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Volney Berkenbrock
Diálogo Ecumênico - Uma introdução PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Dom, 11 de Junho de 2017 18:56

 

Diálogo Ecumênico

 

Curso Máster em Evangelização

 

Introdução

 

“Para que todos sejam um”, “para que haja um só rebanho e um só pastor”, “e nisto vos conhecerão: se vos amardes uns aos outros”: são expressões do Evangelho que nos interrogam profundamente quando vemos a situação atual dos cristãos. Quase nada nos parece mais distante destas afirmações do Evangelho do que a relação entre cristãos. Ao invés de unidade, há ali profundas divisões, tanto entre instituições, como entre pessoas; há muitos pastores e muitos rebanhos; há um espírito de concorrência, de espírito defensivo, ofensivo diante do “outro” cristão, há malquerença e ódio, há inimizade e perseguição mútua. Para alguém que pega por um lado o Evangelho e observa por outro lado a situação de divisão na qual vivem os discípulos de Jesus Cristo, não há outra palavra para caracterizar a situação senão a de “escândalo”. Do ponto de vista do Evangelho é simplesmente um escândalo a realidade de desunião entre fiéis e instituições eclesiásticas. Mesmo havendo motivos históricos, causas importantes, possibilidade da pluralidade de instituições, etc., não há motivo nenhum que justifique a situação de divisão e diante do Evangelho de Jesus Cristo, a discórdia é simplesmente um desserviço claro àquilo que se professa crer e viver.

A vontade expressa de se reverter esta situação e de apagar esta vergonhosa divisão cristã pode ser resumida em uma palavra: ecumenismo. Apesar de ser evidente a necessidade de unidade, o ecumenismo é uma idéia e um esforço ainda muito novo dentro do cristianismo. Vamos tentar seguir seus primeiros passos e ver alguns pontos básicos para compreender de que se trata.

 

1. A palavra e sua história[1]

 

Quando se pergunta sobre a origem da palavra Ecumenismo, não temos uma resposta muito clara. Na origem desta palavra (de língua grega) não está um significado único. Várias palavras estão relacionadas à origem da palavra oikoumene, como por exemplo oikos (casa, moradia), oikeiotês (relação, aparentado, amizade), oikeiow (habitar, morar, coabitar, estar familiarizado, reconciliar-se), oikonomeô (administração, encargo, responsabilidade da casa) e oikoumene (terra habitada, mundo civilizado e conhecido)[2].

A palavra tem pois em seu significado original algo a ver tanto com moradia no sentido de casa (individual) como também de moradia no sentido do mundo civilizado, do mundo habitável. Portanto uma conotação tanto individual, como também coletiva. No mundo grego, o conceito tinha uma certa conotação cultural: o mundo conhecido era o mundo que pertencia à cultura helênica. Dentro do império romano, este mundo habitável, mundo civilizado era entendido quase que como sendo co-extensivo com o próprio império (fora do império não havia civilização, mas sim barbárie!). A conotação aqui era mais jurídica que cultural[3]. No Novo Testamento a palavra ocorre diversas vezes e é utilizada tanto no sentido cultural, como jurídico. Por exemplo: uso no sentido de: a) mundo (“Um deles, de nome Ágabo, pôs-se a anunciar pelo Espírito uma grande fome por toda a terra”: At 11,28; “Não foi tampouco aos anjos que Deus submeteu o mundo vindouro de que falamos”: Hb 2,5; “Este Evangelho do Reino será pregado pelo mundo inteiro como testemunho a todas as nações”: Mt 24,14), b) Império romano (“Naqueles dias saiu um decreto de César Augusto ordenando o recenseamento de toda a terra”: Lc 2,1). A palavra é usada pois no Novo Testamento tanto na conotação de “mundo civilizado” ou “mundo conhecido/habitado”, como também significando o Império romano. Neste mesmo sentido também o usam os padres da Igreja. Assim, num escrito do século II (Martírio de Policarpo) se fala em “Igreja católica espalhada pela oikoumene”[4]. Por extensão, o termo começa a ser usado para significar também toda a Igreja, espalhada pelo mundo. Quem por primeiro vai usar esta acepção parece ser Orígenes, ao entender a Igreja como uma espécie de novo mundo ou nova humanidade[5].

Um sentido estrito assume a palavra no mundo cristão, quando o Concílio de Constantinopla (381) chama o Concílio de Nicéia (realizado em 325) de concílio “ecumênico”, no sentido de válido para toda a Igreja Católica. E este é o sentido que passa a ser utilizado na Igreja: oikoumene é utilizado para designar Igreja Universal. Na tradição eclesiástica católica, os concílios passaram a ter desde então este adjetivo “ecumênico”, no sentido de sua abrangência para o todo (da Igreja). Há porém uma diferença entre a tradição romana e a tradição ortodoxa de nomear um concílio de “ecumênico”. Para a tradição romana, um concílio é ecumênico quando representa toda a Igreja e suas decisões são confirmadas pelo bispo de Roma. Para a tradição ortodoxa, um concílio é ecumênico quando suas decisões tiverem sido aceitas por toda a Igreja. Neste modo de compreensão, há apenas 7 concílios ecumênicos, pois neles está exposta a doutrina aceita tanto pelo oriente como pelo ocidente. Ou seja, os concílios realizados após o cisma entre oriente e ocidente não podem mais ser chamados – na compreensão ortodoxa – de “ecumênicos” pois não mais abrangem a totalidade.

Com a decadência e queda do império romano, a palavra vai deixando de ter sua conotação política ligada ao império e passa a ser ligada cada vez mais ao sentido eclesial: passando a significar “toda a Igreja”. “Ecumênico” é algo que diz respeito a toda a Igreja. Assim, em sentido figurado, Basílio Magno, Gregório Nazianzeno e João Crisóstomo são às vezes chamados de “doutores ecumênicos”, ou seja, doutores, cujo alcance estende-se por toda a Igreja.

Em sentido parecido passou a ser usada a palavra ecumênico quando este adjetivo foi acrescido aos credos. Assim foram chamados de “credos ecumênicos” o credo dos apóstolos, o niceno-constantinopolitano e o Credo de Santo Atanásio, fórmula esta que por muitos séculos foi utilizada oficialmente na liturgia.

A história do sentido da palavra “ecumenismo” muda porém, completamente no século XIX. Quando da fundação da Aliança Evangélica em 1846 (Londres) – aliança esta que tem a finalidade de preparar um “concílio ecumênico evangélico universal” – usa-se a expressão “espírito ecumênico” para designar um espírito de unidade. O pastor francês Adolphe Monod, no encerramento do encontro, agradeceu aos organizadores britânicos o “fervor e a piedade”, bem como o “espírito verdadeiramente ecumênico”. Henry Dunant, fundador da Cruz Vermelha e um dos iniciadores da Associação Cristã de Moços – que também é uma organização importante para a história do ecumenismo – quer que sua associação (Cruz Vermelha) seja ‘ecumênica’, para “propagar aquele espírito ecumênico que transcende a nacionalidade e a língua, as denominações e as questões eclesiásticas, a classe e a profissão”[6].

Com isso, “ecumênico” ganha uma outra conotação: a de uma atitude. Ainda na história do significado da palavra, quem a coloca em outra perspectiva é o arcebispo luterano de Uppsala (Suécia) Nathan Söderblom durante a I Guerra Mundial, quando sugere uma reunião internacional das Igrejas para promover a paz. É ele que lança a idéia de um “conselho ecumênico de Igrejas”. A reunião não se realiza, mas a partir daí a palavra ecumenismo adquire um significado diferente: “a relação amistosa entre Igrejas com a finalidade de promover a paz internacional, de abordar a união de várias Igrejas ou inclusive de geral o espírito de aproximação entre cristãos de diversas confissões”[7].  Este significado da palavra “ecumenismo” foi o que se impôs e as conferências evangélicas de Oxford (1937) e de Amsterdã (1948) já subentendem o termo ecumenismo como específico para significar o propósito de comunhão e unidade entre os fiéis cristãos de todas as confissões. E neste sentido é que a palavra ecumenismo é hoje entendida.

 

1.1 Para uma definição do ecumenismo

 

Parece pois, à primeira vista, que o sentido da palavra é unívoco. Isto é um equívoco. Aí, no entanto, é que começa o problema: como entender a unidade entre as Igrejas? Unidade ou comunhão em relação a quê? Uma só instituição ou várias instituições que se respeitam mutuamente como “boas vizinhas” mas que não tem nada em comum?

Se, porém, a palavra não tem um significado único, para buscar entendê-la talvez possa ser útil perceber a partir da experiência cristã algumas idéias significativas relacionadas com conceito atual de ecumenismo. Assim podemos dizer que ao conceito ecumenismo ligamos muitas idéias e experiências:

- Movimento (idéias, reuniões, ações) que visa preparar a reunião dos cristãos. É fortemente ligado a ecumenismo a idéia de que se trata de um movimento. Usa-se inclusive muitas vezes a expressão “movimento ecumênico”. A isto está ligada a experiência de que o ecumenismo se dá como “movimento”: pessoas e ações que se movimentam nesta direção e o próprio movimento é que as unifica;

- Reconhecimento mútuo da legitimidade dos diversos grupos eclesiásticos. Outra idéia fortemente ligada ao ecumenismo é a de que pelo ecumenismo as diversas igrejas e confissões se reconhecem mutuamente, reconhecem que todas são legitimamente “cristãs”. Este reconhecimento – aparentemente óbvio – é na verdade um dos grandes passos ou uma grande conquista do ecumenismo;

- Esforço por uma vivência cristã (plena e pura). Outra idéia ligada ao ecumenismo é a da vivência cristã, ou seja, a intuição de que o centro da busca ecumênica é a vivência cristã. Nesta compreensão está a idéia de que ecumenismo acha-se ligado ao que comumente se chama de espiritualidade;

- Movimento impulsionado pelo Espírito Santo que pretende restabelecer a unidade entre os cristãos para que o mundo se converta ao Evangelho. Esta idéia de que o ecumenismo tem como impulsionador o Espírito Santo está presente inclusive no documento Unitatis redintegratio (o documento do concílio Vaticano II sobre o ecumenismo) e tem por base a compreensão de que o ecumenismo é uma inspiração, um impulso do próprio Deus;

- Atitude de mente e coração diante dos irmãos cristãos separados que se caracteriza por respeito, compreensão e esperança. Assim nasceu a compreensão moderna de ecumenismo: entendendo-o como ‘atitude’, ou seja, postura, comportamento, modo de ser e agir. Aqui está a experiência/idéia de que o ecumenismo deve impregnar um determinado modo de ser de cada cristão (o modo amoroso) em sua relação com os irmãos de outras igrejas;

- Movimento de pensamento e ação com o objetivo de reunir os cristãos. Outra idéia muito forte presente no ecumenismo é a de que seu objetivo é reunir os cristãos. Ele é um movimento de reunião, de comunhão. Se esta é uma idéia forte, ela é também ao mesmo tempo uma idéia que tem causado um certo embaraço ao movimento ecumênico por não ser claro o que se entende por união e por levantar suspeita, muitas vezes, de que o movimento ecumênico teria por objetivo a busca de uma unidade institucional, ou seja, de unificar todos os cristãos em torno de uma única igreja institucional;

- Não lugar de procurar “quem tem razão”, mas de enriquecimento mútuo no testemunho do Evangelho. Outra idéia/experiência que foi surgindo e amadurecendo no seio do ecumenismo é a de que não é objetivo deste buscar o “certo” e o “errado” em termos de igreja, mas sim buscar o que a todos une: a mensagem de Jesus Cristo, a boa-nova, o Evangelho;

- Movimento pelo testemunho conjunto do Evangelho. Esta é uma outra idéia central no que tange o movimento ecumênico: o que os cristãos devem expressar, testemunhar em primeiro lugar é o evangelho. A expressão “ser testemunha” é chave para o início da auto-consciência cristã. Os cristãos se entendiam inicialmente como “testemunhas”. Quando inclusive da escolha do sucessor de Judas na comunidade dos doze apóstolos, fica clara a consciência da necessidade de testemunhar: “Convém, pois, que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu conosco, a começar do batismo de João até o dia em que foi elevado ao alto, um deles seja testemunha conosco de sua ressurreição” (At 1,21-22). Ser testemunha é pois parte da identidade cristã. E justamente o “testemunho comum”, como veremos adiante, foi uma expressão que caracterizou o início do movimento ecumênico;

- Movimento surgido no meio evangélico, mas que se espalhou entre todos os que invocam o nome de Jesus Cristo, para invocá-lo não apenas separadamente, mas também em conjunto. A história do movimento ecumênico está ligada fortemente às igrejas evangélicas. Só décadas mais tarde ela passou a ser assumida também pelo catolicismo (no concílio Vaticano II). É importante recuperar esta idéia para não incorrermos num certo equívoco que tem ocorrido, de pensar que ecumenismo se refere à busca de unidade entre católicos e evangélicos;

- Conjunto de atividades e empreendimentos que se destinam a favorecer a unidade dos cristãos. É muito difícil poder dizer o ecumenismo “é” isto ou “é” aquilo. É justamente mais adequado dizer que se trata de um conjunto de atividades e empreendimentos.

Nestas idéias sobre o ecumenismo, três conceitos são evidentes: Originalidade, atitude e desejo de diálogo, espiritualidade.

Originalidade: O ecumenismo é uma experiência nova dentro do cristianismo e que se contrapõe à história secular de divisões e seus motivos. Por ser novo, não tem ainda uma definição muito clara. É uma inspiração. Por isso o movimento ecumênico tem em si algo de utópico, de desejo a ser construído. E, em sendo algo tão novo e original, não se pode dizer onde vai dar este movimento.

Atitude e desejo de diálogo: Mesmo havendo várias conotações, o ecumenismo tem sempre como pano de fundo o desejo do diálogo. A atitude que caracterizou historicamente o relacionamento entre as Igrejas é o monólogo: cada um condenava o outro e se auto-afirmava. A história das “falas sobre o outro” em termos de diferentes Igrejas é uma história da condenação do outro. Nós mesmos, em nossa socialização, crescemos com uma atitude contrária ao outro. Esta atitude de contraposição está arraigada em nosso modo de pensar e sentir. Reverter esta situação é um processo longo. Não se pode superar de uma hora para a outra esta atitude cultivada durante séculos. Por isso, para o movimento ecumênico é muito importante pensar em mudança de atitude. É necessário cultivar o desejo de uma mudança “cultural”. Há pois um forte componente do desejo, da vontade empenhada.

Espiritualidade: A superação das divisões não é obra do voluntarismo humano e - vendo as dificuldades que ela envolve - só será possível pela ação do Espírito de Deus. O entusiasmo inicial com o movimento ecumênico arrefeceu com o tempo. Com isso fica claro que a superação da divisão não é apenas uma questão jurídico institucional (acordos de reconhecimento mútuo, de reconhecimento de sacramentos...), mas uma união na forma de vida. O ecumenismo não pode ser visto como uma questão técnico-eclesial, mas sobretudo espiritual. Ecumenismo como prece: a semana de oração pela unidade dos cristãos mostra isso com clareza. Reza-se para que haja unidade: a unidade é “objeto” de prece, de súplica.

A partir da sociologia religiosa: Para se pensar o ecumenismo não se pode ficar apenas com seu aspecto religioso-espiritual. Poderia haver aí o perigo do voluntarismo religioso. Uma análise sócio-religiosa ajuda bastante a compreensão do problema. Deste ponto de vista, o ecumenismo poderia ser classificado em suas vertentes:

a) O ecumenismo como movimento religioso-social. O ecumenismo não nasceu “de cima”, mas de pessoas (indivíduos) que empunharam esta bandeira e contagiaram pessoas com esta idéia. É um movimento de compreensão mútua, de afinidade, de apelo pela paz (sobretudo na Europa antes das duas guerras mundiais). A ascensão do papel do indivíduo na sociedade deu a ele a possibilidade de relativizar as diferenças confessionais (institucionais). Este ecumenismo foi movido em grande parte - como movimento social - por iniciativas pessoais e impulsionado pelo espírito do tempo, que era o espírito do diálogo. Por isso mesmo ele está chegando ao fim como “movimento social”. Hoje há um outro espírito do tempo que em muito dificulta o movimento ecumênico, que é a idéia da legitimidade da pluralidade, da escolha, da multiplicidade de igrejas. A existência de muitas igrejas, o surgimento de novas igrejas não é visto e nem sentido como divisão, mas como multiplicidade, como pluralidade. Há pois que se considerar hoje o movimento ecumênico dentro de um outro momento social e isto implica em idéias diferentes das de seu início.

b) O ecumenismo como tarefa institucional. O ecumenismo se organizou e deixou de ser tarefa de iniciativas e influências pessoais para se tornar tarefa de instituições, seja em forma de departamentos dentro das confissões existentes, seja através de instituições para este fim. Não são mais as pessoas (na base) que sentem e fazem o ecumenismo, mas instâncias “apropriadas” que conduzem o diálogo e de forma representativa (teólogos, especialistas...). Com isso há uma afirmação e reforço da identidade de quem participa no diálogo, pois o representante de determinada instituição precisa defender a identidade de quem ele é representante. Com o surgimento de muitas novas “comunidades” ou “Igrejas”, fica da vez mais acirrado este aspecto de manter a identidade (volta à segurança). Este desenvolvimento do ecumenismo o fez mais eclesial, isto é, levou com que ele se restringisse à esfera eclesial, contrariamente ao movimento social, que implicava em questões sociais. Este ecumenismo “está se centrando em diálogos teológicos e doutrinais, dirigidos sempre a partir do topo das hierarquias eclesiásticas”[8]. Os sociólogos falam aqui de “ecumenismo diplomático”.

 

1.2 Diversidade de ecumenismos

 

Por mais acertada que seja a análise sociológica do desenvolvimento do ecumenismo, ela não capta o fenômeno como um todo. Por isso talvez ajude entender a amplidão do ecumenismo, se falássemos em diversos tipos de ecumenismo:

a) Ecumenismo institucional

As pessoas que iniciaram o ecumenismo como movimento social, não se desligaram das instituições às quais pertenciam. Não há como desligar o ecumenismo de seu aspecto institucional. O ecumenismo precisa contar com um suporte institucional, um certo grau de organização. E historicamente foi isto que aconteceu. Em dado momento do movimento ecumênico, ele foi assumido pela instituição e ocorrei  uma institucionalização do movimento ecumênico. A tarefa ecumênica passou a ser assumida e organizada a partir da instituição. O ecumenismo que se desenvolve para a instância (e tarefa) institucional faz surgir dois aspectos, especialmente no meio católico: um ecumenismo oficial (a posição e política da instituição como um todo no que diz respeito ao diálogo). A instituição assume como sua a tarefa ecumênica, a disciplina e legitima os seus interlocutores (inclusive através de departamento para este fim: secretariados para o ecumenismo). Estes interlocutores funcionam como uma espécie de ministros das relações exteriores da instituição que representam frente às outras. Neste nível não mais conta a posição pessoal do interlocutor, mas a posição da instituição da qual ele é representante (e defensor). Outro aspecto é o ecumenismo doutrinal: Diálogo onde o objeto são as diferenças doutrinais existentes entre as diversas confissões eclesiais. Do ponto de vista da hierarquia eclesial, as diferenças doutrinais são o principal empecilho ao ecumenismo.

b) Ecumenismo espiritual

Sem desprezar a importância do ecumenismo institucional, há o ecumenismo que não se preocupa com a questão institucional, mas sim com o ecumenismo espiritual: de espiritualidade cristã compartilhada por todos. A oração compartilhada ultrapassa a diferença institucional/doutrinária e pode ser o veículo onde a unidade seja experienciada. O próprio Vaticano II afirma que “a conversão de coração e santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser consideradas a alma de todo o movimento ecumênico, e com razão pode ser denominado ecumenismo espiritual” (UR 8). Este ecumenismo espiritual tem uma tradição mais longa que o ecumenismo institucional. Foi justamente a partir do ecumenismo como movimento espiritual que se desenvolveu o ecumenismo institucional. “O movimento ecumênico é um processo espiritual no sentido de que a espiritualidade é um elemento essencial, mais do que um horizonte ou dimensão, da unidade”[9]. Mesmo em âmbito institucional se pretende que a espiritualidade guie o ecumenismo, como afirma a CNBB: “Estamos convencidos de que o ecumenismo, antes de servir de estratégias, tem que ser um tipo de espiritualidade. Não se trata de fazer coisas, trata-se de criar sentimentos, modos de ver a vida, atitudes de base... Por causa desta espiritualidade, ser ecumênico vai além dos objetivos que temos”[10]. O que chamamos aqui de ecumenismo espiritual envolve a expressão usada pela CNBB de “criar sentimentos”. Ou seja, ecumenismo como algo que brota do sentimento religioso dos cristãos uns para com os outros. “Sentir-se ecumênico”: esta é a base do ecumenismo espiritual. E quando ocorre este sentimento, ele é algo pessoal, a nível de fé e não a nível de instituição. Não que tenhamos que contrapor o sentimento pessoal com o institucional, mas claramente estamos falando de coisas claramente diferentes quando distinguimos o ecumenismo institucional do espiritual.

c) Ecumenismo local

Um outro tipo de ecumenismo é o que se poderia chamar de “ecumenismo local” (também caracterizado às vezes como ecumenismo de base). Este é o ecumenismo que acontece nas bases, isto é, nas paróquias, nos movimentos, nos grupos. Há neste tipo de ecumenismo tanto aspectos do ecumenismo institucional (são pessoas de instituições e agem muitas vezes de forma representativa), como do ecumenismo espiritual (pois é a espiritualidade o motor desta forma de ecumenismo). Este tipo de ecumenismo se caracteriza pelo fato de deixar claro que ecumenismo não é competência e tarefa de especialistas, mas de todos os cristãos que o vivem. O próprio Concílio Vaticano II afirmou que “o empenho no sentido de restabelecer a união cabe a toda a Igreja, tanto aos fiéis como aos pastores” (UR 5). E o Conselho Mundial de Igrejas afirmou em sua assembléia de Canberra: “O ecumenismo é uma realidade vivida na base, onde o povo vive e luta junto”[11]. Neste nível da base, o ecumenismo pode ter tanto um caráter de oficialidade (grupo representante de uma determinada comunidade), como da informalidade (grupos ecumênicos de estudo bíblico, grupos mistos de preparação de eventos...). Este ecumenismo de base tem um caráter de audácia, de “imprudência” e de espontaneidade que tanto bem faz ao ecumenismo.

d) Ecumenismo secular

O ecumenismo conheceu duas fases, sobre as quais já foi relatado acima: a fase de movimento espontâneo e a fase institucional. Esta chegou a um beco sem saída, pelo fato de as instituições tomarem o lugar ecumênico como o lugar de defesa da identidade e da “relação exterior” com as outras confissões. Após a crise deste ecumenismo a nível institucional, surge um terceiro tipo de ecumenismo, denominado de “ecumenismo secular”. O ponto central deste ecumenismo não é a tentativa de unidade institucional, mas o esforço de unidade da humanidade. É o ecumenismo que acontece na promoção humana, na luta pela justiça, pela libertação, etc. A motivação para o trabalho pode vir (e vem) da fé, mas o objetivo ultrapassa a instância religioso-eclesial.

Perceber a urgência de unidade a partir do Evangelho é porém apenas um primeiro passo “Ecumênico”. Na verdade, após se perceber urgência de unidade, é que começa realmente a questão mais difícil: O que se entende quando se fala unidade? Que tipo de unidade se pretende conseguir? Como bem diz J. Bosch Navarro: “Na unidade se encontra o núcleo do problema ecumênico”.

Certamente o melhor ponto de partida para se falar em unidade, é destacar e chamar à mente qual é o ponto que indiscutivelmente é comum e único: Jesus Cristo. A unidade se dá, pois, em primeira linha em torno do fato de todos serem discípulos de Jesus Cristo. Partindo deste pressuposto, temos que admitir que todos os cristãos temos como base algo que é comum e não o que é diferente. Na base está pois a unidade e não a diversidade. Esta consciência faz com que todas as Igrejas cristãs, com exceção das fundamentalistas, estão envolvidas no ecumenismo - de uma forma ou de outra, com compreensões diferentes, mas envolvidas ecumenicamente.

Se este primeiro ponto é um grande facilitador do ecumenismo, um segundo importante a ser considerado vem refrear o primeiro: Todas as Igrejas têm uma identidade própria (se identificam com uma tradição, um rito, uma forma de organização) e - como é sabido - há uma tendência natural de se conservar a identidade. Este espírito “conservador” da identidade, que é importante, torna-se um ponto de dificuldade no ecumenismo. Há pois dentro do ecumenismo uma tensão entre duas fidelidades: a fidelidade a Jesus Cristo (“que todos sejam um”) e a fidelidade à própria identidade confessional, que é o “lugar” onde Jesus Cristo é vivido.

 

2. Ecumenismo e pentecostalismo autônomo

 

A consciência sobre a necessidade do diálogo ecumênico é sem dúvida um dos pontos essenciais para que o próprio diálogo possa acontecer. Esta consciência da necessidade do diálogo em busca da unidade - mesmo com concepções diferentes de unidade - foi aos poucos crescendo no interior do cristianismo e atingindo as Igrejas. Hoje - como já tivemos oportunidade de dizer anteriormente - esta consciência está presente na grande maioria das Igrejas cristãs.

No Brasil tem ocorrido acentuadamente nas últimas décadas um fenômeno de surgimento rápido de muitas novas Igrejas cristãs autônomas, todas elas - ou pelo menos a sua grande maioria - de orientação pentecostal. Este fato novo precisa ser pois visto a também no contexto do esforço pela unidade. O que se observa, porém, é que é praticamente nulo o movimento ecumênico destas Igrejas com a Igreja católica e com as Igrejas chamadas protestantes históricas. Certamente a Igreja católica e as protestantes históricas têm sua parcela de culpa nesta falta de diálogo. Não há porém como negar que há de fato por parte de muitas das novas Igrejas uma grande dificuldade para o diálogo.

Não queremos aqui analisar o fenômeno pentecostal como um todo e nem construir juízo de valores a respeito destas Igrejas. Não podemos por outro lado, no entanto, fazer de contas que este fenômeno seja algo que não nos diz respeito, ou, - quase que cegos - tomar a atitude do "isso logo vai passar e os adeptos destas Igrejas irão voltar então ao seio do catolicismo". Queremos aqui somente tecer alguns comentários no âmbito ecumênico, sobre as dificuldades que têm o movimento ecumênico de englobar as Igrejas pentecostais autônomas, bem como pensar em possibilidades que nos ajudem a - mesmo sob dificuldades - crer que todos somos um em Cristo. Antes porém de considerarmos a questão do ecumenismo com as Igrejas pentecostais, faz-se necessário lançar os olhos rapidamente sobre este fenômeno, colocando um pouco de seu surgimento, as diferenças entre as Igrejas e os pontos que caracterizam o pentecostalismo brasileiro.

 

2.1. O fenômeno do pentecostalismo autônomo[12]

 

a) Surgimento

 

O fenômeno do pentecostalismo teve início nos Estados Unidos no começo deste século. Numa Igreja Batista da cidade de Los Angeles ocorreu no ano de 1906 que um menino começasse a falar em línguas durante o culto. O fenômeno chamou a atenção de muita gente e recordou-se o tempo do Novo Testamento, onde também se fala do fenômeno da glossolalia. Este fenômeno foi interpretado por muitos como um sinal da ação do Espírito Santo, como um novo Pentecostes, onde o Espírito Santo desceu sobre os discípulos e ocorreu o fenômeno da fala em línguas. Por causa desta interpretação, o movimento e as Igrejas que surgiram em torno deste fenômeno recebem - e às vezes assumem elas mesmas - o nome de pentecostal.

Características importantes deste fenômeno e que têm até hoje um significado central é justamente o falar em língua e o considerado "batismo no/através do Espírito Santo". Batismo não entendido aqui como o sacramento pelo qual a pessoa é batizada (com água), mas sim o fenômeno de ser tomado pelo Espírito Santo e impelido por ele a falar em línguas.

Em torno do fenômeno de falar em línguas ocorrido em Los Angeles nasceu todo um movimento de experiência espiritual. Este movimento teve nos Estados Unidos em seu início logo duas vertentes: a do movimento negro e a do movimento branco de louvor. Os espaços de experiência espiritual nova foram ocupados sobretudo nas Igrejas negras dos Estados Unidos como espaço de expressão de pessoas engajadas na sociedade e na luta contra o racismo. Pelo fenômeno da glossolalia, os negros foram ocupando espaços importantes na condução da experiência religiosa em suas Igrejas. Era um movimento de auto-afirmação e de engajamento. Concomitantemente o fenômeno pentecostal também passou para as Igrejas de maioria branca dos EUA. Aqui porém, praticamente não teve este caráter de engajamento social e contra o racismo, mas apenas o aspecto de louvor.

 

b) No Brasil

 

É este movimento pentecostal branco que chega ao Brasil, ou seja, um movimento pentecostal baseado no louvor e não como espaço de expressão de grupos socialmente engajados, principalmente em favor da causa dos negros, como era o caso nos EUA. O movimento pentecostal chega ao Brasil através de um italiano chamado Francescon. Este, membro da Igreja presbiteriana, passara pelos Estados Unidos, onde conhecera lá a experiência pentecostal. Ao chegar ao Brasil, dedica-se sobretudo à ação missionária religiosa - dentro da Igreja presbiteriana de São Paulo - entre os descendentes de italianos. A ação de Francescon criou polêmica dentro da Igreja episcopal e as tensões levaram a um cisma. Francescon saiu da Igreja presbiteriana e fundou no ano de 1910 a Congregação Cristã no Brasil. Com isso surge a primeira Igreja pentecostal em solo brasileiro. Por muitas décadas esta Igreja permaneceu praticamente restrita aos descendentes de Italianos de São Paulo e do Paraná, onde Francescon vivera por um tempo.

A segunda Igreja pentecostal a surgir no Brasil também foi fundada por pessoas vindas dos Estados Unidos. Trata-se dos missionários batistas suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. Estes dois, que também haviam conhecido nos EUA a experiência pentecostal, chegam ao Brasil, indo para a cidade de Belém do Pará, dispostos a missionar e a espalhar a experiência pentecostal. Também eles inicialmente atuaram em sua Igreja de origem, ou seja, na Igreja batista em Belém. E novamente por causa das tensões causadas por suas ações, eles desentenderam-se com a Igreja batista e fundaram no ano de 1911 a Igreja Assembléia de Deus. Por diversas décadas estas (Congregação Cristã e Assembléia de Deus) foram as duas únicas igrejas pentecostais no Brasil. Enquanto a primeira ficava mais restrita aos descendentes de italianos (até a década de 30 os cantos ainda eram em italiano), a Assembléia de Deus conheceu - após algumas dificuldades iniciais - uma grande expansão, vindo do norte e atingindo o Nordeste. Fator decisivo na sua expansão foi a simplicidade de sua proposta: trata-se de uma Igreja "leiga" (isto é, qualquer pessoa pode fundar uma comunidade), formada por um grupo de famílias (pessoas) coesas em torno sobretudo da leitura da Bíblia e do canto. Esta maneira simples de formar comunidade foi o grande motor propulsor da Assembléia de Deus.

A segunda fase de Igrejas pentecostais no Brasil surgiu apenas no final da década de 40, com a vinda para o Brasil da Igreja do Evangelho Quadrangular. Esta Igreja havia sido fundada em Los Angeles por uma mulher (Aimee Semple McPherson) e seu nome se deve a quatro funções de Cristo consideradas essenciais: Cristo Salvador, Cristo Médico, Cristo Batizador e Cristo Rei que há de voltar. Esta Igreja apareceu no Brasil no final da década de 40 na cidade paulista de São João da Boa Vista. A grande inovação da IEQ - já praticada com imenso sucesso nos EUA - era a pregação em tendas ambulantes e a utilização do rádio como veículo de evangelização. No Brasil, a pregação em tendas ambulantes na chamada "Cruzada Nacional de Evangelização" chamou muito a atenção da imprensa e fez com que a IEQ crescesse rapidamente no Brasil. Seguindo a receita de sucesso da fórmula da IEQ, surgiu em fins de 1955/início de 1956 a primeira Igreja pentecostal fundada por um brasileiro: a "Brasil para Cristo". Seu fundador, Manoel de Mello, era um jovem pregador de um grande carisma e que conseguia atrair multidões. Iniciou sua atividade religiosa de pregador como membro da Assembléia de Deus. Logo depois passou para a Igreja do Evangelho Quadrangular. Não demorou a fundar seu próprio grupo, tendo inicialmente o nome de Igreja de Jesus Betel, mudando logo em seguida para "Brasil para Cristo". Mello centrou sua ação evangelizadora sobretudo o uso do rádio e nos meios de comunicação (jornal, publicações). Como líder carismático tinha posições políticas muito definidas e engajadas. Mello foi um crítico do governo militar, era engajado socialmente e também no movimento ecumênico. Após a morte de Mello (1990), a BPC conheceu uma mudança de linha e não conservou a linha engajada de seu fundador.

Seguindo praticamente os mesmos passos e a receita de Mello, Davi Miranda fundou em 1962 a Igreja Deus é Amor. Davi Miranda havia sido católico e depois entrara para a Igreja Jerusalém, de onde saiu com 26 anos de idade para fundar a própria Igreja, utilizando o dinheiro da indenização por ter sido mandado embora do emprego para alugar um local em São Paulo. Davi Miranda centrou suas atenções nos centros, onde muitos transeuntes estão dispostos a ouvir a pregação. O rádio foi o instrumento por ele privilegiado para propagar sua Igreja. A Pentecostal Igreja Deus é Amor caracteriza-se por um estilo rigorista de controlar seus membros: proibição de ver televisão, rigidez no costume de vestir-se, de usar o cabelo etc. Esta Igreja encontrou ressonância sobretudo nas camadas mais pobres da população e entre as pentecostais de maior expressão, é aquela cuja pobreza dos membros é a mais visível.

Uma seguinte fase do Pentecostalismo brasileiro deu-se no final da década de 70, com a fundação de Igrejas voltadas para o grande público, para a massa e sem muito compromisso com a formação de comunidade nem com a utilização da Bíblia. Exemplos aqui são a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada por Edir Macedo em 1977 e a Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada em 1980 por R. Soares, cunhado de Macedo. Ao estilo da Igreja de Macedo, que tem como público alvo a massa, como meio a utilização dos meios e métodos modernos de comunicação e como estilo o culto baseado na exploração da emotividade, surgiram muitíssimas Igrejas, principalmente na década de 90, algumas delas com grande sucesso, outras que não "decolaram".

 

c) Fases do Pentecostalismo

 

O pentecostalismo no Brasil pode ser caracterizado em quatro fases, cada qual com seu estilo próprio.

1o – Assim há a primeira fase, na qual se encontram a Congregação Cristã no Brasil e a Assembléia de Deus. Características das Igrejas desta primeira fase são: a formação de comunidade, a leitura e louvor em comunidade, a união e solidariedade entre os membros da comunidade, a formação de uma estrutura eclesial, a rigidez nos costumes e a periferia das grandes cidades como lugar social privilegiado de ação e fundação de comunidades.

2o – Uma segunda fase do pentecostalismo é inaugurada com a vinda para o Brasil da Igreja do Evangelho Quadrangular. A esta fase também se podem contar a Brasil para Cristo e a Deus é amor. Características do pentecostalismo desta segunda fase é a pregação para as massas, a pregação ambulante (em tendas, cinemas velhos...), o acento nos milagres e bênçãos, a formação de comunidades, a rigidez nos costumes e o controle bastante grande dos membros pela própria comunidade. O local privilegiado de ação desta forma de pentecostalismo não é mais a periferia, mas os locais de grande concentração de pessoas: praças, centros de passagem...

3o – A uma terceira fase do pentecostalismo brasileiro se podem contar como mais expressivas as Igrejas como a Universal do Reino de Deus, a Internacional da Graça, a Igreja da Libertação e a Igreja Messiânica. Características destas Igrejas é a pregação com todos os meios para o grande público, o não compromisso do pregador com o seu público, a grande ênfase dada à ação do demônio, a não formação de comunidades, a concentração em centros de cidades e locais de grande afluência de público e a utilização de uma estratégia de marketing de expansão.

4o – No momento se pode falar já no surgimento de uma quarta fase do pentecostalismo no Brasil, com o aparecimento do fenômeno de “Igrejas de segmento”, ou seja, igrejas voltadas para um determinado segmento de público. Trata-se de Igrejas que nasceram e encontram o seu público num determinado grupo social. Assim temos por exemplo uma igreja de ex-presidiários, onde tanto o fundador como a maioria dos seus membros é oriunda de ex-presidiários e o grupo social que em torno deles se aglutina. Outro exemplo é uma igreja voltada para jovens adolescentes usando sua linguagem e seu modo de expressar-se. Nela não é incomum que o pastor faça a pregação em cima de um skate. Seu público alvo é este segmento social de jovens e adolescentes que se identificam com este tipo de comportamento. Assim, esta quarta fase do pentecostalismo é representada por igrejas especializadas em um determinado tipo de público, e por isso, comparando com o que acontece no mercado, poder-se-ia dizer que se trata de “igrejas de segmento”.

 

2.2. A identidade na diferença

 

A grande maioria dos membros das Igrejas pentecostais no Brasil provém do catolicismo. Isto pelo simples fato de a grande maioria da população ser católica. São porém não católicos institucionais, isto é, católicos que se identificam com a instituição Igreja católica, que seguem seu ritmo, seus sacramentos, que participam regularmente de suas atividades, mas sim católicos nominais, isto é, são católicos pelo fato de um dia terem sido batizados na Igreja católica, de freqüentarem algum sacramento (primeira comunhão, matrimônio). Há casos de católicos engajados que passaram a fazer parte de alguma Igreja pentecostal. Estes casos, apesar de serem bastante comentados quando acontecem, são porém a grande minoria dos casos.

A experiência de entrada em uma Igreja pentecostal - conhecida popularmente como "virou crente" - é uma verdadeira experiência de conversão. Ou seja, uma mudança de vida, de hábitos, de comportamento por causa da experiência religiosa feita nesta Igreja. Constrói-se então uma nova identidade. Nesta nova identidade é preciso ficar claro que houve uma mudança de vida. Isto se percebe pela forma externa de se vestir, se percebe no comportamento para com os filhos, na linguagem (a utilização freqüente do nome de Deus ou de Jesus), na formação de um novo círculo de amizades, onde certas amizades são deixadas e outras conscientemente cultivadas (amizades dentro do novo grupo), um engajamento eclesial marcante e forte (participação em todos os cultos, leitura freqüente da Bíblia), num novo comportamento social (não freqüentar mais bares, danças...). Esta nova identidade é construída em contraste com a identidade anterior: quer dizer, tudo se faz para mostrar que não se é mais o mesmo, que houve uma mudança radical da identidade a partir da religião. Como a nova Igreja é o centro da nova identidade, todas as atitudes anteriores - agora identificadas como errôneas - são tidas como atitudes relacionadas com a antiga identidade religiosa. Ou seja, eram atitudes de católicos. Agora faz-se de tudo para mostrar que não se é mais católico. Ou seja, a identidade é construída na diferença para com o anterior. No caso, na diferença para com a identidade católica. A grande maioria das Igrejas pentecostais construiu suas identidades religiosas no Brasil justamente tendo como base a oposição/diferença à Igreja católica. Com as atitudes e a nova maneira de ser, tenta-se provar exatamente isto: não se é mais católico. E tudo o que diz respeito ao catolicismo é pois errôneo ou deve ser evitado. Esta atitude é, não raras vezes, cultivada pela própria liderança destas Igrejas, para manter seus fiéis em contraste com o catolicismo, caracterizando assim uma identidade pela diferença.

Do ponto de vista institucional, era para estas Igrejas pentecostais nascentes questão se sobrevivência marcar sua diferença para com o "grande mundo católico". Uma instituição pequena tem uma necessidade muito maior de coesão, de marcar posição, de fazer oposição, que uma grande, que não sente sua identidade ameaçada pela existência do outro.

Este fator da identidade criada na oposição e na diferença dificulta enormemente qualquer movimentação de ecumenismo por parte destas Igrejas em relação à Igreja católica no Brasil. Não se pode dizer porém, que estas Igrejas não tenham um espírito ecumênico. Elas têm um ecumenismo - mesmo que um ecumenismo de solidariedade - com outras Igrejas pentecostais. Há uma certa identificação entre elas pelo fato de serem oposição à católica. Nesta identificação pode-se ver a possibilidade - e que de fato ocorre - de um ecumenismo. Um ecumenismo com a Igreja católica, pelo menos em ação ecumênica direta, é ainda bastante dificultado, exatamente pelo fenômeno ao qual chamávamos a atenção acima, da identidade na oposição.

 

2.3. É possível ecumenismo católico-pentecostal?

 

Esta pergunta é muito complexa para ser respondida com um "sim" ou um "não". Talvez se pudesse começar a respondê-la esta questão, colocando a própria atitude de católicos diante destas Igrejas. Se por um lado há de se constatar uma dificuldade por parte de membros destas Igrejas nos contatos com católicos, não se pode deixar também de observar também que há por parte dos católicos uma resistência a contatos com membros destas Igrejas, enquanto membros destas Igrejas. Não pode ainda deixar de observar que na caminhada ecumênica, não sem tropeços, existente entre as diversas Igrejas cristãs, o surgimento das Igrejas pentecostais é um fator de revés nesta caminhada. Enquanto entre a maioria das Igrejas cristãs (luterana, metodista, episcopal, católica, anglicana, ortodoxas...) já se havia conseguido pelo menos uma situação de respeito mútuo, parece que o fenômeno pentecostal fez voltar a roda da história. Não se pode negar que o relacionamento entre católicos e pentecostais de diversas matizes é de hostilidade, onde sem dúvida ambas as partes tem sua parcela de responsabilidade. Para se quebrar um pouco estas resistências, fazem-se necessárias algumas diferenciações:

Ü Distingir as diversas Igrejas pentecostais. É muito comum que se fale em "crentes" para designar indistintamente os membros de todas as Igrejas pentecostais. Como vimos rapidamente acima, as Igrejas pentecostais tem grandes diferenças entre elas. Assim, mesmo sendo ambas pentecostais, não se pode confundir a Igreja Assembléia de Deus com a Internacional da Graça. Uma está interessada em formar comunidades, geralmente nas periferias, proporcionando um grande elo de solidariedade e entre-ajuda entre seus membros, promovendo a leitura da Bíblia como fundamento da comunidade. A outra é uma Igreja de centro de cidade, voltada para as massas e para satisfazer seus anseios religiosos, mas nem a Bíblia nem a formação de comunidades são pontos forte. Em segundo lugar esta distinção necessária entre as diversas Igrejas pentecostais deve ser feita em respeito aos próprios membros destas Igrejas, pois os membros das diversas Igrejas fazem esta distinção e não é visto com bons olhos esta não distinção. E para se poder fazer esta distinção, é preciso conhecer as diversas Igrejas.

Ü Distinguir a experiência de fé da prática do pastor. Ou seja, não se pode confundir a experiência de fé feita por alguém em uma destas Igrejas com a orientação ou a prática da direção da Igreja. Este mesmo critério nós o usamos em relação à Igreja católica, ao não confundirmos a experiência de fé das pessoas com o padre, suas práticas ou atitudes. Principalmente não se pode medir, valorizar ou desvalorizar esta experiência de fé a partir da medida ou da valorização que temos de alguma pessoa que possa ocupar função de liderança nesta Igreja.

Ü Não é porque o médico é ruim, que o paciente não esteja doente. Continuando o pensamento acima, é preciso reconhecer que não é a atitude de alguma liderança que faz com que a experiência de fé tenha mais ou menos seriedade. A experiência de fé do fiel está ligada a ele e não à direção ou orientação de sua comunidade. Este fato da busca e da necessidade de uma experiência de fé nos moldes como é oferecida por uma determinada Igreja deve ser levado a sério e respeitado. A busca de fé da pessoa deve ser colocada acima da avaliação da instituição.

Ü A fé da pessoa precisa ser levada a sério. E esta busca, por estar no nível da fé, é algo para nós a ser respeitada com a mesma profundidade da busca com que acontece a própria fé. A fé é definida como a resposta do ser humano ao chamado divino, é o resultado do encontro divino e humano e este encontro é reconhecido na teologia como graça. Por mais estranha que seja para nós a resposta de fé dada em uma determinada Igreja, desprezar a experiência de fé, como encontro divino - humano, como experiência da graça, é de certa forma desprezar a própria forma de nossa identidade de fé.

Ü Perceber - como cristãos - o que leva as pessoas a muitas vezes deixarem ser  enganadas. Não se pode deixar de ver o fato de que em muitas Igrejas destas nascidas ultimamente há uma busca direta dos meios financeiros dos seus membros. Ou seja, que em nome da oferta de experiência religiosa, também acontece a exploração indevida da mesma para proveito de poucos. Partindo do pressuposto de que a busca da experiência de fé destas pessoas é sincera e que grande parte delas eram católicas nominais, não podemos deixar de perguntarmo-nos pela insensibilidade da próprias comunidades católicas em reconhecer esta busca sincera.

Ü Perguntar sobre nossas comunidades. A partir da constatação anterior, faz-se necessário pensar sobre as próprias comunidades católicas, sobre como estão ou não estas oferecendo espaço de experiência religiosa, cuja demanda está acontecendo nos moldes pentecostais. O interesse pelo outro no ecumenismo é sempre também um interesse por si mesmo. Assim o preocupar-se com o fenômeno pentecostal deveria levar as comunidades católicas a perguntarem-se também sobre a sua atuação religiosa, sobre a capacidade de nossas comunidades reagirem aos anseios que nascem no meio do povo...

Ü Não somos o único legítimo espaço da experiência cristã. Um último ponto a ser considerado nestas diferenciações prévias sobre nossa posição diante do fenômeno do crescimento das Igrejas pentecostais e o ecumenismo, é reconhecermos claramente que não somos - comunidades católicas - o único espaço legítimo da experiência cristã e sua expressão. Vale recordar, somos seguidores de Jesus Cristo, herdeiros de sua mensagem. Mas não podemos de modo algum colocarmo-nos na posição de comunidades que tivessem o monopólio sobre a experiência cristã. Esta posição pode parecer à primeira vista uma relativização de nossa experiência. É no entanto um posição importante a contribuir no diálogo ecumênico. Quando conseguirmos entender e sentir que não temos exclusividade na expressão cristã, a aceitação do outro - mesmo parecendo sua experiência estranha a meu modo de pensar, agir e experienciar - torna-se mais fácil.

Depois de fazermos estas distinções, é de se perguntar sobre a possibilidade da construção dum relacionamento positivo entre católicos e membros das diversas Igrejas pentecostais. A primeira coisa que devemos estar cientes é o fato de todos sermos cristãos, seguidores de Jesus Cristo. E Jesus nos deixou como maiores mandamentos o amor a Deus e ao próximo. A prática do amor ao próximo é pois a primeira exigência da atitude do cristão e portanto dos católicos. Não ter uma atitude de amor ao próximo diante do membro de uma outra confissão religiosas é renegar a própria identidade cristã.

Um segundo ponto importante é ter a consciência da necessidade de uma abertura para o diálogo. Ou seja, criar uma atitude básica que se predispõe a dialogar e não que se predispõe logo à hostilidade. Uma atitude de diálogo é uma atitude de saber ouvir o outro, de ter consciência de não possuidor sozinho da verdade, nem ser o dono de Jesus Cristo.

Dentro desta atitude de abertura ao diálogo, há um terceiro ponto importante que é ter clareza sobre a própria identidade. O encontro com o outro deve levar a perguntar sobre o específico da própria identidade. O diálogo não acontece quando não há uma clareza sobre a própria identidade. E mais do que isto, diria até que ao diálogo é importante também a defesa da própria identidade.

Tendo uma atitude de amor ao próximo, de abertura ao diálogo, dando importância à própria identidade, faz-se necessário que os católicos tenham ainda duas atitudes especificamente relacionadas com o ecumenismo. Uma poderia ser caracterizada como "ecumenismo prático". O "ecumenismo prático" é aquele que acontece através da prática do dia-a-dia, onde acontece muitas vezes que nos relacionamos com pessoas pertencentes a alguma Igreja pentecostal. Este relacionamento pode se dar através da família, da vizinhança, do trabalho... No centro do "ecumenismo prático" não está a questão religiosa, mas sim as questões do dia-a-dia, que dizem tanto respeito a mim como ao outro. Um bom entendimento nestas questões (no ambiente de trabalho, na vizinhança...) já é um passo para se superar as distâncias entre as pessoas, para poder ver o outro com os olhos da normalidade e da benevolência. Não se pode parar porém apenas no estágio do "ecumenismo prático". É importante passar para uma segunda atitude, que se poderia chamar de "ecumenismo ativo". "Ecumenismo ativo" é a capacidade de buscar o diálogo ao nível religioso. Ou seja, não ficar em uma posição passiva, onde o ecumenismo - se ocorrer - é apenas uma reação à iniciativa do outro. Caso os dois lados ficarem esperando a iniciativa do outro, o encontro ecumênico nunca acontecerá. Um pouco de ousadia, de iniciativa na busca do diálogo faria muito bem ao ecumenismo.

 


3. Ecumenismo a varejo

A práxis a nível de comunidade ou do dia-a-dia

 

Vimos até agora o Ecumenismo como fenômeno religioso, como movimento histórico à contramão das divisões, vimos a espiritualidade ecumênica, as propostas concretas de diversos grupos cristãos, cada qual com sua compreensão de Igreja, de ecumenismo, de unidade... Por fim vimos um problema específico no âmbito do ecumenismo que é a questão do pentecostalismo - e especialmente o que ocorre no Brasil. Nesta última parte vamos ver questões práticas de ecumenismo tanto a nível de comunidades como no nível da vivência do dia-a-dia do ecumenismo. Não se trata tanto aqui de refletir sobre o ecumenismo, nem de oferecer "receitas" ecumênicas, mas colocar algumas observações sobre um nível menos pretensioso, mas local e de pequeno passo. Este nível poderíamos chamar de ecumenismo a varejo, aquele que ocorre no pequeno, no âmbito familiar, cotidiano, onde o fiel encontra fiel, onde o tema nem sempre é ecumenismo, mas pode ser um componente.

Antes de iniciarmos este tema, faz-se necessária uma observação prévia: o "ecumenismo a varejo" não pertence necessariamente ao movimento ecumênico como tal, pois nem sempre se trata de situações onde a vontade ecumênica norteou as ações. Mas o "ecumenismo a varejo" não deixa de ter importância para o movimento ecumênico, sobretudo no sentido de ser um facilitador, um "quebra-gelo" para as posições institucionais muitas vezes empedernidas por acontecimentos históricos, por preconceitos, por inseguranças de parte a parte. Como facilitador, o "ecumenismo a varejo" pode desencadear ações ecumênicas mais significativas. E sobretudo neste aspecto repousa a maior importância deste ecumenismo. Ao mesmo tempo se deve dizer que ele não substitui nem deve ser paralelo ao ecumenismo como ação consciente.

 

4.1. Ocasiões ecumênicas

 

Vivemos em uma sociedade marcada pela pluralidade. Em todos os sentidos: pluralidade de cosmovisões, de busca de sentido, de religiões e - o que interessa à nossa causa - de Igrejas cristãs. Nossa sociedade está repleta de Igrejas cristãs, mas mais diferentes matizes e origens, com os mais diversos estilos de cultos e tradições. Esta realidade de pluralidade cristã está aos poucos sendo integrada em nossa sociedade brasileira como um fato consumado. Especialmente nas grandes cidades não mais causa estranheza o fato de conviverem diversas Igrejas cristãs num mesmo quarteirão. Especialmente nos bairros mais populares e pobres é grande e forte a presença de diversos templos cristãos, convivendo lado a lado. O modelo colonial da cidade com a Igreja matriz (católica) na praça central e o ponto de referência não é mais necessariamente uma constante, apesar de ser ainda comum em muitos lugares. Aos poucos este estereótipo cristão-católico está dando espaço a uma série de presenças de Igrejas cristãs. Também não mais estranha o fato de em muitas famílias haver pessoas que pertencem a diversos credos cristãos. Esta presença de variadas confissões cristãs num espaço relativamente pequeno, faz com que os fiéis das diversas denominações não mais vivam somente entre si, mas convivam em muitos aspectos do cotidiano. Diversas ocasiões proporcionam uma convivência que pode ser proveitosa para ajudar o deslanchar de um movimento ecumênico.

a) Engajamento social comum. É muito comum que em diversos movimentos populares e sociais cristãos de diversas denominações encontrem-se engajados lado a lado. Entre estes movimentos podemos citar associações de moradores, sindicatos, comissões de fábricas, associações diversas (de funcionários, escolares, ecológicas...) e inclusive em partidos políticos. O que norteia este engajamento comum é geralmente uma causa comum a todos os engajados, como reivindicações de melhorias (caso típico das associações de moradores), apoio a uma obra de interesse comum, ou associações motivadas por algo que une as diversas pessoas (trabalho, lazer, estudo...). Este engajamento comum também pode ser notado por ocasiões de campanhas por alguma necessidade (exemplos típicos são as campanhas por ocasião de alguma catástrofe). Neste tipo de engajamento social comum não está em questão a pertença religiosa, mas geralmente ela não é um fator desconhecido. Principalmente em movimentos sociais (associações, sindicatos, partidos) as pessoas se conhecem suficientemente para saber da militância religiosa do outro, mesmo que não venham a discorrer abertamente sobre o assunto. Para o ecumenismo é relevante notar que esta prática de engajamento comum demonstra ser possível unir-se de tal forma que a diferença de credo seja - no movimento em questão - um assunto de importância secundária. A importância primária é dada àquilo que une e aproxima as pessoas e não àquilo que as divide e afasta. O "sentir comum", tão importante para o movimento ecumênico, bem como o sentimento de pertença comum são fatores presentes nestas ocasiões e podem ajudar a desencadear com mais facilidade um processo compreensão mútua no tocante à pertença e militância eclesial.

b) Comemorações cívicas: feriados cívicos, posse de autoridades, inaugurações. O engajamento social comum e a convivência numa mesma sociedade de membros de diversas confissões cristãs traz conseqüências diversas que exigem também a participação comum. São os casos de celebrações de datas cívicas, onde a programação é feita em comum, podendo ter ou não um ato religioso. Mesmo não havendo um ato expressamente religioso, há o engajamento comum na preparação da programação para estas datas. O mesmo fato da presença de membros de diversas Igrejas ocorre por ocasião de posse de autoridades (de maior ou menor escalão, de presidente da república a presidente da associação de moradores). Também em inaugurações de obras (públicas) é comum a participação de membros de diversas confissões, de modo que a tradicional bênção do padre (sinal da hegemonia católica) é cada vez menos comum e especialmente evitada em ocasiões de participação de pessoas de diversos credos. Também aqui o programa religioso - quando há - precisa ser preparado de tal modo a contemplar, de alguma forma todos os credos presentes, ou pelo menos não contrariá-los. Isto já requer uma sensibilidade ecumênica mais acurada.

c) Celebrações da vida: aniversários, casamentos, bodas, formaturas. Cada vez mais estão se tornando comum celebrações de etapas da vida com a presença de pessoas de diversos credos. Quando há na mesma família membros de diversas Igrejas, este encontro é comum em festas de famílias: aniversários, casamentos, natal, páscoa... A realização de casamentos com membros de diversas Igrejas é às vezes a oportunidade para membros de uma Igreja entrarem pela primeira vez no templo de outra Igreja. E como há no casamento uma cerimônia religiosa, é oportunidade para participar de uma celebração em outra Igreja. Não se pode chamar isto logo de ecumenismo, mas tem importância pelo fato de poder haver participação comum na oração, que é um dos pontos chaves no movimento ecumênico. Além disso, a presença de membros de diversas Igrejas em uma família (seja por casamento, seja por mudança de credo) aponta a um outro fator que não pode ser desprezado no âmbito ecumênico: a importância da amizade pessoal. Quando há amizade pessoal e profunda entre membros de diversas Igrejas, o outro não é mais um estranho, alguém com o qual não se quer ter contato; pelo contrário, o outro é mais próximo, há interesse pelas coisas do outro, há partilha de idéias, de alegria...

d) O espaço escolar. Um outro acontecimento na vida da pessoas que cada vez mais está sendo celebrado de forma ecumênica são as conclusões de cursos (formaturas). Na grande maioria das instituições de ensino estão presentes alunos de variadas Igrejas. As cerimônias de formaturas tem sido feitas muitas vezes com uma celebração ecumênica. E aqui já se trata de um nível consciente de ecumenismo. Não apenas as formaturas, mas as próprias escolas são lugares que podem favorecer o "ecumenismo a varejo": o contato entre alunos de diversas confissões, a presença de professores de diversas confissões. A escola também pode ser um lugar de exercício consciente de ecumenismo. Sobretudo o ensino religioso escolar deve estar atento para a questão ecumênica. Nele há espaço para educação para coisas básicas do ecumenismo: respeito mútuo, compreensão, visão positiva da diversidade, educação para a convivência fraterna. Há nesta disciplina inclusive espaço para se abordar direta e positivamente a diversidade eclesial e refletir a respeito deste fator na sociedade.

 

3.2. Passos na busca ecumênica das comunidades

 

Desde a declaração "Unitatis Redintegratio" (1965), a Igreja católica declarou-se oficialmente favorável ao movimento e à prática ecumênica. De lá para cá foram criados diversos organismos dentro da Igreja católica a nível mundial para promover o ecumenismo, coordenados pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Além disso este Conselho em seu diretório incentiva as dioceses a criarem mecanismos diocesanos que promovam o diálogo ecumênico. Apesar desta posição clara da hierarquia católica a favor do ecumenismo, o ecumenismo na base católica (nas comunidades) ainda é algo bastante desconhecido. E isto mais de 40 anos após o Vaticano II! Esta é na prática uma das dificuldades para o ecumenismo. Por um lado ele é assumido oficialmente pela instituição Igreja, por outro é ainda quase que desconhecido nas bases. Neste nível ainda reina a idéia de que o ecumenismo é algo errado, que não deve ser praticado, que não é desejado pela Igreja. Práticas ecumênicas são colocadas muitas vezes à margem das comunidades. Não é prá menos, pois quase todos os cristãos cresceram e foram educados ouvindo falar mal do outro. Este não é um fenômeno porém exclusivamente católico. Também em outras Igrejas se pode observar que enquanto a hierarquia apoia o ecumenismo, nas bases ele é visto com desconfiança e rejeitado (exemplo típico acontece com a Igreja metodista). Um passo importante neste sentido é tematizar o ecumenismo dentro das próprias comunidades. Assim a comunidade poderá se defrontar com a questão, poderá perceber sua importância e necessidade antes de ter uma experiência ecumênica direta, o que poderia chocar os desavisados.

Para se iniciar uma prática ecumênica a nível de comunidade, além da importância de a comunidade se defrontar com o tema e perceber sua importância antes de um contato direto com outra comunidade, há outros fatores que podem colaborar o ecumenismo a nível de comunidades. Alguns fatores, sem ordem de importância:

Conhecimento mútuo. Que as comunidades envolvidas em algum processo ecumênico se conheçam mutuamente, pelo menos minimamente. Ou seja, que o encontro ecumênico não aconteça entre dois corpos eclesiais estranhos. O conhecimento e amizade pessoal entre membros das Igrejas envolvidas num processo ecumênico podem ser de muita valia.

Contato como comunidade. É importante que o contato ecumênico aconteça a nível de comunidade de fé. A presença de um grupo de fiéis de forma conjunta é importante no processo ecumênico devido às inseguranças que ainda cercam a questão. O contato com outra Igreja, sendo ele feito como comunidade de fiéis e não como indivíduo, dá às pessoas envolvidas no processo uma maior segurança e identidade com o seu grupo.

Valor dos gestos. A linguagem simbólica e de gestos é por vezes muito mais profunda e convincente que o discurso. Isto precisa ser também utilizado no âmbito ecumênico. É importante valorizar gestos simbólicos que demonstrem o espírito de unidade. Gestos de deferência, de respeito mútuo, de benquerença transmitem com eficácia o desejo de unidade.

Importância das lideranças. As lideranças eclesiais têm um papel importante e decisivo no processo ecumênico a nível de comunidade. Para muitos cristãos católicos - e creio também para cristãos de outras denominações - é uma novidade que a Igreja seja a favor do ecumenismo. Ainda há muita insegurança em relação ao contato com o outro, em relação ao "perigo" que isto pode acarretar. Há ainda muitos cristãos católicos que pensam ser proibido na Igreja católica ter contato com cristãos de outras Igrejas. Estes medos e inseguranças são mais facilmente diminuídos quando as lideranças eclesiais participam de movimentos ecumênicos, deixando assim claro que a Igreja - como instituição - está envolvida no processo de busca de unidade entre os cristãos. Uma posição clara da liderança eclesial constituída em favor do ecumenismo contribui para tirar muitas dúvidas da cabeça dos fiéis a respeito do contato com comunidades de outras confissões.

 

3.3. Problemas comuns do cotidiano ecumênico

 

A tentativa de promover a unidade dos cristãos muitas vezes esbarra em problemas do cotidiano que, apesar da boa vontade de se procurar ecumenismo, por vezes fazem a boa vontade fracassar. São muitas das vezes questões menores, mas que para quem está na base são os pontos de embate com os membros de outras denominações. Sem querer dar solução, apenas apontamos aqui alguns destes problemas.

A questão das imagens. Um dos pontos de divergência mais comuns entre cristãos de diversas denominações é a questão das imagens. De um lado estão os católicos com uma grande tradição no que diz respeito ao costume de usar imagens de santos em suas casas e em seus tempos e do outro lado está a posição diversas Igrejas contra utilização de imagens. Esta posição é baseada na Bíblia onde há a proibição de adorar imagens. Mesmo fazendo a distinção de que os católicos não adoram imagens, mas sim as veneram, temos que reconhecer que às vezes há um certo exagero no ceio do catolicismo no tocante à utilização de imagens, usadas quase que como objetos mágicos. É preciso reconhecer que há exageros. Em segundo lugar é importante recordar aqui o texto da "Unitatis Redintegratio" (n. 11), onde o Concílio Vaticano II recorda e assume a idéia da "hierarquia de verdades", ou seja, nem todos os pontos da doutrina cristã podem ser colocados no mesmo nível. Assim, a veneração de imagens é um destes pontos de importância secundária em relação às verdades centrais da fé, as verdades que dizem respeito a Deus, a Jesus Cristo, ao Espírito Santo, ao Evangelho. Não se deve fazer esta questão mais importante do que ela é. Talvez a utilização da argumentação da imagem como recordação de pessoas importantes na história da Igreja (como se tem uma fotografia para recordar da mãe, do pai, da esposa, dos filhos...) possa ajudar na conversa.

Divergências "doutrinais". Sem dúvida há divergências doutrinas entre as diversas Igrejas. Elas não são poucas e nem são fáceis de serem "resolvidas". Na base ocorrem muitas vezes discussões do tipo: "tal Igreja acredita nisso", "tal Igreja acredita naquilo". São divergências mais de pontos de vista que de questões doutrinais importantes e estas discussões acabam levando a uma busca do "quem tem razão". Estas discussões acabam por vezes apenas aprofundando divergências desnecessariamente. É importante que o fiel de cada Igreja conheça a tradição de sua Igreja para ter firmeza na argumentação. Mas deve ter também tal abertura para dizer que o outro tem uma interpretação diferente. O conhecimento da própria tradição e o respeito à diversidade de opiniões e interpretações em muito ajuda a diminuir tensões desnecessárias.

A Igreja verdadeira. Outro assunto que muitas vezes causa polêmica no cotidiano ecumênico é a discussão sobre "qual é a verdadeira Igreja?". Em primeiro lugar é preciso fazer uma observação óbvia: cada fiel está convencido ser a sua Igreja a verdadeira. Se assim não fosse, ele lá não estaria. É importante que cada fiel esteja convencido de sua Igreja, mesmo que isto seja um dos pontos de discórdia. Entrar pois nesta discussão sobre a "verdadeira Igreja" é entrar num beco sem saída. Este é pois um ponto a ser respeitado: que cada qual defenda ser a sua Igreja verdadeira. O que porém às vezes acontece neste nível da discussão é que se atribua à Igreja funções e tarefas que não são suas. Por exemplo: quem está nesta Igreja está salvo, quem está naquela Igreja está perdido. Ora, não é função da Igreja decidir sobre a salvação ou perdição. O Evangelho pede expressamente que não julguemos e diz que a Deus cabe o julgamento sobre a salvação ou perdição. É portanto muita pretensão atribuir à Igreja (seja ela qual for) a importância devida somente a Deus.

O Papa é a besta do apocalipse (ou o anti-Cristo). Eis outra questão-problema do dia-a-dia de convivência entre cristãos, principalmente entre fiéis católicos e fiéis de Igrejas onde esta opinião é propagada. Trata-se de uma opinião que revela fanatismo e falta de vontade para o diálogo. Neste nível de nada adianta entrar em discussões, pois trata-se simplesmente de falta de um mínimo de respeito diante do outro.

O católico bebe e o crente só está atrás de dinheiro. Outros problemas que muito atrapalham o dia-a-dia ecumênico são as generalizações e estereótipos. Não se pode generalizar do comportamento de uma pessoa para todos os fiéis daquela Igreja, nem se pode julgar uma Igreja pelo comportamento de um de seus fiéis. Como católicos acham injusto que se julgue a sua Igreja pelo mau comportamento de algum de seus membros, também não se pode julgar uma outra Igreja pelo comportamento (errôneo) de algum de seus fiéis. Estas generalizações são injustas, contribuem apenas para reforçar preconceitos muitas vezes já existentes e aumentam a distância entre cristãos.

 

3.4. Indicações práticas

 

Neste "ecumenismo a varejo" há também coisas pequenas que não fazem propriamente parte do processo ecumênico, mas colaboram para ele quando percebidas. Trata-se de alertar para coisas do bom senso, para detalhes que podem ajudar na convivência ou pelo menos não suscitar provocações no relacionamento entre fiéis de diversas Igrejas, por vezes facilmente "irritáveis".

O alto-falante. Não se trata de um instrumento propriamente ecumênico, mas sem dúvida com o poder de "azedar" as relações entre Igrejas diversas. Ou seja, faz parte do bom senso e do espírito ecumênico não colocar sistema de som em público de tal modo a irritar (ou provocar?) os outros.

A procissão. Muitas comunidades (principalmente católicas) têm o costume de fazer procissões, levando inclusive um andor com a imagem do santo padroeiro. Outras comunidades condenam estritamente esta prática e sentem-se irritadas quando são feitas procissões que passam por frente à sua comunidade. Seria muito interessante que ao ser escolhido o roteiro da procissão, bem como o horário, houvesse uma atenção especial para perguntar-se pela presença de outra Igreja neste trajeto e - se for o caso - saber do horário da celebração, para não coincidir que a procissão passe cantando em frente a outra Igreja que se encontra em oração. Uma tal coincidência seria sem dúvida interpretada como provocação.

A sensibilidade mútua. Cada maneira de crer tem uma forma específica de expressão de fé. Os fiéis de uma determinada confissão têm uma sensibilidade de fé diferente dos de outra. É importante para o ecumenismo perceber e não ferir a sensibilidade mútua. Ou seja, se há coisas da parte do outro que podem ferir a minha sensibilidade, pode haver também coisas de minha parte que fere a sensibilidade do outro. Para se saber isto, é preciso conhecer um pouco o outro, saber do seu modo de ser cristão, saber daquilo que lhe é agradável, como também daquilo que lhe é desagradável. Procurar evitar o que é desagradável ao outro é um bom sinal de espírito ecumênico. Como exemplo podemos citar aqui a questão de acender velas, o uso de imagens...

Evitar pontos de atrito. Há certos assuntos que são lugares comuns de atritos na relação entre cristãos, principalmente entre católicos e cristãos de outras denominações. Entrar propositadamente nestes pontos em nada contribui para o relacionamento ecumênico. É mais prudente evitar estes pontos de atrito, pois uma discussão sobre eles em nada irá mudar a posição de ambos os lados, apenas irá colaborar para afastar as pessoas e irritar os ânimos. Assim, por exemplo, a questão de Maria, das imagens, do Papa, do dízimo. As posições a respeito destes assuntos geralmente já estão fixas de tal modo que o bom senso humano pede que se evite estes pontos de atrito.

Vigiar a linguagem. Nosso modo de falar a respeito do outro muitas vezes revela preconceitos já enraizados em nossa vida. Estes preconceitos por vezes cresceram conosco e nem nos damos conta que a linguagem que utilizamos para nos referir ao outro pode ferir, maldizer ou ofender os irmãos de outra confissão. É importante fazer um esforço pessoal no sentido de vigiar a própria linguagem, evitando expressões, piadas que depreciam a imagem do outro.

Combater os crentes. Em muitos católicos há ainda persiste uma atitude pré-conciliar no sentido de acharem correto que de deve "combater os crentes". Esta atitude não mais é condizente com a posição do catolicismo frente a outras denominações de modo que deve ser superada. Chega-se inclusive às vezes querer que haja nas comunidades mais estudos bíblicos para poder "melhor combater os crentes". Que seja estudada - cada vez mais - a Bíblia nas comunidades, mas nunca como preparação para a guerra contra os outros.

Utilizar assuntos comuns. Uma conversa ou troca de idéias entre membros de diversas Igrejas decorre com muito mais fluência quando são postos assuntos comuns. Principalmente os Evangelhos oferecem muitos temas de conversa onde - mesmo havendo divergência de interpretação - a discussão pode ser proveitosa para ambos os lados.


 

CONCLUSÃO: UMA PARÁBULA ECUMÊNICA

 

O Sonho do Pai

 

            Jesus, quando enviou os seus discípulos a pregar, disse que quando entrassem em uma casa, a primeira coisa que deveriam dizer era: "A paz esteja nesta casa". Certamente Jesus usou a palavra "shalom", que quer dizer paz num sentido amplo: benquerença, bem-estar, fraternidade, união no amor e partilha.

            E assim os cristãos saíram para anunciar "shalom" às pessoas, para serem mensageiros da paz. E a Bíblia diz: "Felizes os pés de quem anuncia a paz". Esse era o Evangelho anunciado pelos seguidores de Jesus: a boa-nova, a boa-notícia da paz. Serem mensageiros da benquerença, da fraternidade era a missão dos seguidores do mestre. E eles conseguiram em poucos anos contagiar uma grande região, estes mensageiros da paz. Foram se formando comunidades que queriam viver como o mestre havia ensinado: no amor mútuo, na partilha, na fraternidade, no "shalom". E os outros diziam quando os viam: "Vede como eles se amam!". E esses grupos foram chamados de "cristãos", aqueles que seguem o mestre que mandou dizer "A paz esteja convosco". Essas comunidades eram o lugar concreto onde se criava um espaço para a paz, a fraternidade, a união de todos. Havia, claro, problemas nas comunidades, nem tudo funcionava às mil maravilhas, havia atritos. Mas estes eram secundários: o importante era estar apaixonado pelo mestre, pelo seu modo fraterno de vida e anunciar que ele não estava morto, que ele vivia, que ele estava presente onde sua mensagem se tornasse realidade, que ele estava ali na figura de cada ser humano, que ele estava presente no faminto, no sedento, no sem roupa, no prisioneiro... e que a ação em favor deste seria uma ação em favor dele mesmo. E mais que isso, os cristãos passaram ter a certeza de fé de que onde o pão fosse repartido, onde o vinho fosse compartilhado, ali se estava celebrando verdadeiramente a sua memória, pois se recordavam das palavras do mestre havia dito após a partilha do pão e do vinho: "Fazei isto para lembrarem de mim". E assim o mestre continuava presente realmente onde se estava vivendo o que ele havia anunciado. E todos os que viviam sua mensagem tinham a certeza de que não o faziam em nome próprio, mas dele, pois Jesus é o Senhor. E assim sua presença entrou na história através das comunidades de "cristãos"...

            Séculos mais tarde o próprio mestre resolveu visitar a terra de novo pessoalmente. Como já havia feito da primeira vez, tomou a forma de uma pessoa, e foi passear pelo mundo. Resolveu visitar os seus discípulos. Com alegria constatou que havia muitas comunidades. E resolveu olhar a coisa mais de perto. Entrou numa comunidade onde se lia na frente "Assembléia de Deus". Participou do culto e achou muito interessante: havia muita alegria no canto, muita empolgação na pregação. Ficou muito feliz em poder participar e ao final apresentou-se ao dirigente do culto. Este, por sua vez, não cabia em si de tanta felicidade em saber que Jesus estava pessoalmente na comunidade.

            E Jesus continuou sua visita. Entrou numa outra Igreja. Não havia nada escrito na frente, mas ao perguntar, soube que se tratava da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. E estavam celebrando ali a memória da última ceia. Jesus ficou até emocionado ao ver que o que dissera há muito tempo, continuava sendo repetido "em memória dele". Ali também havia cantos, pregação, oração. Achou até interessante alguns detalhes dali. Viu como davam importância à tradição, à história e para não deixar a memória passar, colocavam figuras de pessoas que haviam vivido intensamente sua mensagem. Encontrou até uma figura representando sua mãe. No final da celebração, Jesus foi falar com o sacerdote e se apresentou a ele. Este ficou tão surpreso e alegre, que queria logo falar com o bispo e convocar todos os sacerdotes para dar a boa-nova da presença de Jesus na comunidade.

            Depois disto, Jesus foi a uma outra comunidade. Viu que se tratava da Igreja adventista. As palavras que ele dissera há tanto tempo, ali também eram conservadas e todos tinham a certeza de sua presença. Após a reunião, Jesus quis saber do coordenador por que se chamavam Igreja adventista? Este explicou que o nome da Igreja vinha do fato de crerem que Jesus iria voltar, numa volta definitiva para desencadear um tempo de felicidade total. Quando Jesus se deu a conhecer, o pastor quase teve uma parada cardíaca. Mal conseguiu perguntar se o fim do mundo estava começando. Jesus o tranqüilizou e disse que se tratava apenas de uma visita e não de sua vinda definitiva. O pastor ficou feliz com a visita e pensou: como vou explicar no próximo culto que Jesus esteve aqui pessoalmente? Será que vão crer em mim. Jesus deu a ele uma dica: Recorde ao pessoal o que eu disse no meu tempo: quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou ali presente. O pastor despediu-se esfregando as mãos de felicidade.

            E Jesus continuava seu itinerário. Passou em frente a outra Igreja e achou o nome dela até engraçado: "Igreja do Evangelho Quadrangular" e pensou "de que se trata?" Sua dúvida foi desfeita quando um membro da comunidade lhe explicou: A Igreja se chama quadrangular, porque anunciamos Jesus Cristo que é Salvador, que batiza no Espírito Santo, que cura e que é o Rei. E Jesus disse: "muito bem pensado". Jesus participou do culto e gostou da animação, da vibração. Gostou também que tivessem conservado a memória da cura pela oração, pela imposição das mãos, como ele fizera em seu tempo. E lembrou-se da felicidade do cego que estava à beira do caminho e por sua oração passou novamente a enxergar. O pastor ficou muito feliz quando soube da presença de Jesus no culto.

            O mestre continuou sua andança. Viu uma outra casa de discípulos. Entrou para ouvi-los e soube que se tratava de uma Igreja presbiteriana. Ali se dava muita importância à palavra e a tradição do canto também era cultivada com esmero. Jesus gostou da pregação do reverendo pastor. Nesta Igreja, segundo explicaram a Jesus, um grupo de presbíteros e presbíteras era responsável pelas comunidades. Jesus se lembrou de suas palavras: que entre vocês não haja alguém que queira ser maior, mas que todos sejam irmãos. Aquela comunidade ficou cheia de alegria quando no domingo seguinte o pastor afirmou que Jesus estava ali presente.

            Depois foi Jesus a uma outra comunidade: Igreja Batista. O culto foi muito belo e cheio de emoção. Gostou de ver que suas palavras ainda tocavam o sentimento e o coração dos discípulos, mesmo quase dois mil anos depois. Quando Jesus se apresentou ao pastor, após o culto, este ficou tão animado que queria iniciar logo uma campanha de casa em casa para anunciar a presença de Jesus Cristo na comunidade. Jesus o incentivou e disse: tenha a certeza da minha presença sempre que você anunciar a boa-notícia. E na saída perguntou ao pastor se ele lembrava qual a instrução do mestre para a situação de entrarem em uma casa. Ele sabia a resposta na ponta da língua: "Devo dizer, 'a paz esteja nesta casa'". Até Jesus ficou edificado em ouvir que suas palavras continuavam presentes.

            Após ter visitado esta e muitas comunidades mais, Jesus estava bastante animado e teve uma idéia: "Vou reunir todos os meus discípulos da cidade para fazermos uma grande festa. Direi a todos uma palavra, os incentivarei a continuar e no final da reunião posso inclusive multiplicar os pães e os peixes, transformar água em vinho e assim fazermos uma grande festa".

            Animado com a própria idéia, voltou a procurar as Igrejas que tinha visitado. Todos logo se alegravam ao saber que Jesus estava presente na comunidade. E Jesus começou a expor a sua idéia de reunir todos, de fazer uma festa. Qual não foi a sua surpresa ao ouvir as reações. A coisa não era tão simples assim, reunir os discípulos. Cada um mostrava ao mestre como estava desatualizado e desinformado. "Você por acaso pensa que todas as Igrejas tem a mesma seriedade?"; "Não sabe que existe muita Igreja que só serve para enganar o povo?"; "Parece que você é ingênuo, pois os pastores daquela Igreja só pensam no dinheiro. Com gente assim eu não me reúno"; "Então parece que você não sabe que aquela Igreja adora imagens e isto é proibido, de modo que não se pode reunir com eles?"; "Então você não sabe que esse negócio de pura emoção nos cultos é só para enganar, para desviar a atenção dos verdadeiros problemas sociais?"; "Não podemos nos reunir com aqueles que não estão na tradição dos apóstolos. Então não vale de nada a sucessão apostólica e ordenação sacerdotal?"; "Parece que você é mesmo ingênuo e não sabe que algumas Igrejas são pura fachada, que são apoiadas pelos Estados Unidos para combater as reformas sociais". Outros achavam a idéia muito estranha: "Mas uma reunião de todas as Igrejas?"; "Isto não é causar muita confusão?"; "Não é misturar religiões?" Quando Jesus tentava perguntar por que estavam divididos, ouvia como resposta outra pergunta: "Por que deveríamos estar unidos?" Alguns ficaram inclusive escandalizados quando Jesus confirmou a sua presença em todas estas Igrejas e que a sua presença era uma alegria para todos.

            O mestre porém não desanimou e, apesar das dificuldades expostas, convidou a todos para a reunião. Não foram muitos os que apareceram. Jesus passou uma olhada no público e disse consigo mesmo: "Pode ser que não seja muita gente. Mas já está melhor que da outra vez que aqui estive. Daquela vez somente 12 é que ficaram comigo o tempo todo e mesmo assim, na hora do apuro, um ainda caiu fora. Hoje são 18 aqui; já dá para começar". E a estes que se reuniram, Jesus anunciou:

            "Como em minha primeira vinda, eu continuo anunciando o que o Pai me ensinou. E o Pai me disse que tem um sonho. E me contou esse sonho dizendo: 'Eu sonho com o dia em que todos os meus filhos e filhas sejam um, sejam uma unidade de amor e fraternidade, assim como nós dois somos um. Eu sonho com o dia em que todos vivam no amor, pois permanecendo no amor eu permaneço em todos e todos permanecem em mim. Eu sei que toda a criação sofre e geme dores, até o dia em que estiver reconciliada comigo e eu serei tudo em todos. Eu sonho com o dia em que todos vão seguir os dois mandamentos principais, dos quais deriva toda lei e os profetas: que cada qual ame a mim e ao próximo como a si mesmo. Sonho com o dia em que não mais haverá divisão, nem mais ódio, nem mais tristeza, quando não mais haverá calúnia, não mais haverá desconfiança...'" E assim Jesus continuou a contar a todos o sonho do Pai e falou de uma maneira tão serena que muitos começaram a sonhar junto com ele.

 

V. J. Berkenbrock

Questões sobre Ecumenismo e Espiritualidade

 

1) Qual a necessidade de uma espiritualidade ecumênica?

2) Qual a relação entre espiritualidade ecumênica e movimento ecumênico?

3) O que têm as diversas Igrejas cristãs em comum que facilita uma espiritualidade ecumênica?

4) Quais seriam os pontos chaves para uma espiritualidade ecumênica?

5) Quais as dificuldades para uma espiritualidade ecumênica?

 

 




[1] Cf. J. Bosch Navarro, Para compreender o Ecumenismo (Loyola 1995), p. 9-23.

[2] Cf. J. Bosch Navarro, Para compreender..., p. 10.

[3] Cf. J. Hortal, E haverá um só rebanho..., p. 15.

[4] Cf. J. Bosch Navarro, Para compreender... p. 10.

[5] Cf. J. Hortal, E haverá um só rebanho... 16.

[6] Aqui citado por J. Bosch Navarro, Para compreender, p. 11.

[7] J. Bosch Navarro, Para compreender... p. 11.

[8] J. Bosch Navarro, Para compreender... p. 17.

[9] Wolff, E., Caminhos do Ecumenismo no Brasil, p. 227.

[10] CNBB, apud Wolff, E., Caminhos do Ecumenismo no Brasil, p. 227.,

[11] CMI,  apud Vercruysse, J., Introdução à Teologia Ecumênica, p. 93.

[12]. Para este assunto da história das diversas Igrejas pentecostais e suas características, veja o livro "Nem Anjos nem Demônios" (Vozes - 1994), p. 67-157. Sobre o pentecostalismo e a reação católica frente a este fenômeno, veja também A. P. Oro, Avanço Pentecostal e Reação Católica, Vozes, Petrópolis, 1996

Última atualização em Dom, 11 de Junho de 2017 18:57