro é significativamente menor que o número de Orixás conhecidos pelos iorubano na África. Além do mais, o número de Orixás que recebe efetivamente no Brasil um culto regular é ainda menor que o número de Orixás nominalmente conhecidos. As múltiplas variações sob as quais cada Orixá pode se apresentar, supre porém a lacuna ou o empobrecimento do número de Orixás cultuados no Brasil.

A hierarquia originária entre os Orixás ou pelo menos a vigente na África, foi perdida na transposição da religião para o Brasil. A importância e a posição hierárquica entre os Orixás atribuída pelos Itans não é necessariamente a ordem de importância observada no culto. É inclusive de se duvidar que tenha havido alguma vez na África - antes da vinda dos escravizados para o Brasil - uma organização geral única da hierarquia dos Orixás. Dado que o culto aos Orixás era de tradição familiar, não é claro inclusive se houve em algum momento entre os iorubanos uma unificação do culto. O mesmo se pode dizer da ideia do sistema de parentesco entre os Orixás. A constituição dos Orixás em uma única família é uma imagem idealizada. De fato há apenas alguns resquícios da ligação de parentesco entre os Orixás - pelo menos no Brasil. De modo que os Orixás conhecidos no Brasil não formam um sistema único de parentesco e nem há a compreensão de uma hierarquia unificada de Orixás. Destarte a importância de cada Orixá varia com o local e com o culto. Exceções sejam feitas a Exu e Oxalá. Estes dois são mencionados em todos os lugares e por um lado Exu é onipresente, Oxalá é descrito como o mais importante e poderoso dos Orixás. Assim sendo, pode-se afirmar que o Candomblé brasileiro conhece um certo primado teológico de Oxalá e um primado de culto a Exu entre os Orixás

 

1º Exu

A figura de Exu tem um status especial no Candomblé. Ao lado de Exu, pode-se dizer que apenas Ossaim e Ifá tenham também algo de um status diferente entre os Orixás. Diferentemente porém de Ossaim e especialmente de Ifá, Exu não perdeu nada em importância na transferência do culto para o Brasil. O contrário parece ser o caso: ele ganhou uma grande importância no culto brasileiro. Exu é uma figura quase que onipresente no sistema religioso do Candomblé e a figura mais importante para funcionamento do sistema religioso do Candomblé. Este lugar de importância é atribuído a Exu tanto na teoria do sistema, como especialmente na prática religiosa do dia-a-dia.

O status especial de Exu começa já com o fato de não se poder afirmar com toda a clareza que se trata de um Orixá. Na tradição, Exu é tido como ministro dos Orixás, o que em princípio o faria um Orixá de segunda categoria, pois a Exu Olorum não confiou nenhuma tarefa específica de controlar alguma força da natureza ou uma atividade humana específica. A ele foi confiada a tarefa de ser o ministro, ou melhor, o mensageiro dos Orixás ou então a tarefa de ser a ligação entre os diversos elementos religiosos. E esta é a função específica de Exu no sistema religioso do Candomblé: Ele é o mediador dos Orixás entre si, dos Orixás com os seres humanos, dos seres humanos com os Orixás, o mediador entre o Orum e o Aiye e mesmo o mediador entre os próprios seres humanos. Exu é a força da comunicação, a capacidade de relacionamento.

Sempre que se faz necessário estabelecer alguma comunicação, Exu precisa estar presente. O sistema religioso do Candomblé está baseado na comunicação entre o Orum e o Aiye, entre os Orixás e os seres humanos. A comunicação proporciona a troca de Axé, que possibilita a harmonia e o vir a ser da existência. A oferenda é o fator de equilíbrio neste sistema: todo desequilíbrio é recomposto por uma oferta. Esta recomposição através da oferta só acontece quando há comunicação entre quem faz e quem recebe a oferta. A oferta precisa ir do ofertante para o receptor e a restituição precisa percorrer o caminho inverso. Exu é o mediador, o elo de comunicação deste sistema. É através dele que a oferta é levada ao Orixá e é através dele que acontece a restituição. Somente através de Exu pode acontecer a troca de Axé. Ele é o elo, a figura-chave na sequência da oferta-e-restituição.

Exu é o transportador do Axé e a esta função se deve o fato de ser ele uma figura central do Candomblé. Todas as atividades religiosas do Candomblé têm no fundo sempre o mesmo objetivo de proporcionar a troca de Axé e com isso possibilitar uma maior harmonia. E esta troca só acontece por causa de Exu, que é o mensageiro, o mediador entre ambos os lados. Todo ato religioso precisa imprescindivelmente a presença de Exu. Exatamente por isso, toda atividade religiosa no Candomblé é iniciada com uma oferta a Exu (Padê de Exu); oferta esta que tem como objetivo pedir a Exu que estabeleça a comunicação entre os dois lados. Assim é que se pode entender o motivo da quase que onipresença de Exu no Candomblé.

Ele não é o que vela sobre alguma parte específica da existência, e tão menos o possibilitador de alguma atividade humana; mas sem ele a existência não se comunicaria, não viria a ser; sem ele não haveria dinâmica nem encaminhamentos. Ele é a faísca que inicia o processo. Através da comunicação estabelecida por Exu é dada à vida a possibilidade de desenvolvimento. Sem ele a existência não se desenvolveria, não poderia vir a ser. Exu é o possibilitador do princípio de tudo: da criação, do nascimento, dos relacionamentos.

Olorum é o princípio geral da existência. Esta existência geral torna-se entretanto existência individual e diferenciada à medida em que há delimitação e comunicação. Através da comunicação, a existência aparece como existência individualizada. Como Exu é a comunicação, é possível afirmar que ele é de certa forma o polo oposto de Olorum: este como princípio da existência generalizada, aquele como princípio da existência individualizada. Num dos Itans se narra inclusive ter sido Exu o primeiro a ser criado.

Toda existência individualizada têm seu Exu. Cada Orixá tem inclusive seu Exu que o acompanha. É através dele que o Orixá pode agir e se comunicar, pode aparecer e entrar em contato com outros. Cada pessoa, cada cidade, cada povo, cada coisa, cada existência tem seu Exu individual e pessoal. Cada acento de Orixá no Pegi é na verdade sempre um acento duplo: um para o Orixá e o outro para seu Exu acompanhante. Sem este acompanhante, o Orixá poderia inclusive existir, não poderia porém entrar em contato com seus filhos. Cada pessoa é acompanhada por um Exu e por isso pode contatar seu Orixá.

O principal símbolo de Exu não poderia ser mais adequado: o caminho, o cruzamento ou encruzilhada. Ele conhece o caminho que liga os seres entre si; ele conhece o caminho que liga Orum ao Aiye. O caminho é um lugar predileto para se depositar uma oferta a Exu, especialmente onde mais de um caminho se encontram - a encruzilhada. Exatamente por causa de sua função de ser comunicação, coloca-se na entrada de todo terreiro a casa (assento) de Exu. Toda pessoa, ao entrar na casa, deve mostrar a ele o seu devido respeito. O culto a Exu não se restringe a este assento. Ele é feito em todos os lugares e em todos os níveis: a nível privado, a nível familiar, a nível de grupo e a nível de terreiro.

O símbolo do tridente, também utilizado para Exu, é na verdade uma representação estilizada do cruzamento de dois caminhos ou de duas retas ou uma cruz. A influência cristã é provavelmente responsável pela transformação da cruz em tridente, por conta da identificação que se fez entre Exu e o demônio na tradição cristã. Mas esta transformação do símbolo do cruzamento para o tridente carrega em si sua simbologia original. Outro símbolo também utilizado para Exu é o falo. Neste símbolo está muito bem representada a força do relacionamento e a criação da individualidade, dado que pela relação sexual se gera novos indivíduos. Este símbolo parece ter sido muito mais comum na África que no Brasil. Aqui, a moral pública cristã-católica reprimiu o símbolo. Mesmo assim conservou-se e pode ser visto em diversas casa de religiões afro-brasileiras.

Os serviços de Exu são indispensáveis para o contato entre pessoas e Orixás. Sem Exu não acontece nenhuma experiência de Orixás. Além desta importante função de intermediador, esta ligada a ela outra função de Exu: ele é o intérprete do sistema do Candomblé. Na concepção religiosa do Candomblé, Exu é tido como aquele que compreende tanto as pessoas como os Orixás. A linguagem é um meio privilegiado de comunicação e por isso está sob o controle de Exu. Este talvez seja o motivo pelo qual Exu tenha no Brasil assumido quase que totalmente a tarefa de Ifá (o Orixá divinatório): São feitas consultas através de Exu. Embora a tradição antiga conheça já esta capacidade de Exu, pois segundo um Itan, teria sido ele o mestre de Ifá na arte do oráculo. Devido ao fato de ter a figura de Ifá perdido no Brasil muito de sua importância no sistema de consultas, que é um sistema muito importante dentro do Candomblé, a figura de Exu ganhou muito em importância ao assumir esta função oracular.

Apesar de Exu não ser reconhecido no Candomblé brasileiro exatamente como um Orixá, é possível iniciar pessoas a Exu. O número dos filhos de Exu é entretanto muito reduzido e raramente há alguma incorporação.

Exu é, por um lado, uma figura muito importante no Candomblé. Por outro lado não se pode deixar de ressaltar que se trata de uma figura altamente controversa. Graças a Exu é possível a comunicação entre os Orixás, entre Orixás e seres humanos, de seres humanos entre si. Por causa da comunicação é possível o equilíbrio do sistema (Orum-Aiye), mas é justamente uma comunicação errônea que ocasiona o desequilíbrio. A comunicação pode levar tanto ao entendimento, como ao desentendimento. A Exu é atribuída a capacidade de possibilitar o entendimento no sistema; mas é também a Exu atribuída a responsabilidade pelo desentendimento. Entendimento e desentendimento trilham o mesmo caminho da comunicação e por isso passam necessariamente por Exu. Destarte ele se torna uma figura ardilosa no Candomblé. Através de Exu entra a ordem no sistema, mas também a desordem. De uma figura impreterivelmente necessária, torna-se ele uma figura altamente temida. Para um membro do Candomblé, é muito importante saber tratar Exu de uma maneira correta e, sobretudo saber evitar sua ira, pois Exu é também o possibilitador de desarmonia, de desgraça, de azar.

Por causa deste aspecto duplo da figura de Exu, ele é identificado com o demônio nas representações sincréticas tanto no Brasil como também na África. Esta identificação fez de Exu uma figura de má fama e que inspira medo. De figura ardilosa, Exu foi com isso, transformado em uma figura má e por fim à personificação do mal, o que não corresponde ao seu caráter original. Com a identificação com o demônio, Exu recebe a conotação de absolutamente mau, ideia esta que é estranha à cultura Ioruba, dado que esta cultura não conhece estes dois polos contrapostos, mas sim a ideia de maior ou menor harmonia, maior ou menor equilíbrio.

Mais um aspecto faz de Exu uma figura muito interessante no sistema do Candomblé: sua ligação com o novo. A des-ordem no sistema não é necessariamente algo ruim. Através da des-ordem - isto é, outra ordem que a do caminho comum - é possibilitado o novo. O novo, a mudança só surge, quando outros caminhos são percorridos. Com Exu há assim a possibilidade de modificações, de novidades. Exu possibilita o novo. Ele permite a possibilidade de novos arranjos no sistema e com isso mantém sempre aberto o caminho da renovação na religião. Sua figura está muito ligada com a ordem. Ele mantém a atual ordem (harmonia) e possibilita o surgimento de uma nova ordem. Não se pode negar que com isso Exu é uma figura controversa, mas de um caráter complexo, muito interessante e indispensável para o sistema religioso do Candomblé.

 

2º Oduduwa

O Orixá Oduduwa - também chamado de Odudua ou Odua - é a força feminina da geração. A palavra Oduduwa significaria fonte geradora da vida, ou há quem derive a palavra Oduduwa de dudu + uwa (existência negra, ao contrário de Obatalá, cuja cor é o branco) ou de odu + ti + o + da + wa (aquele, que criou a existência). É a figura feminina contraente à figura masculina de Obatalá. Enquanto Obatalá é o céu, Odua é a terra. Ela forma com Obatalá uma espécie de casal primitivo que agiu na criação. A figura de Oduduwa parece não poder ser separada da de Obatalá e é citada sempre em alguma atividade com Obatalá numa atividade criacional, o que faz com que Oduduwa seja por vezes vista como uma qualidade feminina de Oxalá. Como Orixá independente, Oduduwa praticamente não tem nenhuma função no culto no Brasil e é quase que absorvido por Oxalá. Pode-se encontrar inclusive a versão de que Oxalá seria uma figura mista: seis meses por ano seria masculino e os outros seis meses feminino. Esta versão baseia-se no fato de que se pode encontrar em Oxalá algumas características de Oduduwa. Este Orixá parece ser um exemplo típico daqueles cujos nomes são ainda conhecidos no Brasil e que permanecem sobretudo pelas transmissões dos Itans, mas que têm pouco significado para o culto, cujo culto esteja num processo de desaparecimento ou que já tenha desaparecido totalmente ou nem tenha aqui se instalado.

 

3º Yemanjá

A figura feminina exuberante do Candomblé não é Oduduwa, mas sim Yemanjá. A palavra Yemanjá derivar-se-ia de ye - omo - eja ou de Yeyé - omo - já cujo significado é "mãe dos filhos peixes" ou "mãe, cujos filhos são peixes". Ela é cultuada no Brasil como o Orixá das águas salgadas, do mar. Certamente por isso sua cor é o azul claro. Na África, Yemanjá está mais ligada à água-doce. No Brasil esta troca ocorreu tanto pelo fato de que o culto a Olokum, o Orixá africano da água salgada, não foi implantado no Brasil, como também pela identificação que ocorreu entre Yemanjá e a figura europeia da sereia ou figuras semelhantes de tradições indígenas. Yemanjá é uma figura ligada especialmente à feminilidade, à beleza e à maternidade - e por extensão à família. Yemanjá é o Orixá feminino da fertilidade humana.

Segundo conta um Itan, Yemanjá seria filha de Obatalá e Oduduwa. Ela foi desposada por seu irmão Aganju e deste casamento nasceu Orunga. Orunga violentou sua mãe e desta relação nasceram muitos outros Orixás. Por isso é dado a Yemanjá também o título de "mãe dos Orixás". A representação de Yemanjá espelha esta sua função materna: ela é comumente apresentada como uma mulher jovem, com seios fartos representando sua fertilidade.

Yemanjá é no Brasil com certeza uma das figuras mais populares do Candomblé. Ela é conhecida especialmente nas regiões costeiras do país e a fama de sua figura ultrapassa os limites dos terreiros. Yemanjá deve parte de sua popularidade à identificação que se fez dela com a figura cristã de Maria - especialmente Nossa Senhora da Conceição ou Nossa Senhora dos Navegantes. Esta identificação levou ao fato de que muitos adeptos do Candomblé entendem ser Yemanjá uma virgem, embora mãe dos Orixás. Outra parte de sua popularidade deve Yemanjá à Umbanda, onde também é uma figura bastante cultuada, inclusive fora dos terreiros.

Desta Orixá-mãe acentua-se no Candomblé, além de sua fecundidade, a sua beleza. Ela simboliza o ideal da mãe bela. Em sua festa são lançados ao mar espelhinhos, vidrinhos de perfume, baton, flores, etc. como oferenda a Yemanjá e ao mesmo tempo sinais de sua beleza. E as pessoas que lançam estas oferendas desejam alcançar amor e sorte.

Na cidade do Rio de Janeiro há um festejo especial a Yemanjá na noite da passagem de ano, onde as pessoas lançam oferendas ao mar. Ao amanhecer do primeiro do ano espera-se ansiosamente para ver se Yemanjá aceitou as oferendas. Quando o mar devolve na praia o que a ele foi jogado, é sinal de que Yemanjá não aceitou o que lhe foi ofertado e o ano que se inicia não será de sorte. Se no dia seguinte nada foi devolvido, Yemanjá aceitou as oferendas, prenúncio de um ano bom.

A popularidade de Yemanjá fez também com que ela perdesse alguns traços originais africanos. Assim, especialmente pela influência da Umbanda, Yemanjá é muitas vezes representada como uma mulher branca. Em uma sociedade influenciada pela ideologia do embranquecimento o ideal de beleza feminina só pode ser encarnado por uma mulher branca. Outras vezes Yemanjá é representada como sereia ou como Dona Janaína, uma figura feminina mítica de tradição indígena

 

4º Xangô

Ao lado de Yemanjá, está nos terreiros a figura forte de Xangô. O Pegi de Yemanjá é acompanhado muitas vezes pelo Pegi de Xangô. Ela também come das oferendas levadas a Xangô. Segundo um Itan, Xangô é o filho mais importante de Yemanjá e tem como esposas Oyá (Iansã), Oxum e Obá. Conforme outro Itan teria sido Xangô rei na cidade de Oyó, a capital política dos Iorubanos, e depois de sua morte ter-se-ia transformado em Orixá. Diferentemente porém de Yemanjá, Xangô não perdeu praticamente nada de suas características africanas. Ele é um Orixá masculino e sua cor é o vermelho e branco.

Xangô é o Orixá do fogo, do raio e da tempestade (como forças da natureza). Ele também é juiz e é o Orixá da guerra e a força da justiça. Com seus raios castiga os mentirosos e os que praticam maldade e injustiça. Um dos fatores que contribuiu para que Xangô conservasse suas características africanas é sem dúvida o fato da grande incidência de raios e tempestades no Brasil como na terra dos Ioruba. Outro fator que contribuiu para a importância de Xangô no Candomblé brasileiro é o fato de ser o Orixá principal do barracão da Casa Branca, o terreiro mais antigo do Brasil nesta tradição. Por outro lado, para os negros tratados de forma injusta, Xangô encarna uma figura ideal com seus atributos de defensor da justiça. Xangô é o vingador daqueles que sofrem injustiça. Xangô é uma figura muito forte no Candomblé. Como guerreiro valente, ele é uma figura sem concorrência. Por causa da importância desta figura, a religião dos Ioruba em Recife não é chamada de Candomblé, mas de Xangô. Nos tempos de Nina Rodrigues (na virada para o século XX) Xangô era o Orixá mais popular da Bahia. E, com o tempo, sua figura não perdeu a importância. Como figura sincretizada, Xangô é identificado com Santa Bárbara, com São Jerônimo ou com São Pedro. A identificação com Santa Bárbara provém do fato de ser esta a santa invocada no catolicismo popular para a proteção contra raios e tempestades. Não deixa de ser um paradoxo o fato de um Orixá claramente masculino ser identificado com uma santa/mulher.

 

5º Oyá (Iansã)

O Orixá feminino Oyá - no Brasil também conhecido sob o nome de Yansã - é apresentado como a primeira mulher de Xangô. Ela é quase que o lado feminino de Xangô, pois suas características muito se assemelham às dele. Oyá era na África o Orixá do Rio Níger. No Brasil - como Xangô - ela está relacionada com a força das tempestades. Enquanto Xangô numa tempestade é caracterizado através dos raios, Yansã é vista, sobretudo no vento impetuoso.

Yansã é apresentada como uma mulher guerreira e batalhadora. Ela é corajosa, teimosa, ciente de sua autoridade, poderosa e fiel. À maneira de Xangô, ela também reage de forma colérica quando é contrariada. A cor de Yansã é o vermelho e como figura sincrética ela é identificada com Santa Bárbara. Oyá ou Yansã é um Orixá muito conhecido e igualmente cultuado no Candomblé.

Há uma característica em Oyá que a diferencia fortemente de Xangô: a sua relação com os mortos. Ela é a rainha ou a mãe dos Eguns (falecidos) e com eles é cultuada (O próprio nome de Yansã derivar-se-ia de seu relacionamento com a morte: iya + mesan + orun, que significaria mãe dos nove orum.). Yansã é o único Orixá que tem um relacionamento com a morte. Na linguagem popular se diz que Yansã não tem medo da morte. Esta ligação entre Yansã com a morte parece advir do fato de ser Yansã o Orixá do vento e estar com isso relacionado ao ar, à respiração. O Emi (a respiração) é uma das partes que compõem uma pessoa e lhe é tirado no momento da morte. Somente pela morte a pessoa perde o Emi (hálito vital) que volta ao Orum. O único Orixá que pode se manifestar durante o Axexê (ritos fúnebres) é justamente Yansã.

 

6º Oxum

Conforme a tradição, Oxum é a segunda mulher de Xangô, a mais bela e mais sedutora. Oxum era na África o Orixá do rio com o mesmo nome. No Brasil ela não é identificada com um rio determinado, mas com os rios e a água doce em geral. Com isso, Oxum é também o Orixá da fertilidade e da reprodução. A gravidez e os bebês estão sob a proteção dela, bem como pássaros e peixes.

Como esposa de Xangô, Oxum é apresentada como mulher vaidosa e ciumenta. Oxum é o Orixá do amor, mas também da sensibilidade, da estética, da beleza, do ouro e do brilho. Diz-se no Candomblé que filhos de Oxum têm habilidade natural para o jogo de búzios, pois sua apurada sensibilidade os faz conhecer e perceber os mistérios com muito mais facilidade que outras pessoas. Ela é a esposa favorita de Xangô e este lugar ela conquistou por sua beleza e seus dons culinários. Pela fama de boas cozinheiras, as filhas de Oxum estão nos terreiros muitas vezes à frente da cozinha ritual.

Tanto o amarelo-ouro como o vermelho são cores de Oxum e na representação sincrética ela é identificada com diversas figuras de Nossa Senhora, a mãe de Jesus.

 

7º Obá

Como terceira esposa de Xangô, Obá é a mais idosa e a mais infeliz. Por causa de sua idade, ela também é chamada nos terreiros de avó. Segundo a tradição, Obá lutou muito para ser a esposa preferida de Xangô, mas não conseguiu. Ela representa uma mulher esforçada, trabalhadeira e batalhadora, mas não compreendida e infeliz no amor.

Obá é na África o Orixá de um rio com o mesmo nome enquanto no Brasil é tida como a Orixá das águas em geral. Sua cor é o vermelho. Obá não é um Orixá muito conhecido e cultuado e por causa de ser uma mulher batalhadora, de luta em sua vida, é identificada sincreticamente com Santa Joana d'Arc.

As três Orixás femininas acima descritas (Oyá, Oxum e Obá) estão ligadas a Xangô, por serem nos mitos suas esposas. Desta forma, tanto suas cores como suas características, bem como oferendas e comportamento, coincidem em muito com os de Xangô, diferindo apenas neste ou naquele detalhe. Talvez fizessem estas quatro figuras parte do culto comum de alguma linhagem familiar ampla entre os iorubanos, dado seus elementos coincidentes.

 

8º Ogum

Este Orixá é uma figura muito complexa e variada no Candomblé. Ogum é um Orixá masculino e segundo algumas tradições seria filho de Yemanjá. Já outras tradições o colocam como filho de Odudua. Ogum é o Orixá da mata e do ferro e com isso está ligado a uma série de atividades relativas à mata ou ao ferro. Ogum é o caçador, o pescador, o guerreiro, o inventor, o desbravador, o agricultor, o ferreiro, etc. Ele é o Orixá do desenvolvimento, aquele que traz a cultura. Além disso, ele conhece os segredos da floresta. Em resumo, há uma gama enorme de atividades que a tradição relaciona a Ogum.

A situação dos negros no Brasil fez com que houvesse uma mutação na figura de Ogum. Atividades como a agricultura e a caça, que tinham um significado vital na África, perderam grande parte de sua importância no Brasil. Os escravizados, após a sua alforria, dirigiam-se quase todos às cidades. Assim, sua ligação com a mata e a caça não foram tão exploradas no culto no Brasil. Por causa, porém de sua ligação com o ferro, começaram no Brasil a ser relacionadas com Ogum muitas outras profissões, como o ferreiro, o mecânico, o motorista, o açougueiro, o barbeiro, etc. Todas as profissões ligadas de alguma forma ao metal ferro foram relacionadas com Ogum. Também profissões que surgiram mais tarde e estão relacionadas com metalurgia ou de alguma forma com o metal ferro (como p. ex. piloto de avião) também são relacionadas com Ogum. Assim acidentes de automóveis, de trens, de aviões e outras máquinas são interpretados como sinais de descontentamento de Ogum. Desta forma, Ogum conheceu uma grande atualização no que tange à sua ação.

O caráter de Ogum desenvolveu-se no Brasil também na direção do guerreiro, o que originalmente vinha apenas num segundo plano. Muitas destas características, principalmente a do guerreiro destemido, passa para um primeiro plano, lembrando um deslocamento de importância ocorrido também com a figura de Xangô. Ele é o Orixá da revolta, da violência, é um Orixá imprevisível. Por isso ele é muito respeitado e temido no Candomblé. No sincretismo Ogum é identificado tanto com Santo Antônio como São Jerônimo ou São Jorge e suas cores são o azul escuro e o verde.

 

9º Oxóssi

O Orixá Oxóssi lembra a figura de Ogum, de quem é um irmão, segundo a tradição dos mitos. Oxóssi é o Orixá da caça e da mata. Esta atividade tinha na sociedade africana uma importância muito grande, pois a caça era imprescindível para a alimentação. Através da caça, Oxóssi entra em contato com a mata e suas plantas e também com seu Orixá, Ossaim. Orixá este que conhece a força das plantas. Por este contato, também Oxóssi é conhecedor das plantas e sua força.

A importância de Oxóssi é também grande por causa de outro fator: através dos caçadores - que são protegidos e guiados por Oxóssi - são encontrados bons lugares para novas aldeias. Estes três fatores (caça, conhecimento das plantas e descoberta de lugares para novas aldeias) davam a Oxóssi um lugar importante na sociedade africana. Para os negros no Brasil estes três fatores têm pouca importância. Apesar disso Oxóssi permaneceu conhecido e bem quisto no Brasil.  Aqui sua popularidade se deve ao fato de ter havido uma aproximação entre as características de Oxóssi com a figura do indígena. Sob seu domínio estão as florestas e a caça. Por conta desta influência indígena, Oxóssi é muitas vezes representado como um índio ou trajando características deles, como uma pena na cabeça ou portando o arco e a flecha. Outra característica interesse ligada a Oxóssi e cuja origem se deve provavelmente à sua identificação com os indígenas é a sua juventude. No imaginário criado no Brasil sobre os índios, estes são sempre jovens. Na figura de Oxóssi, permanecem pois características africanas preservadas e além disso foi ele enriquecido com características brasileiras, de modo que se tornou uma figura nacional, o que calhou bem para o Candomblé que tem um quê de nacionalismo.

A cor de Oxóssi é verde e o azul claro e como figura sincrética do Candomblé ele é identificado com são Jorge, com o arcanjo Miguel ou então com São Sebastião.

 

10º Omolu

Omolu é um Orixá ligado à terra. Por isso Omolu - que também é chamado de Obaluaiyê, Soponna ou Xapanã - está ligado ao nascimento, à morte e ao segredo que interliga as duas coisas. Por um lado Omolu pode trazer a vida, por outro a morte. Isto faz dele um Orixá muito poderoso, que é tanto cultuado como temido. As doenças estão sob o domínio de Omolu, especialmente a varíola, as doenças de pele e as epidemias. O papel de Omolu é dúbio também no caso das doenças: a doença é sinal da vingança de Omolu, mas ao mesmo tempo é ele o único que as pode combater e com isso restaurar a harmonia.

Por causa de sua ligação terrível com a varíola e outras doenças, Omolu é na África cultuado fora das aldeias e cidades. No Brasil o seu culto é feito normalmente separado dos outros Pegis. Teria havido na África o costume de que os iniciados a Omolu eram responsáveis pelo sepultamento das pessoas que morriam de varíola. Com isso eram também herdeiros destas pessoas. Através do contato com os mortos, eles se tornavam também possíveis transmissores da doença. Com isso eram temidos e odiados. Teriam sido inclusive perseguidos no Dahomé. Quem incorpora Omolu tem o rosto tapado com palha. O seu rosto não pode ser visto, dando um aspecto misterioso e terrível em seu culto.

Como Omolu não apenas espalha a doença, mas também controla os segredos da cura, ele é o Orixá da medicina. Seu símbolo é o Xaxará, uma vassoura ritual com a qual ele pode varrer as pessoas, mas também as doenças. As pessoas acometidas de alguma doença buscam conselhos e cura através de Omolu. Omolu é "o médico dos pobres". Isto fez com que a sua figura tenha uma boa conotação, mesmo sendo temido. Como figura sincrética, Omolu é identificado com São Roque, São Benedito ou São Lázaro.

 

11º Nanã

Nanã é um Orixá feminino e segundo a tradição seria mãe de Omolu. É também um Orixá ligado à terra e mais especificamente ao barro, à lama, ou seja, à mistura de terra e água. Daí já se pode entrever seu significado. Segundo a tradição Iorubana, o barro é o material original do qual o ser humano foi modelado e que no final da vida do ser humano deve novamente ser devolvido à terra. Por esta combinação, Nanã está ligada ao começo e ao fim. Ela é mãe e morte ao mesmo tempo, em um ciclo no qual a vida é possibilitada e renovada pela morte. Ao ser lama, ela é mãe da mãe.

Por ser o Orixá da lama, Nanã também é relacionada com a fertilidade, com a agricultura e com as colheitas. A terra é invocada, na tradição Iorubana, sempre como testemunha de juramentos feitos ou de alianças secretas. Daí surge uma outra característica de Nanã: ela é testemunha das alianças e juramentos, especialmente os dos ritos iniciatórios e por este motivo Nanã é chamada também de Orixá da justiça.

Nanã é conhecida no Brasil também pelo nome de Nanamburucu ou de Nanã Buruku e é cultuada como a mais velha dos Orixás da água. Nos rituais a Nanã são utilizados metais. Embora não tenhamos nenhum elementos claramente comprobatório, isto levou à ideia de que este culto seria um dos mais antigos entre os iorubanos, do tempo anterior ao domínio de metais. Como figura sincrética, Nanã é identificada com Santa Ana.

 

12º Oxumaré

O culto a Oxumaré foi preservado no Brasil, embora este não conste entre os Orixás mais importantes dos iorubanos. Segundo a tradição dos Itans, Oxumaré é um servo de Xangô e filho de Nanã. Ele é o Orixá do arco-íris e com isso o Orixá da ligação entre a terra e o firmamento. Cobras também são vistas como sinais de Oxumaré.

Como o arco-íris é composto de muitas cores, Oxumaré é um Orixá que representa uma grande combinação de Axé. Oxumaré é apresentado tanto como uma figura masculina como também feminina. Às vezes dito inclusive que seria seis meses masculino e os outros seis meses do ano feminino. Na representação sincrética ele é identificado com São Bartolomeu.

 

13º Logunedé (Logum Edê)

Logunedé é na mitologia um Orixá filho de Oxum com Oxóssi (ou nalguns itans filho de Erinlé com Oxum, sendo que o culto a Erinlé não sobreviveu no Brasil. Nalgumas interpretações, Erinlé é uma qualidade de Oxóssi). Assim sendo, Logunedé herda as características dos dois Orixás: por um lado carrega a sensibilidade e beleza de Oxum, por outro a bravura e astúcia de seu pai caçador. É tanto um Orixá das águas doces (Oxum), quanto um Orixá da mata (Oxóssi). É chamado o príncipe dos Orixás, pois com os traços de seus pais (beleza e bravura), torna-se um Orixá do encantamento, da delicadeza, do refinamento. Como Orixá-filho, é sempre apresentado como um jovem, belo e sedutor, astuto e escorregadio.

Ao herdar características de dois Orixás, Logunedé pode ser também entendido como um Orixá um tanto misterioso e híbrido, dado que nem sempre é claro qual das características estão se mostrando. Assim sendo, tanto os encantos e como os feitiços estão sob o controle de Logunedé.

Os filhos de Logunedé são considerados pessoas melindrosas e instáveis, sensíveis e fortes, graciosos e reservados. Ao conseguirem reunir em si características tão diversas, são também mestres do equilíbrio e capazes de viver em situações fronteiriças. Suas cores são tanto o verde de seu pai, quanto o amarelo-ouro de sua mãe.

 

14º Ossaim

Ossaim é o Orixá da vegetação, das folhas, das ervas e especialmente do Axé por elas contidas. Todos os preparados de ervas estão sob a proteção de Ossaim. As plantas têm no Candomblé uma importância tanto litúrgica como medicinal. Praticamente todas as cerimônias no Candomblé necessitam do uso de alguma planta ou de algum preparado de ervas. Os banhos de purificação são parte obrigatória do tempo de iniciação. Eles são feitos com a mistura de diversas ervas que podem ajudar o iniciando a entrar em transe. As ervas podem liberar diversos Axés na vida de um iniciado.

Através desta curta descrição já se pode perceber a importância da figura de Ossaim no Candomblé. Ele tem um status especial no culto. O culto a Ossaim é incomum. Justamente por causa da importância de Ossaim no sistema religioso do Candomblé, seu culto é organizado de forma independente e autônoma. Ossaim tem uma sociedade organizada própria e um sacerdócio especial a ele devotado: os Babalossaim. Estes são responsáveis tanto pelo culto a Ossaim, como pela coleta, tratamento, preparação e efeito das plantas. Eles formam uma sociedade quase secreta no Candomblé. Esta sociedade detém os conhecimentos sobre os efeitos das ervas, sua forma de coleta e preparação. Os conhecimentos são tanto rituais como medicinais.

Ossaim vive no mato e sua cor é o verde. A parte-floresta do terreiro é seu domínio. Ele é um Orixá cultuado ao ar livre. As ervas de Ossaim não devem ser cultivadas, mas crescer livremente na mata. As ervas cultivadas em casa, mesmo sendo da mesma espécie, não possuem o mesmo Axé de Ossaim, pois cresceram no espaço cidade, que não está sob o domínio de Ossaim.

As plantas e os seus efeitos estão à disposição de todas as pessoas. O mesmo vale para Ossaim: ele está a serviço de todos. Através de ervas ele pode vingar-se, como trazer sorte, saúde, amor e fecundidade.

 

15º Ibeji

Ibeji é um Orixá gêmeo. Embora este par de Orixás não tenha grande importância entre os Orixás, o seu culto no Brasil é muito difundido e popular. Esta popularidade deu ao culto de Ibeji algo de folclórico. Ibeji é o Orixá das crianças e o seu culto é uma festa para as crianças. Ibeji recebe, pois como oferenda coisas próprias de crianças: doces e brinquedos. Tais oferendas são postas diante de seu Pegi.

Como figura sincretizada, Ibeji é identificado com os santos Cosme e Damião. A data de comemoração destes santos, 26 de setembro, é sempre ocasião de festa para as crianças. Da festa de Ibeji é que se originou provavelmente o costume em diversas partes do Brasil de neste dia se distribuir doces às crianças.

 

16º Iroko

O Orixá Iroko permaneceu no Candomblé brasileiro mais como lembrança do que propriamente como culto. Iroko era o Orixá de uma árvore muito importante entre os iorubanos e por isso às vezes chamado de carvalho africano. No Brasil conhecida por gameleira branca. Por extensão, Iroko se tornou o Orixá das árvores em geral. Em honra a Iroko há em muitos terreiros o costume de se levantar uma árvore ou um mastro, diante do qual são colocadas as oferendas. Este Orixá não mais é incorporado durante o culto, o que leva a supor que a ele não há mais pessoas iniciadas. É sincretizado com São Francisco de Assis.

 

17º Ifá

Ifá é um Orixá que - como Ossaim - tem um status especial no Candomblé. Ele tem seu próprio culto e seu corpo de sacerdotes próprios: os Babalawôs. Ifá é o Orixá do oráculo e da sabedoria. Ele conhece o passado, o presente e o futuro. Ifá concentra toda a sabedoria; ele é o portador da cultura e do saber. Seu saber ele consegue transmitir através das consultas.

Por causa de sua ligação com o oráculo, Ifá tem uma importância muito grande na manutenção do sistema religioso do Candomblé. Sua sabedoria é tão grande que, segundo alguns Itans, os próprios Orixás se consultam com ele quando precisam de um conselho. Este papel importante de Ifá é corretamente compreendido quando o relacionamos com a manutenção do equilíbrio entre Orum e Aiye. Como Orixá da sabedoria, Ifá conhece os caminhos que conduzem à restituição da harmonia entre os dois níveis da existência. Através de Ifá, as pessoas ficam sabendo qual é o seu Orixá, ficam sabendo a causa de algum desequilíbrio e sabem a oferenda a ser feita para restaurar o equilíbrio perdido. A função mais importante da consulta é justamente dar às pessoas uma resposta sobre o caminho para a conquista da harmonia. A consulta segue sempre o caminho da oferta e retribuição: Cada resposta de Ifá (oferta) exige do consulente uma oferenda (retribuição). Sem esta oferta e restituição não seria possível a consulta a Ifá.

A consulta a Ifá ocorre através dos Babalawôs. Para isso eles utilizam o sistema de 16 nozes de palma que são jogadas e conforme elas caem, formam uma figura. Cada figura é chamada de Odu (destino). Este procedimento é repetido diversas vezes e a resposta às perguntas é lida a partir das combinações dos Odu. Este sistema de consulta, altamente desenvolvido e complexo, era muito utilizado entre os iorubanos e seus vizinhos na África. Não era porém a única técnica de oráculo praticada.

Este sistema altamente complicado de oráculo iorubano através das 16 nozes de palma de consulta a Ifá parece que pouco ou nunca foi praticado no Brasil, embora o Candomblé brasileiro apoie-se muito na consulta. Aqui se impuseram outros métodos de consulta mais fáceis de serem manipulados como por exemplo o jogo de búzios, onde a resposta não precisa ser lida a partir de uma complicada combinação de figuras, mas em um sistema dual de sim ou não, ou de uma combinação de 16 Odu.

Ifá permaneceu, pelo que tudo indica, uma figura poderosa no Candomblé apenas a nível teórico. A figura importante e poderosa de Ifá que se conhece dos Itans não corresponde à figura não tão importante no culto. Como figura sincrética, Ifá é identificado com todos os santos ou com São Francisco.

 

18º Oxalá

Oxalá é o mais importante e o mais poderoso dos Orixás, bem como o Orixá mais cultuado do Candomblé baiano. Ele também é conhecido por outras designações como Obatalá, Orixalá ou Orinxalá. Oxalá é o primeiro dos Orixás. A ele deu Olorum a tarefa de criar a terra com tudo o que nela existe. Água, terra e ar são associados a Oxalá, como elementos básicos dos quais surgiu a criação. Estes elementos estão sob o domínio de Oxalá. O Axé de Oxalá (a força dinâmica da água, da terra e do ar) é responsável por toda a criação. Por isso Oxalá domina a criação como um todo, a vida e a morte. Todas as criaturas estão sob a proteção e responsabilidade de Oxalá. Também os outros Orixás o reconhecem a sua primazia.

Obatalá é identificado com o céu. Ele incorpora a força criacional masculina; sua cor é o branco, a cor da vida e da morte. A maioria das características africanas de Oxalá foram conservadas no Brasil: seu papel na criação, a cor branca, sua posição de primazia. Da mesma forma foram conservados diversos Itans sobre Oxalá e igualmente tabus alimentares ou a proibição dos filhos de Oxalá de tomar bebidas alcoólicas, especialmente o vinho. Alguns aspectos do Obatalá africano são praticamente inexistentes no Brasil, como por exemplo a grande rivalidade entre Obatalá e Oduduwa (força criacional masculina e força criacional feminina). Parece que os dois aspectos acabaram sendo assumidos no Brasil pela figura de Oxalá.

Oxalá incorpora nos terreiros tanto na figura de um velho, alquebrado e doente (Oxalufã) como também numa figura jovem e viril (Oxaguiã). Nestas duas formas de manifestação de Oxalá, espelha-se novamente a sua responsabilidade pela vida, que é um contínuo ciclo de nascimento, envelhecimento e morte. Com Oxalá também são relacionadas as virtudes da sabedoria e do equilíbrio.

No Candomblé baiano, Oxalá é identificado sincreticamente com Jesus Cristo (especialmente com o Senhor do Bonfim), embora não se tenha transferido para Oxalá nenhum traço da pessoa histórica de Jesus. Esta identificação colaborou para reforçar no Brasil a posição de primazia de Oxalá sobre os outros Orixás bem como para o fato de que sexta-feira seja considerado o dia de Oxalá.

 

 

Última atualização em Sáb, 07 de Abril de 2018 21:29