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Volney Berkenbrock
Diálogo inter-religioso e seu método PDF Imprimir E-mail
Escrito por Volney Berkenbrok   
Dom, 14 de Fevereiro de 2016 18:18

Diálogo inter-religioso: a questão do método

 

A expressão diálogo inter-religioso é um tanto quanto ampla e pode ser abordada a partir de pontos de vista muito distintos. Uma coisa é abordar o diálogo inter-religioso conduzido de forma mais ou menos consciente pelos envolvidos e que tem como objetivo o encontro entre pessoas de crenças diversas. Dentro desta forma, há ainda de se distinguir dois tipos: um diálogo inter-religioso conduzido a partir da vontade dos participantes (a respeito do qual iremos refletir adiante) e outro tipo é o diálogo inter-religioso a partir das instituições religiosas, onde os participantes por um lado são legitimados pela instituição para participar do diálogo e por outro falam a partir da instituição que representam e não expõem apenas a sua posição pessoal. E este falar a partir da instituição faz com que os envolvidos tenham que ter em mente sua função representativa e, sobretudo representativa de um modo de pensar oficial da instituição, modo este a ser exposto e defendido.

Outra questão – e bem mais ampla – é o diálogo inter-religioso como fenômeno cultural. E fenômeno cultural muito antigo. O estudo da história das religiões mostra como já há milênios acontecem interações entre religiões, com inter-influências muito grandes. Penso que seria muito difícil encontrar uma religião que não tivesse se constituído com influência de outras. Nenhuma religião histórica nasceu de um marco zero, ou seja, sem a influência de quaisquer outros sistemas religiosos. O diálogo inter-religioso, neste caso, é um fenômeno cultural muito amplo e de longo prazo, conduzido não de forma mais ou menos consciente, mas muito mais pela própria dinâmica da história ou da cultura. A dinâmica complexa de interação entre as culturas é que vai conduzindo este processo, que é em si pouco dirigível ou manipulável. E esta dinâmica do diálogo intercultural é algo permanentemente em ação na história dos povos. Neste sentido, tenho que concordar com Karsten: “os diferentes grupos humanos tomaram uns dos outros muito de suas crenças, costumes, artes e técnicas”[1]. Não há como defender um purismo cultural, de culturas que teriam se constituído somente a partir da própria tradição ou a partir de uma única matriz cultural, sem influência externa. O que se pode discutir é, sim, o grau e a forma como ocorreram estas influências. Mas não se elas ocorrem ou não. Isto, a meu modo de ver, é líquido e certo.

Outra forma de se observar o fenômeno do diálogo inter-religioso é através do viés daquilo que se costuma chamar de sincretismo. A expressão sincretismo é utilizada muitas vezes de forma negativa – principalmente no contexto da teologia cristã – como mistura ilícita, como confusão religiosa ou inclusive fruto da ignorância religiosa. É possível, porém, analisar o sincretismo como um processo de diálogo inter-religioso, colocando-o sob outra luz e valoração, vendo-o por um lado como processo de inter-relação religiosa, onde elementos de uma tradição são introduzidos – e geralmente resignificados – em outra tradição e por outro lado como parte do próprio mecanismo de existir das religiões na história: de não serem ilhas, mas sistemas vivos e dinâmicos que estão em constante diálogo com o seu meio. E também neste sentido, o sincretismo religioso é um fenômeno que marca as religiões. Por mais que as religiões narrem o seu nascimento como um momento puro (a pureza original), não há religião conhecida que não tenha se constituído a partir de influências, contribuições e diálogos com outros sistemas religiosos. Neste sentido, todas as religiões são sincréticas.

Não irei tratar nestas linhas do diálogo inter-religioso como fenômeno histórico nem cultural, mas tão somente como processo conduzido de forma mais ou menos consciente, com o intuito de promover o encontro entre pessoas de crenças diversas. E processo não conduzido a partir da instituição religiosa, mas a partir do interesse dos indivíduos envolvidos. É neste sentido – um tanto minimalista – que será usada aqui neste texto a expressão diálogo inter-religioso: pessoas de tradições religiosas diversas querem interagir e dialogar.

Uma questão que me é importante no tocante ao diálogo inter-religioso é a questão do método. Qual é o método mais adequado para o diálogo inter-religioso? Quem quiser dialogar com outras religiões, deve seguir algum método específico? Não sei se há algum que possa ser considerado como mais indicado, mas a experiência me mostrou que há pelo menos quatro elementos importantes para se pensar num método do diálogo inter-religioso. Minhas reflexões sobre o método do diálogo inter-religioso não serão feitas a partir de alguma pretensa teoria do diálogo inter-religioso – por mais interessantes e diversas que elas possam ser – mas sobretudo a partir da prática e esta se deu, principalmente,  no contato com as religiões afro-brasileiras. É importante aqui ainda dizer que método não está sendo entendido como receita a ser seguida, mas como caminho construído/percorrido e reflexão sobre ele. Reflexão esta, pois, somente possível a posteriori, ou seja, pensar sobre o caminhar depois de ter caminhado.

 

1. O pressuposto da vontade

O desejo de encontrar o outro

 

Um primeiro elemento é a pré-disposição para ir ao encontro do outro. É um elemento ligado à vontade, ao desejo. Não se trata de um elemento ou de uma pré-condição racional ou intelectual, mas muito mais de um elemento da emoção, do sentimento, de um estado de espírito: ter a vontade de encontrar o outro religioso. Há diversos aspectos aqui envolvidos:

1º - Um diz respeito ao próprio sentimento, à própria emoção. Que seja um desejo carregado pelo coração, o que traz quietude e serenidade frente ao outro religioso. Não se trata, pois, de um exercício acadêmico, mesmo que possa haver nele este aspecto. Este é um elemento importante para o diálogo: o envolvimento do sentimento. Ter religião não significa apenas ter conceitos, ter compreensões, mas também ter sentimentos a respeito da própria fé. Sentimentos que envolvem tanto nossas emoções (para dizer de outra forma, o aspecto psicológico), como também o nosso corpo (ou para dizer de outra forma, o aspecto físico). Sentimos religião nesta totalidade corporal, psicológica e física. E este aspecto, especialmente para um iniciante do diálogo inter-religioso, precisa ser notado. Participar de uma diálogo inter-religioso pode envolver um certo mal-estar psicológico (da emoção) e físico (do corpo): o não sentir-se à vontade, o sentimento de estar deslocado, o desejo de ir embora, o corpo que não se sente confortável com o lugar, com a música, com os cânticos, com as posições (sentar, dançar...). O natural talvez fosse, nesta situação, querer afastar-se, ir embora, não suportar o diverso que causa mal-estar. Por isso, a importância do ato da vontade. Sentir um mal-estar, um certo incômodo de corpo e de alma ao estar em contato com a religiosidade de um outro grupo – especialmente ao se participar de algum ritual de um outro grupo religioso – e ainda assim permanecer ali, isto requer o engajamento da vontade, de um desejo que decidido. E este deve carregar o sentimento de corpo e alma.

 2º - Um segundo aspecto da vontade é decorrente deste outro religioso a ser encontrado e irredutivelmente outro: predispor-se para ir ao encontro dele. A percepção irredutível da alteridade é um ato da vontade, a ser vigiado e protegido constantemente. A alteridade no encontro inter-religioso é um elemento presente antes do encontro, durante o encontro e após o encontro. Talvez o desejo pudesse ser de unificação, de união, de se procurar lugares comuns (uma certa zona de conforto). Isto pode até acontecer, mas não é o propósito do diálogo inter-religioso. O outro é outro! E assim permanece!

3º - Um terceiro aspecto envolvido na vontade do diálogo é a questão da similitude do outro sistema religioso a ser encontrado com o seu próprio sistema religioso. Aparentemente, a similitude (por origem histórica, por elementos em comum, por proximidade cultural) pode ser um facilitador. É um facilitador no sentido de causar menor estranhamento à emoção e talvez um mal-estar menos perceptível. Mas penso que se deve afastar da ideia de que o diálogo inter-religioso é mais fácil quando há maior similitude entre os sistemas religiosos. Em princípio a maior ou menor similitude não é nenhum fator propulsor ou refreador do diálogo. As duas coisas tem suas nuances. Se a maior similitude facilita um abrandamento do sentimento de estranheza, pode dificultar a manutenção da percepção da alteridade.

 

2. Conhecer o outro como outro

O processo de ser tocado pelo outro

 

O segundo elemento é o conhecer. Este é claramente um elemento ligado à racionalidade, ao intelectual. É preciso conhecer o outro, ou seja, elementos que digam respeito à sua história, à sua organização, à sua cosmovisão, aos seus conceitos religiosos, aos conteúdos de sua tradição. É um elemento em princípio muito simples e diz respeito num primeiro momento basicamente à informação. O conhecer o outro como outro contribui grandemente para que o outro permaneça outro em meu mundo mental. Há aqui alguns aspectos que queria destacar.

1º - A questão do uso de categorias de interpretação. Nós interpretamos sempre a partir de nossas categorias. E esta é nossa condição de interpretação. Conhecer o outro amplia nossas categorias de interpretação. Isto implica de fato num esforço por ampliação das categorias de conhecimento. Caso contrário, o outro será somente captado através das categorias do pensar que já possuo e será assim necessariamente nelas enquadrado. O processo, pois de conhecer, mesmo que diga respeito num primeiro momento apenas ao acumulo de informações, mostra-se, no entanto importante na possibilidade de perceber melhor a alteridade.

2º - Perceber a alteridade é dispor-se a aprender uma nova linguagem. Quando se aprende uma outra língua que a materna, aprende-se num primeiro momento palavras (sons, escritas) que só diz algo quando as relacionamos com palavras de nossa linguagem (sons, escritas). E quem está aprendendo uma outra língua, precisa nesta fase inicial sempre fazer um esforço por traduzir em sua mente o que foi ouvido (ou lido) em algum conceito seu. Aos poucos os sons (e escritas) em uma outra língua passar a ter significado em si, não mais necessitando da muleta da tradução mental. Queria aqui usar este mesmo processo nesta fase do conhecer o outro como outro: a passagem do momento em que se traduz tudo em conceitos próprios para o momento em que os elementos do sistema religioso diverso começam a ter sentido por si próprios.

3º - Com isso ocorre como que um processo do nascimento (conceitual) do outro de mim. Queria usar aqui um exemplo da língua alemã para tentar fazer mais claro o que estou apontando. A palavra alemã para conceito é Begriff. Esta palavra, por sua vez, é derivada do ver begreifen, que quer dizer compreender ou entender e que tem dentro dela (como sua origem) o verbo greifen, que quer dizer tocar, pegar, apanhar, lançar mão. Um conceito (Begriff) é, pois algo pego, tocado, apanhado. Nesta linha queria colocar aqui o ato de conhecer o outro, como esforço por tocar, por pegar e assim fazer nascer dentro de seu mundo de conceitos (de coisas já pegas, tocadas), outros conceitos: outras coisas que foram tocadas e por isso estão pegas (apegadas) no conhecimento próprio.

No tocante às tradições religiosas afro-brasileiras isto é especialmente importante dado ao fato de estarmos cercados de desinformações. Estas são advindas tanto da forma como geralmente a mídia deixa transparecer a presença destas religiões na sociedade, como principalmente à imagem negativa que se tem destas religiões a partir da socialização religiosa em nosso contexto[2]. É comum – assim pelo menos minha experiência mostrou – que se cresça em nosso contexto cultural ouvindo referências negativas às religiões afro-brasileiras: que são seitas, que são superstições, que são manifestações demoníacas, que são destinadas a fazer o mal, etc. A busca de conhecimento sério sobre estas tradições religiosas é por isso um passo muito importante no caminho do diálogo inter-religioso. Por um lado para desconstruir um mundo já introjetado de preconceitos, por outro para poder fazer nascer (conceitualmente) o outro.

O conhecer o outro como outro é um processo de nascimento de um mundo conceitual, de coisas que foram tocadas e por isso estão pegas dentro do meu mundo de conhecimento. E assim, como dito anteriormente, que sempre interpretamos a partir de nossas categorias, fazer nascer um instrumental categórico apto (mais aderente) ao conhecimento do outro.

 

3. Compreender a lógica religiosa diversa

O diálogo inter-religioso como um processo cosmogônico

 

 O terceiro elemento é o compreender. Compreender diz respeito não somente ao conhecer, mas ao entender a lógica operante no sistema religioso alheio. Quando se toma contato com um sistema religioso diverso do próprio, toma-se contato em primeiro lugar não com um todo, mas com momentos de um todo. Estes momentos não podem ser tomados como o todo. Isto seria uma minimalização do outro. Mas é isto o que geralmente acontece quando se toma os primeiros contatos com uma tradição religiosa diversa da própria: aquela parte que se consegue perceber torna-se – num primeiro momento – o todo. Para o observador, num primeiro momento, a parte é o todo.

O elemento compreender diz respeito justamente ao esforço por superar esta percepção da parte como se fosse o todo e buscar compreender que esta parte percebida está ancorada em um sistema religioso maior, dentro do qual ela faz sentido. É o sistema religioso maior (que justamente não é visto num primeiro momento) que está permitindo o acontecer desta parte percebida. Este sistema religioso maior dentro do qual está situado um determinado momento ou elemento religioso percebido é o que estou nominando aqui como lógica operante, ou seja, a lógica que permite acontecer aquele momento específico e o faz ter sentido.

Para exemplificar o que estou dizendo, imaginemos que um hindu que nunca tenha tido contato com o catolicismo venha ao Brasil para tratar de negócios. Durante sua estadia poderia acontecer o falecimento de alguém próximo ao seu parceiro de negócios aqui no Brasil. O hindu seria então convidado a participar do sepultamento. Como de costume, antes do sepultamento, um ministro católico iria fazer a cerimônia da encomendação. Voltando à Índia, o hindu poderia dizer aos seus conhecidos que tinha participado de um ritual católico. E ao ser perguntado o que era, pois o catolicismo, se respondesse que o catolicismo é uma forma ritual de se sepultar os mortos, ele estaria por um lado dizendo o que viu, mas por outro minimalizando o catolicismo e não percebendo que o ritual da encomendação é parte de uma lógica religiosa maior que o possibilita. Ou seja, o ritual da encomendação está dentro de uma “lógica operante”, que fornece a ele um sentido religioso. Ver o ritual da encomendação isolado, fora de sua lógica operante, não permitiria entender nem este ritual, nem o próprio catolicismo. E este elemento isolado pode ser posto nos lugares diversos dentro da lógica operante de meu próprio sistema religioso, gerando comparações simplistas e equivocadas. Mas é isto que muitas vezes ocorre quando se toma contato com um sistema religioso diverso do próprio. Tomar esta parte como se fosse o todo impossibilita tanto a compreensão do outro sistema religioso, como distorce a compreensão correta do próprio momento/elemento religioso com o qual se teve contato.

Por isso, o elemento compreender é parte importante do diálogo inter-religioso que exige um duplo esforço: de um lado tentar abstrair (suspender) da lógica religiosa própria para não cair na tentação que querer logo incluir este elemento religioso alheio em minha própria lógica religiosa e de outro lado o esforço por buscar compreender este momento visto como um momento dentro de uma cadeira maior de sentido e que para captar o sentido deste momento é preciso tentar chegar à lógica operante que o possibilita. O elemento compreender o outro no diálogo inter-religioso tem algo de cosmogônico: este esforço vai gerando um mundo, um cosmos, uma ordem religiosa – diversa da minha – em meu mundo mental. É um processo, dá-se aos poucos e sempre se vai construindo. E através deste processo, o outro religioso vai tomando forma em um mundo próprio em meu mundo mental. Este mundo mental que se vai constituindo não é o outro, mas ao mesmo tempo a sua constituição mostra que ele não é mais apenas parte de meu mundo mental. Este processo de nascimento do outro no meu mundo mental cria um mundo intermediário, do qual eu e o outro fazemos parte. Este terceiro espaço é um elemento importante do encontro e diálogo inter-religioso. Nenhum dos dois lados precisa abandonar o seu e entrar para o mundo mental (o mundo de conceitos) do outro, mas os dois lados encontram-se num mundo que lhe é comum. Estar neste mundo comum é um pressuposto interessante para o diálogo inter-religioso.

 

4. O diálogo: o sentir com

A possibilidade de respirar a mesma atmosfera

 

O quarto elemento é, pois o que se poderia então chamar de diálogo. Se os elementos anteriores requerem um esforço pessoal, este quarto seria não tanto um esforço, mas muito mais a consequência. Não imagino que estes quatro elementos ocorram necessariamente um após o outro, como uma cadeia de causa-e-consequência. Eles são muito mais elementos dentro de um processo que processos separados. O quarto elemento, o do diálogo, é a consequência no sentido de que o processo gerou uma interação de um nível tal que os envolvidos se encontram em uma posição diversa daquela onde estavam quando do início do processo. Muitas vezes, ao falar de meus contatos e convivência com comunidades de tradição religiosa afro-brasileira, sou confrontado com o questionamento por parte de fiéis cristãos se eu acredito naquilo. A pergunta não é feita tanto no sentido de questionar se mudei de opção religiosa, se teria me convertido ou coisa que valha. A pergunta é feita – assim percebo – na linha de querer indagar se estas práticas religiosas têm algum fundamento religioso, se o que ali acontece deve ser levado a sério como religião, se de certa maneira eu legitimaria estas práticas religiosas. A estas indagações respondo geralmente: “Eu acredito que eles acreditam”. A resposta pode parecer à primeira vista um tentar sair pela tangente, mas não é esta a intenção. Minha experiência de contatos com os grupos de tradição religiosa afro-brasileira levou não apenas a compreender intelectualmente cada vez mais a lógica operante daquele universo, mas também a passar do nível da compreensão intelectual para a compreensão do sentir religioso.

Tento explicar o que isto significa: o encontro com a atividade religiosa de um grupo diverso do seu gera num primeiro momento um certo desconforto de sentimento religioso. Pertencer e participar de uma certa tradição religiosa não diz respeito apenas a ter certos conceitos religiosos, mas também e talvez especialmente, a ter uma determinada emoção religiosa, um determinado sentimento religioso, uma determinada sensibilidade religiosa que impregna todo o nosso ser e os nossos sentidos. Os nossos sentidos não estão num primeiro momento preparados para o encontro com a diversidade religiosa. E este despreparo do sentimento é que gera o desconforto, não necessariamente intelectual, mas principalmente emocional. A repetição destes encontros leva a uma superação deste desconforto. A caminhada do diálogo inter-religioso leva, a meu modo de ver, não apenas à superação do desconforto do sentimento religioso, mas à criação do sentir religioso para com o diverso, isto é, para a realidade de conseguir sentir que aquele momento é de significado (de densidade) religioso para o outro. Mesmo não fazendo parte do mundo religioso do outro, conseguir sentir (ter a emoção) que há ali um momento com densidade religiosa, isto é a meu ver uma consequência no diálogo inter-religioso.

Há aqui um processo de apropriação do outro, não no sentido de tomar conta do outro, mas de tornar próprio (em compreensão e sentido) algo que advém do (contato com) outro; e como o diálogo é uma via de mão dupla, o apropriar-se do outro é igualmente um processo também de ser apropriado pelo outro. E quando ambos apropriaram-se mutuamente em parte, os participantes do diálogo respiram de certa forma o mesmo ar, fazem parte da mesma atmosfera.

Considerações finais

Cada processo descrito acima (esquematicamente em quatro passos) é carregado de uma sabedoria própria. Há assim a sabedoria da vontade e do sentimento (1º passo descrito), que faz com que emoção e corporeidade preparem-se para o diálogo.

Há a sabedoria da disponibilidade, de tocar e ser tocado pelo outro. É a sabedoria da linguagem, do aprendizado (2º passo). Depois disso, há a sabedoria da abertura ou da entrega (3º passo). Entregar-se à compreensão do outro é assumir a sabedoria de deixar surgir um mundo do encontro. O diálogo é cosmogônico.

Por fim, o sentimento de poder respirar o mesmo ar e assim fazer parte da mesma atmosfera é a sabedoria do envolvimento (4º passo). Dialogar é ser envolvido, estar dentro (envolto) pela mesma atmosfera. Se conseguirmos sentir que as mesmas partículas de oxigênio que respiramos podem e são respiradas também pelo outro e que estas mesmas podem ter sido um dia respiradas por Gautama, o Buda; por Jesus, o Cristo; por Mohammed, o Profeta; ou por Irineu, o Mestre, então estamos já do lado de dentro; o diálogo nos envolve.

 

V. J. Berkenbrock



[1] Apud E. O. JAMES, Introduction a la historia comparada de las Religiones. Ediciones Cristiandad, p. 30.

[2] O estudo realizado por Lísias Nogueira Negrão sobre a formação do campo da Umbanda em São Paulo a partir das notícias veiculadas na imprensa mostra muito bem como há uma forte inter-influência entre o que a imprensa publica sobre as religiões afro-brasileiras (no caso do estudo, a Umbanda) e a imagem pública que se tem delas. L. NOGUEIRA NEGRÃO, Entre a Cruz e a Encruzilhada, São Paulo: EDUSP, 1996.

 

Última atualização em Dom, 11 de Junho de 2017 18:43