| Pneumatologia - Cap. IV |
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| Escrito por Volney Berkenbrok |
| Sáb, 16 de Junho de 2012 11:32 |
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Capítulo IV: O Espírito Santo - Deus em nós
"O Espírito age universalmente nos seres humanos, não apenas num como em Jesus"[1].
As considerações feitas acima nos deixaram claro, que a maneira mais adequada para a reflexão e o discurso ao Espírito Santo, é o discurso feito a partir da ação do Espírito Santo no mundo, especialmente nas pessoas. A experiência deve ser pois o ponto de partida e a referência permanente para o discurso a respeito do Espírito Santo. Só podemos falar dele a partir da experiência: a experiência não é "Deus em si", ou seja, a experiência não "aprisiona" o Espírito Santo para nós, de tal modo que podemos analisá-lo. Elas são "rastos" (pegadas) do Espírito de Deus em nossa história.
O grande problema que se coloca aqui, já desde o início, quando se pensa em colocar a experiência como ponto de partida da Pneumatologia é justamente os critérios de distinção: onde está agindo o Espírito de Deus, o que é ação inspirada pelo Espírito Santo e o que é ação inspirada e motivada por "espíritos não-santos"? Mesmo que tenhamos sempre presente que o Espírito nunca é disponível ao humano, que ele age onde e quando quer, que a ação do Espírito Santo não acontece por disponibilidade nossa, temos que ter alguns critérios para falar da experiência do Espírito Santo.
1. Critérios para aproximação à ação e experiência do Espírito Santo
Quando se fala em critérios para distinção da ação do Espírito Santo, precisamos colocar nossa condição na aplicação destes critérios: nossa condição sempre a posteriori. Nossos critérios não podem pré-fixar o campo de ação do Espírito Santo. Eles são aplicados sempre depois de a ação ter acontecido. Só depois do fato podemos falar em ação do Espírito Santo (isto também faz parte da indisponibilidade do Espírito Santo). Com isso fica caracterizada que a ação do Espírito Santo é verdadeiramente livre - sem qualquer limite que a restrinja - e gratuita - não há algo que a cause e a provoque.
Isso posto, temos que pensar de onde tiramos os critérios para perceber a ação do Espírito Santo. No meu ponto de vista, temos que recorrer aqui à experiência da história.
A tradição nos pôs critérios interessantes sobre a percepção da ação do Espírito Santo e seu dar-se a conhecer na história. Não vamos repetir aqui tudo o que dissemos sobre o Espírito Santo na Bíblia, mas apenas recordar, alguns conceitos básicos. Entre estes estão sem dúvida a experiência do Espírito como animador. Em diversas linhas o Espírito é percebido como animador: da vida, da comunidade, da fé, de ações concretas. Outra ideia também básica relacionada com a experiência do Espírito Santo é sua dinâmica, sua vivacidade: Esta não é neutra, mas sim em favor da vida. A ação do Espírito move as pessoas, as impulsiona, não as deixa ficar em si. A ação do Espírito é dom (gratuita) que leva as pessoas, conforme o mesmo Espírito, a fazer também elas comunidade, comunhão com Deus e com as pessoas. Talvez pudéssemos, a partir das experiências da ação do Espírito de Deus na Bíblia, tirar dois critérios que sejam básicos para se poder distinguir, de alguma forma, a ação de Deus como Espírito em nosso meio. a) O Espírito que age em favor da vida. Ela renova a vida, ele a impulsiona, ele a defende, ele promove vivacidade; b) o Espírito, experienciado pessoalmente, não fica a nível individual. O próprio da ação do Espírito é proporcionar comunicação, comunidade, relacionamento, amorização. Pela ação do Espírito, Deus torna-se comunhão - comunhão em Deus e comunhão com todos os seres humanos. Da mesma forma, cada ser humano, por ter sido derramado nele o Espírito Santo (cf. Rm 5,5) tem também esta capacidade de fazer comunidade (com Deus e com os outros).
São critérios, pois, para distinguir a ação do Espírito Santo, as consequências advindas das diversas ações. Pelos frutos é que se pode reconhecer a origem: no caso, a presença ativa do Espírito Santo. Este critério é, sem dúvida, um tanto quanto frágil. Ele nos deixa à mercê dos acontecimentos. Isto demonstra que não é a ação do Espírito que está a nosso dispor, mas nós é que estamos - ou deveríamos estar - à mercê da ação do Espírito, nós é que deveríamos ter a docilidade ao Espírito (pecado contra o Espírito).
2. Ação do Espírito e Trindade
A argumentação sobre os critérios para distinguir a ação do Espírito Santo, dizendo que podemos apenas a posteriori perceber sua ação, deixa-nos numa situação difícil no sentido não nos dar nenhum critério para a experiência do Espírito Santo no que diz respeito ao tempo presente. Ou seja, como posso eu colocar-me à disposição da ação e experiência do Espírito Santo, se somente depois do ocorrido é que se pode ver nela a ação do Espírito Santo. Não carrega uma atitude como esta um grande risco de abertura aos maiores absurdos em nome do Espírito Santo? Sim, este risco existe. E é a condição para a abertura radical diante de Deus. Por outro lado, a tradição cristã não entendeu a ação do Espírito Santo como aleatória, como um vale-tudo ou uma qualquer coisa. Sempre se interpretou a ação do Espírito Santo dentro da ação da Trindade. Ou seja, o Espírito age mostrando ao mundo o Pai e o Filho. Sua ação possibilita, capacita o ser humano a perceber o Pai - e sua ação na Criação - e o Filho - e sua ação salvífica. A ação do Espírito Santo é pois compreendida dentro da fé no Deus uno e trino. A experiência do Espírito Santo é experiência do Deus trino: é experiência que revela, que carrega consigo a ação do Pai, que revela e nos mostra o Filho. A ação do Espírito Santo é ação de Deus. O Espírito é o 'espaço', o 'meio', o 'acontecimento' pelo qual o Pai e o Filho podem estar-em-si e estar-com-os-outros[2].
3. Experiência pessoal: o Espírito Santo é pessoa
Dizíamos acima que a experiência do Espírito Santo pode ser percebida em ações em favor da vida e em favor da comunidade. Estas experiências devem porém ser interpretadas mais do que "dons" do Espírito Santo: o dom da vida, o dom da comunidade (relacionamento/comunhão). A experiência do Espírito Santo não se restringe à experiência de seus dons, mas vai além disso: é experiência do próprio Deus em pessoa (pessoa: que se nos apresenta - é relação). "Na experiência pneumática (do Espírito) mostra-se não um poder divino anônimo e impessoal, mas sim a presença de Deus mesmo atuante. O dom apresenta-se simultaneamente como doador (fonte). A partir da experiência do Espírito pode-se constatar que aquele, que possibilita o ser pessoa em liberdade e comunidade, ele próprio não pode ser pensado como apessoal"[3].
A força do Espírito em nós não é um "produto" alheio a Deus. É Deus mesmo em nós em estando a agir e a ser reconhecido em sua especificidade como Espírito Santo. Deus em nós só pode ser percebido como pessoa (do Espírito Santo) à medida em que entramos em relação com ele. Esta relação faz o "ser pessoa". Pessoa só é possível na relacionalidade, na comunicação, portanto, na comunhão, na busca de comunidade. "Deus em nós" só pode ser pois percebido à medida que houver comunhão. Com isso "Deus em nós" nunca é algo fechado, acabado em si. É sempre e essencialmente relação, abertura, busca. Abertura esta entendida tanto em direção ao Pai e ao Filho, que só nos se revelam como pessoa se houver relação (que a Trindade seja composta de três "pessoas", implica relacionamento e que nós a percebamos como pessoa, implica igualmente relacionamento!), como em direção ao outro, igualmente pessoa quando na relação.
A afirmação de Paulo em 1Cor 6,19a, "Não sabeis que vosso corpo é Templo do Espírito Santo?" recebe outra perspectiva se não foi lida como condição, mas como relacionalidade. Com isso nossa corporeidade é lugar de Deus, na pessoa do Espírito Santo, isto é, lugar de Deus que se relaciona. Através pois do nosso corpo, o Espírito Santo pode tornar-se pessoa - tanto para cada um, como para o outro, na dinâmica do relacionamento. Há pois uma participação do nosso corpo no processo de o Espírito Santo tornar-se pessoa.
4. Como recuperar as afirmações do Credo sobre o Espírito Santo?
Vimos anteriormente a controvérsia havida até se firmar uma formulação de fé que expressasse de maneira mais adequada aquilo que os cristãos experimentam e crêem no que diz respeito ao Espírito Santo. A fórmula do credo niceno-constantinopolitano é o resumo e o ponto alto da formulação de fé sobre o Espírito Santo e esta permaneceu até hoje na história da Igreja como a formulação de fé sobre o Espírito Santo (com a controvérsia do Filioque, já explicada anteriormente). Há na história da Igreja algumas afirmações oficiais sobre o Espírito Santo, todas elas, porém estão no sentido de explicitar a fórmula do Credo ou algum ou aspecto da pneumatologia.
Entre estas explicitações está o chamado "Credo de Atanásio". Este Credo, foi tradicionalmente atribuído a Atanásio de Alexandria e às vezes também ao Papa Anastácio I. Hoje sabe-se que ele não provém destes autores. Diversas são as hipóteses sobre sua origem. A hipótese hoje mais aventada é que tenha surgido entre 430 e 500 no sul da França, escrito por um autor desconhecido. A questão da origem não nos é porém tão importante. O interessante neste Credo é a importância que ele adquiriu na Idade Média, quando foi praticamente igualado ao Símbolo Apostólico e ao Credo Niceno-constantinopolitano e utilizado oficialmente na liturgia. É o seguinte o texto do "Credo de Atanásio":
"Todo aquele que quiser ser salvo, antes de tudo, é necessário ter a fé católica. Se alguém não a conservar íntegra e inviolada, sem dúvida, perecerá eternamente. A fé católica é esta: Que adoremos um Deus na Trindade e a Trindade na unidade.
Não confundindo as Pessoas, nem separando a substância. Uma é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo: Mas uma só é a Divindade do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, igual a glória, coeterna a majestade. Qual o Pai, tal o Filho, tal o Espírito Santo.
Incriado o Pai, incriado o Filho, incriado o Espírito Santo.
Imenso o Pai, imenso o Filho, imenso o Espírito Santo.
Eterno o Pai, eterno o Filho, eterno o Espírito Santo.
E, contudo, não três eternos, mas um só eterno,
Assim como não três incriados nem três imensos, mas um só incriado, um só imenso.
Igualmente, onipotente o Pai, onipotente o Filho, onipotente o Espírito Santo. E, contudo, não três onipotentes, mas um só onipotente.
Assim Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. E, contudo, não três Deuses, mas um só Deus.
Do mesmo modo, Senhor o Pai, Senhor o Filho, Senhor o Espírito Santo. E, entretanto, não três Senhores, mas um só Senhor.
O Pai por ninguém foi feito, nem criado, nem gerado.
O Filho só pelo Pai foi gerado, não feito nem criado.
O Espírito Santo do Pai e do Filho: não feito, nem criado, nem gerado, mas prodecente.
Um só Pai, um só Filho, um só Espírito Santo. E nesta Trindade nada é anterior ou posterior, nada maior ou menor, mas todas três Pessoas coeternas e coiguais entre si"[4].
Mesmo não tendo sido este texto nunca "aprovado" por uma instância eclesiástica, não deixa de ser - por causa da tradição - uma explicitação da fé aceita.
Outra explicitação sobre o Espírito Santo digna de nota é a afirmação de Leão XIII na encíclica "Divinum illud" (9/5/1897), na qual ele fala da inabitação do Espírito Santo nos justos. Uma seguinte afirmação do magistério sobre o Espírito Santo é feita por Pio XII na Encíclica "Mistysi corporis Christi" (29/6/1943), na qual ele diz ser o Espírito Santo a "alma da Igreja".
Voltemos pois à afirmação do Credo niceno-constantinopolitano sobre o Espírito Santo. Nele se fazem 5 afirmações sobre o Espírito Santo: "Senhor" e "vivificador", "que procede do Pai e do Filho" e "com o Pai e o Filho é da mesma forma adorado e coglorificado" e que "falou pelos profetas" (Et in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit, qui cum Patre et Filio simul adoratur et conglorificatur, qui locutus est per prophetas).
"Senhor": Ao atributo Senhor para o Espírito Santo podemos relacionar diversas coisas, desde a sua indisponibilidade pelo humano, sua liberdade na ação, como sua "autonomia". O Espírito Santo rejeita, toda e qualquer limitação que a ele se possa querer colocar, independente da instância que o faz. Esta consciência está presente no Credo;
"Vivificador": Este é, sem dúvida, um atributo muitíssimo rico para nossos dias. Apenas para apontar para alguns pontos: defesa da vida humana, defesa da vida como um todo. Deus é Espírito que em sua ação possibilita vida, insufla dinâmica à vida. Pela experiência bíblica se pode quase que dizer que a própria vida, tanto de seres humanos como de toda a natureza, já é por si só uma participação, uma forma de comunhão com Deus. A existência da vida em si é sinal de que há comunhão com Deus. Também se pode evocar aqui toda a destruição da vida como uma forma de rejeitar a própria participação com Deus, de dizer não à sua ação como Espírito santificador.
"Que procede do Pai e do Filho": Não pode haver uma dicotomização da Trindade. A trindade acontece na unidade. A procedência do Espírito Santo a partir do Pai (e do Filho - como o entende o Ocidente) que conservar a consciência de que há uma só ação divina. Com isso o Credo quer por um lado proteger a fé contra o fanatismo de ver o Espírito Santo separado, agindo em nome de interesses outros que não do Pai e do Filho.
"Com o Pai e o Filho é da mesma forma adorado e coglorificado": Podemos ler aqui uma clara intenção de não se esquecer o Espírito Santo, sua presença e ação. Ao mesmo tempo, esta afirmação repele todo e qualquer subordinacionismo da pessoa do Espírito Santo, seja este subordinacionismo entendido dentro da clássica heresia, seja este subordinacionismo entendido como a tentação sempre presente - e da qual a Igreja não está salva - de querer instrumentalizar a ação do Espírito Santo e subordiná-la aos interesses próprios.
"Falou pelos profetas": Esta afirmação, além de fazer claramente a ligação entre o Antigo e o Novo Testamento, no sentido de entendê-los como uma ação contínua de um e mesmo Espírito de Deus, evoca em nós todo o simbolismo profético: os profetas como aqueles que souberam falar em favor de algo: denúncia da injustiça e anúncio da vontade divina. Ele souberam recordar permanentemente a consciência de Deus na sociedade e levantar a voz quando esta foi ofuscada.
Além destas 5 afirmações, o Credo cita ainda o Espírito Santo quando do parágrafo sobre a encarnação: Jesus Cristo "se encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria" (et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria virgine). Fica mais uma vez claro aqui o Espírito Santo como o possibilitador da presença de Deus em nosso meio: da presença de Deus em cada um de nós, como também do Deus encarnado em nossa condição.
5. O Espírito Santo e o feminino
Uma temática bastante antiga e que tem ganho novamente importância - agora sob outra perspectiva - é a questão do Espírito Santo e o feminino. Só para recordar, "ruah" é palavra feminina em hebraico, "pneuma" é palavra neutra no grego, "spiritus", porém, é palavra masculina e dela se deriva a palavra também masculina em todas as línguas latinas.
O nó da questão não está em afirmar que o Espírito Santo seja masculino ou feminino. A tradição bíblica não atribui a Deus sexo nenhum. A questão está na linguagem humana que tenta de forma mais adequada exprimir, com suas palavras, sua experiência de Deus, e porém, também do Espírito Santo. "Na Bíblia as funções do Espírito correspondem a formas de agir mais habitualmente referidas à maternidade e à feminilidade em geral: inspirar, ajudar, apoiar, cobrir, fazer nascer. O modo de agir do Espírito descreve-se por meio de modos de agir femininos"[5].
Aqui há de se constatar que a linguagem para se falar de Deus em nossa tradição judeu-cristã é uma linguagem claramente masculinizada. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo: três nomes utilizados no gênero masculino para designar a Trindade. Quem teve uma grande influência nesta masculinização da forma de pensar Deus no Ocidente foi Santo Agostinho, que afirmou não ser a mulher imagem de Deus, mas somente o homem. Agostinho mesmo afirma, porém, que a referência a Deus deve estar desligada que qualquer caráter sexuado, pois este caráter é inferior e por isso não aplicável a Deus.
Mesmo tendo a consciência de que Deus não é pensado como um ser sexuado na tradição judeu-cristã, mas que nossa linguagem tradicional para falar de Deus e também do Espírito Santo é masculinizada talvez por força do fato de não termos uma linguagem neutra, não se pode negar que a utilização da linguagem masculina para o Espírito Santo é reflexo de uma situação social e eclesial dominada pelo sexo masculino.
A questão levantada pela teologia feminista quer chamar a atenção para esta questão. Uma utilização de uma linguagem feminina para o Espírito Santo talvez pudesse expressar mais adequadamente sua experiência e ao mesmo tempo equilibrar um pouco, em termos de gênero de linguagem, nossa forma de referirmo-nos a Deus.
A caracterização do Espírito Santo como feminino não é uma absoluta novidade no cristianismo. O escrito apócrifo "Evangelho dos Hebreus" coloca o Espírito Santo como mãe de Jesus. Esta maternidade advém sobre o Filho em seu batismo no Jordão. O Espírito como mãe repousa sobre Jesus após o batismo e proclama a sua filiação. Esta concepção desenvolveu-se sobretudo na tradição do Cristianismo sírio e armênio (séc. IV), na qual o Filho nasce da "mãe Espírito Santo" nas águas do Jordão. A Teologia do Batismo nesta tradição fala do "seio materno do Espírito Santo"[6]. Esta maternidade do Espírito Santo também é colocada na teologia armênia no que diz respeito à participação do Espírito Santo na criação. Em textos sírios antigos se pode encontrar inclusive o Espírito Santo como mãe e segunda pessoa da Trindade. Outro símbolo interessante nesta linha, é a denominação encontrada também na teologia síria, chamando o Espírito Santo de "costela do Logos". Como Eva foi criada da costela de Adão, o Espírito é formado da costela do Filho. Com isso Eva é a mãe da vida, e o Espírito Santo a mãe da nova vida.
A discussão sobre o gênero do Espírito Santo (no caso a possibilidade de chamá-lo em gênero feminino) não é, como às vezes se pode pensar, um capricho das feministas. Há por trás desta discussão toda a questão da discussão da forma como se entende tanto Deus, como a organização religiosa (no caso, eclesial). E neste ponto ainda estamos com certeza longe de um equilíbrio.
6. O Espírito Santo como ministro geral da Ordem: a ideia de Francisco de Assis
Não sabemos da autenticidade de 2 Cel 193, onde o autor coloca a seguinte frase na boca de Francisco: "Dizia: 'Diante de Deus não há acepção de pessoas, e o ministro geral da Ordem, que é o Espírito Santo, pousa do mesmo jeito sobre o pobre e o simples'. Quis pôr essas palavras na Regra, mas a bula as omitiu." Não deixa de ser uma afirmação interessante. O contexto de Celano onde ela aparece trata da questão da simplicidade: da igualdade dos irmãos, da unidade dos irmãos, da co-participação entre os irmãos ("A ciência torna muitas pessoas indóceis, impedindo que alguma coisa de rígido nelas se dobre aos ensinamentos humildes" - afirmação no nº 194 de 2 Cel).
Mesmo não sabendo da autenticidade das palavras, não deixam elas de transmitir algo do Santo de Assis: abertura radical à ação de Deus. Deus é que conduz a vida das pessoas e da instituição. Aqui parece despontar a docilidade (obediência) ao Espírito do Senhor e seu santo modo de operar. Diz dom Paulo Evaristo Arns sobre a relação entre Espírito e Instituição em Francisco de Assis: "Por temperamento e espiritualidade, São Francisco é, sem dúvida, um pneumático. Perderia sua identidade, caso fosse obrigado a entrar em formas predeterminadas, não aceitou nenhuma das regras primitivas, nem mesmo se acertou com S. Domingos, para terem uma só forma de vida. A liberdade e o cultivo da liberdade marcarão todos os gestos e palavras de São Francisco... Deixava-se guiar totalmente pelo Espírito de Deus, à imitação de seu modelo, o Divino Mestre".[7]
7. O Espírito Santo na Igreja, na liturgia e na pastoral
Há uma ligação entre Espírito Santo e fundação da Igreja. Esta ligação é de tal forma que podemos e devemos dizer que o Espírito é co-fundador da Igreja.
A Igreja se funda e vive a partir das "duas mãos" do Pai. Ela só tem razão de ser enquanto tiver Jesus Cristo e sua mensagem como referência última e ela só pode ter isto como referência última à medida que deixar-se guiar pelo Espírito, pois ninguém pode dizer "Jesus Cristo é o Senhor" a não ser no Espírito Santo.
Historicamente Igreja acentuou bastante sua ligação com o Filho. Este acento foi tão grande que se pode falar em um "Cristocentrismo eclesial". Se dizemos que o Espírito Santo é co-fundador da Igreja, será necessário que ela reflita isto em seu modo de ser, ou seja, que tenhamos uma Igreja também pneumática.
As comunidades primitivas tinham sem dúvida um maior equilíbrio entre o aspecto cristológico e pneumatológico: eram comunidades abertas sobretudo aos carismas. Carismas estes que eram diversos e proporcionavam uma pluralidade de modos de ser Igreja. Após o Vaticano II (re-)surgiram diversos modelos de Igreja, onde se tenta resgatar a importância central do Espírito Santo para a Igreja.
Para a nossa realidade latino-americana, o modelo de Igreja surgido com as CEBs pode ser identificado como um destes modelos com uma maior importância dada ao Espírito Santo. Trata-se de um modelo de Igreja onde se dá maior importância aos dos carismas / dons do Espírito Santo.
Uma Igreja que levasse a sério a sua co-fundação pelo Espírito Santo, teria de ser consequentemente uma Igreja com mais:
- Abertura
- Pluralidade - multiplicidade
- Comunidade relação
- Mais centralidade da pessoa humana: Templo do Espírito Santo - cada um é portador dos dons, cada um é agente no Espírito Santo.
Isto traria consequências para a Eclesiologia, impulsionando modelos de Igreja com:
- Maior centralidade na pessoa
- Igreja è comunidade è relação
- Igreja è abertura è administração da alteridade/diversidade
- Superação de um modelo monárquico (cristocêntrico), para um modelo sinodal (trinitário: Espírito como o "nós").
Na liturgia poder-se-ia dar um grande impulso para colocar o papel do Espírito Santo em maior destaque. Lembro apenas dois lugares onde se poderia privilegiar a função do Espírito Santo: a) Na celebração eucarística: destaque na Acolhida (o Espírito Santo como o que reúne as pessoas), na Liturgia da Palavra (o Espírito é que possibilita a compreensão), no Credo (ninguém pode dizer que Jesus Cristo é o Senhor, a não ser no Espírito Santo), na Consagração (é o Espírito Santo que possibilita a presença do Cristo eucarístico no pão e no vinho). b) Na celebração dos sacramentos: Espírito como possibilitador da presença do Sagrado.
Na Pastoral: O que fazer com os movimentos em nome do Espírito? a) Olhar a realidade destes movimentos. Não colocá-los logo em um pré-conceito. b) Detectar suas esperanças. c) Ser dócil ao Espírito (necessidade de sentir: Deus em nós). Extremos que certamente não são obras do Espírito: nem individualismo em nome do Espírito, nem comunitarismo em nome do Espírito.
8. Aspectos importantes onde a Pneumatologia poderia dar hoje sua contribuição
1º Teologia da Ecologia: Espírito que é vida. Vida presente em cada um de nós e vida que não nos pertence...
2º Teologia do Ecumenismo: movidos pelo mesmo Espírito de Deus, é possível o entendimento, a compreensão mútua, a unidade em torno do que é essencial...
3º Teologia do diálogo inter-religioso: Espírito que nos leva como identidade cristã a encontrar o outro, e mesmo na diferença, compartilhar da ação do Espírito que se dá onde e como quer.
Conclusão: “Não extingais o espírito” (1Ts 5,19)
Rm 5,5: "E a esperança não se engana, pois o amor de Deus se derramou em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado".
1Ts 5,19: "Não extingais o espírito".
V. J. Berkenbrock
[1] L. Boff, A Trindade e a Sociedade, 253.
[2] Cf. B. J. Hilberath, Pneumatologie, 181.
[3] B. J. Hilberath, Pneumatologie, 179-180.
[4] Aqui tirado de A. Câmara, O Espírito Santo, 1-2.
[5] J. Comblin, O Espírito Santo..., 59.
[6] Cf. B. J. Hilberath, Pneumatologie, 133ss.
[7] P. E. Arns et al. in: Nosso Irmão Francisco de Assis, Petrópolis, Vozes 1975, 210.
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| Última atualização em Seg, 27 de Agosto de 2012 21:53 |



