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Volney Berkenbrock
Historia das Religiões - II PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Sex, 01 de Setembro de 2017 23:47

3. HISTÓRIA DE RELIGIÕES ESCOLHIDAS

 

3.1 O Hinduísmo

 

Observação Prévia.

Hinduísmo não designa propriamente uma única religião. O termo Hinduísmo foi cunhado pelos ingleses no século XIX a partir de duas premissas falsas: a) Acreditava-se que a palavra hindu designasse membros de uma religião e b) imaginava-se que os indianos fossem todos adeptos desta religião, quando não eram adeptos de alguma religião conhecida (cristão, judeu, islã...). A palavra hindu provem, pois do grande Rio Indus, que deu o nome aos habitantes do país (boa parte deste rio fica hoje no território paquistanês, país que constituía à época – com Bangladesh e Índia – um único território). Esta designação “Hinduísmo” causa até hoje confusão por ser entendida como sendo uma única religião. Na verdade é um nome coletivo para indicar um grupo de religiões, aparentadas, mas diferentes entre si, que surgiram na região sul-asiática (Índia, Paquistão e Bangladesh). Estas religiões têm diferentes compreensões de Deus, diferentes escrituras e diferentes práticas rituais. Mas ao mesmo tempo não são totalmente díspares entre si, de modo que também há pontos de identificação. O mais correto – e é o que faremos aqui – é chamar pois de tradições religiosas hinduístas.

 

A. Tradições religiosas hinduístas

 

1º - Religião da cultura hindu pré-ariana

Esta cultura teve seu auge cerca 2300 a 1750 a.c.c. (= antes da contagem comum). Pouco se sabe sobre a religião da cultura hindu primitiva. Achados arqueológicos dão conta de elementos provavelmente religiosos que sobreviveram mais tarde nas outras tradições religiosas, como divindades árvores, divindades acerca de animais selvagens. Há indícios de locais construídos/dispostos para fins provavelmente rituais (abluções rituais?). Não há indícios, porém de templos nesta religião. Dúbia é a interpretação de pedras duplas (símbolo fálico sustentado por uma pedra anular [vulva?]) e das estatuetas femininas de argila (deusas-mães?). No último século, descobertas arqueológicas na região estão achando vestígios que apontam para uma cultura bastante desenvolvida na região, chamada de cultura Mohenjo Daro. Esta possuía técnicas de construção de casas e ruas, bem como amplo domínio sobre confecção de peças cerâmicas, joias e armas.

 

2º A invasão indo-europeia (arianos)

A mais antiga religião da Índia documentada é a védica, também chamada por vezes de Vedismo. Entrou na Índia introduzida por povos seminômades entre 1.700 e 1.200 a.c.c. A entrada destes povos na Índia está ligada aos grandes deslocamentos dos povos indo-europeus. Este fenômeno é um dos mais interessantes e longos da história de deslocamentos de povos da humanidade. Começa por cerca de 2.300 a.c.c. Aos poucos estes povos vão tomando conta de todo o sul da Europa, conquistam a Grécia, a Itália, a Pérsia. Alguns séculos mais tarde se expandem para o Oriente estabelecendo-se na Índia. Também conquistam a Europa Central e Ocidental.

Este processo de expansão dos povos indo-europeus só terminou – aparentemente – nos séculos XIX e XX, com as grandes migrações para as Américas e a Oceania. A expansão dava-se geralmente por migração, conquista de novos territórios, submissão, seguida de assimilação dos habitantes. É o maior fenômeno de expansão de cultura e língua na história da humanidade. Há diversas hipóteses sobre a origem destes povos. “Concorda-se hoje em localizar o centro de irradiação dos indo-europeus nas regiões ao norte do mar Negro, entre os Cárpatos e o Cáucaso”[1]. Sobretudo o fato de um vocabulário comum em muitas raízes de palavras é que determinou a hipótese de uma origem comum para muitos povos[2]. O nome indo-europeu é, pois uma nomenclatura genérica para designar estes povos de origem comum. Também se usa o nome de cultura Kurgan, para denominar a cultura primeira que deu origem aos indo-europeus[3]. Neste processo de expansão, que durou muitos séculos, os povos indo-europeus, foram também assimilando valores e características dos povos conquistados. Assim foram incorporando técnicas agrícolas, criação de animais, uso de metais e o uso da escrita. Pelo estudo da linguística (uso de nomes diferentes para objetos comuns) percebe-se a incorporação de elementos não-originários. De sua forma primeira (comum) de vida, pode-se dizer com quase toda a certeza que eram povos seminômades (com economia apoiada, sobretudo na atividade pastoril, mas sem dispensar a agricultura), com estrutura social patriarcal, com gosto pela organização militar, tendo em vista, sobretudo as conquistas.

Os dados arqueológicos da ‘cultura kurgan’ confirmam vários elementos já conhecidos, por exemplo, que possuíam importantes tropas de cavalos (as ossadas de cavalos representam em média 70 a 80% das dos animais domésticos encontrados nos sítios de aldeias kurgan) e que, a partir do início do III milênio, utilizavam veículos com rodas. Os sítios kurgan podem ser classificados em duas categorias bem distintas: cidades fortificadas em alturas de difícil acesso e com casas sólidas com várias salas de grandes dimensões; aldeias constituídas por modestas cabanas semi-subterrâneas. Essa estrutura social diversa revelada pela arqueologia é uma prova evidente da existência de uma poderosa aristocracia guerreira que comandava uma massa de agricultores-criadores obrigados a nutri-la com seus trabalhos. A estrutura da sociedade-kurgan parece refletir-se também nos ritos funerários: o luxo de alguns túmulos pertencentes, sem dúvida, a guerreiros contrasta com a simplicidade das sepulturas dos trabalhadores, que eram enterrados frequentemente apenas com um pote e um instrumento ou até mesmo sem objeto algum. Os túmulos reais, dos quais alguns continham quantidade impressionante de joias eram geralmente construídos fora dos cemitérios comunitários[4].

Dentro do fator linguístico comum, a nós interessa, sobretudo o vocabulário religioso. “Desde o começo dos estudos, reconheceu-se o radical indo-europeu deiwos, ‘céu’, nos termos que designam o ‘deus’ (lat. deus, sansc. deva, iran. div, lit. diewas, antigo germânico tivar) e nos nomes dos principais deuses: Dyaus, Zeus, Júpiter”[5]. A palavra que está na raiz de todos estes termos parece ser simplesmente céu, luz, ou dia sem nenhuma personificação, como aconteceu com as divindades distintas[6]. Com isso há uma primeira ideia muito importante ligada à divindade: a sua relação com o cosmos e especialmente à origem do cosmos. A esta ideia de deus está ligada geralmente à criação em dois sentidos: origem do cosmos e a paternidade. Se por um lado as divindades estão ligadas à cosmogonia e a cosmogênese, por outro, fatores terrestres (sobretudo ligados a fenômenos da natureza e da atividade humana passam a ser ligados à ideia de divindade em diversos povos indo-europeus: fenômenos da natureza (trovão, tempestade), o fogo (assim há divindades do fogo em diversos povos indo-europeus: deus védico Agni, latino Ignis, lituano ugnis, velho eslavo ogni), o culto ao sol, ao vento.           

Os indo-europeus tinham elaborado uma teologia e uma mitologia específicas. Praticavam sacrifícios e conheciam o valor mágico-religioso da palavra e do canto (*KAN). Possuíam concepções e rituais que lhes permitiam consagrar o espaço e ‘cosmizar’ os territórios em que se instalavam (essa encenação mítico-ritual é atestada na Índia antiga, em Roma e entre os celtas), os quais lhes permitiam, de mais a mais, renovar periodicamente o mundo (pelo combate ritual entre dois grupos de celebrantes, rito de que subsistem traços na Índia e no Irã). Julgava-se que os deuses estavam presentes às festividades, ao lado dos homens, e as suas oferendas eram queimadas. Os indo-europeus não erguiam santuários: muito provavelmente, o culto era celebrado num espaço consagrado, ao ar livre. Havia dois tipos de culto: os cultos domésticos e os cultos solenes. Os sacrifícios, parte constitutiva da religião, realizavam-se ou nas casas dos sacrificantes ou num terreno limítrofe. Outro sinal característico: a transmissão oral da tradição e, por ocasião do encontro com as civilizações do Oriente Próximo, a proibição de utilizar a escrita[7].

Os contatos, porém destes povos com aqueles em cujos territórios eles entravam foram modificando tradições e o vocabulário, de modo que nos muitos séculos que duraram as migrações, há muita modificação nas tradições. De modo geral, a religião védica é muito existencialista. O ser humano preocupa-se com sua situação atual, com como conseguir riquezas, sorte e um descendente masculino.

Uma estrutura de pensamento muito influenciou as culturas indo-europeias, sobretudo no tocante à religião: a ideia de uma divisão tripartida. Esta divisão - como apontou o pesquisador francês G. Dumézil - está ligada a três funções básicas da sociedade de então: os sacerdotes, os guerreiros e os criadores/agricultores. A estas três funções há três formas religiosas correspondentes: divindades ligadas à soberania mágica (poder religioso e jurídico), deuses ligados ao poder da guerra (poder militar e de comando) e divindades ligadas á fecundidade, às riquezas, à produção e sobrevivência. Há divindades principais ligadas a cada um dos três grupos que ocorrem em muitos povos. Assim na Índia antiga há as três classes sociais: os brâmanes (sacerdotes, sacrificadores), os xátrias (militares, defensores) e os vaixias (produtores) e cada uma destas classes está sob a égide de deuses principais: Varuna e Mitra, Indra, e os gêmeos Nâsatya. Esta estrutura pode ser encontrada no Irã, entre os hititas, no Cáucaso ou entre os celtas que dividiam a sociedade entre os druidas (sacerdotes, juristas), os militares e os bo airig (airig = livres, bó = possuidores de vacas).

A penetração de povos indo-europeus na Índia foi um processo que demorou diversos séculos, tendo sido iniciada – segundo as estimativas – em torno do ano 1600 a.c.c. Estes se autodenominavam aryas, os arianos, que quer dizer “(pessoas) nobres”, “gente nobre” (de airya em avéstico ou arya no sânscrito). Outras interpretações entendem que a palavra vem de “aqueles que pertencem aos fiéis”, ou seja, tratar-se-ia de alguma denominação religiosa. Há também quem derive o termo de “arar”, de modo que a palavra ariano estaria ligada à atividade agrícola.

A conquista da Índia pelos arianos aconteceu em três etapas, tendo cada uma delas durado séculos e estão elas mais ou menos relacionadas com as três regiões geográficas nas quais a Índia está dividida: em um primeiro período, que vai até lá pelo ano 1.000 a.C., teriam os arianos se estabelecido na região chamada Punjab (terra das cinco torrentes), em torno do rio Indu no noroeste da Índia; em uma segunda etapa, que teria durado também em torno de quinhentos anos e que teria sido coberta de constantes lutas tanto contra os habitantes autóctones quanto de clãs arianos entre si, a ocupação teria se estendido mais ao oriente, em torno do Ganges, que teria se tornado a principal região de permanência; num terceiro período, a partir de mais ou menos 500 a.C., a parte sul da Índia, o planalto de Decã, teria sido penetrado aos poucos pela cultura ariana, embora esta região tenha conservado até hoje muitos traços da cultura dos primeiros habitantes, os chamados drávidas, especialmente um grupo de língua dravídica[8].

Apesar de a penetração destes povos na Índia não ter sido pacífica, houve desde o início uma mescla com os habitantes locais. Os arianos não conheciam a escrita e nem a habitação em cidades (seminômades).  Eram politeístas e o culto centrava-se no sacrifício aos deuses. Com o passar dos anos são divindades diferentes que estão no centro de atenções. Uma das divindades mais antigas que recebia o culto era Varuna, a divindade primordial, o rei universal. Há também indícios de lutas originárias entre deuses, o que demostra passagem de um culto a outro. Os deuses derrotados não desaparecem, mas não recebem mais culto. Para a manutenção da importância de um deus, o culto é, porém fundamental. O deus sem culto torna-se um “deus ocioso”.

 

3º A religião védica

Quando já do estabelecimento dos arianos na Índia, começou o processo de surgimento dos Vedas. A palavra Veda quer dizer conhecimento. Os Vedas são o corpus de escritos religiosos mais antigos que a humanidade conhece e se compõem de quatro escritos distintos, mas interdependentes. São considerados escritos de revelação e exerceram grande influência sobre todas as culturas religiosas posteriores na Índia. A religião neste período de formação dos Vedas é comumente chamada de vedismo. No conjunto de escritos védicos, há divindades que recebem mais destaque, o que leva a crer que eram as mais cultuadas quando da elaboração dos mesmos. Assim uma das divindades mais populares é Indra, o deus que derrota o dragão que retinha as águas no oco das montanhas.

O papel do fogo no culto era muito importante nos povos indo-europeus. Assim o deus Agni tem também um destaque especial. Agni é o deus do sacrifício (oferendas queimadas), da luz e da inteligência.

Uma terceira divindade importante no período védico é Soma, uma divindade ligada à fertilidade, mas também à bebida da “não-morte”.

O período védico é uma espécie de base para a formação religiosa posterior de toda a Índia. As obrigações religiosas do ser humano podem ser resumidas assim: estudo das escrituras e preceitos sacrificiais; oferecer sacrifícios aos deuses e manes; criar filhos homens para a eles poder transmitir a tradição religiosa. Cumpridos estes deveres, as dívidas perante os deuses estariam pagas. Com o passar do tempo (especialmente na primeira metade do 1o milênio a.c.c.) houve uma especialização do culto, sobretudo com os brâmanes, excluindo as camadas inferiores (não-arianos). Esta fase dominada por sacrifícios, rituais, etc. também se chama de Bramanismo.

Nesta fase começa a ocorrer uma grande revolução filosófico-religiosa na índia, o que levou ao desenvolvimento das ideias da reencarnação e da lei do carma. Com isso perdera a religião seu objetivo inicial de buscar a salvação junto aos deuses, visto que tudo passa a ser dominado pelo círculo da reencarnação. A ideia da reencarnação colocou em xeque o valor dos sacrifícios. O discernimento (cognição) é a fonte de salvação e a meta é a busca do Brahman, que é o substrato de tudo o que existe. O surgimento destas novas ideias religiosas dentro das tradições védicas, abriu o caminho para movimentos reformistas como o Budismo e o Jainismo. Alguns séculos antes de nossa era no Norte e no início de nossa era no Sul da Índia, a religião dos Vedas foi perdendo seu papel de destaque.

Assim descreve Störig[9] este período da passagem do tempo chamado védico para a grande revolução filosófico religiosa:

I. O período védico

É muito difícil dividir a história da filosofia da Índia em períodos claramente delimitados. O mesmo se pode dizer da história da Índia de um modo geral e isto está ligado a uma peculiaridade do espírito hindu que estava mais direcionado ao eterno que ao temporal e sua ordem e com isto desprezava o levar muito a sério e fixar exatamente os detalhes do decorrer temporal. Com isto não existe na Índia propriamente uma historiografia como a conhecemos, quer dizer, nenhuma anotação exata de datas como por exemplo se costumava fazer no antigo Egito. Do mesmo modo, o pensamento filosófico da Índia é como um oceano, que quando nele se entra, quase não se encontra pontos de orientação. Para a maioria das obras de filosofia da Índia não se consegue dizer com segurança o século em que surgiram. E contrariamente à Europa, onde todos os períodos e mudanças no desenvolvimento da filosofia estão claramente marcados por personalidades históricas, os pensadores individualmente na Índia estão escondidos quase que totalmente atrás de suas obras e pensamentos e, na maioria dos casos, são conhecidos pelo nome, mas não se sabe exatamente o contexto nem a data de suas vidas.

Mesmo assim é possível, pelo conhecimento que temos hoje, fazer uma divisão em diversos períodos principais, divisão esta que serve para o objetivo de nossa introdução. Isto lembrando que a pesquisa da história do pensamento hindu tem ainda muito em aberto e nem todas as obras hindus que lhe dizem respeito foram já traduzidas para línguas ocidentais.

O primeiro período principal, que pode ser datado de cerca de 1.500 a 500 a.C. é chamado de período védico. Este nome é derivado do conjunto de escritos aos quais devemos o conhecimento deste tempo e que são denominados pelo nome coletivo de veda, ou no plural, vedas. Não se trata no entanto de um livro, mas sim de toda uma literatura, posta por escrito em tempos muito diversos e por pessoas individualmente desconhecidas, cuja escrituração ocorreu porém neste tempo. Os vedas contêm entretanto idéias religiosas e míticas muito mais antigas que este tempo. “Veda” significa saber religioso, teológico, que no tempo antigo pode ser igualado à totalidade do conhecimento ao qual se dava valor. Na totalidade, os veda tem um volume de escritos seis vezes maior que o da Bíblia.

Pode-se distinguir quatro diferentes tipos de veda, sendo cada um individualmente também chamado de vedas:

Rigveda – o veda dos versos, do saber dos hinos de louvor,

Samaveda – o veda dos cânticos, do saber das canções,

Yayurveda – o veda das fórmulas sacrificiais,

Atyharvaveda – o veda de Atharvan, do saber das fórmulas mágicas.

Estes vedas são os manuais dos antigos sacerdotes hindus, nos quais estes conservaram os materiais necessários das ações religiosas sacrificiais como hinos, dizeres, fórmulas etc. E como em cada ação sacrificial se fazia necessária a atuação de quatro sacerdotes, o anunciador, o cantor, o sacerdote atuante e o sacrificador, existem quatro vedas, um para cada uma das funções sacerdotais.

Dentro de cada veda se pode distinguir quatro seções:

Mantras – hinos, fórmulas de orações,

Brahmanas – indicações para o uso correto destas fórmulas em orações, juramentos e sacrifícios,

Aranyakas – “textos da floresta”, textos para os eremitas que viviam na floresta,

Upanixades – “ensinamentos secretos”, do ponto de vista filosófico estes são os mais importantes.

Também é possível fazer outras subdivisões.

A estes escritos o fiel hindu atribui validade canônica, ou seja, eles são tidos como baseados em revelação divina e verdades intocáveis.

O primeiro período principal da filosofia hindu que recebe seu nome justamente do veda também é subdividido em três partes, conforme o tempo de surgimento de cada uma delas:

1o. O veda antigo ou o tempo dos hinos, em torno de 1.500 a 1.000 a.C.

2o. O tempo do sacrifício místico, em torno de 1.000 a 750 a.C.

3o. O tempo dos Upanixades, em torno de 750 a 500 a.C.

 

1. Cultura e religião no tempo dos hinos

Para a compreensão do desenvolvimento posterior é imprescindível uma certa idéia do pano de fundo histórico do período mais antigo conhecido da vida ariana. Os hinos do Rigveda, que é a parte mais antiga dos vedas e que forma um dos mais antigos testemunhos literários de toda a humanidade, transmitem uma imagem clara da vida e da imaginação religiosa dos indo-arianos daquele tempo, dado que sua expansão tinha atingido ainda somente a parte noroeste da Índia. Na época eles eram basicamente um povo guerreiro de agricultores e sobretudo de pastores, ainda sem qualquer cidade ou conhecimento de navegação marítima. Profissões simples como ferreiro, oleiro, marceneiro, tecelão já existiam. Sua compreensão religiosa é caracterizada por distinções ainda não muito claras de coisas que no nosso modo de pensar são óbvias como a diferenciação entre animado e inanimado, pessoas e coisas, espiritual e material. Os deuses mais antigos eram forças e elementos da natureza. Céu, terra, fogo, luz, vento, água são – de forma semelhante como em outros povos – personificados e vivem, falam, agem e sofrem o destino de forma semelhante às pessoas humanas.  O Rigveda contém hinos, louvores a estes deuses, como por exemplo a Agni, o deus do fogo, a Indra, o senhor sobre trovões e raios, a Vixnu, o deus-sol, e orações a estes deuses pela multiplicação dos rebanhos, boas colheitas e uma vida longa.

Os primeiros germes de pensamento filosófico aparecem neste contexto, onde se coloca a pergunta: há por detrás desta multiplicidade de deuses um fundamento último do mundo? Não teria talvez o mundo todo surgido a partir de um tal fundamento primeiro? A primeira condensação da idéia de unidade, que mais tarde vai se tornar o grande e dominante tema da filosofia hindu, aparece pois já neste tempo mais antigo.

Esta procura por um fundamento, que suporte o mundo e a partir do qual ele surge, aparece expressa de forma magistral em um hino criacional do Rigveda, que numa transmissão livre de Paul Deussen assim diz:

 

“Naquele tempo existia nem o não-ser, nem o ser,

Nem ainda o espaço, nem o céu por cima de tudo.-

Quem tinha o mundo em sua cabeça, quem o acolhia?

Onde estava o abismo profundo, onde estava o mar?

 

Naquele tempo não havia nem morte nem imortalidade ainda,

Não havia a noite e nem o dia havia ainda se manifestado.-

Soprava sem vento a originalidade

O Um, e fora ele nenhum outro existia.

 

De escuridão o mundo todo era coberto,

Um oceano sem luz, perdido na noite;-

Ali nascia, o que estava escondido em uma casca,

O Um impelido pela força incandescente.

 

Deste surgiu primeiramente,

Como semente do conhecimento, o amor;-

O ser deitou raízes no não-ser

Os sábios, perscrutando, os impulsos do coração.

 

Quando eles atravessaram sua linha de medida,

O que estava abaixo e o que estava acima?

Eram suportes de germinação, forças que se agitavam,

Auto-posicionados em baixo, tensionados em cima.

 

No entanto, a quem é dado perscrutar,

Quem captou de onde a criação surge?

Os deuses surgiram no aquém antes desta!

Quem pode dizer, de onde eles provêm?-

 

Ele, do qual a criação foi gerada,

Que sobre ela vela na mais alta luz celeste,

Ele que a fez ou não a fez,

Ele é que sabe – ou também ele não o sabe?”

 

Podemos ver neste poema, juntamente com uma profunda busca pelo fundamento do mundo, no final dele uma dúvida radical, dúvida esta que é característica do final do tempo dos hinos, a dúvida sobre os deuses. Os deuses estão “no aquém da criação”, proclama o poeta, ou seja, eles também são criados. Neste ponto temos exatamente o início da decadência da religião védica antiga, ou melhor, uma mudança decisiva.

Dúvida e insatisfação frente aos deuses transformam-se em aberto desprezo. Assim se diz:

 

“Faça um belo louvor a Indra como desafio,

Em verdade, se ele verdadeiramente é!

A propósito, diga a este e àquele: ‘Indra não é!’

Quem já o viu? Quem é este, para que se o louve?”

 

Com a decadência da fé nos deuses do antigo veda, perceptível neste exemplo e em outras passagens de forma ainda mais forte, e com o surgimento da idéia da unidade do todo está propício o tempo para o próximo passo do pensamento hindu, com o qual irá alcançar um ponto alto todo próprio.

 

2. O tempo do sacrifício místico – O surgimento do sistema de castas

No tempo em que os indo-arianos estenderam seu domínio para o oriente até o delta do Ganges e lá transformaram-se em uma classe dominante sobre a população de outras etnias, neste tempo formou-se aí uma estrutura social que depois se estendeu para toda a vida da Índia e tornou-se uma das características mais marcantes da Índia hinduísta (diferentemente da parte que mais tarde tornou-se muçulmana e que hoje forma o Paquistão e Bangladesh, países independentes) e a influencia até o nosso século: o sistema de castas e a posição de destaque da classe sacerdotal, os brâmanes.

A motivação para a formação das castas veio da necessidade de manter claramente separada a classe de domínio e alta classe ariana dos inúmeros povos autóctones subjugados, se quisessem se manter puros e não desaparecer entre eles pela miscigenação. Assim surgiu primeiramente a separação entre os arianos e os Shudras, como os subjugados foram chamados, termo advindo provavelmente do nome de uma das tribos; ou mais precisamente, não é que surgiu uma casta, mas sim a separação já existente tornou-se pela formação da casta uma separação duradoura e intransponível.

A esta separação por etnia – a antiga palavra indiana para casta, varna, significa cor e a palavra casta é de origem portuguesa (n.d.t.: casta significa, no caso, pura) – seguiu-se logo entre os arianos subdivisões em três castas principais.

Brâmanes = sacerdotes,

Kshátriyas = príncipes, reis ou guerreiros (que se pode comparar mais ou menos com nobres da idade média),

Vaishyas = livres (comerciantes, etc.)

Abaixo destes estavam os Shudras e mais abaixo ainda os parias ou excluídos, tribos autóctones não convertidas, prisioneiros de guerra e escravos, dos quais surgiram os chamados intocáveis, que até hoje representam um sério problema social e pelos quais Mahatma Gandhi lutou especialmente.

A partir da divisão inicial das castas, surgiu ao longo do tempo uma sempre maior subdivisão em inúmeras sub-castas hereditárias, que viviam fechadas entre si. Somente o avanço técnico europeu, com trens e trabalho em fábricas veio abalar este sistema.

No que tange ao desenvolvimento do pensamento, o que aqui nos interessa, é de especial importância a formação e consolidação da primazia da casta sacerdotal bramânica. No tempo antigo dos vedas, a posição de liderança na sociedade era exercida pela casta guerreira dos Kshátriyas. Com a passagem paulatina do tempo dos guerreiros conquistadores para uma ordem social pacífica, organizada, baseada na agricultura e indústria, a possibilidade do desenvolvimento pela oração e sacrifício, baseado em poderes sobrenaturais, foi ganhando cada vez mais importância aos olhos do povo. Acreditava-se que a prosperidade na colheita e com isso o bem-estar da população dependiam da vontade dos deuses. Porém só os brâmanes possuíam o conhecimento sobre a forma correta de lidar com os poderes divinos e este conhecimento eles guardavam cuidadosamente e o cercavam de segredos. Com maestria eles espalhavam e apoiavam a ideia de que qualquer pequeno desvio do ritual correto poderia por em perigo a sua eficácia e, ao invés de bênção, iria atrair grande prejuízo. Além disso com o passar do tempo e o distanciamento do espaço, este conhecimento sacerdotal das formas e fórmulas antigas das celebrações se revestia de uma certa obscura inteligibilidade e ordenação secreta. Os brâmanes, fora dos quais não havia nenhum poder espiritual, tornaram-se com isso mediadores indispensáveis em todas as atividades mais importantes da vida privada e pública. Na guerra e no acordo de paz, na sagração de reis, no nascimento, casamento ou morte, a bênção ou a maldição dependia da oferenda correta do sacrifício, conhecimento que eles dominavam. Além disso, eles possuíam também o monopólio sobre toda educação superior, que estava exclusivamente em suas mãos.

 Completamente diferente de situações similares no contexto europeu, como por exemplo no caso da hierarquia da Igreja Católica em nossa idade média, é a posição dos brâmanes, que nunca aspiraram ou exerceram um poder temporal como também nunca formaram uma organização fechada – uma espécie de Igreja – com um tipo de superior espiritual. Eles eram e permanecem sendo um grupo de indivíduos livres e de iguais direitos.

Como os brâmanes podiam suscitar por sua vontade o sucesso ou o fracasso de um sacrifício através de modificações no ritual percebidas somente por iniciados, entende-se que todo aquele que quisesse recorrer a um sacerdote para qualquer atividade, tinha que assegurar a sua simpatia através de honrarias, ricos serviços e presentes, o que, por sua vez, reforçava o poder dos brâmanes. Assim sendo, as anotações oriundas deste período, os chamados textos-bramana, referem-se principalmente e quase que exclusivamente a este conhecimento sacerdotal reservado em torno das oferendas e cerimoniais. Como fonte filosófica estes escritos podem ser usados apenas de maneira secundária. Certas observações ali contidas deixam porém entrever como as ideias religiosas e filosóficas – estas duas coisas são entendidas na Índia como uma unidade – haviam mudado. Aqui vamos nos ater somente à observação de que dois conceitos, que vão formar o ponto fulcral de todo o pensamento indiano posterior, começam a se formar aos poucos neste tempo e vão ser cada vez mais postos em primeiro plano no interesse filosófico: Brahman e Atman. É a estes dois conceitos que vamos nos dedicar mais detalhadamente nos próximos parágrafos.

 

3. O tempo dos Upanixades

Com o passar do tempo as coletâneas de fórmulas sacerdotais e os comentários aos brâmana, nos quais se percebe aliás uma certa falta de dinamismo e alienação, não mais puderam satisfazer o espírito de busca hindu. Videntes e ascetas das florestas do norte continuaram a pesquisar e a buscar e criaram os incomparáveis Upanixades, a respeito dos quais disse Schopenhauer: “Trata-se da leitura mais gratificante e mais elevada que pode existir neste mundo. Ela foi o consolo de minha vida e o será do meu morrer.”

Os Upanixades não são igualmente um sistema fechado; são pensamentos e ensinamentos de muitas pessoas. Ao todo existem mais de 100 Upanixades, de importância diversa.

A palavra Upanixade deriva de upa = perto e sad = sentar e significa assim o ensinamento de quem “senta perto (do mestre)”, portanto ensinamento secreto, destinado somente aos iniciados.

Aqui se deve chamar a atenção para o fato de que todo o pensamento filosófico hindu tem um certo caráter esotérico, ou seja, destinado a um círculo pequeno de iniciados. Em inúmeras passagens se encontra a instrução de que os tais pensamentos só devem ser passados aos discípulos mais próximos e queridos.

Os redatores dos Upanixades são em geral desconhecidos. Entre eles se sobressai uma mulher de nome Gargi e o grande Yagnavalkya, uma figura mítica, a respeito do qual se acredita que tenha realmente vivido, mesmo que não sejam dele todos os ensinamentos  a ele atribuídos nos Upanixades.

Segundo a lenda sobre sua vida, Yagnavalkya era um rico pai de família brâmane, que tinha duas mulheres, Maitreyi e Katyayana. Quando ele quis deixá-las para viver uma vida de pensador solitário na busca da verdade, Maitreyi pediu que a levasse consigo.

“Veja bem, Maitreyi – disse Yagnavalkya – eu estou decidido a deixar este país. Quero antes disso, porém, encontrar uma solução definitiva para ti e para Katyayana.”

Maitreyi retrucou: “Meu senhor, se toda a terra, com todas as suas riquezas me pertencesse, iria eu me tornar imortal por isso?”

“Não, não – disse Yagnavalkya – não existe nenhuma esperança de imortalidade através da riqueza.”

Então disse Maitreyi: “O que devo então fazer com estas coisas que não me fazem imortal? Ensina-me, senhor, o que sabes.”

Em toda a história da Índia, a mulher participou ativamente da busca da verdade e da vida filosófica.

O tom básico com Upanixades é um tom pessimista e com isto contrasta claramente com o tom dos hinos dos vedas antigos voltados para o aquém. É dito de um rei que teria abandonado seu reino e ido para as florestas a fim de desvendar os mistérios da existência. Depois de um longo tempo, aproximou-se dele um sábio, a quem o rei pediu que compartilhasse com ele o seu saber. Depois de muito titubear, falou o sábio: “Oh majestade! Neste corpo mal-cheiroso e sem conteúdo, composto de ossos, pele, tendões, medula, carne, esperma, sangue, muco, lágrimas, remela, excrementos, urina, bílis e flegma – como se pode ter nele somente alegria!

Neste corpo encrustrado de paixões, ódios, cobiças, medo, desalento, inveja, separação do que se ama, ligação ao que não se ama, fome, sede, velhice, morte, doença e coisas parecidas – como se pode ter nele somente alegria! Também vemos que este mundo é totalmente passageiro, como as mutucas, os mosquitos e semelhantes, assim também as ervas e árvores, que se levantam e de novo caem...

Existem também outras coisas – lagos que secam, montanhas que desmoronam, velas que se rasgam, terra que afunda... Num tempo, em que estas coisas aparecem, como se pode ter nele somente alegria! E além disso, quem nele está, tem que sempre novamente retornar!”

A ideia de que tudo o que diz respeito a esta vida é sofrimento – que aqui começa a aparecer – torna-se uma compreensão de base no pensamento hindu que nunca mais vai desaparecer. O que ocasionou esta mudança radical na atitude dos indo-arianos a respeito do aquém, atitude esta contrastante com a compreensão alegre e positiva dos tempos iniciais, sobre isto se pode fazer apenas conjecturas. A influência do clima tropical que causa abatimento pode ter tido um grande papel. Há também que se considerar o fato de se poder observar que tanto na vida individual, como no desenvolvimento de povos e culturas, acontece um processo de um maior engajamento nas coisas do aquém e de suas alegrias na juventude e em tempos iniciais, enquanto que no tempo de maturidade se começa sempre mais a observar as coisas como passageiras e duvidar do valor das coisas terrenas. E finalmente temos que reconhecer que todo pensamento superior, especialmente o filosófico, começa justamente quando a dúvida e o estar insatisfeito atingem o pensador, e o levam a não mais aceitar ingenuamente a totalidade das experiências do mundo que o cerca como algo dado, mas o incitam a perguntar por um mundo que está por detrás, que está além de tudo isto, ou seja, a busca pela verdade. Por último, a direção “mística” que toma o espírito hindu a partir de então, concentrado na força introspectiva do pensamento e da alma, levou também a uma certa desvalorização de tudo o que diz respeito aos sentidos externos.

Duas idéias filosóficas são o fio condutor mais importante dos Upanixades: a doutrina do Atman e Brahman e o pensamento da transmigração das almas e da salvação.

 

Atman e Brahman

Estes dois conceitos, que aparecem já no tempo mais antigo, ganham uma importância totalmente dominante nos Upanixades. Possivelmente as idéias ligadas a estes conceitos foram formadas e transmitidas inicialmente entre os Kshátriyas-guerreiros e não entre os Brâmanes-sacerdotes e somente mais tarde foram por estes assumidas.

Brahman, que significava inicialmente “oração”, “palavra mágica”, depois passou a significar “saber sagrado”, tornou-se, após um longo tempo de desenvolvimento passando inclusive por diversos significados intermediários, um conceito muito amplo: ele é o princípio criador universal genérico, a grande alma universal, que repousa sobre si mesma, a partir da qual tudo é gerado e na qual tudo repousa. Assim diz um texto antigo:

“Brahman estava deveras no início deste mundo. Ele mesmo criou os deuses. Depois de ter criado os deuses, colocou-os sobre os mundos...”

Ou:

 

“Brahman foi a madeira, a árvore,

da qual eles esculpiram terra e céu!

A vós, sábios, perscrutando em espírito, informo:

Em Brahman apóia-se ele e sustenta todo o universo!”

 

Como pôde uma palavra que inicialmente significava oração tornar-se um princípio tão amplo? (Quem, a propósito estuda história de idiomas, vai encontrar incontáveis exemplos desconcertantes de mudanças de significados de palavras.) Para se entender esta passagem deve-se ter em mente que a essência da oração está no fato de que a vontade individual do orante desemboca num divino supra-individual e de todo abrangente. E esta compreensão forma a ponte pela qual o sentido deste conceito do pensamento hindu pode se deslocar para dar na doutrina do “Brahman como base de todas as coisas.”

Igualmente o conceito Atman tem todo um longo desenvolvimento e transformação. Significando no início provavelmente “sopro”, “respiração”, acabou por tomar finalmente o conteúdo de: “ser”, “o próprio eu”, “o si mesmo”, no sentido de “o si mesmo em contraposição com aquilo que não é o si mesmo.” Atman é pois o núcleo mais íntimo de nosso eu, ao qual chegamos como ser humano quando abstraímos de nossa cápsula corporal e somamos o que resta de vital do eu (o que chamaríamos de “psique”), como o querer, o pensar, o sentir, o desejar. Quando fazemos isto, chegamos ao interior intocável de nosso ser, para o qual não temos outra palavra que não “o eu”, “o si mesmo” ou “a alma”, palavras estas que somente conseguem de forma aproximada apontar o conteúdo de Atman.

O passo decisivo, que foi feito nos Upanixades e em parte inclusive já anteriormente no desenvolvimento destes conceitos, consiste no reconhecimento de que Brahman e Atman são um, na equação Brahman = Atman. Com isto existe uma única verdadeira essência no mundo, que percebida a partir da totalidade do universo chama-se Brahman e reconhecida nos seres individuais chama-se Atman. O universo é Brahman; Brahman é porém Atman em nós. Temos aqui a base da compreensão religiosa indo-ariana, que claramente contrária às religiões de origem semita, como o Islã e o antigo Judaísmo, coloca: enquanto nestas Deus aparece como senhor e o ser humano como servidor e servo, o hindu acentua a identidade de essência de ambos.

Se o acesso à essência do mundo está em nosso próprio interior e só pode ser descoberta através de uma imersão nele, assim o conhecimento da realidade externa não tem nenhum valor para o sábio. O mundo das coisas do tempo e do espaço não é em si essência, não é Atman, mas sim miragem, véu, ilusão, é Maya, como diz a expressão hindu. O conhecimento destas coisas não é nenhum verdadeiro conhecimento, é um conhecimento aparente. Especialmente a multiplicidade de coisas aparentes é Maya. Pois na verdade é uma só coisa.

 

“Em espírito se deve perceber:

nada aqui é de forma alguma múltiplo!”

 

A partir dos Upanixades há a convicção de uma realidade espiritual que a tudo transpassa e a tudo igualmente engloba: a natureza, a vida, o corpo e o espírito. Não houve lá assim praticamente nenhum impulso para o desenvolvimento de ciências empíricas no sentido ocidental.

O Atman precisa ser conhecido, nele se conhece todo o universo. Assim afirmou Yagnavalkya na já citada conversa com sua esposa Maitreyi, que pedira por seu ensinamento:

“O si mesmo, deve-se deveras entender, deve-se meditar, oh Maitreyi; quem viu, ouviu, entendeu e reconheceu o si mesmo, deste todo o mundo saberá!”

Este pensamento profundo precisa ainda de alguns esclarecimentos. Supõe-se que ele não é captado a partir do estudo no sentido comum de entender – achamos que os Upanixades surgiram como uma doutrina secreta. “Não se chega ao Atman pelo estudo, nem através da genialidade ou de muitos livros... O Brahman deve renunciar ao estudo e tornar-se como uma criança... ele não deve procurar por muitas palavras, pois isto apenas cansa a língua.” (Katha-Upanixade)

A verdade não é acessível à razão, não pode ser posta em palavras, como também não é acessível a todos. E os escolhidos também só podem se aproximar dela depois de um longo caminho. Jejum, repouso, silêncio, extremo recolhimento e auto-disciplina, sob a subtração total da atenção e da vontade ao mundo exterior – estas são as precondições que qualificam o espírito a superar todas as aparências enganadoras de Maya e chegar ao núcleo do si mesmo, ao Atman. Despojamento de si mesmo e renúncia a todo o sucesso exterior e aos sentidos, assumir conscientemente esforços e sofrimentos, numa palavra a ascese, tem uma importância na Índia que pouco se vê em outros povos.

Este conhecimento só se alcança finalmente no decorrer de toda a vida humana. O candidato deve percorrer quatro estágios, cada um de cerca de 20 anos, para finalmente chegar a ele.

Este caminho começava como Brahmacarin aprendiz com o estudo dos vedas, sob a orientação de um professor por ele mesmo escolhido e em cuja casa ele morava; respeito, dedicação e sinceridade eram suas obrigações. Como o aprendizado ocorria oralmente e os alunos tinham que saber os textos sagrados de cor exatamente – durante séculos foram estes transmitidos somente desta maneira – a dedicação deve ter tido um papel certamente não desprezível.

Como Grihastha – pai da casa – vivia ele como homem maduro, fundava família, tinha filhos e filhas e os criava e cumpria seus deveres como membro da sociedade. No terceiro estágio, depois de seus filhos já serem adultos, recolhia-se ele, geralmente com sua mulher, para a solidão da floresta e iniciava como Vanaprastha seu desligamento do mundo e dedicação ao eterno.

Finalmente, em idade avançada poderia ele desfazer-se de todos os bens, deixar sua mulher, e tentar como esmoler andarilho e piedoso em total renúncia, como Sannyasi (literalmente “abandonador” do mundo) alcançar aquela medida de espiritualização e sabedoria que no fim o capacitaria a dissolver-se no divino Brahman.

Este estágio supremo era reservado somente aos membros da casta dos Brâmanes. As outras castas inferiores ficaram, via de regra, no estágio de pai da casa.

Temos que procurar entender esta estrutura de vida bramânica de quadro estágios como uma fantástica tentativa de harmonizar as necessidades da vida prática e social com a forte tendência na Índia ao abandono do mundo, à negação do mundo e à ascese, sob cuja hegemonia poderia estar em perigo a existência da própria sociedade. Sem dúvida, é uma grande sabedoria liberar o indivíduo para a total dedicação ao além somente em idade avançada, depois de ter cumprido suas obrigações como cidadão e pai de família. Por outro lado, através desta prática da liberação dos homens em idade avançada de seu engajamento nas coisas mundanas, se conseguia que as coisas da vida prática e pública estivessem nas mãos de homens que estavam no ponto alto de sua maturidade biológica. Não faz bem a um povo ser regido somente por anciãos!

 

Transmigração das almas e salvação

Passamos agora para o segundo pensamento básico dos Upanixades, como anunciado anteriormente, a doutrina da transmigração das almas e da salvação, doutrina esta que marcou e formou de maneira insubestimável a compreensão religiosa e filosófica do povo hindu desde aquele tempo até hoje.

O que será do ser humano após a sua morte?

“Então a sabedoria e as obras o tomam pela mão e suas experiências anteriores. – Como uma lagarta que atinge a ponta da folha, toma um novo começo e passa a si mesmo para o outro lado, assim a alma, depois de ter descartado o seu corpo e deixado a ignorância, toma um novo começo e passa a si mesmo para o outro lado. – Como um ourives retira a matéria prima de um quadro e desta molda uma nova, outra e mais bela forma, assim a alma depois de ter descartado o seu corpo e deixado a ignorância, cria uma outra, nova e mais bela forma, sejam estes pais... sejam estes deuses... ou outra existência... Da maneira como alguém existe desta ou daquela forma, como ele se comporta, como ele se modifica, assim irá ele depois nascer: quem fez o bem, irá nascer melhor, quem fez o mal, irá nascer pior, santo se torna por obras santas, mau por más.” Este é o conceito da transmigração das almas, como o formulou o famoso Yagnavalkya.

A compreensão de que conforme o desempenho nesta vida, se renascerá na nova em um degrau superior ou inferior, não era porém muito atrativa para aquele que na existência experimentava todo o sofrimento. Em consequência disto o esforço não era concentrado somente em conduzir uma vida boa para renascer num grau superior, mais muito mais em escapar deste círculo permanente e mutante de ter que morrer e renascer. Este é justamente o sentido do conceito hindu de salvação (Mokscha).

Como são as obras (o Karma) que formam a base para a nova existência e a determinam, assim o abster-se do fazer, o auto-despojamento, a superação da vontade de viver – a ascese – é precondição para a salvação. Somente isto não é porém ainda suficiente. A isto se junta saber, compreensão: somente quem conhece o não-passageiro terá parte na salvação. E saber não é outra coisa que a união com o Atman. Dele se diz: “Ele é minha alma, a ele, daqui, desta alma irei unir-me ao falecer.”

Como o Atman está em nós mesmos, não é necessário pois uma ida, senão somente o conhecimento disto. “Quem reconheceu: aham brahma asmi – eu sou Brahman – este não será salvo, este já está salvo; ele percebeu a ilusão da multiplicidade.” Assim falou Yagnavalkya: “Quem é sem exigência, livre de exigência, de exigência acalmada, é sua própria exigência, cujos espíritos de vida não saem, ele é Brahman e em Brahman cresce.” O saber é o poder salvador. A existência individual, tão cara a nós ocidentais, que a entendemos como imortal, não é conservada nesta forma de salvação, mas é dissolvida na grande alma universal. “Como as correntes fluentes no mar desaparecem, e perdem seus nomes e suas formas, assim caminha um homem sábio, livre de nome e de forma, para a sabedoria divina, que está acima de tudo.” (Mundaka-Upanixade)

 

Ao final do grande período de revolução religiosa, que dura diversos séculos (datado geralmente entre o anos 750 a 500 a.c.c), a Índia estava muito mudada do ponto de vista religioso. Por um lado havia novos sistemas religiosos que se distanciavam dos sistemas antigos – como o Budismo –, mesmo tendo se constituído a partir deles e, por outro lado, sistemas religiosos modificados constituídos a partir das tradições (e, sobretudo escritos) antigas. A estes vamos dedicar algumas linhas a seguir.

 

4º O Vishnuísmo (ou sistema religioso vaishnava)

Esta é uma religião que começa a tomar importância no norte da Índia sobretudo a partir dos séc. VI-II a.c.c. É o culto ao deus Vishnu, divindade já nomeada nos vedas, mas de pouca importância. Vishnu é o deus mantenedor. Na época dos Bramanes é identificado com o deus transcendental Narayana (o “filho do homem”), uma figura enigmática. Por isso pode ser considerada de certo modo uma religião monoteísta. Esta religião associou vários cultos populares, especialmente o culto a Krishna e outros a ele ligados, assumindo com isso a posição de Deus universal. A importância do Vishnuísmo aumentou consideravelmente nos séc. VI-VIII quando absorveu grande parte do culto indiano ao sol. Isto foi possível pelo fato de o Vishnu védico apresentar traços solares.

A figura de Vishnu é sempre a figura de um Deus onde prevalece os traços de bondade. O culto a Vishnu quer levar a pessoa a uma união com ele. Para seus veneradores, o deus único Vishnu é a fonte da qual emana o mundo, ela o conserva com sua atividade e o absorve a si ao final de cada etapa de existência do mundo. Após uma pausa na existência, o ciclo recomeça com uma nova emanação do mundo.

Nestes ciclos de existências, Vishnu pode também vir a se encarnar. Avatares são chamadas estas encarnações[10]. Nas diversas encarnações, Vishnu vai tomando figuras míticas que desempenham alguma tarefa determinada. Assim um dos primeiros mitos do avatar Vishnu é Matsya, que salva o mundo do dilúvio. Nas cinco primeiras encarnações segundo a mitologia tradicional, Vishnu toma a figura (avatar) de animais. Em outras encarnações toma a figura de heróis. Uma das encarnações mais importantes é a de Krishna (uma figura antiga ligada ao culto dos pastores), o que mostra a união de Vishnu com esta figura, já muito presente na religiosidade popular. À união a esta figura deve Vishnu grande parte de sua popularidade. Esta ideia de que o Deus Vishnu encarna-se (torna-se avatar) continua presente no seu culto e foi desenvolvido com o tempo. Assim há a interpretação de que Buda era um avatar da Vishnu ou então mais recentemente a compreensão de que Gandhi ou Cristo poderiam ser interpretados como avatares de Vishnu. É inclusive um costume na Índia dar a pessoas ilustres o título de avatar. Mesmo dividido em diversas correntes, em diversas linhas, com cultos diferentes, o Vishnuísmo é até hoje uma das mais importantes religiões hinduístas.

 

5º O Shivaísmo

O culto ao Deus Shiva é um culto predominantemente monoteísta, mas às vezes assume também posição dualista ou então de pluralidade de almas eternas. Shiva é cultuado como “o grande Deus” (Mahadeva), “o grande senhor” (Mahexa ou Mahexavara), “Monarca dos três mundos” (Trilokexvara) ou “Senhor do Universo” (Vixvanatha). Surgiu de uma divindade também mencionada nos Vedas (que não constitui o centro do culto), Rudra, com elementos provenientes de cultos populares pré-arianos. Nos próprios textos vedas aparecem diversas divindades que mais tarde são consideradas formas de aparição de Shiva. Em um texto upanisad lê-se a seguinte descrição para este Deus: “É Rudra, o Uno, - não há segundo - aquele que com suas forças de monarca governa este mundo. Detrás de todos os homens está ele, ele que cria todos os mundos, ele que os guarda e ao final dos tempos os absorve em si; ele, que é o princípio e fim dos deuses”.[11]

O deus védico Rudra era impetuoso, selvagem e perigoso. Seus títulos são “o que arrebata”, “o espantoso”, “o terrível”. Com esta denominação de “o terrível” (Bhairava) esta divindade aparece ainda hoje na Índia como a divindade que mata os seres humanos, que se alimenta de carne cru, como um demônio que habita nos lugares de cremação e bebe em crânios humanos. Ele pode destruir e detém o poder sobre doença e cura. Com isso ele é ao mesmo tempo o Deus criador e destruidor.

A denominação Shiva (o Bondoso) é um eufemismo para aplacar este deus. Como criador tem claramente um caráter sexual, apesar de que com o passar dos tempos o culto a este caráter de Shiva tenha sido dissimulado e estilizado. Neste caráter de criador, o culto a Shiva também está ligado ao culto da fertilidade, o que mostra sua ligação com alguma divindade originária da agricultura. Shiva assume o princípio masculino e feminino. O feminino manifesta-se como Shakti, tida às vezes como esposa de Shiva e tem um aspecto pacífico e outro destruidor. Esta figura feminina de Shiva aparece em muitas formas e formas contrapostas.

Uma terceira função de Shiva (ao lado de criador e destruidor) é a de asceta divino e invocado pelos ascetas. Nesta função ele difere muito das duas anteriores, o que nos leva a crer que esta função é uma sincretização com uma divindade pré-védica. O culto a Shiva e a meditação leva à superação das amarras (inserção na matéria) e a atingir a plenitude da consciência do Senhor. O aniquilamento das amarras (restrição do saber, incapacidade de ação...) - e com isso a destruição do mundo pela graça de Shiva - ocorre ao raiar a cognição salvífica que apaga a ignorância e liberta a alma do crente do ciclo repetitivo da existência neste mundo. Com o passar do tempo, o Shivaísmo absorveu diversos cultos originalmente independentes (culto à serpente, ao sol, divindades locais...).

O Shivaísmo desenvolveu-se em diversos ramos, sendo a ioga comum a diversos ramos, contribuindo assim para o seu desenvolvimento. Até hoje é uma das principais e mais populares religiões hinduístas (ao lado do Vishnuísmo).

 

6º O Shaktismo

Religião em torno da divindade feminina Shakti[12] (= força, capacidade): somente ela discerne, atua, cria, conserva e destrói o mundo. Ela é a soma de todas as forças de todos os deuses. Originou-se de religiões tribais. Desde o início de nossa era foi aos poucos integrado no Shivaísmo (como esposa de Shiva). Adquiriu importância, sobretudo no séc. VI e foi promovido pela classe dos nobres e guerreiros, que a veneravam como deusa da vitória contra os demônios e na guerra. No séc. X, o Shaktismo superou sua posição de subordinação e inverteu a situação. Sem Shakti os outros deuses (principalmente Shiva) são impotentes. Com isso os deuses passaram a depender dela. Integrou numerosos cultos regionais e divindades femininas. Além dos escritos sagrados que compartilha com o Shivaísmo, o Shaktismo tem também escritos próprios (surgidos no séc. X).

O culto inclui sacrifícios e prefere o ritual tântrico, que se caracteriza por magia verbal e simbolismo esotérico. Atualmente o culto a Shakti perdeu em importância, mas não desapareceu. Ela é venerada, sobretudo como deusa-mãe, como mulher amorosa e frágil ou como deusa que exige respeito e é cruel.

 

7º O Advaita-Vedanta

Fundado por Sankara (séc. VIII ou IX) à base de tradições hinduístas, diferenciou-se muito delas tornando-se religião autônoma, ou talvez melhor formulado, interpretação/filosofia religiosa autônoma. O mundo, inclusive dos deuses, é ilusório. A realidade máxima se atribui somente a Brahman, com o qual se identifica Atman, o si mesmo individual.

Partindo desta identificação, não há pluralidade de almas eternas. No momento em que o Atman chega à cognição suprema, ele some (é uma ilusão, maya), pois une-se (quer dizer, se percebe assim) a Brahman e isto é a salvação.

 

8º O Neo-Hinduísmo

Iniciou-se com um movimento reformista nos séc. XIX e XX e teve importância, sobretudo na luta pela independência. É religião classe alta urbana. É um movimento sincrético, que une tradições hinduístas e também elementos islâmicos e cristãos. Há diversos grupos, com características próprias, apoiando-se neste ou naquele ensinamento da tradição. Muitos grupos hinduístas que missionam no ocidente são neo-hinduístas e liderados por gurus.

 

B. Os escritos religiosos das tradições hinduístas

 

As tradições religiosas da Índia não podem ser consideradas “religiões do livro”, ou seja, religiões que têm um livro sagrado por base (como é o caso do Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). As tradições hinduístas têm, porém, uma série de textos de muita importância para a religião. Estes textos são de origens diversas. Têm em comum, no entanto o fato de terem sido em sua maioria tradições orais por muitos séculos, até terem sido postas por escrito. As tradições hinduístas nos legaram os textos religiosos mais antigos que conhecemos. A existência de muitos deles nos é conhecida apenas por serem aventados em outros escritos.

Os escritos sagrados hinduístas são classificados em dois tipos: os Sruti e os Smrti.

Sruti quer dizer literalmente audição. Os escritos Sruti são considerados emanação direta de Brahman (o Absoluto) e por isso, de certa maneira, textos revelados pelas divindades. Estes escritos têm mais autoridade religiosa e são mais antigos. Não são, porém os mais populares e por vezes conservam apenas uma autoridade religiosa distante. Em geral os escritos Sruti são grandes coleções de textos que desenvolvem as concepções religiosas dos arianos que chegaram à planície indo-gangética.

Dos Sruti fazem parte quatro categorias de textos: 1o os samhitâ (coletâneas) surgidas do século XV a X a.c.c. Estas coletâneas são chamadas comumente de Vedas, e são em número de quatro: o Rigveda, o Samaveda, o Yajurveda e o Atharvaveda. 2o os brahmana. São conjuntos de textos em prosa da época do bramanismo e têm por conteúdo descrições de sacrifícios. 3o Os âranyaka (textos das florestas). São textos com elementos mágicos. Sua utilização poderia ser perigosa, por isso seu estudo era feito fora da cidade ou aldeia (e daí chamados de textos das florestas). 4o Os upanisad. São textos que começaram a surgir ainda na época sacrificial (elaborados entre 800 e 300 a.c.c.) e por isso ainda marcados pela ideologia sacrificial, mas neles já se começa a expor ideias de uma mística especulativa, o que vai influenciar muito a tradições religiosas hinduístas posteriores.

Smrti que dizer ‘tradição confiada à memória’. Surgiram no início da era cristã. Não são discursos impessoais, como a maioria dos textos da categoria anterior, mas das divindades (como Vishnu, Krishna ou Shiva). Enquanto os Vedas são dominados mais pela ideia do sacrifício, os Smrti têm como temática o dharma, a ordem universal e os caminhos de salvação. Ali há direitos e deveres (textos meio jurídicos, meio escatológicos). Como Smrti são classificados muitos conjuntos de textos. Deste corpo de textos fazem parte as duas grandes epopeias da Índia: O Râmâyana e o Mahâbhârata. Dos Smrti também fazem parte os ûtra (ou sutra, aforismos básicos), e os purâna (Relatos Antigos – surgidos ao longo do primeiro milênio de nossa era) e trata de assuntos de toda espécie, centrados no culto a este ou aquele Deus. Há aí também os Mahâtmya, espécie de purâna dedicados aos deuses locais. Vejamos alguns elementos destes escritos:

 

1º Os Vedas: Escrituras Sagradas básicas das religiões hinduístas. Inicialmente eram reconhecidos três vedas (=saber, ou mais especificamente, saber religioso): o Rigveda, Samaveda e o Yajurveda. Mais tarde foi incluído o Atharvaveda, o 4o Veda. São coleções de textos religiosos originários dos árias emigrados para a Índia. A formação durou vários séculos.

a) O Rigveda (“Veda dos Versos”) é o mais antigo dos Vedas e estava já concluído no ano 1.000 a.c.c. Tem um grande valor literário pelo fato de ser também a obra literária poética mais antiga da família indo-européia que ficou preservada. O conteúdo deste escrito são 1028 hinos dedicados a diversas divindades. Estes hinos estão divididos em dez livros, dez ciclos de cânticos (10 mandalas), com um todo de mais de 10 mil estrofes. Por traz de sua compilação está o corpo de sacerdotes vedas. Muitos destes hinos pertenciam certamente à tradição oral de séculos. b) O Yajurveda (“Veda dos Rituais de Sacrifício” ou “Veda das Fórmulas”) contém uma compilação de fórmulas usadas nos diferentes ritos litúrgicos. c) O Samaveda (“Veda dos Cânticos” ou “Veda das Melodias”) é uma coletânea de hinos, quase todos advindos do Rigveda, apenas que musicados para serem cantados durante os sacrifícios e os rituais. d) O Atharvaveda (“Veda dos Mantras” ou “Veda dos sacerdotes mantras”) é o mais recente dos Vedas e só foi concluído a partir do séc. V a.c.c. Seu conteúdo são fórmulas mântricas (mágico-religiosas), juramentos que em sua grande parte foram conservados no meio do povo. Os vedas reúnem o saber dos brâmanes mais importantes que atuaram no ritual sacrifical védico. Eram ensinamentos orais antigos (de até mil anos?) que foram postos por escrito. Os textos contêm tanto hinos como fórmulas rituais (mantras). Os 4 Vedas são interdependentes. Estes escritos são aceitos por todas as tradições religiosas hinduístas que lhes atribuem grande valor e respeito. O acesso aos Vedas não é algo tão simples. Como se trata de coletâneas de escritos, não se pode imaginar que sejam livros vendidos simplesmente em livrarias. O acesso a eles é restrito a grupos de estudiosos que conseguem ler e interpretar suas passagens. Dos textos Sruti só a literatura upanishádica permanece viva, especialmente pelos comentários de Sankara (séc. VIII).

2º Os Upanishad: Escritos filosófico-religiosos surgidos entre os séc. VIII a IV a.c.c. São textos baseados nos Vedas (também chamados de Vedante = conclusões dos Vedas) e podem ser tidos quase que como uma espécie de posfácio aos Vedas. Eles são considerados textos oriundos da sruti (audição), ou seja, textos que foram ouvidos como revelação e depois postos por escrito.[13] Não há consenso no que tange ao número de Upanishad autênticos, sendo que as opiniões variam entre 108 e 250. Trata-se de escritos filosóficos e apresentam como que um resumo da reflexão filosófico-religiosa. Os Upanishad foram escritos, sobretudo na tradição do Advaita-Vedanta, segundo a qual pela cognição é possível chegar a unir o Atman (consciência individual) ao Brahman (consciência universal).

3º O Mahabharata: Trata-se de uma coletânea de textos religiosos da Índia, feitos em diversas épocas. São textos de estilos diferentes, em parte históricos, em parte poéticos, em parte épicos. É comum dividi-lo em 18 livros e a tradição o atribui às vezes à própria divindade Krishna. Estes textos do Mahabharata não são aceitos igualmente por todas as tradições como textos sagrados. São textos considerados smrti, quer dizer, contatos pela tradição. Gozam, porém de uma grande respeitabilidade. Sem dúvida um dos mais conhecidos e mais populares livro do Mahabharata é o Bhagavad Gita (= “Canção do divino mestre”, ou “Canto dos Bem-aventurados”). Trata-se de um poema épico de autor desconhecido, datado de ca. 200 a.c.c. É uma auto-revelação de Krishna como avatar de Vishnu. O livro narra uma batalha, na qual Arjuna é o condutor do carro de guerra. Ante suas dúvidas, Krishna o ilumina e mostra como deve portar-se na batalha. O Bhagavad-Gîtâ faz parte do Mahâbhârata, mas é editado geralmente como obra independente. “Apresenta-se sob a forma de uma determinada alocução que o condutor do carro dirige ao guerreiro Arjuna no momento em que se vai travar a grande batalha entre o clã dos Kaurava e o dos Pândava -, a verdade é que constitui na prática um dos textos-chave do hinduísmo: é que o ‘cocheiro’ é aqui Krsna em pessoa! Reunindo e ordenando todos os caminhos de salvação já conhecidos, o Gîtâ propõe mais um: a oferenda de nós mesmos pelo cumprimento desinteressado daquilo que o nascimento, a idade, o sexo, etc., nos impõem em matéria de ‘dever de estado’ (sva-dharma). Transcendendo as distinções de casta, propõe a todo o hindu, desde o rei ao varredor das ruas, a possibilidade de se tornar ‘um asceta no mundo’, de participar – este é o sentido primordial do termo bhakti – na obra divina e de merecer em troca a descida da graça”[14]. Este é o livro de cabeceira do hindu piedoso. Ao lado do Mahabharata, existe uma outra coletânea de textos, também em forma de epopeia: o Râmâyana.

 

C. Conceitos comuns básicos nas tradições hinduístas

 

Uma série de conceitos perpassam todas as tradições religiosos hinduístas, com significados interpretados às vezes de forma um pouco diversa, mas em grande parte têm o mesmo significado básico. Alguns destes conceitos:

Brahman - Resultado da demorada busca por uma unidade fundamental por detrás da aparente multiplicidade deste cosmo (absoluto). Consciência absoluta e beatitude absoluta. Estado no qual se alcança a comunhão plena com o absoluto. “Brahman é a explicação completa do Cosmo. É sua causa material. É sua causa eficiente”[15].

Tríade (Trimúrti): Nas religiões hinduístas há uma conhecida personificação tríplice do absoluto em Brahma (Deus criador), Vishnu (o mantenedor) e Shiva (o destruidor). Enquanto para Vishnu e Shiva temos ainda hoje cultos específicos no meio das tradições hinduístas, não há (mais) culto a Brahma que parece ser a divindade mais antiga destas três figuras. Não se trata porém de uma compreensão de três deuses interdependentes. A tendência foi o desenvolvimento de religiões centradas em uma divindade (como no caso do Vishnuísmo e do Shivaísmo, e certamente do caso de Brahma, cujo culto popular teria desaparecido). Pelo fato de haver em religiões hinduístas estas três figuras, chegou-se a especular sobre a ideia de trindade ou de triandade (tríade divina). Uma análise mais próxima mostra porém que não é esta a ideia presente na Índia.

Dharma. Este é um dos conceitos religiosos centrais nas tradições hinduístas: dharma é a ordem universal, ou também poderia se traduzido como doutrina ou como dogma, no sentido de aquilo que é certo em termos de compreensão. Quando muitas vezes se refere ao Hinduísmo, se está pensando na verdade no dharma. A palavra dharma é oriunda do sânscrito, do radical “segurar”, “fixar”, ou “carregar”. “No transcorrer da história adquiriu vários significados, dependendo a partir de que ponto é determinado aquilo que sustenta a vida: os costumes, o direito e a lei, a verdade, os preceitos éticos e religiosos, a moral e a religião”[16]. Dharma representa a verdade, no sentido de “como deve ser”, ou “como deveria ser”. O dharma é a última instância, aquela que não mais pode ser questionada, a ordem que está acima de tudo e na qual tudo deve espelhar-se. É um conceito filosófico-religioso, do qual fazem parte sempre uma compreensão do mundo, uma compreensão religiosa e um modo de vida (princípios éticos e costumes). O dharma deve ser estudado/aprendido a partir dos escritos revelados, dos escritos tradicionais e do exemplo de pessoas que seguem estes escritos.

Samsara: Compreensão cíclica da existência, aparecimento e desaparecimento. A origem é perfeita na divindade. A degeneração e não o progresso determina o curso do mundo. A existência se compõe, pois de um ciclo de nascimento em Deus (nos deuses ou através dos deuses) e numa degeneração e morte, da qual surge novo ciclo. Segundo as tradições, toda a existência está dentro deste ciclo, também os próprios deuses, os demônios, os animais, etc. Este ciclo chama-se Samsara. A palavra samsara é derivada de sam (= ao redor) e sar (= andar ou movimentar-se). A existência é um Samsara, é um ciclo de eterno devir e fenecer, ao qual tudo está sujeito. É difícil precisar qual a origem da compreensão da existência como Samsara. Nos Vedas não há uma clara referência a esta compreensão. No máximo encontram-se referências vagas à viagem da alma após a morte. Já nos Upanishad é possível encontrar referências claras sobre esta compreensão: “De acordo como alguém se porta, da mesma maneira se torna. Aquele que pratica o bem, se torna bom; em contrapartida, o malfeitor se torna mau”[17]. Já nos escritos do Mahabharata a compreensão do eterno retorno é um pressuposto pacífico: “Como quem muda de roupa e abandona as roupas velhas, a alma aceita um novo corpo, descartando o corpo inútil” (Bhagavad Gita, Cap. 2,22). É o Samsara sem fim? Todas as escolas filosófico-religiosas das tradições hinduístas acreditam que é possível escapar do samsara, ou seja, alcançar uma redenção. Esta é chamada de Moksha ou Muksa, que quer dizer libertação.

5º Doutrina da transmigração das almas e lei do carma. Todas as religiões originárias da Índia tem este pano de fundo, inclusive o Budismo e o Jainismo, que lhe conferem diferentes características. Estas compreensões influenciam mais as camadas eruditas que o povo simples. O objetivo da fé é conduzir à salvação pela libertação do Samsara, o ciclo de reencarnações. As reencarnações acontecem, porém obedecendo a lei das consequências dos atos. A esta lei dá-se o nome de Carma (a palavra pode significar ato, consequência ou resultado). Pertence ao Carma de uma pessoa a soma dos seus pensamentos, sentimentos, desejos e atos. Assim cada qual pode em sua vida compor um melhor ou pior Carma para uma próxima existência. O que porém reencarna? A alma? O espírito? Há nas religiões hinduístas um conceito para indicar o que se reencarna: o Atman. O Atman é a individualidade que permanece através das reencarnações. A base para dizer se algo é bom ou ruim para o Carma encontra-se nos ensinamentos dos Vedas, no Dharma. O Dharma é a doutrina ou a lei. O Dharma tudo regulamenta e tudo dirige. É a lei universal, a ordem. Isto vale tanto para a natureza como para a moral e os costumes.

Sistema de castas (varna e jati). Todas as religiões hinduístas convivem com o sistema social de castas, embora muitas delas tenham combatido este sistema ou até nascido de protestos contra ele. Embora muitos movimentos religiosos (ou não) tenham surgido na Índia como contrários à divisão da sociedade em castas, nenhum deles conseguiu quebrar com esta compreensão, nem mesmo Buda ou Gandhi. O mais conhecido sistema de castas (varna) tem como base a divisão em quatro grupos: a) os brâmanes (sacrificadores ou sábios ou sacerdotes), b) os kshatryas (nobres, guerreiros), c) os vaishyas (artesãos, agricultores ou comerciantes), d) e os shudras (súditos ou servos). Quanto melhor o Carma, mais alto pode alguém nascer dentro do sistema de castas. O sistema de castas está ligado a determinados direitos e é pelo nascimento que se define a que casta pertence a pessoa. Não é possível mudar de casta, a não ser por um renascimento. Além destas 4 castas gerais, há todo um outro sistema, a jati, que define situações intermediárias. Este é mais complexo e está ligado tanto a profissões, como a famílias ou clãs. Boa parte dos costumes de relações de parentesco, de casamentos e suas permissões ou proibições está ligado à jati. O sistema de castas (varna e jati) é basicamente um sistema religioso, mas que teve e tem até hoje uma grande influência social. Não é, porém assim que a pertença a uma casta coloque está pessoa automaticamente em determinada situação social e econômica. Com o tempo outros fatores influenciaram o desenvolvimento social, de modo que pessoas de castas inferiores nem sempre são também os mais pobres da sociedade. Além destas quatro castas (varna), o sistema também conhece os párias (os intocáveis), que não pertencem a casta nenhuma e são tidos como impuros. Aqui também se trata de diversos grupos, sendo os dalits o mais conhecido e organizado. Por muito tempos estes constituíam a escória da sociedade, pois a eles era vedada qualquer participação em possibilidades de subir na vida. Hoje há a possibilidade teórica de modificação da condição social dos párias, o que não significa que sua situação tenha mudado substancialmente.

Veneração de imagens de deuses. Esta veneração simbólica dirigida a um deus pessoal está presente em praticamente todas as tradições religiosas da Índia, mesmo do Advaita-Vedanta que a combate. À dedicação/veneração de uma divindade específica está ligado um caminho de piedade (ou de amor) à divindade, a chamada tradição bhakti. Trata-se de um dos caminhos religiosos mais bem vistos na sociedade indiana.

Objetivo de vida. “O homem é ‘o-ser-que-tem-objetivos’ (arthin), na medida em que é o único ser vivo que não está perfeitamente adaptado ao seu ‘nicho ecológico’, que sente que a sua condição natural é insatisfatória, marcada pelo sofrimento (dhukha), e que tem necessidade de definir para si mesmo a sua própria lei, o seu dharma”[18]. A necessidade de ter objetivos é, pois uma fraqueza humana. Tendo por base as tradições religiosas, os membros das religiões hinduístas traçam objetivos a serem alcançados na vida[19]. Estes objetivos são: 1o seguir o Dharma, isto é a lei que tudo governa. O jovem hindu precisa de conselhos de sábios, os gurus, para melhor poder seguir a lei. Há toda uma iniciação feita por gurus para o ensinamento do Dharma. 2o Artha, esforço pelo bem-estar. Após o aprendizado do Dharma o hindu se esforça por conseguir o bem-estar na vida. A todo homem cabe a função de casar e ter um filho homem para continuar a geração e assim pagar seu dever para com os antepassados. O não nascimento de um filho homem pode ser alegado como motivo de separação e recasamento. 3o Kama, alegria e prazer amoroso. Tendo o hindu aprendido a seguir o Dharma, tendo feito seu esforço pelo bem-estar, é justo que tenha uma fase de alegria e prazer. 4o Moksha, salvação (a palavra vem do sânscrito muc (= salvar, libertar). O hindu precisa se esforçar para a sua salvação e após ter já alcançado outros objetivos na vida, é importante que se dedique a uma vida religiosa. Fica claro que estes objetivos de vida são pensados apenas para os homens. As mulheres não participam destes quatro estágios na vida e por isso não podem chegar à salvação (Moksha)[20]. Seu ideal de vida é ser esposa e dar à luz a um filho homem para o seu marido. Antigamente as viúvas eram queimadas com o esposo morto, situação esta que não mais continua. Mas mesmo assim não se aconselha que as viúvas se casem novamente. Cabe porém à mulher cumprir bem as leis do Dharma, de modo que tenha um bom Carma e possa reencarnar como homem, tendo assim acesso à salvação. A origem da ideia do Moksha é também tardia. Este termo não é conhecido pelos Vedas. Nos Vedas, o objetivo último da vida humana é svarga (= o mundo celestial), onde o ser humano passa a conviver com os deuses. O termo Moksha se difundiu e tornou-se conhecido com os Upanishad e especialmente com os seus comentários. O Moksha não é necessariamente um estágio pós-morte. Ao contrário, alguém que alcançou este estágio, continua vivendo como todos os outros e ainda mais, goza de liberdade interior e tem o domínio perfeito tanto sobre seu espírito, como sobre seu corpo.

A Bhagavadgita tenta sintetizar as diversas formas de salvação existentes na história em três caminhos: a) Karmamârga, o caminho da ação altruísta: cumprir seus deveres sem se apegar aos frutos de sua ação (Gita II 47-48); b) Bhaktimârga, o caminho da dedicação amorosa ao deus pessoal (Gita XII 13-20; XVIII 58 e 62); c) Jnânamârga, o caminho do verdadeiro conhecimento, da cognição correta, da iluminação (Gita IV 36, 37 e 39)[21].

 

D. O Hinduísmo no Brasil

 

Das chamadas grandes religiões do mundo, no Brasil o número de fiéis que seguem alguma corrente religiosa entre as conhecidas com o nome comum de Hinduísmo é claramente o menor. No censo demográfico do ano 2000 (IBGE), apenas 2.908 pessoas informaram ser do Hinduísmo. No censo demográfico de 2010 (IBGE), este número foi de 5.675. Mesmo tendo sido um aumento considerável de um censo para outro, comparando-se com o total da população brasileira, o percentual de adeptos de tradição hinduísta é muito pequeno.

A influência do Hinduísmo no Brasil dá-se muito mais através de técnicas como as da medicina ayurveda, do trabalho com os chakra e do método de meditação Yoga que propriamente por grupos de práticas advindas do Hinduísmo no sentido estritamente religioso.

Também são relativamente difundidos no Brasil escritos advindos de tradições hinduístas, seja de mestres como Yogananda, Vivekananda e Prabhupada, seja de escritos antigos como o Bhagavad Gita.

O grupo religioso de tradição espiritual hindu mais significativo organizado no Brasil é a ISKON (International Society for Krishna Consciousness – Sociedade Internacional da Consciência de Krishna) nome oficial do movimento Hare Krishna. Este movimento religioso foi fundado nos Estados Unidos em meados da década de 1960 pelo mestre hindu Bhaktivedanta Swami Prabhupada, onde teve grande repercussão, sobretudo na cena da contracultura. Via jovens norte-americanos, o movimento Hare Krishna chegou ao Brasil em 1974. Nos primeiros anos eram poucas e pequenas comunidades em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. A partir de 1977, a ISKON conheceu uma melhor estruturação e expansão no Brasil, tendo constituído comunidades em muitas cidades e instituído dezoito templos nas maiores cidades do país. Também no final da década de 1970 foi comprada uma fazenda no interior de São Paulo, sendo lá constituída a grande comunidade rural de Nova Gokula, que chegou a ter 800 membros. A partir da década de 1990 houve uma certa estabilização no crescimento do movimento, quando não até um decréscimo.

Mesmo com este decréscimo, o movimento Hare Krishna continua presente no Brasil e a comunidade de Nova Gokula, hoje com um número menor de membros, é bastante engajada ,sobretudo no movimento ecológico.

 

Prof. Volney J. Berkenbrock



[1] ELIADE, M. História das Crenças e das Ideias Religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, Vol. I. p. 184.

[2] A chamada paleontologia linguística. Cf. TERRA, J. E. M. O Deus dos Indo-Europeus. São Paulo: Loyola, 1999, p. 96s.

[3] Kurgan é uma palavra de origem russa, que significa túmulo. A descoberta e estudo de túmulos riquíssimos feitos nesta cultura é que levou a designá-la desta maneira. Cf. TERRA, J. E. M. O Deus dos Indo-Europeus. São Paulo: Loyola, 1999, p. 98.

[4] Cf. TERRA, J. E. M. O Deus dos Indo-Europeus. São Paulo: Loyola, 1999, p. 100-101.

[5] ELIADE, M. História das Crenças e das Ideias Religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, Vol. I, p. 186. Além disso, também temos no latim divus. Tanto deus como divus derivam-se do latim antigo deivos. Podemos também achar o mesma radical em outras línguas: no letão – dìevs, no irlandês antigo – dia, no galês Devo-gnata. Cf. HAVERS, W. La religión de los indogermanicos primitivos a la luz de su lengua. In: KÖNIG, F. Cristo y las religiones da la Tierra (Vol. II), Madri: B.A.C. 203.

[6] É cogitada também a ideia da contraposição entre céu e terra. A divindade ligada ao céu, em contraposição ao humano (humus=terra, homo=ser humano).

[7] M. Eliade, História das Crenças... Tomo I, Vol. 2, p. 15.

[8] STÖRIG, H. J. História Geral da Filosofia. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 18.

[9] STÖRIG, H. J. História Geral da Filosofia. Petrópolis: Vozes, 2008, p. 18-29.

[10] Não apenas Vishnu pode parecer encarnado. Há nas religiões hinduístas outras figuras de Avatares, sendo, porém esta mitologia da encarnação de um Deus em figuras determinadas típica do Deus Vishnu.

[11] C. Regamey, Las Religiones de la India, in: KÖNIG, F. Cristo y las religiones de la tierra. Madri: BAC 203, p. 129.

[12] Shakti não é necessariamente entendida como uma deusa, mas também como a esposa (lado feminino) de muitas divindades. Faz, pois parte da tradição das religiões hinduístas a ideia de que cada divindade pode encarnar-se (avatar) ou então ter uma esposa ou um aspecto feminino (Shakti).

[13] Cf. G. Valle, Filosofia Indiana, p. 19.

[14] DELUMEAU J. (org.) As Grandes Religiões do Mundo. Editorial Presença: Lisboa 1997, p. 341-342.

[15] VALLE, G. Filosofia Indiana. p. 40.

[16] Cf. WALDENFELS, H. Léxico das Religiões, Petrópolis: Vozes, verbete Darma.

[17] Cf. WALDENFELS, H. Léxico das Religiões, Petrópolis: Vozes, verbete Samsara.

[18] J. DELUMEAU, J. (org.). As Grandes Religiões do Mundo. Lisboa: Editorial Presença, 1997, p. 353.

[19] Sobre este assunto veja especialmente: ACHARUPARAMBIL, D. Espiritualidad Hinduista, Madri: BAC 437, p. 67-79.

[20] Sobre a condição da mulher, veja especialmente: ACHARUPARAMBIL, D. Espiritualidad Hinduista, Madri: BAC 437, p. 80-86.

[21] Cf. WALDENFELS, H. Léxico das Religiões, Petrópolis: Vozes, verbete Mocsa.

 

Última atualização em Seg, 04 de Setembro de 2017 22:21