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Volney Berkenbrock
A Pesquisa Qualitativa PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Ter, 09 de Maio de 2017 09:55

A pesquisa qualitativa em Ciências Humanas

 

“O pesquisador aprende, como ensina Descartes, no seu Discurso do método, o peso da ‘resolução de me estudar também a mim mesmo e de aplicar todas as forças do meu espírito em escolher os caminhos que deveria seguir’. Esta resolução pode exigir a passagem pela experiência da dúvida: um momento existencial de perda das certezas seguras que davam suporte a um mundo de sombras ao qual se refere Platão, na alegoria da caverna” (p. 12).

“Escapar ao fundo da caverna e às impressões imediatas que impedem alcançar o conhecimento verdadeiro requer compromisso do pesquisador em abdicar das meras opiniões e fazer-se obrigado a buscar os fundamentos da verdade e o sentido da realidade. Os esforços constantes de análise e síntese que a reflexão, a observação e a intuição provocam, podem trazer um drama existencial, uma tomada de consciência dos limites, da fragilidade, da ignorância e da miséria do próprio saber e gerar, no investigador, uma perplexidade aflitiva, uma inibição da vontade, uma paralisia da procura. Encontrar-se repentinamente, em um mundo desde sempre dado, desde sempre feito, sem que tenha levantado qualquer dúvida, nem interrogado sobre seu fazer, é sempre m momento incômodo da busca, porque remete em causa o próprio sentido da pesquisa e do pesquisador: não só põe em questão o objeto da pesquisa e seus condicionamentos ideológicos, sociais e políticos, ou seus métodos e instrumentos, mas, sobretudo, suas finalidades e a consciência científica e social do próprio pesquisador” (p. 12)

“Essa fase emocional da crítica não pode avassalar as atividades do pesquisador; é preciso superá-la pela reflexão consistente que instrua a decisão de buscar novos caminhos, encontrar novas possibilidades e propor uma compreensão genuína do conhecimento e do agir” (p. 12).

 

1 – A pesquisa em ciências humanas e sociais

“A ciência e as pesquisas cresceram e se desenvolveram a partir de um processo de busca metódica das explicações causais dos fatos ou da compreensão exaustiva da realidade, utilizando-se de informações colhidas por meio de observações atentas ou outros recursos adequados de se coligir os dados singulares que fundamentassem afirmações mais amplas. Este processo, designado de pesquisa, genericamente pode-se definir como um esforço durável de observações, reflexões, análises e sínteses para descobrir as forças e as possibilidades da natureza e da vida, e transformá-las em proveito da humanidade. Este esforço não é fruto de uma inteligência isolada em um tempo abstrato, mas é um produto histórico e social porque resulta de um esforço coletivo e permanente da humanidade, no curso do tempo, para construir todas as dimensões da vida” (p. 19).

“A pesquisa, deste modo, reconhece o saber acumulado na história humana e se investe do interesse em aprofundar as análises e de fazer novas descobertas em favor da vida humana. Essa atividade pressupõe que o pesquisador tenha presente as concepções que orientam sua ação, as práticas que elege para a investigação, os procedimentos e técnicas que adota em seu trabalho e os instrumentos de que dispõe para auxiliar o seu esforço. É, em suma, uma busca sistemática e rigorosa de informações, com a finalidade de descobrir a lógica e a coerência de um conjunto, aparentemente, disperso e desconexo de dados para encontrar uma resposta fundamentada a um problema bem delimitado, contribuindo para o desenvolvimento do conhecimento em uma área ou em problemática específica” (p. 19).

“A pesquisa científica caracteriza-se pelo esforço sistemático de – usando critérios claros, explícitos e estruturados, com teoria, método e linguagem adequada – explicar ou compreender os dados encontrados, e, eventualmente, orientar a natureza ou as atividades humanas. A pesquisa pressupõe teorias ou visões de mundo que, em diferentes domínios do conhecimento, moldam a atividade investigativa e auxiliam a pesquisa. Essas teorias de trabalho têm sido definidas como paradigma, tradição, modelo, programa ou postura do pesquisador” (p. 20).

“As teorias científicas, em seu desenvolvimento, são descritas, por alguns autores, a partir de algumas características estruturais que as compuseram no curso da histórica da ciência, sob diferentes termos correlatos, para diferenciar concepções diversas de se realizar a pesquisa científica: paradigmas, tradições, programas, posturas ou modelos de pesquisa. Estes termos traduzem diferentes concepções de autores que analisam o desenvolvimento das ciências” (p. 20).

“Um conceito muito difundido para diferenciar as concepções e práticas, que se forjaram no decurso da história, parte da noção dos paradigmas (KUHN) que se formaram a partir de ideias, concepções e modelos de investigação que, adotados por pesquisadores renomados e seus discípulos, se tornaram exemplares para a atividade científica” (p. 20-21).

“Os paradigmas caracterizam as conquistas científicas universalmente reconhecidas que, por certo período, fornecem um modelo de problemas e soluções aceitáveis pelos que praticam certo campo de pesquisa, na definição de Kuhn, ‘um conjunto de ilustrações recorrentes e quase padronizadas de diferentes teorias nas suas aplicações conceituais, instrumentais e na observação [...] são os paradigmas da comunidade, revelados nos seus manuais, conferências e exercícios de laboratório’” (p. 21).

“Os pesquisadores, de modo geral, confiam em algumas proposições científicas consideradas evidentes e procuram não refutar as teorias existentes, mas trazer alguma coisa nova e original a elas para se afirmar no campo do saber e do poder” (p. 21).

“O acúmulo progressivo dos conhecimentos científicos, novas articulações teóricas e empíricas expõem a ciência, tida como normal, à crise do paradigma, submetendo as certezas e normas aceitas à discussão de suas anomalias, e gerando uma perda de confiança nas teorias acreditadas, podendo gerar, uma revolução científica quando, então guiados por um novo paradigma, os cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em novas direções. A ciência evolui, assim, de um paradigma reconhecido que é caracterizado como ciência normal até quando este entra em crise, revoluciona os modelos de solução e produz um novo paradigma de ciência” (p. 21).

“A ideia que a ciência ‘pode, e deve, ser organizada segundo regras fixas e universais é às vezes utópica e perniciosa’ (Feyerabend); utópica, porque implica uma concepção muito simples das atitudes humanas e das circunstâncias que produzem o desenvolvimento; perniciosa porque, impor tais regras não deixa de aumentar as qualificações profissionais, mas à custa de nossa humanidade. A ciência não é o único paradigma de racionalidade; ela progrediu quando os cientistas abandonaram a obrigação de seguir certas normas, tidas como óbvias, ou as violaram involuntariamente, e convém admitir, todas as ideias e hipóteses, mesmo extravagantes, inspiradas ou na física ou nos mitos, desde que adaptadas às circunstâncias, devem ser tentadas. É ilusória a pretensão de validade, objetividade e verdade das teorias científicas. A crítica radical de Feyerabend pretende liquidar com a ilusória presunção dos epistemólogos em acreditar que algumas normas simplificadas possam captar o universo de significados da realidade, razão pela qual prefere afirmar o anarquismo metodológico como um ‘excelente remédio para a epistemologia e para a filosofia da ciência’” (p. 24).

“Não se pode acreditar que a ciência seja um padrão uno e único, fixo e imutável para todos os cientistas. Alguns pesquisadores neopositivistas, influenciados pela concepção positivista, pretenderam estabelecer uma ciência da ciência, um padrão estável de comunicação, regido por uma linguagem precisa que superasse as discordâncias entre cientistas e fixasse um estilo único e uno de se conceber e expressar os conceitos científicos. Os autores acima, especialmente Kuhn, ao distinguir diferentes vias de investigação, procuraram desfazer esta pretensão, demonstrando que a ciência tem diferentes meios de procurar, justificar e comunicar uma descoberta. Na verdade, todo pesquisador adota ou inventa um caminho de explicitação da realidade que investiga ou da descoberta que realiza, guiado por um modo de conhecer essa realidade e de explorá-la, porque tem ou urde uma concepção do que é a realidade que investiga. Deste modo, uma pesquisa pressupõe, implícita ou explicitamente, uma metodologia, os pressupostos epistemológicos e a concepção da realidade que a pesquisa assume, mesmo quando o autor a declara ou não, tenha clarividência dela ou não” (p. 24-25).

“Para quem inicia uma pesquisa, a questão se traduz na pergunta ‘qual é o problema a ser estudado?’ Delimitar o problema pode ser o momento mais aflitivo da pesquisa porque sua definição está conexa com a concepção que gera o problema; o problema é expressão sintética de uma concepção. Clara ou indefinidamente, todo pesquisador tem uma concepção de mundo, genérica ou sistematizada em teorias, que informa toda sua atividade. Por isso, qualquer observação já implica uma teoria ou , como dizia Darwin, é pró ou contra uma teoria” (p. 25).

“Se o pesquisador supõe que o mundo deriva da compreensão que as pessoas constroem no contato com a realidade nas diferentes interações humanas e sociais, será necessário encontrar fundamentos para uma análise e para a interpretação do fato que revele o significado atribuído a esses fatos pelas pessoas que partilham dele. Tais pesquisas serão designadas como qualitativas, termo genérico para designar pesquisas que, usando, ou não, quantificações, pretendem interpretar o sentido do evento a partir do significado que as pessoas atribuem ao que falam e fazem” (p. 27-28).

“A pesquisa qualitativa recobre, hoje, um campo transdisciplinar, envolvendo as ciências humanas e sociais, assumindo tradições ou multiparadigmas de análise, derivadas do positivismo, da fenomenologia, da hermenêutica, do marxismo, da teoria crítica e do construtivismo, e adotando multimétodos de investigação para o estudo de um fenômeno situado no local em que ocorre, e, enfim, procurando tanto encontrar o sentido desse fenômeno quanto interpretar os significados que as pessoas dão eles. O termo qualitativo implica uma partilha densa com pessoas, fatos e locais que constituem objetos de pesquisa, para extrair desse convívio os significados visíveis e latentes que somente são perceptíveis a uma atenção sensível” (p. 28).

“As pesquisas tomam, por sua vez, formas textuais originais, recorrendo a todos os recursos linguísticos, sejam estilísticos, semióticos ou diferentes gêneros literários, como conto, narrativas, relatos, memórias; recursos estilísticos diferenciados permitem apresentar de forma inovadora os resultados de investigações, criando um excitante universo de possibilidades” (p. 29).

 

2 – A pesquisa qualitativa e seus fundamentos filosóficos

Momentos do desenvolvimento da argumentação sobre o conhecimento. As chamadas ciências que temos hoje, são em parte necessidades de conhecimento da realidade advindas das revoluções comerciais, políticas e industriais dos séculos XVI a XVIII: “Um novo conhecimento da natureza suplantou os sistemas explicativos formais e introduziu novos métodos de investigar as causas e procurar as leis constantes e regulares que regem o movimento macro e microcósmico, abandonando-se generalidades abstratas em favor de generalidades ordenadas que revelassem as relações estáveis entre o pensamento e os dados observados, e, com isso, acrescessem utilidades práticas à descobertas científicas. Consolida-se um novo tipo de conhecimento baseado na quantificação e na mensuração do espaço e do tempo, um conhecimento que se expande na exploração e na conquista da realidade, de novas terras e mares, e do cosmos” (p. 34).

Idade Média europeia: ainda tem por base a lógica aristotélica de exposição de conceitos formais, com uma leitura escolástica da revelação cristã. Mas a partir do séculos XVI, outros conceitos de conhecimento vão ser desenvolvidos, inicialmente a partir da filosofia. Alguns exemplos:

Francis Bacon (1561-1626): Percebe a necessidade de se reorganizar o conhecimento. Critica a lógica aristotélica, que segundo ele reduz as coisas concretas a noções abstratas de matéria e forma. “A ciência nova não é mera especulação, afirmará Bacon, mas a ciência da invenção e dos meios de descobrir suas leis e aplicar as descobertas em proveito da vida prática” (p. 35). Contra a lógica dedutiva, propõe uma lógica indutiva que parta da experiência humana.

René Descartes (1596-1650): Abandona o formalismo lógico da escolástica, por não encontrar nele o mesmo grau de certeza que a física e a lógica matemática. Destaca a relevância da razão individual como fundamento do conhecimento do mundo e da lógica matemática como garantia de um saber seguro. Seu método propõe que os fenômenos observados sejam reduzidos a uma fórmula quantificada, para a partir destes dados deduzir uma lei geral dos fatos que a compõe.

Newton (1642-1727): Conhecimento como descoberta de leis a partir da natureza e seu funcionamento mecânico. “O princípio básico é que a natureza é simples e uniforme e as qualidades dos corpos podem ser estabelecidas pelos sentidos, pela observação e pelo experimento. O único procedimento válido para se fundamentar uma proposição científica é o método indutivo, que permite generalização, a partir da inferência de fenômenos singulares e, dada a simplicidade da natureza, atribuir as mesmas causas aos mesmos efeitos, ou como conclui: na filosofia experimental, as proposições inferidas por indução geral dos fenômenos devem ser consideradas estritamente verdadeiras ou como muito próximas da verdade, apesar das hipóteses contrárias que possam ser imaginadas” (p. 37).

O empirismo (Locke, Berkeley, Hume e Stuart Mill): As sensações ou as percepções, que formam a experiência externa, compõem dados empíricos a partir dos quais se estruturam noções mais gerais e complexas. A ideia resulta da universalidade das percepções externas do mundo empírico que percutem os sentidos e, neles ficam impressas. “O conhecimento é um processo indutivo que se inicia com os dados particulares, ou empíricos, e atinge noções mais gerais. Este método indutivo permite passar de um fato particular observado a outro, condicionado pela associação das ideias, e não só fazer enumerações, mas também chegar à generalização da experiência” (p. 39). Os empiristas rejeitam tanto a teoria platônica das ideias inatas, bem como a compreensão cartesiana de princípios evidentes em si e por si.

O idealismo (sobretudo Kant – 1724-1804) contrapõe-se ao empirismo ao introduzir a noção de categorias a priori na mente humana. “O processo de conhecimento transcende os dados empíricos, pois a percepção não depende só dos sentidos, mas, sobretudo, do aparato mental que organiza o conjunto das impressões sensíveis” (p. 41). A razão (e suas categorias) é o princípio do conhecimento e não os dados sensíveis que a ela chegam. É a consciência que produz o mundo com sentido. Hegel eleva o princípio de consciência acima da individualidade. Há um espírito universal (que faz com que haja uma razão universal). O espírito é superior ao mundo da natureza e não só cria e dá forma ao mundo objetivo, mas é a encarnação de tudo, de tal forma que ‘tudo que é racional é real; tudo o que é real é racional’. A atividade imanente do Espírito Universal realiza-se na particularidade do espírito individual.

Surgimento da ideia de dividir as formas de conhecimento (ciência) entre dois tipos: ciências da natureza e ciências humanas (do alemão: Naturwissenschaft X Geisteswissenschaft [conhecimento da natureza X conhecimento do espírito]). Diferenciação de método: as ciências da natureza se fariam pelo método explicativo (erklären), enquanto as ciências humanas (do espírito) pelo método da compreensão (verstehen). Surgimento formal das ciências humanas e sociais: compreender o mundo concreto vivido por homens e mulheres e os significados a ele dado. “Dilthey (1833-1911) faz um balanço crítico da ‘razão histórica’ para fundamentar a validade das ciências do espírito, opondo-se à redução do mundo histórico das experiências humanas vividas a um esquema causal e determinista, próprio das ciências da natureza; estas últimas, por serem generalizantes, abandonam a individualidade, enquanto as ciências do espírito captam as manifestações particulares e as relações recíprocas entre seres humanos, sempre cambiantes e ocorrentes em termo e espaço determinados” (p. 45).

“Uma perspectiva sintética do desenvolvimento da pesquisa pode ser referida a três temas fundamentais que polarizaram a investigação moderna: a natureza enquanto explicável pela causalidade e pela mensuração; o sujeito, enquanto portador da razão e liberdade, capaz de intervir na realidade objetiva e a história enquanto lugar social onde os sujeitos atuam sobre a natureza e os fatos humanos, e tanto fazem os significados e quanto se fazem os autores dos acontecimentos” (p. 48).

Evolução da pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais: cinco marcos.

Primeiro marco: Ciências humanas muito próximas ao discurso evolucionista e positivista. “O método propõe estabelecer uma classificação diacrônica de três estágios: civilizados, bárbaros e primitivos, descrevendo os elementos e as características de cada estágio, elencando elementos constitutivos, definindo as categorias de transição progressiva do mundo primitivo para o mundo desenvolvido. Muitos estudos, inspirados pela filosofia positivista, tenderam a realizar levantamentos classificatórios de informações que comprovariam os estágios hipotéticos comteanos ou, ao menos, permitiriam fazer classificações de grupos sociais” (p. 50).

Segundo marco: “A pesquisa começa se profissionalizar: torna-se produto exemplar de um pesquisador acadêmico renomado que foi viver em lugar distante e original para estudar um grupo primitivo, diferente de sua cultura, partilhando do lugar, das experiências vividas, de suas práticas, ritos e celebrações para descobrir o sentido que eles dão a tudo isso. A descrição destes povos ganha uma forma particular com a formulação de um modelo de descrição do mundo da vida de povos primitivos, a etnografia, com Malinowski (1976), em 1922, um antropólogo britânico de origem polonesa que descreveu o modo como trabalhou em campo e colheu os dados em sua prolongada permanência com povos da Nova Guiné e da Ilhas Trobiand, na Melanésia. [...] Conviveu de modo direto e durável com os investigados, participando da vida nativa e procurando compreender o significado que os nativos atribuíam aos ritos, normas e fatos cotidianos e dar uma conotação científica ao seu relato, segundo as exigências positivísticas da pesquisa” (p. 50-51).

“A escola de Chicago criou um método interpretativo realista a partir das narrativas orais de história de vida cotidiana de pessoas comuns, adotando um realismo literário que utilizava a linguagem, as percepções, os sentimentos e os pontos de vista dos pesquisados; o pesquisador assume uma posição empática com o ambiente, as pessoas e os problemas que aborda, confiante de que a descrição dos problemas identificados é, também, o meio tanto de revelação quando de solução desses problemas sociais” (p. 51-52)

“Estes estudos e a morfologia das pesquisas tornaram-se exemplares, meticulosamente reproduzidos por iniciantes em pesquisa, adotando-se seus pressupostos, procedimentos, suas técnicas e instrumentos para comprovar a validade da pesquisa. Os autores paradigmáticos ou as pesquisas exemplares constituíam fundamentos de validade científica diante da soberania das pesquisas experimentais” (p. 52).

Terceiro marco: Entre o pós II guerra e os anos 1970 se consolida o método de pesquisa qualitativa como um modelo de pesquisa.

“O debate qualitativo versus quantitativo revigora, e de um lado, a contestação do modelo único de pesquisa, a crítica à hegemonia dos pressupostos experimentais, ao absolutismo da mensuração e à cristalização das pesquisas sociais em um modelo determinista, causal e hipotético dedutivo; adensam-se as críticas aos pressupostos ontológicos, epistemológicos e metodológicos do modelo convencional, reconhecendo-se a relevância do sujeito, dos valores dos significados e intenções da pesquisa, afirmando a interdependência entre a teoria e a prática, a importância da invenção criadora, do contexto dos dados e da inclusão da voz dos atores sociais. De outro lado, a pesquisa qualitativa, ainda atada ao positivismo, empenha-se em dar uma fundamentação rigorosa e formalizar os métodos científicos qualitativos, recorrendo a algum expediente quantitativo” (p. 53).

“Os pesquisadores qualitativos contestam a neutralidade científica do discurso positivista e afirmam a vinculação da investigação com os problemas ético-políticos e sociais, declaram-se comprometidos com a prática, com a emancipação humana e a transformação social, adensam-se as críticas aos postulados e exigências das pesquisas unicamente mensurativas. Ganham vigor os métodos clínicos de observação participante, a coleta partilhada de dados que dê voz aos silenciados e a interpretação significante que releve o conhecimento supresso por uma concepção unitária de pesquisa. Em consonância com estas opções, a entrevista suplanta o questionário, as entrevistas não-diretivas são largamente utilizadas. A observação participante rivaliza-se com as amostragens quantitativas, a arte da interpretação sobrepuja a estatística” (p. 53-54).

Quarto marco: As décadas de 1970 e 1980 significaram uma grande ampliação da temática da pesquisa qualitativa.

“Novos temas e problemas originários de classe, gênero, etnia, raça, culturas trazem novas questões teóricas e metodológicas aos estudos qualitativos. Uma confluência de tendências, disciplinas científicas, processos analíticos, métodos e estratégias aportam à pesquisa qualitativa criando um campo amplo de debates sobre o estatuto da pesquisa” (p. 54).

“As pesquisas desvinculam-se dos referenciais positivísticos e tendem para o estudo de questões delimitadas, locais, apreendendo os sujeitos no ambiente natural em que vivem, nas suas interações interpessoais e sociais, nas quais urdem os significados e constroem a realidade” (p. 55).

“Há uma fusão transdisciplinar das ciências humanas e sociais, cada autor transigindo com diversas disciplinas, busca ampliar a legitimidade dos temas pesquisados com conhecimentos de diferentes disciplinas traduzindo-os em formas criativas e inovadoras. Os textos científicos socorrem-se de diferentes gêneros literários para expor significados extraídos de documentos, práticas, símbolos, como contos, relatos de campo, experiência pessoal, casos etc. ou ainda buscam, por meio de analogias do mundo social com teatro, drama, jogo, dança, gerando uma mixagem de estilística textual que, afirma Geetz, falta apenas a teoria quântica apresentada em versos ou uma biografia em álgebra’” (p. 55).

Quinto marco: A partir da década de 1990.

“A posição social do autor da pesquisa, a onipotência descritiva do texto científico, a transcrição objetiva da realidade é posta em questão: o pesquisador está marcado pela realidade social. Toda observação está possuída de uma teoria, o texto não escapa a uma posição no contexto político e a objetividade está delimitada pelo comprometimento do sujeito com a sua realidade circundante” (p. 55-56).

“As pesquisas propendem para reconhecer uma pluralidade cultural, abandonando a autoridade única do pesquisador para reconhecer a polivocalidade dos participantes. [...] O padrão textual tende admitir a poliformidade descritiva da vida e da cultura, a legitimidade do texto escrito busca fundamento no percurso reflexivo do autor para obter os resultados, assumindo variadas formas, a validade da investigação recorre à possibilidade de se traduzir a experiência humana em um texto; patenteiam-se as virtudes e os limites discursivos sobre a realidade descrita, em um produto científico” (p. 56).

Conclusão

“Uma agenda futura para a pesquisa sugere que algumas questões candentes continuarão a provocar os pesquisadores. Algumas epistemológicas: a onipresença e onipotência do autor no texto e a relevância do ‘outro’, o estilo e a validade do discurso como tradução da realidade descrita, o público e a apresentação perfuntória ou performática do texto científico; outras, ético-políticas, como os fins sociais da pesquisa, a voz dos silentes, o poder e a emancipação, a solidariedade e participação na transformação deliberada da vida humana” (p. 57).

“Cresce, porém, a consciência e o compromisso de que a pesquisa é uma prática válida e necessária na construção solidária da vida social, e os pesquisadores que optaram pela pesquisa qualitativa, ao se decidirem pela descoberta de novas vias investigativas, não pretenderam nem pretendem furtar-se ao rigor e à objetividade, mas reconhecem que a experiência humana não pode ser confinada aos métodos nomotéticos de analisá-la e descrevê-la” (p. 58).

 

(Textos extraídos de: CHIZZOTTI, A. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. Petrópolis: Vozes 2006).

 

Última atualização em Ter, 09 de Maio de 2017 09:57