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Volney Berkenbrock
O Taoísmo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Webmaster   
Qua, 15 de Setembro de 2010 20:13

A religião do Taoísmo nos é de pouco acesso. Trata-se porém de uma das maiores tradições religiosas dentro do imenso mundo chinês. Apesar de nosso pouco acesso, há de se reconhecer duas espécies ou melhor, duas maneiras, pelas quais o Taoísmo pode ser observado. Há por um lado o Taoísmo como religiosidade popular, com seus cultos, suas ações e práticas religiosas, de piedade individual e familiar, de templos e ritos, de oferendas e sacrifícios. Por outro lado há o Taoísmo como forma de pensamento e vida a partir de uma determinada compreensão filosófica. Este é o Taoísmo como filosofia de vida, e esta forma foi elaborada sobretudo por dois grandes mestres chineses: Lao-Tse e Chuang Tzu. O primeiro deles teria vivido lá pelo século quinto antes de Cristo e o segundo pelo século quarto antes de Cristo.

Por um lado há pois uma prática religiosa popular, cheia de ações, muitas delas relacionadas ao próprio corpo, como exercícios de respiração, prática sexual, comida, exercícios de relaxamento, de combinação de cores, etc. ou então relacionadas a lugares nos quais se fazem ações religiosas. Por outro lado há uma maneira de compreender a vida, um modo de pensar: claramente uma filosofia de vida, sem se referir necessariamente a práticas de religiosidade. A ambas as formas se dá o nome de Taoísmo. Seriam ambos a mesma coisa, apenas observado por um ponto de vista diferente? Seriam duas coisas diferentes e independentes? O fato é que existem as duas coisas.

O Taoísmo como filosofia de vida teria sido desenvolvido pelos mestres Lao-Tse e Chuang Tzu. Como a palavra Lao-Tse quer dizer “velho mestre” não se sabe se de fato existiu. O que a tradição nos diz dele é que escreveu um livro, o Tao Te King. Neste livro está a base filosófica do Taoísmo. Ele é composto de 81 pequenos capítulos, com afirmações muito profundas e às vezes difíceis de serem entendidas. Este livro tornou-se muito conhecido em todo o mundo e é, depois da Bíblia, o livro mais traduzido da história da humanidade. Temos no Brasil diversas traduções dele. Nele há afirmações muito interessantes, como por exemplo: “Quem conhece os outros é inteligente; quem conhece a si mesmo é sábio. Quem vence os outros é forte; quem vence a si mesmo é poderoso”. O segundo mestre é um discípulo do primeiro e também deixou um escrito, o chamado “Livro de Chuang Tzu”. Nele estão pequenas histórias do cotidiano, muitas vezes até engraçadas, mas que deixam ensinamentos práticos para a vida.

Alguns conceitos básicos do Taoísmo talvez nos ajudem a termos uma idéia melhor do que é esta filosofia de vida.

a) O TAO. Esta palavra, que é inclusive a origem do nome da religião, quer dizer caminho, no sentido de caminho a ser seguido. No TAO se reconhece ao ordem de todo o universo. Ele é o caminho individual, mas também o caminho para o todo. Para os taoístas, o caminho a ser descoberto e seguido é o caminho da simplicidade. A ordem do universo é a simplicidade. Quanto mais complexa for a organização das coisas, menor chance tem ela de dar certo. As coisas têm um caminho natural, e este é que deve ser descoberto e seguido. O ser humano não deve pois fazer o caminho, construir o seu caminho. Deve sim descobrir e seguir o caminho que lhe é natural. Este conceito teria sido elaborado quando a sociedade chinesa estava em decadência. E aí os mestres do Taoísmo fazem a proposta da volta à simplicidade.

b) O wu-wei. Esta expressão quer dizer “não fazer” ou a “não ação”. O wu wei não é a mera inatividade, mas sim a ação perfeita. É a ação feita em perfeita harmonia com o todo, em perfeita harmonia com a natureza, em perfeita harmonia com a pessoa e sua situação. É totalmente livre, porque nela não há nenhuma força ou violência. O Taoísmo crê que existe uma maneira natural de ser e de agir. Esta maneira de agir é tão harmônica e tão equilibrada, que ela não irá se chocar com nada. Ela é simples e natural. É como a água de um rio: quando ela encontra o seu caminho natural, ela corre em harmonia. Assim também o ser humano deve descobrir sempre o seu caminho natural. Com isso ele irá agir sem qualquer violência, mas irá sempre alcançar o objetivo de sua ação.

c) O Yin e Yang. Outros dois conceitos muito importantes do Taoísmo são os conceitos yin e yang. Estes dois conceitos surgiram há muitos séculos antes de Cristo e foram acolhidos e trabalhados pelo Taoísmo. A idéia é que todo o universo existe na tensão entre dois pólos, ou duas forças: o polo yin e o polo yang. Eles são a polaridade a partir da qual surgiu o universo, na base de todas as coisas está esta polaridade. Elas são, por exemplo, as forças do feminino (yin) e do masculino (yang). Todos os elementos da natureza podem ser classificados como yin ou yang. Originalmente yin e yang designavam o lado sombreado e o lado ensolarado de uma montanha. Assim, fundamentado nesta teoria, tudo o que está ligado à terra é feminino e do âmbito de yin. Tudo o que está ligado ao céu é de yang e é masculino, pois o céu e a terra, o sol e a lua têm sua origem de yin e yang. Yang é a força de iniciar, de dar começo, algo dinâmico, que se expande, é redondo, se movimenta, é masculino e fecundante. As associações elementares com yin, por outro lado, são: algo que se completa, estático, conservador, includente, quadrado, tranqüilo, feminino, que dá à luz. A idéia destes dois princípios foi estendida a outros âmbitos, vindo a designar aspectos complementares em grupos sociais e a complementariedade sexual. Por trás dos conceitos de yin e yang está tanto a idéia de forças contrárias, como também a idéia da complementariedade, da interdependência, da confluência. Tudo o que existe, está ligado a estes dois princípios.

Para os taoístas, o ser humano deve pois descobrir seu caminho (TAO), agir de maneira perfeita e natural (wu-wei), percebendo que nele há forças que são contraditórias e complementares (yin e yang).

Prof. Volney J. Berkenbrock