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Volney Berkenbrock
Religiões Afro-brasileiras - Cap. 1 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Qua, 07 de Março de 2018 16:36

 

 

 

Capítulo 1.

A África: entre mitos e realidades

 

Não é possível pensar a realidade e a existência do Candomblé, bem como de nenhuma das religiões afro-brasileiras sem ter presente o pano de fundo da história da escravização. Estas religiões não se estabeleceram e estruturaram no solo brasileiro por um processo missionário ou de migração voluntária. Vieram para o país a reboque do sistema escravocrata. Por isso, nos capítulos primeiro e segundo ocupar-nos-emos justamente com a problemática da escravização, no tocante à sua origem (a África) e sua passagem para o Brasil e sua instalação nestas terras, sem a preocupação, porém de fazer um estudo detalhado sobre o tema. Nosso foco e intento será dar uma visão geral da problemática e com isso colocar o pano de fundo histórico do surgimento das religiões afro-brasileiras.

Esta questão histórica é de importância decisiva para o entendimento do desenvolvimento destas religiões. Na história da escravização no Brasil não pode ser esquecido de forma alguma o papel (negativo e comprometido) desempenhado pelo Cristianismo, sobretudo pela Igreja Católica. Por isso, o papel histórico da Igreja Católica na questão do comércio de escravizados entre a África e o Brasil também será objeto de análise nestes capítulos.

Para poder situar historicamente a escravização e seu desenvolvimento entre o continente africano e o Brasil, e sobretudo, perceber algo das culturas e ideias religiosas daquele continente que para este país vieram, será necessário focar primeiro o local de origem dos escravizados e – em linhas gerais – apresentar um panorama sucinto disto que chamamos simplesmente África.

A origem da própria palavra África não nos é tão clara. Para isto existem diversas respostas e hipóteses. A denominação mais antiga que temos deste espaço geográfico – embora denominasse o que hoje chamaríamos apenas Norte da África – é dos romanos, que chamavam esta região de Africorum Terra. País/terra dos afri (plural de afer). Assim chamavam os romanos a província com capital na cidade de Cartago (hoje na Tunísia). Difícil é dizer a origem o termo afer. (a) Há a possibilidade de derivá-la da palavra fenícia afar (pó). Esta hipótese remonta aos fenícios, fundadores da cidade de Cartago. Outra possibilidade é derivar a palavra do nome de povos nômades que vagavam pelo norte deste continente, denominados Afri. Estas duas possibilidades parecem ter origem no termo afar (pó) designando tanto o fenômeno (certamente visto pelos romanos) do pó trazido do Saara que chega até à Europa, podendo por extensão ser aplicado ao povo que por ali vagava, chamando-os de empoeirados. (b) Uma seguinte possibilidade é derivar a palavra África do termo latino apricare, que significa aquecer ao sol ou estar ao sol. (c) Há ainda a outra possibilidade, a de ver a palavra África derivada de a-frigus, não-frio. Ou se pode pensar a origem palavra ligando alguns destes significados e designando povo ou região aquecida pelo sol ou região não-fria.

Do ponto de vista histórico e cultural, a África é o campo de origem e o Brasil o campo de desenvolvimento das religiões afro-brasileiras. Religiões africanas formam a base, a partir da qual se desenvolveram estas religiões no Brasil. Este desenvolvimento posterior é influenciado por diversos fatores, tanto a influência de outras religiões (sobretudo Cristianismo, religiões dos indígenas, Espiritismo), como influências contextuais (situação de escravização, proibição da prática de religiões africanas, falta de pessoas iniciadas/formadas, etc.). Apesar de todas estas influências e situações, as tradições e religiões africanas são ainda até hoje fonte para estas religiões no Brasil. Considerações sobre religiões afro-brasileiras exigem sempre este retorno ao pano de fundo africano.

Há um grande desconhecimento geral nosso sobre a África:

- Geografia física

- Geografia humana

- Culturas

- História

- Política

- Economia...

Este retorno é, no entanto dificultado por diversos fatores. Uma primeira dificuldade é a própria utilização do conceito África como uma unidade, pois apenas visto de fora representa este continente uma unidade. Vista mais de perto, a África é um conjunto de muitos povos, culturas, línguas e – o que é relevante nesta reflexão – muitas religiões. Somente na África negra são mais de mil diferentes grupos étnicos com suas respectivas religiões. Quais destas religiões e em que medida tiveram alguma influência na formação das religiões afro-brasileiras, isto não se consegue mais detectar com precisão. Outra dificuldade é a questão do local e época da escravização. Os dados sobre época e origem dos escravizados trazidos para o Brasil não são assim tão fartos ou claros. Onde se deveria, pois fazer este retorno à origem?

O trafico de escravizados durou mais de 300 anos. Neste período houve também modificações nas religiões na África, tanto pelo contato com o Cristianismo e o processo de cristianização e pelo contato com o Islã e a islamização, bem como pelas mudanças na geografia populacional ocasionadas pelo próprio comércio de escravizados. Temos que ter presente que o processo de comercialização de escravizados modificou profundamente a geografia humana de boa parte da África.

Outra dificuldade são as religiões mesmas, que não são religiões homogêneas, mas sim grupos de religiões, com pontos em comum e com variações. "As tradições religiosas que variam de povo para povo, não são uniformes mesmo em um único povo" (KOCH-WESER, 28). E além do mais, trata-se de tradições que se mantêm oralmente e não através de escritos. Muitas destas tradições são passadas adiante apenas para o círculo de iniciados. Isto se refere especialmente a muitos ritos, dos quais apenas iniciados podem participar, ou apenas pessoas que detêm uma determinada função no culto. O caráter do segredo em muitas práticas religiosas tem um papel importante.

Outras dificuldades poderiam ser aqui elencadas, mas este trabalho não pretende falar das dificuldades ou daquilo que é impossível, mas exatamente o contrário: observar, analisar, valorizar aquilo que é possível. Que muitas questões permanecerão em aberto, já se pode prever.

Quantas religiões africanas chegaram ao Brasil através de escravizados é incerto. As religiões que aqui chegaram precisam, porém ser analisadas no contexto das demais religiões africanas (mais especificamente subsaarianas), que apesar das muitas variações, apresentam também algumas características em comum, características estas que podem ser quase todas encontradas novamente nas religiões afro-brasileiras. Estas características não são exclusivas das religiões de origem africana, mas de uma forma simplificada poderíamos apresentar como características comuns os seguintes aspectos:

a) A religião diz respeito mais à sociedade que ao indivíduo. Todas as esferas da vida da sociedade são abarcadas pela religião. Uma separação entre parte sagrada e parte profana da vida soa como algo estranho, quando não inconcebível. A religião abrange o todo e tudo tem um e seu sentido dentro da religião. Ela é a origem de sentido para a ordem como um todo. Nesta compreensão, a separação entre uma organização laica da sociedade e a organização religiosa da mesma não é conhecida. Isto não significa dizer que a estrutura hierárquica religiosa seja a mesma que a estrutura hierárquica política, mas as duas estão implicadas numa compreensão religiosa do mundo. É preciso dizer aqui também que a maioria das línguas africanas tradicionais não tem uma palavra originariamente própria para designar religião. Os elementos que chamaríamos de religiosos transpassam todos os aspectos da vida e da organização social, de tal forma que não se pode separar ou retirar os elementos religiosos de elementos sociais, de elementos políticos. O indivíduo está inserido dentro desta ordem comum e seu papel religioso é uma derivação de seu papel na ordem comum e não fruto de uma escolha ou decisão individualizada.

b) A fé num ser supremo (uma divindade) é outro elemento comum nas religões tradicionais africanas, que é caracterizado de formas muito diversas. Em alguns povos dirige-se culto intenso a este ser e entende-se que ele esteja próximo do humano e interfere na vida das pessoas. Para outros povos este ser supremo é apresentado como distante das pessoas e da sociedade. Sua existência e importância não são negadas, mas a ele não se presta culto. Uma interferência deste ser distante na vida da sociedade ou em sua ordem não é esperada. Ele é visto, via de regra, em ligação com outra dimensão da existência (céu, além), que aquela na qual a vida humana e da sociedade acontecem (terra, aquém). A este ser supremo também é atribuída a criação, seja de forma direta, seja de forma indireta, por exemplo através da distribuição de forças ou tarefas criacionais. Ele também é visto como juiz supremo, embora a maioria dos povos africanos não tenha presente a ideia de castigos divinos após a morte. Erros são castigados nesta vida. Outra ideia que aparece junto à compreensão de um Deus distante ou não-atuante é a de uma figura que tem a função de princípio ou possibilitador (originador) da existência. Esta figura estaria por detrás de toda realidade e sem ela nada teria tido a possibilidade de existir. Isto entendido como uma função permanente. Ao mesmo tempo, esta figura não é vista como atuante no drama da existência, no dia a dia. E justamente por isto não é objeto de devoção e culto. A constatação da existência deste tipo de figura em compreensões religiosas de povos africanos levou antropólogos a identificarem este ser com a ideia de deus otiosus, expressão criada para designar a figura de uma divindade suprema, colocada às vezes teoricamente acima de outras divindades, mas que não é vista como interventora na realidade do ser humano. Esta identificação é talvez equivocada ao ser aplicada à compreensão de divindade não-interventora em povos africanos. Há compreensões de seres supremos únicos (Deus único?), mas que podem ter figuras/seres (divindades subalternas) que executam tarefas determinadas (e exercem poder sobre questões específicas, seja de lugares geográficos, seja de atitudes ou fenômenos); ou então figuras de divindades únicas (e supremas) sobre questões específicas (a divindade da fertilidade, das plantações, etc.).

Para Khapoya (p. 75-76), se pode perceber quatro níveis distintos com os quais os africanos ligam a figura de uma divindade:

(1º) Primeiramente o nível da natureza e do seu funcionamento. Ou seja, a ideia de divindade que rege o funcionamento das coisas, do tempo, das chuvas, do crescimento, etc. (uma espécie de Deus das chamadas pela ciência de leis da natureza).

 (2º) Em segundo lugar Deus estaria ligado a algum código moral ou de conduta, com permissões e proibições. A obediência a estas leis ou códigos divinos trazem harmonia e paz à sociedade. Na maioria das sociedades, o conhecimento destas leis de conduta são entendidas como ligadas a pessoas (homens sábios) que as anunciam, as revelam, as repassam de geração a geração e que decifrariam o que é certo e o que não é, o que é justo e o que é injusto. Mas a fonte da lei seria a divindade.

(3º) Um terceiro nível presente da divindade é o das instituições ou estruturas religiosas, os ritos, os templos, as comunidades com as quais a divindade também se acha ligada. A função destas instituições é basicamente aconselhar as pessoas a viverem suas vidas conforme a divindade quer. Têm elas uma função regradora de punições ou recompensas. Há uma série quase infindável de tipo de organizações, templos, ritos, comunidades. Sua razão de ser é, entretanto sempre atribuída à divindade e sua função – para sermos weberianos – seria de regrar (racionalizar) a vida, a sociedade, o tempo, os sentidos das coisas.

(4º) Um quarto nível seria o místico, mágico, de poderes especiais a certas pessoas ou espíritos ou lugares para que operacionalizem ações extraordinárias, mas cuja fonte de poder é a divindade. Neste nível há comumente a compreensão de pessoas especializadas que possuem poderes místicos de ver (se comunicar) os mortos, receber premonições, prever eventos ou desastres, fazer milagres ou coisas maravilhosas... coisas que não são dadas a todos, pelo menos não no dia-a-dia.

Estes quatro níveis distintos podem ocorrer simultânea ou separadamente.

c) A crença numa existência após a morte – seja esta entendida como for – e, ligado a isto, o culto aos mortos é também patrimônio comum das religiões africanas. A noção sobre esta vida após a morte é muito variada. Os mortos são cultuados podem ser cultuados como indivíduos, bem como antepassados coletivos. Esta crença não inclui necessariamente a esperança numa realização final, numa vida feliz na eternidade ou coisa parecida. A condição da existência pós-morte não é entendida na maioria dos grupos tradicionais como recompensa ou castigo pela vida antes da morte, pois tanto recompensas como castigos são recebidos antes da morte. Com isso mostra-se uma outra característica marcante de muitas religiões africanas: uma forte ligação com o aquém. A existência é quase sempre existência imanente. Nesta existência é que se define e resolvem as questões.

d) Outra característica comum das religiões africanas é a crença na existência de espíritos. Estes são entendidos geralmente como seres ou forças intermediárias entre o ser superior e os seres humanos. As pessoas podem entrar em contato com eles e até manter um certo relacionamento com os espíritos ou estas foças intermediárias. Estes não são entendidos basicamente como sendo bons ou maus. Do ponto de vista da origem, se pode distinguir duas espécies de espíritos: os que existem como espírito desde todo o sempre, desde o início da existência e aqueles, dos quais se pensa que tiveram uma vida terrena e após a morte tornaram-se seres-espíritos. Assim há, por exemplo, mitos que falam da criação, onde determinados espíritos já estavam presentes, e há mitos que contam da vida humana nesta terra que tiveram espíritos antes de tomarem esta condição. A maioria dos africanos não entende estes seres-espíritos de forma racional-abstrata, mas sempre de uma maneira pessoal e personalizada. Em torno deles se criam narrativas, histórias, descrições, vontades, ações, gostos e desgostos. E como são entendidos de forma pessoal, se estabelece com eles também relações pessoais: de proximidade, de ameaça, de afeto e convivência. A dimensão da relação com os espíritos se torna naturalmente parte constitutiva da existência humana. Poder-se-ia inclusive falar em tipos de espíritos: há os ligados a lugares/territórios, há os que são ligados aos mortos, há os espíritos cósmicos (da lua, das estrelas), há os espíritos dos fenômenos terrestres (trovão, chuva) e os dos sentimentos humanos (justiça, amor) ou de acontecimentos humanos (do nascimento, da fertilidade, da morte). Ou seja, a questão da crença em espíritos (se é que o uso dessa palavra é correto!) é bastante ampla nas religiões tradicionais africanas.

e) Um quinto elemento bastante comum em religiões africanas é a fé nos ancestrais. Esta ideia une de certa forma as duas anteriores: crença numa existência após a morte e crença em espíritos. Outra compreensão digna de nota que forma o conceito de ancestralidade é a de que mortos e vivos continuam fazendo parte da mesma comunidade. Assim, os mortos continuam a residir na comunidade, fazem parte das famílias e se entende que continuam envolvidos ativamente no destino dos vivos. Mais que isto, os espíritos dos mortos, ao serem entendidos como ancestrais, atribui-se a eles mais poderes que aos vivos. Desta forma eles são consultados, são chamados a ajudar nas necessidades, para fazer justiça ou vingança, são bons conselheiros, velam pelo destino, etc. O conceito de ancestralidade por vezes é muito mais abrangente que a da relação entre vivos e mortos. E, sem dúvida, se distingue de uma simples ideia de culto aos antepassados. Por detrás dele pode estar uma interessante cosmovisão filosófica diversa da tradição ocidental que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Assim a existência é entendida como um continuum da vida, onde as existências individuais são apenas um elo na corrente da totalidade. A existência individual não é, pois algo independente ou autônomo, ela é a manifestação atual (o fenômeno) da existência como um todo. Uma pessoa viva agora é a presencialização (ou presentificação) e a continuidade de todos os que antes dele já viveram. É uma compreensão filosófica interessante sobre o todo: ele não é a soma de indivíduos, mas os indivíduos são elos dentro de um todo. Isto traz diversas consequências: o indivíduo tem uma grande responsabilidade perante os ancestrais; cada pessoa é o agora de toda a existência, cada pessoa carrega consigo toda a existência anterior e – consequentemente – carrega a responsabilidade também de passa-la adiante. Da ideia do continuum da existência também advém a compreensão de que os atos não são necessariamente vistos como algo ligado a um indivíduo ou somente a alguma existência individualizada. Pode ocorrer que descendentes sejam levados a cumprir com certas obrigações assumidas pelos ancestrais, fazer determinadas coisas que eles deveriam ter feito, reparar algum erro cometido por algum ancestral ou mesmo ser beneficiado por algo que ancestrais tenham realizado.

Também há de se mencionar que entre os escravizados trazidos ao Brasil havia muçulmanos. Estes muçulmanos eram negros ou mestiços de negros e hamitas, que haviam sido islamizados antes da deportação e escravização. Eram pois povos originariamente não muçulmanos, cujas religiões originárias não haviam sido esquecidas com a islamização, tendo-se formado um sincretismo entre fé islâmica e religiões tradicionais. Este sincretismo é que foi trazido por escravizados ao Brasil. Por diversos motivos, o Islamismo, como comunidade de fé, trazido ao Brasil pelos escravizados, não teve uma continuidade institucional. Desta forma não iremos tratar aqui mais profundamente do assunto.

Esta África onde certas compreensões religiosas são comuns – e algumas delas foram acima descritas, não é um mundo estático. Há toda uma dinâmica intercultural africana que nos é somente em parte conhecida antes da colonização europeia. Mas o que nos é conhecido mostra claramente que não se pode falar simplesmente de africanos. Trata-se de povos diferentes que foram ocupando o continente em sucessivos períodos. Ocupações estas que não necessariamente foram pacíficas: há também muitos movimentos de invasão e expulsão.

Papel importe nesta história desempenham os chamados bantos (embora esta denominação não seja muito correta, dado que banto mais apropriadamente a matriz linguística), um grupo cultural que parece ter origem na região subsaariana das grandes florestas (mais ou menos onde hoje é a Nigéria), onde por volta do segundo século antes da contagem comum surgiu a cultura Nok, que se utilizava de utensílios diversos, dominando a cultura do ferro. Isto deu a este grupo uma vantagem muito grande no confronto com seus vizinhos, cujos territórios começam a conquistar. No século segundo depois de nossa era já teriam chegado estes povos no oceano índico, dominando assim a vasta área subsaariana de leste a oeste, passando pelos grandes lagos. Os povos encontrados pela frente, ainda na idade da pedra, não tinham condições de fazer frente aos bantos. Dominavam eles não só o ferro, a fabricação de armas e as estratégias guerreiras, mas também a criação do gado e o cultivo agrícola. Assim, lá pelo quinto século da nossa era os bantos vão se expandindo ao sul, vindo a conquistar grande parte do continente. Quando da conquista europeia da África subsaariana, praticamente mil anos depois da grande expansão dos bantos, estes povos já se encontravam em condições muito diversas, tendo sido criadas muitas tradições culturais distintas. Mas talvez esta presença banto em grande parte do continente africano subsaariano seja uma das explicações plausível para uma série de elementos em comum nos diversos povos e culturas (inclusive na questão religiosa vista anteriormente).

Mas é desta África já muito diversificada em grupos linguísticos, religiosos, culturais, de costumes e organizações sociais que são trazidos escravizados ao Brasil, tema que iremos focar logo a seguir. Antes de passar a este tema, ainda uma observação sobre o conceito de africanos e outra sobre o desenvolvimento do conceito África fora do continente. A denominação africanos surgiu a partir de fora. Não são os habitantes deste vasto continente que irão se autodefinir como africanos. A expressão surge em nosso meio, sobretudo em decorrência da escravização e passa a designar as pessoas desta origem geográfica. Assim, foram denominados africanos primeiramente quem estava fora da África (geográfica). Só depois esta designação é utilizada para designar os que moram no continente. Ou seja, há uma espécie de migração do conceito africanos de fora para dentro da África. Em que medida os habitantes deste vasto e diversificado continente se auto intitulam africanos, já é uma outra questão.

E, ligada a isto, outra questão mais complexa ainda é imaginar que os africanos se identifiquem como africanos, ou seja, que os que habitam este território tenham um sentimento de identidade comum. Este parece ser claramente um sentimento posterior e que estaria somente aos poucos sendo uma realidade – se é que já o seja.

Ligado ao fato de que a designação africanos é algo que surge fora do ambiente geográfico do continente África, temos que levar em consideração também que surge fora do ambiente geográfico África um imaginário do que seja África. Estou aqui querendo apontar uma espécie de mitificação do conceito África, surgido igualmente fora do espaço geográfico África. Assim, por exemplo, nas falas no contexto das religiões afro-brasileiras, quando se cita África, no mais das vezes se está fazendo referência a uma África miticamente construída e à qual se atribuem uma série de elementos que não estão necessariamente ligados ao espaço geográfico África. Neste linguajar, África é a terra os ancestrais, o mundo da origem, o mundo legitimador (“na África se faz assim”), o mundo que está em ordem (uma espécie de “mito da pureza original”), um mundo do qual se orgulha e sobre o qual se criam uma série de metanarrativas.

Todos estes imaginários (religiosos, culturais, organizacionais, de valores, de costumes, etc.) não são necessariamente co-extensivos à África geográfica, com sua situação social, política, econômica, etc. Há ali claramente um desnível de discurso. Passemos, pois a olhar mais de perto como pessoas daquele continente chegaram ao Brasil, ligando assim as nossas histórias.

 

Referências bibliográficas

KHAPOYA, Vincent B. A Experiência Africana. Petrópolis: Vozes 2015.

KOCH-WESER, Maritta R. M. Die Yoruba-Religion in Brasilien. Bonn, 1976.

Última atualização em Qua, 07 de Março de 2018 16:41